QUEM VOCÊ GOSTARIA DE SER? um pouco sobre icebergs, princesas e protagonismos

 

Hamlet, Roberto Zucco, Harry Potter, Hércules, Frodo, Batman, Roland Deschain, Gandalf, Percy Jackson, Don Corleone, Tony Montana, Peter Pan, Rambo ou Alice, Ofélia, Hermione, Claire Beauchamp, Medusa, Wendy, Miranda, Rey, Ripley, Frida, Lisbeth Salander, Katniss, Rose, Merida, Elizabeth Bennet?

 

Quando Titanic foi lançado em 1997, o amor de Jack e Rose foi alvo de muitas das brincadeiras de faz-de-conta na minha rua. Mesmo sendo crianças, todas as minhas vizinhas mais velhas adoravam interpretar a belíssima Kate Winslet. Era comum dar briga. A brincadeira consistia em retratar cenas do filme, as que todos julgávamos mais emocionantes. Tinha a cena do beijo na proa do navio, a cena dos dois humilhados em cima da porta tentando sobreviver, a cena do iceberg batendo no Titanic, a cena do desenho, a cena do alvoroço geral da tripulação tentando sobreviver e falhando miseravelmente, a cena da mão da moça deslizando pelo vidro embaçado enquanto perdia a virgindade (essa cena ninguém sabia direito que era sobre o casal copulando, mas mesmo assim era uma das escolhidas, sabe-se lá por quê) e a cena dos músicos tocando enquanto esperavam o navio afundar

A gente revezava o mais democraticamente possível as personagens. Lembro que tinha a Rose, o Jack, os músicos, o capitão, o noivo estouradinho da Rose e até o Iceberg (esse quase ninguém queria fazer)

Adepta da classificação etária dos filmes, a senhora minha mãe não deixou eu assistir ao longa-metragem na época, então eu apenas conhecia o filme pela capa das duas VHS (parte I e parte II) que via quando passava pela sessão de DRAMA na locadora e pela versão que minhas vizinhas contavam (algo parecido com um casal que se beijava romanticamente em vários lugares de um navio e que depois terminava com um deles morrendo congelado)

Eu só fui assistir realmente ao Titanic quando já era uma pré-adolescente e me recordo de que achei muito estranho comparar com a versão das minhas ex-vizinhas

Nas brincadeiras todas queriam ser a Rose e por isso ela parecia ser a personagem mais fodástica do mundo. Ela era rica, destemida, modelo de pinturas, nadadora, dançarina de polca e ela tinha o foco sempre. Soava como uma heroína total, afinal a bendita conseguiu sobreviver a um navio gigante afundando no meio do atlântico, oras

É óbvio que Rose é protagonista da história, mas quando assisti esperava vê-la destruindo geral e garantindo a própria sobrevivência

Enquanto chorava copiosamente (e se alguém diz que não chorou com o final de Titanic essa pessoa com certeza está mentindo) comecei a pensar sobre uma fala dela quando termina de contar a sua história de amor interrompida

…o coração de uma mulher é um oceano de segredos, mas agora sabem, que existiu um Jack Dawson, e que ele me salvou, de todas as formas que uma pessoa pode ser salva…”

Triste. Bonito. Trágico também.

Se eu fiquei apaixonadíssima pela história de amor dos dois? Sim. Se eu tinha vontade de sair por aí navegando em navios aleatórios com a esperança de achar um boy ao estilo DiCaprio? Com certeza. Mas, convenhamos

eu não queria ser salva!

Me parecia muito mais interessante ter alguém contando apaixonadamente sobre como eu fui maravilhosa o suficiente para marcar a vida dessa pessoa salvando ela de inúmeros perigos, do que sofrer a vida inteira por alguém assim (além disso, o Jack desenhava pra caralho. Basicamente, ele era todo perfeito e sabia fazer tudo)

EU queria salvar, EU queria ser incrível e enfrentar perigos diversos. Ok, talvez eu tivesse uma morte horrível no final, mas mesmo assim eu faria uma mulher se apaixonar e sofrer de amor por mim por fucking 84 anos

Por mais que a personagem da Kate Winslet seja legal, subversiva e tudo o mais, no fundo tem um pouco a ver com aquelas histórias de princesa que gostam de contar para as crianças

Todo mundo sabe a quais histórias estou me referindo:

Uma bela e frágil princesa é raptada por um vilão 100% maldade que prende ela em alguma torre longínqua, a mocinha sofre enquanto espera o príncipe encantado enfrentar diversos perigos para resgatá-la, o formoso cavaleiro salva a princesa, coitada, e ela fica eternamente grata a ele, tão grata ao ponto de se apaixonar à primeira vista e casar-se com ele logo em seguida, os dois vivem felizes para sempre, etc, etc, etc

Cafonice pura.

