Você dorme quando a noite cai?

 

 

Eu não durmo. E não dormi por noites seguidas depois de me dar conta de quem eu era, é difícil crescer e perceber que se é mulher. Afinal, o que é ser mulher? É sentir a obrigação de performar feminilidade em todas as suas facetas? É nunca dizer não? É ter um medo constante de ser mais uma vítima de um crime passional? Eu espero que não.

Saí da sala Qorpo Santo em silêncio e fiz o caminho de volta pra casa, no escuro, o mais rápido que podia. Naquele momento me dei conta do medo que sentia todos os dias ao fazer o mesmo trajeto, que já era mais do que familiar, e o quanto ele aumentava quando tinha de fazê-lo à noite. Será que Natasha e Bruna tinham medo? E as atrizes de mesmo nome? Eu tinha certeza de que sim.

Entramos pelos fundos do teatro e nos sentamos no palco ao redor de uma mesa de jantar onde as duas atrizes, deitadas, eram observadas pelos quatro homens que fizeram o espetáculo junto com elas e que, aos poucos, se afastavam. As duas compartilhavam o tempo que tinham juntas. A paz que eu vejo no teu olho me habita e toda vez que eu duvido, o coração agita uma bandeira em teu nome. Constelação, passa bonita e logo some na imensidão”.

A música cantada por Natasha dizia tudo o que precisávamos saber, estávamos em uma história de amor. Elas nos contavam e conversavam sobre como se conheceram naquele elevador e sobre como as coisas eram “foda pra buceta, porque ninguém precisa meter homem no meio dessa história” e nós, espectadores, nos víamos imersos em um universo sensível e convidativo, ali, através da presença e também do grupo de whatsapp ao qual fomos convidados antes do espetáculo.

 

Foto: Ricardo Meine.

 

A tensão vinha se construindo nos silêncios, nos detalhes quase imperceptíveis, um aceno, um som, uma mensagem de texto. Recebemos alguns links falando sobre feminicídio, crimes de lesbofobia e transfobia através do grupo, ainda que saibamos da realidade em que vivemos, é sempre angustiante lembrar. Tudo contribuía com a atmosfera de suspense, mas ainda assim éramos surpreendidos em vários momentos. Algumas histórias não nos eram contadas, outras apenas nós sabíamos, havia um jogo, quase como um mistério que pedia para ser desvendado. Até que ele foi.

As personagens, como é “normal” quando se é mulher e lésbica, vinham sendo perseguidas por um homem. Não, não era o cara mal-vestido do ônibus, nem o morador de rua que vive da venda de latinhas. Era um homem de classe média com um diploma, dois, até mais. Era um admirável cidadão de bens. Sim, de bens, porque diferente do que nosso costume elitista nos leva a pensar, não é a pobreza, nem a falta de educação e muito menos a raça e credo que faz de um homem um abusador em potencial. É sua suposta masculinidade, que lhe dá a ilusão de um direito universal de tomar posse de tudo.

E então me vem o questionamento: por que meter homem no meio? Mas ele é logo substituído pelo entendimento de que sim, essa história precisa ser contada, porque não são mulheres matando outras mulheres todos os dias, são homens. E ela foi contada com convicção. Ao ator que aparecia rapidamente em algumas cenas não eram dadas palavras, seu personagem era quase uma sombra, uma figura que era usada com um propósito e que nunca tomava posse do discurso que não era seu. A iluminação, direção e produção, feita também por homens, era escrachada quando recebíamos a informação de que os homens ao redor da mesa, no início, eram responsáveis por essas funções. Era quase um “sim, nós sabemos da problemática disso e não usaremos de hipocrisia”.

O final do espetáculo nos mantém em suspensão, nada acontece, nada é resolvido e tudo que poderia acontecer a partir dali nos levaria para outro foco. Somos deixados em silêncio, observando o corpo amarrado sobre a mesa. O que se faz quando não há mais nada a dizer? E assim caminhamos, ou corremos para nossas casas, ainda ecoando a canção de amor e o medo.

 

Foto: Ricardo Meine.

Ficha Técnica:

 

 

Direção: Daniel Colin
Elenco: Bruna Casali e Natasha Villar
Participação especial: Fabiano Moreira
Dramaturgia: coletivo, a partir de textos de Pedro Bertoldi
Iluminação: Bruna Casali e Henrique Strieder
Trilha sonora pesquisada: Daniel Colin
Operação de som: Sandro Aliprandini
Criação e edição de vídeos: Rodolfo Ruscheinsky
Figurinos, cenário e adereços: coletivo
Produção: Natasha Villar e Sandro Aliprandini
Fotos: Ricardo Meine
Arte gráfica: Vinicius Zurawski
Orientação: Camila Bauer