VELHOS HÁBITOS – MEDOS VIVOS

Todos nós sonhamos, mas é dos nossos pesadelos que nunca esquecemos.

 

Quando criança, eu era louca pelo sobrenatural. Passava as tardes lendo sobre mágica e assombrações, tentando desvendar onde poderia haver um portal que eu pudesse atravessar para me conectar com outros mundos.

Tempos mais tarde, eu percebi que não era apenas o metafísico que me deslumbrava. Tudo o que era desconhecido, que não fazia parte do mundo que eu conhecia, era combustível para a minha imaginação. O espaço sideral e sua imensidão, a profundidade do oceano com seus monstros marinhos e até o próprio ato de sonhar: qualquer coisa sobre a qual não se sabia muito despertava em mim uma pulsão estranha, um frio na barriga semelhante àquele que sentimos perante uma situação de perigo.

E eu lembro de uma vez bem específica, de um momento em que, de repente, a consciência de algo supremo arrebatou meu peito, talvez a maior “epifania” que já tive. A sensação beirava acordar de um sonho que eu não sabia estar sonhando, como se, pela primeira vez, eu pudesse enxergar o mundo de verdade. Foi quando eu me deparei com o fato mais assombrosos de todos: tudo morre. Apenas lembrar dessa sensação já é o suficiente para que eu sinta um arrepio involuntário na minha espinha.

Parece bobo dar-se conta da morte porque é algo citado diariamente, mas concebê-la como uma força inevitável… Bom, isso é, no mínimo, horrível.

Posso dizer que estou morrendo um pouco agora, enquanto escrevo essas palavras, e isso é tão perturbador que preciso me concentrar em outras coisas como os capítulos que preciso terminar de escrever, na minha xícara de café acusadoramente vazia, em qualquer coisa que me conecte com o momento presente. Caso contrário, é certo que me perderia nessa viagem mórbida… e ninguém gosta de pensar sobre isso durante muito tempo.

Sinto que, no momento em que percebi a minha própria mortalidade, a realidade – ou o que acreditava sê-la – desbotou. Saber é sempre um caminho sem retorno, um marco de nossas vidas porque depois disso não temos como retornar ao nosso estado de ignorância. Quando atravessei essa fronteira tive certeza de que minha própria vida nunca mais seria a mesma, como se eu tivesse destrancado uma porta e jogado a chave fora.

Isto é curioso, não é? Pensar na finitude das coisas. Doer-se com isso.

E mesmo assim, com todas as dores e o medo, quando eu escuto (ou imagino escutar) aquele chamado misterioso vindo sabe-se lá de onde, que sussurra meu nome e me enfeitiça com a sua indecifrabilidade, parte de mim quer correr ao seu encontro.

Comecei a observar como outras pessoas lidavam com esse anzol lançado pelo desconhecido. Enquanto algumas nadavam em direção à isca (como se também procurassem algum portal para desertar da vida real), outras afastavam-se o máximo possível. Em ambos os casos, nenhuma delas conseguia tirar os olhos da coisa estranha que flutuava à sua frente.

 

Foto: Gabriel Viero.

 

O ser humano sempre foi fascinado pelo desconhecido.

Penso que podemos compará-lo com aquela voz que nos chama de dentro do armário, que nos faz esconder debaixo dos lençóis e espiar entre as frestas dos dedos. Paradoxalmente queremos e não queremos saber o que está oculto atrás das portas.

Há um interesse intrínseco pelo estranho, o que existe além do que conhecemos – além do “mundo real” e que nos acompanha como uma doença. Ansiamos por saber e essa ânsia guia a humanidade, nos influencia a desenvolver protótipos científicos, maquinários que executam funções biológicas, fórmulas que expliquem fenômenos naturais – porque obviamente não basta compreender, precisamos ser capazes de explicar o motivo de tais fenômenos- e é a morte a maior incógnita de todas.

Penso que a arte, assim como a ciência, surge dessa vontade de desvendar o estranho. Que o processo artístico deve ser semelhante a atravessar um portal para outros universos. (novamente, o arrepio)

Digo outros porque cada arte é, por si só, plural. E imagino que não exista apenas uma porta solitária com um único universo artístico atrás da mesma.

Quando C. S. Lewis descreve um campo repleto de poças d’água que levariam a uma quantidade infinita de mundos em As Crônicas de Nárnia, cada uma dessas poças, ainda que semelhantes entre si, seria um limiar para diferentes firmamentos, com características e lógica próprias.

