{"id":1648,"date":"2023-04-20T10:59:28","date_gmt":"2023-04-20T13:59:28","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/?p=1648"},"modified":"2023-12-17T22:29:57","modified_gmt":"2023-12-18T01:29:57","slug":"quando-fecho-os-olhos-vejo-teu-nome","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/quando-fecho-os-olhos-vejo-teu-nome\/","title":{"rendered":"Quando fecho os olhos, vejo teu nome."},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-1655 size-large\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/nai5-1024x1024.jpg\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"640\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/nai5-1024x1024.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/nai5-300x300.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/nai5-150x150.jpg 150w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/nai5-768x768.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/nai5-750x750.jpg 750w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/nai5.jpg 1066w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/p>\n<p>Essa cr\u00edtica vem de um lugar que h\u00e1 muito tempo n\u00e3o v\u00ea, cheira, toca e\/ou come teatro. Vem de um lugar distante e de cora\u00e7\u00e3o receoso ao chegar no corredor da sala de ensaio &#8211; outrora ocupada no cotidiano. \u00c9 tamb\u00e9m um desafio, porque n\u00e3o falo aqui de um teatro tradicional e sim de uma experi\u00eancia inovadora e completamente diferente. \u00c9 imposs\u00edvel falar sobre as coisas que n\u00e3o vi aqui, pois de fato n\u00e3o vi, ent\u00e3o falo do que senti.<\/p>\n<p>\u00c9ramos eu e o rapaz loiro e alto, sa\u00eddo sabe-se l\u00e1 de onde e tamb\u00e9m com um tom de confus\u00e3o e interesse no canto dos olhos:<\/p>\n<p>\u2014 Algu\u00e9m te disse alguma coisa?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o. Tu sabe de algo?<\/p>\n<p>\u2014 Tamb\u00e9m n\u00e3o\u2026<\/p>\n<p>Sab\u00edamos do t\u00edtulo do experimento: <i>\u201cO que se v\u00ea ao fechar os olhos\u201d<\/i>, sab\u00edamos que era um experimento sensorial, embora n\u00e3o consegu\u00edssemos imaginar exatamente o que aquilo queria dizer. Pensei nas aulas que tive com a professora Gisela durante o primeiro semestre de faculdade, no incentivo para que ouv\u00edssemos nossas vozes, sent\u00edssemos os cheiros e estiv\u00e9ssemos presentes. Imaginei um c\u00edrculo de pessoas com atores performando ao redor, m\u00fasicas instrumentais, o estere\u00f3tipo que quem est\u00e1 no meio do teatro conhece e certamente j\u00e1 presenciou. Eu estava errada.<\/p>\n<p>Somos recebidos com a empolga\u00e7\u00e3o de Vanessa, cujo nome eu aprendi s\u00f3 depois, mas que mantinha a anima\u00e7\u00e3o e o mist\u00e9rio daquilo que est\u00e1vamos prestes a <span style=\"text-decoration: line-through;\">ver<\/span> vivenciar. Somos instru\u00eddos a colocar as capas de chuva e os fones de ouvido, que seriam nossos guias atrav\u00e9s do experimento. Para quem sempre teve uma liga\u00e7\u00e3o especial com a m\u00fasica, com a fic\u00e7\u00e3o e com o mist\u00e9rio, parecia a proposta perfeita. O alerta dado durante a recep\u00e7\u00e3o ressoou por poucos segundos, mas logo foi esquecido: isso \u00e9 um teste. Tamb\u00e9m fomos alertados de que ser\u00edamos acompanhados durante todo o processo e, em caso de qualquer desconforto, poder\u00edamos parar. Isso, segundo os atores (com muita \u00eanfase na raiz a\u00e7\u00e3o da palavra), era uma grande preocupa\u00e7\u00e3o. Como deixar o p\u00fablico confort\u00e1vel o desconforto de uma experi\u00eancia completamente nova e desafiadora? O conforto no desconforto.