{"id":1172,"date":"2021-04-01T17:52:53","date_gmt":"2021-04-01T20:52:53","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/?p=1172"},"modified":"2021-04-01T17:52:53","modified_gmt":"2021-04-01T20:52:53","slug":"amalucar-as-convencoes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/amalucar-as-convencoes\/","title":{"rendered":"AMALUCAR AS CONVEN\u00c7\u00d5ES"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_1173\" aria-describedby=\"caption-attachment-1173\" style=\"width: 1280px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1173 size-full\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/amalucar-as-convencoes.jpg\" alt=\"\" width=\"1280\" height=\"1280\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/amalucar-as-convencoes.jpg 1280w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/amalucar-as-convencoes-300x300.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/amalucar-as-convencoes-1024x1024.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/amalucar-as-convencoes-150x150.jpg 150w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/amalucar-as-convencoes-768x768.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/amalucar-as-convencoes-750x750.jpg 750w\" sizes=\"(max-width: 1280px) 100vw, 1280px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1173\" class=\"wp-caption-text\"><span style=\"font-size: 10pt;\">Foto: Renata Lorenzi e Vivian Azevedo<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: verdana, geneva, sans-serif; color: #808080; font-size: 10pt;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Este texto \u00e9 escrito pelo fio da navalha (ou melhor, pelo tubo de ensaio) que me atravessa logo ap\u00f3s assistir a um espet\u00e1culo infantil realizado nestes tempos pand\u00eamicos que estamos vivendo. Quase sempre deixo as pe\u00e7as que assisto reverberando por uns dias em minha mem\u00f3ria, dialogando com outras refer\u00eancias sobre os assuntos abordados em sua dramaturgia para, s\u00f3 ent\u00e3o, sentar e escrever. Curiosamente, <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Inven\u00e7\u00e3o Amalucada, <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">trabalho apresentado na Mostra DAD 2020, me fez querer escrever imediatamente ap\u00f3s o seu t\u00e9rmino na tela &#8211; sim, na tela, pois estamos falando de um Teatro feito exclusivamente para o meio digital, como todos da Mostra, inclusive. Talvez porque, assim como a pr\u00f3pria natureza da produ\u00e7\u00e3o que acabo de assistir, estamos vivendo, escrevendo, atuando, dirigindo e nos relacionando com nossas cria\u00e7\u00f5es de modos diferentes dos m\u00e9todos que sempre fizemos; estamos abrindo fendas, ressignificando as trocas. E, como acredito que escrever a respeito do trabalho de colegas seja sempre uma troca, essa, em especial, me levou a sentar e refletir neste momento imediato p\u00f3s-espet\u00e1culo. Existem coisas importantes a se dizer. Agora.\u00a0\u00a0<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: verdana, geneva, sans-serif; color: #808080; font-size: 10pt;\"><i><span style=\"font-weight: 400;\">Inven\u00e7\u00e3o Amalucada <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">n\u00e3o tem grandes novidades em termos de uso do meio digital como dispositivo de cria\u00e7\u00e3o, se levarmos em conta os trabalhos c\u00eanicos produzidos ao longo da pandemia. Alguns de seus recursos s\u00e3o o uso do YouTube para exibi\u00e7\u00e3o da pe\u00e7a, a conversa com o p\u00fablico internauta conclamando-o a participar das a\u00e7\u00f5es e o h\u00edbrido entre a performance ao vivo das atrizes com o material previamente gravado. Por\u00e9m, \u00e9 um trabalho que me toca em outro ponto, talvez em um daqueles pontos que o pr\u00f3prio Teatro feito para a inf\u00e2ncia e juventude fora do ambiente virtual \u00e9 capaz de me tocar com veem\u00eancia: na import\u00e2ncia de suas discuss\u00f5es com o p\u00fablico infantil (afinal, ainda que eu n\u00e3o tenha visto intera\u00e7\u00e3o direta com crian\u00e7as na apresenta\u00e7\u00e3o, trata-se de um produto destinado a elas).