Os preciosos estilhaços de um CORPO QUEBRADO

 

Quando comecei a assistir e fazer teatro, sentia um poder enorme sobre o potencial do teatro amador de ser mais que um momento, uma peça, existia ali uma vontade coletiva e uma felicidade, a qual com o decorrer dos tempos, aprendendo e me entranhando mais nas veias do teatro, sentia que ia se perdendo essa alegria, virando algo mecânico e cheio de signos precisos para atingir precisos pontos. O teatro profissional perdia uma das coisas mais primorosas do teatro; o “amador”, no sentido primordial da palavra, daquele que ama o que faz e, com isso, parece ter havido um tratado mundial secreto ao qual não se fala e não se pensa sobre, que para ser profissional, precisa deixar de ser amador, “aquele que ama o que faz”. Mas, sentado naquela sala pequena, sentado no chão, com 4 atores, quatro cadeiras e uma mesa enorme, me arrependi docemente de ter tido aquela impressão de perda do “amadorismo”, pois o que vi naquela sala resgata todo aquele frescor maravilhoso de um teatro feito com amor, mas não só disso, como também de vísceras, de discursos, de potência, de impacto, um impacto que me faz sentir vivo.

A peça “O Corpo Quebrado ou Tudo aquilo que não se deve mencionar”, com direção de Thiago Silva, com o elenco de Leonardo Steffanelo, Philipe Coutinho, Luiz Manoel e Jardel Rocha e luz de Roger Santos, foi apresentada no programa MOSTRA DAD, que consiste na apresentação do trabalho final de montagem dos alunos do curso de Teatro pela UFRGS, ao qual foi apresentado nos dias 5, 6 e 7 de novembro de 2018.

 

Foto: Pedro Martins Spieker

 

Quatro atores, vendados, com suas belas batas estilizadas, de pé na cadeira, com um dos pés sobre a mesa, e a partir desse ponto se inicia um desenrolar de relatos pessoais, ou não, ainda não tenho certeza, mas não me parece importante saber disso pela tamanha propriedade que o texto é proferido pelas suas bocas. E com esse “Corpo Quebrado”, o corpo, a luz, a movimentação, a encenação, coreografias se fazem presentes. Quatro atores Viados, falando sobre Viados, sendo dirigido por um diretor Viado. Sim, isso mesmo, V-I-A-D-O-S, porque é sobre isso que se trata, sobre ser Viado, sobre ser agredido, sobre ser espancado, sobre ser ofendido, sobre ser Viado, e mesmo com isso, a impressão que fica é “Essa é a minha história, eu compartilho com você, mas se quiser aceitar, respeitar, ouvir, falar, isso é com você, eu sigo sobrevivendo, sigo resistindo”. Temos até o prazer de ver uma cena do filme Bambi projetada, mas palavras pesam, na alma… A peça prega peças, nos manipula, faz um belo discurso para depois jogar em nossa cara o real sentido.

 

A vida não é melhor quando a gente pode beijar, abraçar, andar por ai com quem a gente gosta? É ou não é? A vida não é melhor quando a gente pode sacudir, rebolar, rodopiar? É ou não é.…? Isso muitas vezes é irreal em algumas vidas, em alguns corpos, os nossos corpos…” (trecho do texto)

 

Ao contrário do senso comum em produções com discursos desse peso, a peça não fala apenas sobre dor, morte, sangue, mas também sobre vida, alegrias, gozos, e essa dinâmica faz com que o discurso se torne tão interessante. É uma situação de tragédia, mas isso não necessariamente deve ser feito e falado como tragédia, os opostos são mais deliciosos e reveladores, e a peça sabe dosar seus ingredientes muito bem, fazendo o espetáculo não perder força ou ficar enjoativo graças à excelente direção de Thiago Salva, pois sabe como trabalhar com o ritmos e momentos para as cenas se realizarem, com excelentes costuras, trocando de assuntos e momentos e nem nos damos conta de que momento fomos levados para outros momentos.

Atuações redondas, bem exploradas, e mesmo com a intenção, que nos chega, de não ser a criação de personagens clássicos, mas sim personas, isso se dá com profundidade, sendo únicas, diferenciadas umas das outras, não é um coro de Viados, mas sim Viados que formam um coro numa voz. E aqui gostaria de parabenizar os atores, pois foi grande parte o trabalho deles essa minha surpresa de “amadorismo”, de amor, pois nos dias atuais, é difícil ver atores tão inteiros, tão entregues ao trabalho, dando o seu máximo.

Mas, como nem só de flores o mundo se faz dia, existe sim algumas ressalvas nesse mar de preciosidades. A sala acaba por ter uma péssima acústica, e algumas músicas tiveram problemas técnicos, onde pareciam acabar no momento “errado”, bem entre aspas, pois não se assumia o erro e assim o erro era perceptível, aquela “opa” básico em uma apresentação. Mas isso é praticamente sem importância, pois são detalhes mínimos, ainda mais porque eu estava tão extasiado de poder entender o que os atores estavam falando depois de assistir muitas peças nesse ano.

Corpo Quebrado” é uma peça necessária de ser assistia, apreciada, um trabalho bem feito e feito com propriedade e amor, e a única coisa que penso neste memento é “quero ser eles quando crescer”.

 

Foto: Pedro Martins Spieker