Se esse conto-de-fadas acontecesse hoje, o príncipe usaria camisa polo e sapatênis, voltaria tarde para casa porque ficou “tomando umas e outras com os amigos”, arrotaria e peidaria em alto e bom som. Além disso, ele iria se vangloriar para todo mundo, contando como ele foi corajoso em salvar ela e tentaria convencê-la a ter um relacionamento aberto – no qual eles só poderiam ficar com mulheres, of course

Duvido muito que alguma mulher gostaria de ficar trancafiada numa torre por anos confiando que algum cara aleatório está vindo sabe-se lá de onde para salvá-la

Acontece que contos desse tipo se tornaram clássicos pelo simples motivo de a sociedade adorar retratar as mulheres como vítimas, isso é quase fetichista

Até porque muitos querem que a gente continue pensando assim. O motivo? É muito mais seguro, obviamente, ou vocês acham que os homens que queimaram as bruxas de Salem não morriam de medo delas?

Mas acontece que o teatro é um instrumento político. Ele reflete a vida, o momento em que estamos, o que pensamos. Existe há milhares de anos, continua existindo e vai continuar também e ele se mantém firme ao ponto de causar diversos acidentes quando tentam derrubá-lo

Tipo um iceberg

É vanguardista por característica própria, se reinventa de acordo com as revoluções que queremos fazer no mundo e por isso, evidentemente, combate tudo o que é cafona

Assisti Não Especificadx duas vezes. A primeira, quando estreou no final de 2018 como estágio de atuação da Alessandra Bier. A segunda, quando participou do TPE em 2019. Nas duas ocasiões uma frase dita pela Ale me marcou profundamente:

Eu sempre quis ser Hamlet”

 

 

Em meio às diversas cenas, que evoluíram em qualidade significativamente de uma vez para outra, e à crítica pontual que a peça traz sobre a questão do gênero e os preconceitos estabelecidos, uma peça declaradamente feminista mas mais do que isso PRATICAMENTE feminista também, comecei a lembrar das brincadeiras que fazíamos com o filme de James Cameron

Eu também queria interpretar Hamlet. Acho que qualquer ator ou atriz adoraria atuar como o príncipe da Dinamarca em algum momento da sua vida, nem que seja na solidão da sala de ensaio

Acontece que, enquanto eu ouvia o monólogo doído e meio auto-biográfico, mistura de Shakespeare-Atriz, pensei comigo “ela seria um ótimo Hamlet” e ao mesmo tempo “que merda, entendo perfeitamente porque ela está dizendo isso”

Por que ela estava dizendo isso? Porque Hamlet é uma personagem masculina. Essa fala poderia ser facilmente substituída por

“Eu sempre quis ser Jack Dawson”

Durante muito tempo pensaram os protagonistas para serem masculinos. Minto, existem várias protagonistas mulheres, mas estas ou são retratadas como frágeis ou estão dentro daquela categoria da Netflix

“Séries Sobre Mulheres Fortes”

Para ilustrar um pouco melhor meu ponto; as plataformas de Streaming precisam criar um sub-gênero com esse nome para que possamos desassociá-lo do resto. No caso o resto seria

“Séries Sobre Mulheres Fracas”?

Frequentemente vemos uma preocupação mercadológica em citar o feminismo. Temos frases feministas em camisetas da Renner, propagandas com “corpos diversos” alegando pluralidade, homens que abrem as portas dos carros esperando parecerem “cavalheiros e conscientes”, caras que falam no feminino alegando serem combatentes do machismo,

criaram “PORNOGRAFIA FEMINISTA”, pelos céus.

Se eu sou um cara de barba, uso uma saia e pinto as unhas, chamo meus brothers de “miga” e fico palestrando sobre a minha consciência de classe e gênero isso me torna feminista?

Obviamente, não.