\u00a0<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: 400; font-family: verdana, geneva, sans-serif; color: #808080; font-size: 10pt;\">A pe\u00e7a j\u00e1 come\u00e7a com uma cena bastante emblem\u00e1tica, neste sentido: as tr\u00eas personagens, Mari, Lili e Aziza &#8211; muito diferentes entre si, mas cativantes ao seu modo em suas personalidades &#8211; questionam a voz narradora masculina que est\u00e1 falando por elas. Afinal, se elas est\u00e3o ali e podem contar a pr\u00f3pria hist\u00f3ria, porque um homem precisaria cont\u00e1-la? Esse questionamento sobre o espa\u00e7o de fala e a proje\u00e7\u00e3o da voz- individual e social- nos remete ao exerc\u00edcio de constante nega\u00e7\u00e3o da pot\u00eancia criativa da crian\u00e7a pelo mundo adulto, mas tamb\u00e9m ao pr\u00f3prio silenciamento da voz feminina em diversas situa\u00e7\u00f5es incursas em um mundo extremamente machista e desigual. O interessante, nesta dire\u00e7\u00e3o, \u00e9 que o desenrolar dessas quest\u00f5es na narrativa inserem-se em um contexto onde as tr\u00eas meninas protagonizam a sua aventura em busca das pr\u00f3prias respostas para uma pergunta bastante singular (e, infelizmente, ainda necess\u00e1ria): se existem tantas mulheres incr\u00edveis no mundo, sendo destaque em todas as \u00e1reas, porque os discursos e as pr\u00e1ticas insistem em inferioriz\u00e1-las?<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: verdana, geneva, sans-serif; color: #808080; font-size: 10pt;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Tudo come\u00e7a quando Mari encontra um livro chamado <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">O Livro para Garotos, <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">que traz afirma\u00e7\u00f5es enf\u00e1ticas como o fato do masculino ser um g\u00eanero superior, que as mentes dos homens s\u00e3o naturalmente brilhantes e que, desde a antiguidade, os homens superam as mulheres em \u00e1reas importantes como a cient\u00edfica. Com o sonho de ser uma grande cientista, Mari fica decepcionada com as afirma\u00e7\u00f5es contidas na obra, e, junto com Lili e Aziza, decide buscar uma forma de entender o porqu\u00ea das mulheres serem consideradas inferiores, a fim de ultrapassar as poss\u00edveis limita\u00e7\u00f5es dessa afirmativa. \u00c9 a\u00ed que a menina cria a fabulosa f\u00f3rmula encolhedora, levando o trio para dentro do corpo humano- o corpo de sua m\u00e3e, uma cientista- na busca por evid\u00eancias que possam responder se meninos e meninas diferem tanto assim em suas potencialidades.\u00a0<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: verdana, geneva, sans-serif; color: #808080; font-size: 10pt;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Nessa jornada pelo interior do corpo humano &#8211; com direito a rap oferecendo balas para as papilas gustativas e disfarce de a\u00e7\u00facar para furtar c\u00e9lulas-tronco &#8211; as personagens\u00a0 transitam por diferentes questionamentos e situa\u00e7\u00f5es que nos mostram o completo oposto do que o <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Livro para Garotos <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">professa: n\u00e3o apenas as meninas s\u00e3o capazes de compor experimentos inteligentes para a resolu\u00e7\u00e3o de problemas &#8211; caracter\u00edstica indispens\u00e1vel para ser uma grande cientista &#8211; como tamb\u00e9m se colocam imersas em uma grande aventura, provando que n\u00e3o s\u00f3 aos meninos \u00e9 reservado o aspecto da a\u00e7\u00e3o frente ao mundo, seja em qual for a hist\u00f3ria, lugar ou situa\u00e7\u00e3o de adversidade.\u00a0<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: verdana, geneva, sans-serif; color: #808080; font-size: 10pt;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Sobre isso, uma das cenas mais bonitas \u00e9 a chegada de Mari, Lili e Aziza ao c\u00e9rebro (atrav\u00e9s da <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">cora\u00e7oa, <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">que seria o cora\u00e7\u00e3o no feminino), com o uso de pisca-piscas para simbolizar os neur\u00f4nios (em uma est\u00e9tica h\u00edbrida do teatro com o audiovisual bel\u00edssima) e de fotos para representar a mem\u00f3ria da