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-1650 size-large\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/nai2-1024x683.jpg\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"427\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/nai2-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/nai2-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/nai2-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/nai2-750x500.jpg 750w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/nai2.jpg 1500w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/p>\n<p>Entramos em um universo ficcional, com outras vozes, outras hist\u00f3rias, outras perguntas, mas sem o conforto do sof\u00e1 de casa, que \u00e9 um lembrete constante da realidade e nos afasta de ir a fundo em qualquer narrativa. \u00c9 nesse ponto em que, depois de anos de uma pandemia que me transformou em mera observadora do mundo atrav\u00e9s de uma janela virtual, fui tomada por todas as sensa\u00e7\u00f5es que transpassavam o <span style=\"text-decoration: line-through;\">espet\u00e1culo<\/span> experimento, entre elas, o medo. N\u00e3o o medo como proposta do jogo, eu me sentia segura enquanto explorava os espa\u00e7os, mas o medo do novo, da exposi\u00e7\u00e3o, do erro. Dizem que o medo \u00e9 nosso sentimento mais instintivo; aqui ele foi substitu\u00eddo pelo afeto, que era t\u00e3o grande e t\u00e3o sens\u00edvel que me fez esquecer de que havia algu\u00e9m ali al\u00e9m de mim. Gosto de brincar que o experimento nunca aconteceu: eu estava dentro da minha pr\u00f3pria cabe\u00e7a, passeando pelo meu inconsciente.<\/p>\n<p>\u201c<i>Carrego comigo uma dor que tem um nome. Mariana, Marina\u2026 Nina.\u201d<\/i><\/p>\n<p>As vozes que ouvimos ao fechar os olhos nos contam sobre as dores que carregam, sobre cavalos mergulhadores, sobre a \u00e1gua que inunda nossos olhos e rouba nossos espa\u00e7os. Dizem que os cavalos precisam olhar para cima, pra que a imensid\u00e3o do que v\u00eaem seja mais assustadora do que o salto. Os atores, cada um com seu respectivo convidado \u2014 porque aqui somos convidados, cada um com sua experi\u00eancia individual, que se cruza durante momentos, mas segue seu caminho solit\u00e1rio \u2014 nos guiam pelo espa\u00e7o, de olhos fechados ou vendados, ouvindo os peda\u00e7os de mem\u00f3rias e explorando aquilo que podemos alcan\u00e7ar. Agora tamb\u00e9m carrego comigo uma dor que tem um nome, tamb\u00e9m sou um cavalo mergulhador. \u201cAgora eu sou seu duplo, e voc\u00ea \u00e9 o meu.\u201d.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-1651 size-large\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/nai3-1024x682.jpg\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"426\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/nai3-1024x682.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/nai3-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/nai3-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/nai3-1536x1023.jpg 1536w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/nai3-750x500.jpg 750w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/nai3.jpg 1600w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/p>\n<p>No escuro, seguimos uma luz que flutua e nos convida a passar por aquilo que escolhi chamar de mem\u00f3rias: a do toque dos p\u00e9s em folhas secas, do cheiro de chuva forte com arruda que a casa da minha m\u00e3e tamb\u00e9m tinha, das primeiras vezes que perdi um cachorrinho, um amor e a mim mesma. Em algum momento j\u00e1 n\u00e3o sei se essas mem\u00f3rias eram minhas, de Nina ou de meu duplo. Nina? Quem \u00e9 Nina? Eu sou nina? A dor que carrega um nome, carrega tamb\u00e9m o meu. As vozes dos duplos sussurradas nos fones de ouvido me perguntam quem sou eu: Nairim, 23 anos, qualquer adjetivo que n\u00e3o lembro de ter dito; muito prazer. Gabriel, n\u00e3o tenho certeza de quantos anos, adjetivo que n\u00e3o pude ouvir por uma pequena falha na conex\u00e3o dos fones, mas que n\u00e3o me ocorreu at\u00e9 que me contaram que deveria ter ouvido. Voc\u00eas viram a Nina?