{"id":1547,"date":"2023-03-21T13:17:40","date_gmt":"2023-03-21T16:17:40","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/?p=1547"},"modified":"2023-12-17T22:51:22","modified_gmt":"2023-12-18T01:51:22","slug":"acorda-y-canta-prenuncios-e-potenciais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/acorda-y-canta-prenuncios-e-potenciais\/","title":{"rendered":"Acorda y Canta: pren\u00fancios e potenciais"},"content":{"rendered":"<p>Poucas coisas na realidade de um ser humano s\u00e3o capazes de servir como pren\u00fancio de uma viv\u00eancia. Poucas. Pouqu\u00edssimas. Temos a chuva. Temos o sol. O preticor que se faz presente ap\u00f3s a queda inesperada de um temporal. Temos a palpita\u00e7\u00e3o inexplicada no peito ansioso de algu\u00e9m. A intui\u00e7\u00e3o imotivada. A d\u00favida persistente. Mas tamb\u00e9m temos a m\u00fasica. A can\u00e7\u00e3o. O som ordenado e vocalizado. Talvez, o melhor de todos os pren\u00fancios. Quem de n\u00f3s n\u00e3o experimentou algo ap\u00f3s o irradiar daquela m\u00fasica preferida? Quem de n\u00f3s n\u00e3o atravessou a pr\u00f3pria humanidade depois do tocar de uma can\u00e7\u00e3o? \u00c9 quase um fardo. Um fardo positivo, obviamente. Lembro, por exemplo, que nos primeiros momentos de meu relacionamento atual cada car\u00edcia, cada carinho, ocorria frente ao t\u00e9rmino de alguma m\u00fasica. \u00c0s vezes, uma m\u00fasica de minha prefer\u00eancia. \u00c0s vezes, uma da prefer\u00eancia da minha companhia. Era como um informe do que iria acontecer. Um an\u00fancio do pr\u00f3prio afeto humano. Um arauto. E isso n\u00e3o foi diferente em Acorda y Canta, espet\u00e1culo-produto do Est\u00e1gio de Atua\u00e7\u00e3o de Luana Milidiu junto ao Departamento de Arte Dram\u00e1tica da UFRGS.<\/p>\n<p>A m\u00fasica em quest\u00e3o: uma mostra do dom de Jota.p\u00ea. Uma ode, antes de tudo, \u00e0 brasilidade, mas acima de tudo \u00e0 humanidade. Garoa. Eu nunca mais esqueceria essa can\u00e7\u00e3o, que ecoava enquanto os angustiados espectadores ocupavam as poltronas da Sala Alziro Azevedo. Uma garoa que molhava e anunciava, sem pudor ou reserva qualquer, a potencialidade que se desvelaria diante de nossos olhos.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-1575 size-full\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/acr-e1702860044533.jpeg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"800\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/acr-e1702860044533.jpeg 800w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/acr-e1702860044533-300x300.jpeg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/acr-e1702860044533-150x150.jpeg 150w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/acr-e1702860044533-768x768.jpeg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/acr-e1702860044533-750x750.jpeg 750w\" sizes=\"(max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><\/p>\n<p>Eu j\u00e1 conhecia Luana. Dos corredores do departamento, da rotina acad\u00eamica. Da vida. Era evidente, mesmo que de longe, sua capacidade e dedica\u00e7\u00e3o \u00e0s artes c\u00eanicas. Em Acorda y Canta, o que era distante converteu-se em pr\u00f3ximo e o apreendido apenas se confirmou, ao mesmo tempo que os espectadores presentes, entre os quais me incluo, eram convidados a mergulhar na obra.