m\u00e3e. L\u00e1, Mari tenta encontrar alguma evid\u00eancia que prove a inferioridade do c\u00e9rebro das mulheres em rela\u00e7\u00e3o ao dos homens, para, futuramente, \u201ccorrigir\u201d esse \u201cerro\u201d e ser uma grande cientista. Por\u00e9m, sem obter sucesso, a menina fica em d\u00favida quanto aos caminhos que deve percorrer. Mas, ao escutar, posteriormente, Lili citar nomes de grandes cientistas mulheres que podem ser equiparadas aos cientistas homens, Mari emociona-se ao perceber que, n\u00e3o apenas ela pode tornar-se uma grande cientista sem qualquer restri\u00e7\u00e3o cognitiva, como v\u00e1rias mulheres j\u00e1 tornaram-se antes dela.\u00a0<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: verdana, geneva, sans-serif; color: #808080; font-size: 10pt;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Assim, ao sa\u00edrem do corpo da m\u00e3e da menina atrav\u00e9s de um espirro (com direito a cosquinhas imagin\u00e1rias acionadas pelas m\u00e3os do p\u00fablico), o trio compreende que, para al\u00e9m de apreender as evid\u00eancias cient\u00edficas &#8211; important\u00edssimas para solapar certezas limitantes &#8211; tamb\u00e9m \u00e9 preciso \u201camalucar\u201d todas as conven\u00e7\u00f5es que reduzem um g\u00eanero a uma constru\u00e7\u00e3o que n\u00e3o condiz com a realidade dos fatos. Ou seja, por todas estas quest\u00f5es levantadas durante a sua exibi\u00e7\u00e3o, <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Inven\u00e7\u00e3o Amalucada <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">\u00e9 um trabalho que reverbera na dire\u00e7\u00e3o de questionar protagonismo e a\u00e7\u00e3o, como forma de alimentar nas crian\u00e7as a vis\u00e3o de que suas vozes s\u00e3o muito mais do que os tratados do mundo adulto descrevem, estimulam ou orientam.\u00a0 Meninas t\u00eam voz. Crian\u00e7as t\u00eam voz. E \u00e9 preciso escut\u00e1-las.\u00a0\u00a0<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: verdana, geneva, sans-serif; color: #808080; font-size: 10pt;\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\">***<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400; font-family: verdana, geneva, sans-serif; color: #808080; font-size: 10pt;\">FICHA T\u00c9CNICA<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400; font-family: verdana, geneva, sans-serif; color: #808080; font-size: 10pt;\">ELENCO: Lali Garrido, Renata Lorenzi e Vivian Azevedo<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400; font-family: verdana, geneva, sans-serif; color: #808080; font-size: 10pt;\">DIRE\u00c7\u00c3O: Guadalupe Casal<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400; font-family: verdana, geneva, sans-serif; color: #808080; font-size: 10pt;\">DRAMATURGIA: Guadalupe Casal e Lali garrido<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400; font-family: verdana, geneva, sans-serif; color: #808080; font-size: 10pt;\">PRODU\u00c7\u00c3O: O grupo<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400; font-family: verdana, geneva, sans-serif; color: #808080; font-size: 10pt;\">CONTRA-REGRA: Mariana Fernandes<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400; font-family: verdana, geneva, sans-serif; color: #808080; font-size: 10pt;\">ORIENTA\u00c7\u00c3O: Ana Cec\u00edlia Reckziegel\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400; font-family: verdana, geneva, sans-serif; color: #808080; font-size: 10pt;\">Est\u00e1gio de Atua\u00e7\u00e3o de Lali Garrido, apresentado na Mostra DAD 2020.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"color: #333333;\"><em><span style=\"font-family: verdana, geneva, sans-serif; font-size: 8pt;\">Qorpo Qr\u00edtico \u2013 Vol. 03, n. 06, fevereiro a maio de 2021. <span style=\"color: #000000; font-family: verdana, geneva, sans-serif; font-size: 8pt;\">ISSN 2675-4207.<\/span><\/span><\/em><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; &nbsp; Este texto \u00e9 escrito pelo fio da navalha (ou melhor, pelo tubo de ensaio) que me atravessa logo ap\u00f3s assistir a um espet\u00e1culo infantil realizado nestes tempos pand\u00eamicos que estamos vivendo. 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