<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-1652 size-large\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/nai4-768x1024.jpg\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"853\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/nai4-768x1024.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/nai4-225x300.jpg 225w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/nai4-1152x1536.jpg 1152w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/nai4-750x1000.jpg 750w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/nai4.jpg 1200w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/p>\n<p>O experimento \u00e9 uma busca por si mesmo e, de uma forma po\u00e9tica e delicada, uma busca pela dor que carregamos desde que ganhamos um nome. Passei duas vezes por essa busca \u2014 s\u00e3o dois experimentos diferentes, cada um com seu guia \u2014 ambas com a delicadeza que s\u00f3 um trabalho cuidadoso e bem pesquisado pode proporcionar. Caminhamos por longas hist\u00f3rias, cruzamos fronteiras, fugimos do vento e, ainda assim, est\u00e1vamos dentro do mesmo teatro no qual entramos quando t\u00ednhamos olhos abertos. A m\u00fasica, os sons, os jogos que se tornam muito pessoais, s\u00f3 acontecem na nossa cabe\u00e7a, s\u00f3 eu sei o que o experimento \u00e9 pra mim, s\u00f3 eu ou\u00e7o as vozes e ao que elas se ligam quando s\u00e3o ouvidas. Abandonamos nossos olhos em troca de um mundo fant\u00e1stico e por vezes confuso e, ao fim de 30 minutos, os pegamos de volta para observar a beleza, n\u00e3o s\u00f3 do cen\u00e1rio, mas de nossos rostos no espelho marcados pelo que vivemos, dos olhos uns dos outros, dos abra\u00e7os de agradecimento e da leveza que sentimos.<\/p>\n<p>Naquela sala, deixamos Nina, agora com novos nomes e novas hist\u00f3rias. Ainda carrego comigo uma dor, mas agora quem a nomeia sou eu.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>FICHA T\u00c9CNICA<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Cria\u00e7\u00e3o: \u00cdris Coletivo Art\u00edstico<\/p>\n<p>Performers: Damiel Brocker, P\u00e2mela Walter, Vanessa Corso<\/p>\n<p>M\u00fasico: Al\u00e9rcio Pereira J\u00fanior<\/p>\n<p>Artista Visual: Ana J\u00falia Saquetti<\/p>\n<p>Ilumina\u00e7\u00e3o: Bathista Freire<\/p>\n<p>Opera\u00e7\u00e3o de luz: Adami<\/p>\n<p>Orienta\u00e7\u00e3o: Marta Isaacsson<\/p>\n<p>Fotografia: Gabriel Zarth<\/p>\n<p>Divulga\u00e7\u00e3o: Eduardo Felini<\/p>\n<p>Contrarregragem: Ana J\u00falia Nunes e Ana J\u00falia Saquetti<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Esta qr\u00edtica foi escrita pela Nairim Tomazoni<\/em><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-thumbnail wp-image-454\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/Perfil-Nairim-Tomazini-150x150.png\" alt=\"\" width=\"150\" height=\"150\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/Perfil-Nairim-Tomazini-150x150.png 150w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/Perfil-Nairim-Tomazini-300x300.png 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/Perfil-Nairim-Tomazini-768x767.png 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/Perfil-Nairim-Tomazini-1024x1024.png 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/Perfil-Nairim-Tomazini-750x749.png 750w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/Perfil-Nairim-Tomazini.png 1080w\" sizes=\"(max-width: 150px) 100vw, 150px\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt; color: #000000;\"><em>Qorpo Qr\u00edtico &#8211; Vol. 05, n. 12, mar\u00e7o a julho de 2023. ISSN 2675-4207.<\/em><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Essa cr\u00edtica vem de um lugar que h\u00e1 muito tempo n\u00e3o v\u00ea, cheira, toca e\/ou come teatro. 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