Os Altruístas e a incrível arte da hipocrisia

 

Foto: Jéssica Barbosa

 

Gritamos aos sete ventos que queremos mudança enquanto sentamos confortavelmente em nossas poltronas reclináveis, lutamos contra a injustiça e a pobreza e ignoramos o transeunte descalço e faminto que passa em frente às nossas casas. Culpamos eles: como não enxergam? Como dormem à noite? Como eles conseguem? Não são eles, somos nós. Nós que gritamos tanto com palavras vazias e que do alto de nossa sabedoria artística tentamos ensinar como o mundo deve girar pra quem já cansou de ser girado pelo mundo.

Caí de paraquedas nos dois últimos ensaios de Os Altruístas, com base no texto de Nicky Silver ao qual tenho muito apego. Não foi a primeira oportunidade que tive de ver aqueles jovens atores (como eu) em cena e, portanto, me autorizo a dizer que me senti satisfeita. Satisfeita no sentido de que não foi o espetáculo com a aura benjaminiana com o qual todos sonhamos, mas um espetáculo feito com esforço, carinho e ranço; todas essas coisas que nos são indispensáveis no processo de criação no meio universitário e sem apoio no qual estamos.

Foi irônico: éramos quatro pessoas sentadas nas cadeiras de couro da sala Alziro de Azevedo pensando em detalhes que ainda poderiam ser mudados de última hora, tentando trazer uma visão de fora para o elenco. Mais tarde éramos mais de sessenta pessoas assistindo um espetáculo cuja graça era a hipocrisia dos personagens que tinham um discurso e agiam de forma oposta e me dou conta de que fizemos o mesmo. “Para e pensa na bobagem que você tá falando.”, eu realmente parei e pensei. Por que só as duas personagens mulheres ouviram essa piada? Deixamos passar o óbvio e nos tornamos a própria graça, acho eu.

 

Foto: Jéssica Barbosa

 

Leio o espetáculo como uma crítica a nós mesmos, que fazemos tantas peças tentando mostrar para o outro aquilo que nem percebemos também fazer. A nossa piscina tá cheia de ratos e faz tempo. E é claro que a gente vai continuar lutando contra esse grande Outro que nos ataca a toda oportunidade, vamos continuar abraçando os nossos e sobrevivendo é o que sempre fizemos mas podemos nos questionar sobre como fazemos, por que fazemos e pra quem fazemos tudo isso.

É de fato um espetáculo dolorido, que nos faz gargalhar da própria ferida. Fala do que somos por essência, seres tragicômicos que por vezes não tem noção nenhuma da própria realidade. Fazemos o bem, mas depende, e isso não é o bastante mas já é mais do que nada. Sempre dá tempo de mudar, ou esperamos que dê. E no fim? Vai que tem alguém interessante pra nos acompanhar.