REVOLUÇÃO PARA QUEM?

 

 

Enquanto o mundo desaba lá fora, nós fazemos teatro.

 

É através desse quadro irônico que o autor chileno Guillermo Calderón nos apresenta a peça Neva.

Contextualizada no início do século XX, enquanto a Rússia está à beira de uma revolução sangrenta com as ruas em polvorosa, dentro de uma sala de ensaio anormalmente vazia três atores aguardam a chegada do resto do grupo. Entre eles está Olga Knipper, uma diva do Teatro de Arte de Moscou que percebe-se numa crise artística após a morte recente de seu amado esposo, o dramaturgo Anton Tchekhov.

A síntese da peça pode sugerir um clima melancólico quando pensamos na Rússia de 1905, o que de certa forma se concretiza com a entrada do público ao som de Polyushko Pole –  canção emblemática da Guerra Civil Russa – entretanto, a melancolia rapidamente se esvai à medida que Olga Knipper (interpretada por Natasha Villar), embaralha-se no seu monólogo de “O Jardim das Cerejeiras”, fazendo-nos questionarmos: onde está a austeridade da guerra?  

Um impulso já sugere: trata-se de Metateatro – termo referente à problematização e retrato do teatro dentro de uma peça teatral. No caso de Neva, isso fica mais nítido no momento em que as outras personagens, Masha (Marina Fervenza) e Aleko (Phillipe Coutinho), são apresentadas ao público. Enquanto esperam os outros artistas (com incerteza de que isso acontecerá), os atores brincam de cenas improvisadas acerca da morte de Tchekhov e, em meio às cenas que surgem, aos poucos vão revelando suas particularidades bem como o que acreditam ser uma atuação potente.

A direção de Silvana Rodrigues trabalha com rupturas. Ainda que tenha optado por uma encenação tendo como base uma atmosfera realista, com figurinos e cenário sóbrios e cotidianos para a situação, nos momentos em que as cenas improvisadas pelas personagens acontecem há uma mudança na qualidade do espaço, seja através da iluminação que varia entre âmbar e azul, seja pela corporeidade dos atores ou ainda pelo direcionamento do texto ao público. No decorrer da peça essas mudanças começam a ficar cada vez mais sutis, sugerindo uma confusão das próprias personagens sobre o que é real e o que é de fato teatro. Tal confusão surge também no próprio público que, apresentado a inúmeras cenas, perde-se na fantasia de Calderón.

No quesito atuação, na transição constante entre bastidor e cena, o elenco vale-se de diferentes artifícios cênicos para construir o que se propõe a contar: as vezes, dançam; outras vezes, cantam; e em alguns momentos precisos, simplesmente nos contam a sua história rompendo a quarta parede, oferecendo a dramaturgia do autor crua e incisiva, com toda a potência de suas palavras. Há uma diferença significativa entre as atuações, tanto no corpo e voz quanto no virtuosismo, como se cada um tivesse um estilo/linguagem próprio.   

O trio de atores (no caso, as personagens)  parece retratar diferentes estados de consciência acerca da guerra que está prestes a estourar. Olga, remetendo ao lirismo e distanciamento da realidade como em “O jardim das Cerejeiras”, parece refugiada no próprio luto, alheia a tudo que ameaça desabar ao seu redor; Aleko, um prepotente ator repleto de savoir-faire, preocupa-se unicamente com a sua atuação e sugere, mascaradamente, as exigências do povo ao czar como inúteis; e Masha, uma atriz misteriosa que ironicamente não sabe atuar, mas que questiona as atitudes dos outros dois atores, enfrentando-os sobre a sua alienação.

Essa tríade de opiniões proporciona à narrativa uma ebulição dramatúrgica que aumenta gradativamente e, finalmente, atinge a sua temperatura máxima deixando claro que a matéria do que estávamos assistindo já atingiu uma outra forma, ou seja, a peça já não existe, está modificada e portanto termina. Fim.

É na cena final, onde a discussão evolui ao ponto de Masha revelar quem verdadeiramente é, um tipo de vanguardista inconformada com tudo o que acontece no mundo e no teatro, que a crítica de Guillermo Calderón anteriormente apenas esboçada, se concretiza. Não é por acaso que quem mais no emociona é, na história, a pior atriz da companhia, ou que entre tantas cenas improvisadas pela personagem ela somente nos atinja de fato quando não está atuando com seus colegas atores e sim, sendo verdadeira e viva, despreocupada em agradar o grande público.

O mundo está ruindo e nós estamos sentados em um teatro. Masha nos lembra disso e pergunta: como isso é possível?

É comum gritarmos para aqueles que são do nosso círculo a insatisfação que sentimos mediante às injustiças que vemos nos noticiários. Mais comum ainda é nos depararmos com discursos prontos, que passamos a ouvir e reproduzir simbioticamente uns para os outros sem nunca refletir sobre o que realmente está sendo dito.

Uma fala sem significado torna-se apenas um ruído, um tipo de vazio. Acabamos compartilhando vazios e, nessa partilha, cavamos em nós mesmos um vazio ainda maior.

Estamos vivendo já há um tempo – e isso tem se intensificado com o passar dos anos – uma idolatria ao ego. Nos tornamos obcecados pela nossa própria imagem, preocupados unicamente com a visão que os outros têm da nossa pessoa. Não nos preocupamos em ser conscientes basta que sejamos vistos dessa forma. Isso também acontece nos palcos.

Em Neva somos lembrados que como indivíduos e, principalmente, como artistas, temos uma obrigação moral e política de nos posicionarmos. Que não podemos esquecer o que está lá fora (fazemos arte para quem além de nós mesmos?) e que devemos trazer toda essa urgência que é a vida para a cena. Que precisamos nos preocupar menos em parecer e mais em concretizar aquilo que dizemos acreditar. Que não podemos esquecer a função principal do teatro: atingir.

Como em um campo de batalha, enfrentar aquilo que corre na nossa direção.

E, claro, sempre com bravura, cantando a canção de nossa própria revolução.

 

 

Foto: Diego Quadros