<\/p>\n<p>A pe\u00e7a teatral, composta por muitos integrantes do Departamento de Arte Dram\u00e1tica da UFRGS, al\u00e9m da pr\u00f3pria estagi\u00e1ria e protagonista, detinha um convite particular: conduzir a plateia a discutir a mais ancestral das dualidades existentes no ser humano &#8211; a tristeza e a alegria. Contudo, n\u00e3o era uma discuss\u00e3o nos moldes sem\u00e2nticos ou acad\u00eamicos, onde o objetivo do proposto di\u00e1logo \u00e9 a tomada de decis\u00e3o ou o alcance de algum grau de saber. A discuss\u00e3o criada pelo espet\u00e1culo repousava na vontade \u00fanica da contempla\u00e7\u00e3o dessa dualidade. Em termos mais simples, quem ocupasse uma daquelas cadeiras estava convidado a discutir a tristeza e a alegria, mas sem compromisso de produzir algum ju\u00edzo sobre elas. A \u00fanica demanda era contemplar tais sentimentos.<\/p>\n<p>Serei ousado em dizer, apesar deste n\u00e3o ser um espa\u00e7o de senten\u00e7as definitivas, que sem esta m\u00e1xima, sem este caminho, Acorda y Canta n\u00e3o seria o que se transformou. Sua extraordinariedade abrigava-se na sua fun\u00e7\u00e3o, na escolha de rumo, no norte que tomara para si. Claro. Outro cen\u00e1rio n\u00e3o seria de todo ruim. Uma mescla do j\u00e1 citado talento de Luana com um espet\u00e1culo bem constru\u00eddo n\u00e3o seria uma m\u00e1 aposta. Pelo contr\u00e1rio. Seria algo \u00edmpar. Por\u00e9m, entre o \u00edmpar e o extraordin\u00e1rio h\u00e1 um inc\u00f4modo precip\u00edcio.<\/p>\n<p>A discuss\u00e3o instada por Acorda y Canta movia o mais r\u00edgido dos observadores. N\u00e3o havia quem, naquela sala t\u00e3o emblem\u00e1tica para o teatro ga\u00facho, mantivesse-se inc\u00f3lume diante da produ\u00e7\u00e3o cat\u00e1rtica. N\u00e3o havia como preservar alguma solidez esvaziada de emo\u00e7\u00e3o naquele espa\u00e7o. A certa altura, quando vozes gravadas se misturavam com o mover silencioso de bra\u00e7os e pernas, qualquer isen\u00e7\u00e3o ou tentativa de assim manter-se constitu\u00eda um crime de lesa-humanidade.<\/p>\n<p>Para alcan\u00e7ar esse cen\u00e1rio, a pe\u00e7a teatral precisou expandir o conceito de dualidade para al\u00e9m da fun\u00e7\u00e3o-mor de sua exist\u00eancia. Era preciso transbordar os limites do compromisso e ser dual em tudo: nas a\u00e7\u00f5es, nas palavras, nas escolhas. O mise-en-sc\u00e8ne, portanto, n\u00e3o ficou de fora. A disposi\u00e7\u00e3o em palco deveria refletir essa dualidade. Tudo, visando conduzir as trocas para a fronteira das possibilidades. A dualidade transformar-se-ia, ent\u00e3o, em um paradoxo, no qual, no palco, uma parte anularia a outra, em um movimento de repulsa e aproxima\u00e7\u00e3o t\u00edpico das desventuras f\u00edsicas.<\/p>\n<figure id=\"attachment_1549\" aria-describedby=\"caption-attachment-1549\" style=\"width: 1280px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1549 size-full\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/WhatsApp-Image-2023-03-05-at-13.13.21.jpeg\" alt=\"\" width=\"1280\" height=\"854\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/WhatsApp-Image-2023-03-05-at-13.13.21.jpeg 1280w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/WhatsApp-Image-2023-03-05-at-13.13.21-300x200.jpeg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/WhatsApp-Image-2023-03-05-at-13.13.21-1024x683.jpeg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/WhatsApp-Image-2023-03-05-at-13.13.21-768x512.jpeg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/WhatsApp-Image-2023-03-05-at-13.13.21-750x500.jpeg 