Os Mamutes: Riso com Residual Amargo

 

Escrever sobre uma peça teatral cômica é uma experiência totalmente nova para uma estudante de literatura acostumada a investir em temas que, aparentemente, são extremamente opostos ao riso, como o Gótico, a tragédia, a estética noir e intimista, que tratam principalmente das angústias da existência. Digo aparentemente porque, mesmo que haja um contraste, estes elementos podem convergir, como no caso da peça sobre a qual me proponho a escrever aqui. Os Mamutes, dirigida coletivamente pelos atores a partir da dramaturgia de Jô Bilac, traz uma profusão de elementos que à primeira vista evocam a graça da comédia. O colorido da iluminação, dos figurinos e da maquiagem excessiva das personagens, sendo que algumas caracterizações remetem ao universo infantil, as performances de música e dança, incluindo Queen e paródia da Xuxa no repertório, além das frases de humor e da troça de figuras da nossa política e sociedade, conferem uma abordagem mais leve a temas densos: a violência, o consumo exacerbado e a manipulação midiática. É em meio ao riso que me deparo com algumas dores que o Brasil enfrenta. Dizem que rir é um ato político, na Sala Qorpo Santo, o riso é nervoso.

 

Ao longo da peça é apresentada a jornada de Leon, novo funcionário da Mamute’s Food, que tem a incumbência de matar mamutes para a fabricação de hambúrgueres. O jovem enfrenta um conflito interno, pois seus valores são contrários à tarefa imposta. Entre os diversos personagens que cruzam seu caminho, ele encontra o amor – um momento de quebra na atmosfera cômica da peça, sensível e melancólico – mas esta personagem especial acredita que seu destino trágico já está traçado (e até o busca), o que se confirma pela truculência decorrente de interesses econômicos.

 

O cenário me prega uma peça ao adentrar a sala de teatro: a disposição das cores dos pallets aludem à bandeira da França, o que gera a expectativa de encontrar elementos em referência à cultura francesa. Ao contrário do que este cenário sugere, a peça é abundante em elementos estadunidenses para além da informação já dada de que a história é contada em torno de uma multinacional do ramo de fast food – e ao não encontrar nenhum elemento francês, descubro-me traída pela memória: as cores azul, branca e vermelha também aparecem em bandeiras de outras nações, como Reino Unido e Estados Unidos, organizadas de outra maneira que não a do cenário. Numerosas expressões em inglês são incorporadas às falas dos empresários, caracterizando a empresa como uma multinacional (e também lembrando que o meio corporativo emprega muitos termos anglófonos, dada a internacionalização deste idioma). A personagem Isadora, uma garota perversa que nos conta a história da Mamute’s Food, veste o figurino de Alice, personagem do britânico Lewis Carroll mais conhecida pela versão cinematográfica dos Estados Unidos, a da Disney.

 

A figura de uma celebridade na publicidade da empresa, para atrair o público infantil, reconstitui o poder da televisão no século XX e das muitas mídias na contemporaneidade, com o apelo comercial que atravessa o entretenimento. Mas afinal, por que o grande negócio é abater carne de mamute? O que há de especial neste hambúrguer? Hambúrgueres de mamutes são feitos de carne humana, sendo chamadas mamutes as pessoas consideradas sem valor na sociedade ficcional. Se a rede de fast food mata mamutes, isto não causa nenhuma revolta na população, que consome o produto da empresa movida pelo desejo, sem nenhuma crítica.

 

Não bastando a verossimilhança em relação aos hábitos de consumo, que envolve a indiferença a certos processos de produção e a influência dos Estados Unidos sobre o Brasil desde meados do século passado, a peça me provoca um outro incômodo. Quem seriam os mamutes, se esta empresa existisse na realidade? No âmbito social, posso citar as minorias, os transgressores, os ativistas sociais, todos que representam alguma perturbação e falta de controle para a hegemonia de empresários e autoridades. No âmbito existencial, quantas vezes nos sentimos inadequados por um detalhe mínimo da aparência, da personalidade, ou de condições em que nos encontramos em contextos específicos; quantos de nós sofrem um sentimento crônico dessa inadequação. E, pensando naqueles que se encontram reclusos, ineptos para a circulação social e sob controle dos aparelhos de poder político ou policial, seriam eles os mamutes? Uma grande parte da população brasileira que defende o armamento da população, utilizando a própria crise na segurança pública como justificativa, indica que sim, e que, hipnotizada por novos ídolos midiáticos, mitos – tomo emprestada a metáfora da peça – esta parte da população agora se encontra faminta por carne de mamute.

 

 

Frame do Teaser. Disponível em: < https://www.youtube.com/watch?v=MoAa0wOEZWE >.

 

 

 

Ficha técnica:

Texto: Jô Bilac
Criação e Direção: o grupo
Elenco: Cass Dutra, Gabriel Brochier, Henrique Strieder, João Pedro da Cunha, Lauro Fagundes, Mariana Fernandes, Marina Greve, Maurício Schneider
Cenário, Figurino, Iluminação, Maquiagem e Trilha Sonora: o grupo
Originado na Disciplina de Dramaturgia do Encenador
Orientação: Inês Marocco