Só porque citamos uma causa não significa que estamos lutando por ela. Eu poderia, sei lá, escrever uma tese inteira intitulada O PODER DAS MULHERES e equivocadamente explicar que o poder das mulheres é lavar a louça muito bem

Continuando, a peça foi bastante divertida de assistir. Acho muito bom quando uma crítica é feita através do humor. Ainda que tivessem momentos bem sérios, como o do monólogo que citei antes, o espetáculo parecia se desenrolar entre várias esquetes, todas dentro do mesmo tema, problematizando a forma como a sociedade vê as mulheres, o papel delas na sociedade, a terminologia machista das palavras, a agressão diária que sofremos nas ruas e o sofrimento intrínseco que nos acompanha apenas por sermos desse gênero,

o feminino

As vezes eu sentia que estava em um bar, conversando com amigos. Outras, sentia aquela velha sensação de repulsa quando os apenas dois atores, Alessandra e Ivan Nunes, com os gêneros invertidos apresentavam seus números ácidos

Acho que foi importante que a diretora da peça, Manu Goulart, tenha construído em conjunto com os atores a dramaturgia. Não que eu pense que não podemos citar causas importantes sem sermos os protagonistas das mesmas (inclusive devemos) mas porque existe uma diferença tremenda entre citar e protagonizar. Todos falamos com a boca que temos, sim, mas não podemos falar de algo que não conhecemos, tendo o exemplo do feminismo nesse caso

Mais do que isso, a diretora utilizou a vivência dos atores, suas questões e problemáticas, para compôr um espetáculo empático e humorístico

Me sensibilizo com o papel que o Ivan teve nesse trabalho, e em como ele aparece na construção performática da peça, já que o protagonismo estava com a Alessandra quase o tempo todo. O protagonismo era da atriz e ela não foi salva em nenhum momento, bem pelo contrário

Ser uma atriz forte, ser uma mulher forte. Como fazer isso? No fim das contas, o que é essa “força” que tantas pessoas citam? O que nós mulheres precisamos fazer para sermos consideradas fortes? Salvar príncipes enclausurados? Deixar-se congelar em naufrágios ?

Se a própria concepção de força é criada em cima de uma ideia estereotipada do “homem forte”; aquele que corre em direção ao perigo e que nada teme, é incoerente tentar alcançar esse conceito machista para ter o título de “mulher forte”

Porque a própria coragem não significa a ausência do medo, e com certeza os mais corajosos são aqueles que conhecem os obstáculos e fatalidades do seu destino e mesmo assim o enfrentam. Enfrentar algo requer ter medo, caso o contrário não estaríamos enfrentando nada, não é?

E enfrentar também não significa destruir e reduzir o inimigo a tripas. Recusar-se a sucumbir a um sistema doente, permitir-se ser a personagem que quiser, fazer teatro, tudo isso faz parte de uma batalha muito maior

Nos falta reconhecer as batalhas diárias que mulheres cis e trans enfrentam apenas por pisar nas ruas. Admirar a coragem dessas mulheres, que tiram forças da própria existência para lutar contra homens que desejam queimar as bruxas de hoje

Como na peça, carecemos de nos questionar por que homens e mulheres são tratados de forma diferente. Por que a roupa que usamos é interpretada como um convite para passarem a mão na gente? Por que a opinião do meu colega com menos informação que eu é mais ouvida do que a minha? Por que abortar é errado e abandonar a paternidade não? Por que somos chamadas de vagabundas se usamos roupas curtas se as mídias expõe mulheres seminuas para o prazer dos homens?

 

 

Em Não Especificadx, devido à troca de gênero constante dos performers, somos apresentados à forma patética de ser que o mundo ensaia para as mulheres, tentando banalizar sua existência própria e acoplá-la à masculina. Tentam nos representar como frágeis e loucas, devemos depender dos homens e estes devem se apropriar de nós

dos nossos corpos, das nossas vidas

Querem nos fazer vítimas para que possam ser vistos como heróis. Heróis ovacionados por levar a tocha à pira depois de nos libertar da prisão que construíram ao nosso redor… Mas eles se enganam se pensam que nos renderemos a essa masculinidade frágil carente de louros colocados por si mesmos

Não Especificadx é um lembrete dessa necessidade de releitura que os clássicos têm. Seja Hamlet, Titanic ou qualquer outra obra que venda essas imagens utópicas de heróis. E é importante lembrar que essa releitura começa pela apropriação do protagonismo feminino, que não é uma cópia do masculino, mas originalmente nosso

Que sejamos livres, Roses que salvam a si mesmas, fortes por correr em direção aos nossos medos e enfrentá-los, que sejamos as bruxas que tanto temem

Porque no fim das contas todo mundo sabe que a verdadeira heroína de Harry Potter foi a Hermione, não é?

 

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FICHA TÉCNICA:

Ator: Alessandra Bier

Atriz: Ivan Nunes

DiretorAAA e sonoplastA: Manu Goulart

Dramaturgia: A grupa

Iluminada: Ariel Medeiros