750w\" sizes=\"(max-width: 1280px) 100vw, 1280px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1549\" class=\"wp-caption-text\">&#8220;Cr\u00e9ditos: Luana Milidiu\/Arquivo Pessoal&#8221;<\/figcaption><\/figure>\n<p>Este foi Acorda y Canta. Uma experi\u00eancia sem-par, no melhor sentido deste termo. N\u00e3o \u00e0 toa escolhera Garoa para anunciar-se ao mundo. Consciente ou inconscientemente, tinha ci\u00eancia de seu potencial. Sabia que ganharia nossos risos, choros, corpos e almas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p align=\"LEFT\"><em><i><b>ACORDA Y CANTA<\/b><\/i><\/em><\/p>\n<p align=\"LEFT\"><strong>Est\u00e1gio de Atua\u00e7\u00e3o de Luana Milidiu<\/strong><br \/>\n<strong>Orienta\u00e7\u00e3o:<\/strong>\u00a0Professora Doutora Cl\u00e1udia Sachs<br \/>\n<strong>Datas das apresenta\u00e7\u00f5es:<\/strong>\u00a0dias 24, 25 e 26\/11, quinta, sexta e s\u00e1bado<br \/>\n<strong>Hor\u00e1rios das apresenta\u00e7\u00f5es:<\/strong>\u00a0dias 24 e 25\/11, \u00e0s 20h; dia 26\/11, \u00e0s 17h<br \/>\n<strong>Local:<\/strong>\u00a0Teatro Alziro Azevedo (Avenida Salgado Filho, 340 \u2013 Centro Hist\u00f3rico, Porto Alegre)<br \/>\n<strong>Ingresso:<\/strong>\u00a0entrada franca<br \/>\n<strong>Classifica\u00e7\u00e3o indicativa:<\/strong>\u00a012 anos<br \/>\n<strong>Fotos de divulga\u00e7\u00e3o:<\/strong>\u00a0Ren\u00ea de Palma<\/p>\n<p align=\"LEFT\"><strong><b>Sinopse:<\/b><\/strong>Distintas, iguais, amigas, amantes, confidentes, parceiras e opostas, imersas em uma colcha de retalhos-hist\u00f3rias que d\u00e1 vaz\u00e3o \u00e0s diversas formas de amor poss\u00edveis entre duas mulheres. Um olhar atrav\u00e9s dos pontos, costurados com m\u00fasicas, palha\u00e7adas e l\u00e1grimas, revelando as dores e del\u00edcias de ser o que se (quer ser) \u00e9<strong>.<\/strong><\/p>\n<p align=\"LEFT\"><strong>Ficha t\u00e9cnica<\/strong><br \/>\nElenco: Luana Milidiu e Lara Vitoria<br \/>\nDire\u00e7\u00e3o: Luiza Escandiel<br \/>\nOrienta\u00e7\u00e3o c\u00eanica: Eduarda Ouriques<br \/>\nDramaturgia: Luiza Escandiel, com colabora\u00e7\u00e3o de Jo\u00e3o Pedro da Cunha<br \/>\nVoz: Laureana Brayer<br \/>\nIlumina\u00e7\u00e3o: Bathista Freire, com colabora\u00e7\u00e3o de Lara Vit\u00f3ria<br \/>\nCenografia: Maria Carolina Aquino e Marcelo Neves, com colabora\u00e7\u00e3o do grupo<br \/>\nIndument\u00e1ria: Marcelo Neves<br \/>\nProdu\u00e7\u00e3o: Eduarda Ouriques, com colabora\u00e7\u00e3o de Luana Milidiu<br \/>\nTrilha sonora: o grupo<br \/>\nOpera\u00e7\u00e3o de luz: Bathista Freire e Henrique Strieder<br \/>\nOpera\u00e7\u00e3o de som: Duda Rhoden e Marcelo Neves<br \/>\nArte do banner e divulga\u00e7\u00e3o: J\u00falia Terra<br \/>\nGrava\u00e7\u00e3o voz: Kelvin Machado<\/p>\n<p align=\"LEFT\"><span style=\"font-size: 10pt; color: #000000;\"><em><br \/>\n&nbsp;<br \/>\nQorpo Qr\u00edtico \u2013 Vol. 05, n. 12, mar\u00e7o a julho de 2023. ISSN 2675-4207.<\/em><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Poucas coisas na realidade de um ser humano s\u00e3o capazes de servir como pren\u00fancio de uma viv\u00eancia. Poucas. Pouqu\u00edssimas. Temos a chuva. Temos o sol. O preticor que se faz presente ap\u00f3s a queda inesperada de um temporal. Temos a palpita\u00e7\u00e3o inexplicada no peito ansioso de algu\u00e9m. A intui\u00e7\u00e3o imotivada. A d\u00favida persistente. 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