Se pudéssemos escolher mergulhar numa que retratasse os mistérios do desconhecido, do estranho que nos chama, com certeza seria a poça do terror. Um lugar onde coexistiram o medo, o fascínio, e por consequência, a morte.

Essa poética do terror que regeria tal mundo é esboçada por nós há muito tempo. Antes mesmo do cinema ser inventado, obras literárias já especulavam o que seria parte desse fazer artístico. Diferentes autores como Mary Shelley, H.P. Lovecraft e Edgar Allen Poe, retrataram em suas narrativas a perplexidade humana perante acontecimentos que fugiam à normalidade. Fosse a ficção científica, o contato com divindades antigas e até mesmo o defrontamento com a morte; num ensaio de probabilidades, os mesmos projetavam a sensação de estar perante algo incompreensível, totalmente estranho a todos nós.

Com o advento do cinema, as possibilidades de representação desse universo foram multiplicadas exponencialmente. Surgiram diversas subcategorias que, de alguma forma, englobam esse sentimento de perplexidade. Entre os muitos diretores que flertaram com o terror está Alfred Hitchcock, um homem que se tornou referência no gênero.

 

Foto: Gabriel Viero.

 

Hitchcock balançou o emocional de muita gente com suas obras. Entre elas, uma das mais conhecidas e consagradas, o filme Psicose gravado em 1960, uma adaptação do autor Robert Bloch.

A clássica Cena do Chuveiro, em que a personagem Marion Crane (interpretada por Janet Leigh) é esfaqueada até a morte enquanto toma banho, tornou-se um ícone filmográfico. A composição cênica de Hitchcock foi magistral ao ponto de ser conhecida mundialmente.

A mão que afasta a cortina do box, a mulher gritando, o homem com o rosto sombrio segurando uma faca e até mesmo a perturbadora trilha tornaram-se parte do imaginário popular de terror. Ainda que muitos considerem Psicose um filme de suspense, analisando-o pela perspectiva do estranhamento e refletindo sobre a forma como o diretor compôs o assassinato de Marion, criando uma atmosfera de tempo dilatado e por consequência gerando uma expectativa nos espectadores, percebemos que se enquadra dentro dessa Poética do Terror, no caso, trabalhada em cima de um terror social, uma qualidade do terror muito presente na contemporaneidade, que muitas vezes foge desse metafísico predisposto ao gênero.

Ao assistir e procurar por catástrofes documentadas pelo jornalismo; quando caminhamos na rua à noite e olhamos para trás para ver se estamos sendo seguidos por alguém; nos ataques terroristas realizados por jovens que sofreram bullying em escolas e até quando optamos por assistir blockbusters como Jogos Mortais, Pânico e O Massacre da Serra Elétrica, estamos imersos numa atmosfera de terror, buscando o momento em que haverá uma ruptura da narrativa, onde iremos nos deparar com algo que não gostaríamos.

Sendo assim, considero montar uma peça inspirada em Psicose uma escolha muito inteligente por explorar esse campo do terror social e simultaneamente bastante ousada, desafiadora.

O teatro é feito de vida e, portanto, também é feito de morte. Seria possível gerar um arrebatamento no nível terrorístico proposto por Hitchcock?

Quero pontuar a iniciativa bárbara de tentar montar uma peça de terror. Primeiro porque é comum pensar que o terror necessita de artifícios audiovisuais. Quando pensamos em criar essa atmosfera mencionada – e o terror se vale principalmente de criar uma ambientação propícia para que haja estranhamento, a ruptura de narrativa ou ainda uma lacuna surpreendente de possibilidades à frente do que estamos vivenciando – pensamos que é necessário usufruir de efeitos que fogem da organicidade. Sendo o teatro a arte mais orgânica e efêmera de tantas outras é lógico imaginar que a ultraorganicidade do material cênico (no caso, os atores) torne difícil essa construção voltada ao medo.

Ao adentrar o espaço de acontecimento que o teatro prepara, nos encontramos como espectadores mergulhados nessa narrativa imposta pela peça. Estamos simultaneamente imersos e atentos ao que está acontecendo. De certa forma vivenciamos o que é proposto pelo diretor. E é importante pensar em tudo o que compõe esse universo efêmero, onde a peça acontece, como assistimos ao acontecimento teatral e a maneira com a qual este nos chama.

No dia em que assisti a Velhos Hábitos, estágio de direção de Thiago Silva e de atuação de Frederico Vittola, era um dia de pré-verão. Antes de adentrar no espaço cênico, uma sala totalmente preta e fechada do Departamento de Arte Dramática, já nos encontrávamos num ambiente claustrofóbico de corredor, com o calor pingando nossas testas. Nesse momento o incômodo já começava a rondar os espectadores. A claustrofobia diluída numa preparação que antepunha o que vivenciaríamos dentro da sala ajudou a preparar o público que ouvia uma canção aparentemente sacra num misto de curiosidade e desconforto. Isso me fez pensar sobre a importância da preparação que antecede uma obra, em como os espectadores precisam estar concentrados e conscientes para aproveitar a mesma.

Após a tensão inicial, as portas da sala abriram e entramos no universo criado pelo grupo. Para minha feliz surpresa, um tipo de lugar antigo, com móveis velhos e luz tremeluzente de abajures, fazendo referência ao Hotel da família Bates.

Outro fator muito importante para o terror (e talvez uma das principais diferenciações entre ele e o horror) é a construção da história. Em Velhos Hábitos, fomos apresentados a uma personagem enigmática interpretada por Frederico Vittola, o conhecido Norman Bates, que contava causos sobre a relação que tinha com a sua mãe, brilhantemente interpretada por Arlete Cunha (ao ponto de eu pensar que o papel havia sido feito para ela!). A narrativa se desdobrou a partir do encontro de Norman com uma mulher indigente que encontrou na rua.

Em meio aos recortes temporais, alternando entre o pós-acontecimento que culminou numa espécie de prisão do protagonista e os momentos estranhos de convivência que o homem teve com as outras duas mulheres, o público tornava-se cúmplice da psicopatia de Norman.

A iluminação e a trilha foram elementos fundamentais da obra, repletos de uma precisão e progressão totalmente orgânica, deixando evidente que dramaturgia é muito mais do que apenas um texto escrito: trata-se de escolhas precisas por parte do diretor para implementar a história como um acontecimento vivo, teatral em sua essência. Parecia que eu estava assistindo a um filme vivo, ao vivo e interdimensional.

A escuridão propositada também foi um fator importantíssimo para gerar o estranhamento. Interpreto que a escolha de deixar a figura da mãe presente em momentos em que não estava fisicamente foi responsável por sobrepôr memória e alucinação, fazendo com que compreendêssemos um pouco mais da loucura do protagonista.

Alguns momentos específicos marcaram a experiência de assistir a Velhos Hábitos.

O primeiro foi uma partitura realizada pela atriz Bruna Johann. Emoldurada numa luz vermelha, a personagem deslocava-se pelo espaço em contorções totalmente estranhas que me remeteram um pouco à figura da Samara, de O Chamado. Havia apenas a luz, o chão e atriz. Parece pouco mas mesmo assim a atriz conseguiu desestabilizar quem assistia com uma performance totalmente verdadeira, como se estivéssemos assistindo a uma possessão demoníaca.

O segundo, que tentarei descrever numa tentativa de não dar spoilers, é o clímax da relação entre o filho perturbado e a mãe louca, onde encaixamos as peças necessárias para compreender a narrativa.

Como fã de Alfred Hitchcock, posso dizer que fui tomada pelo prazer ao presenciar uma adaptação teatral potente e inovadora. Tenho certeza de que outros espectadores apreciadores da obra também saíram bastante satisfeitos.

Ainda que aproxime a experiência do suspense, principalmente porque o terror, o suspense e o horror compartilham uma simbiose, é inegável o flerte profundo que a equipe teve com esse gênero do estranhamento. Ao término da peça, aquele gostoso friozinho na barriga estava lá, produzindo altas viagens sobre a morte e a loucura.

Por mais que tentamos escapar das armadilhas sedutoras que o conhecido fim da existência nos prega, acabamos nos entregando para a curiosidade.

Buscamos experiências que nos permitam deslumbrar com o desconhecido porque no fundo desejamos que exista algo mais. Porque precisa existir algo além disso tudo, não é?

No fim, as mãos enluvadas padecem da mesma doença que tentam curar.

É, vida.

E, portanto, é, Teatro.

 

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Ficha Técnica:

Dramaturgia de Frederico Vittola e Thiago Silva, a partir da obra PSICOSE de Robert Bloch

Direção: Thiago Silva

Elenco: Arlete Cunha, Bruna Johann e Frederico Vittola

Trilha Sonora Original composta por Régis Moewius

Trilha Sonora Pesquisada: Frederico Vittola e Thiago Silva

Cenografia e Direção de Arte: Clarissa Ramires

Iluminação: Henrique Strieder

Arte: Pingo Alabarce

Orientação: Clóvis Dias Massa