{"id":1662,"date":"2023-06-12T15:00:38","date_gmt":"2023-06-12T18:00:38","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/?p=1662"},"modified":"2023-12-17T22:28:01","modified_gmt":"2023-12-18T01:28:01","slug":"um-show-de-rock-y-horror-a-vitoria-merecida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/um-show-de-rock-y-horror-a-vitoria-merecida\/","title":{"rendered":"Um Show de Rock Y Horror: a vit\u00f3ria merecida"},"content":{"rendered":"<p align=\"JUSTIFY\">Em um mundo que, diariamente, colide consigo mesmo e em uma realidade t\u00e3o freneticamente inst\u00e1vel, dois elementos sempre foram h\u00e1beis na arte de absorver a exist\u00eancia humana e suas nuances, extraindo dessa absor\u00e7\u00e3o alguma forma de reflex\u00e3o: a m\u00fasica e a dan\u00e7a. A m\u00fasica com sua capacidade sem-par de levar o f\u00edsico, o material, rumo ao invis\u00edvel, transformando-o em notas de uma can\u00e7\u00e3o, em s\u00edmbolos de uma partitura. A dan\u00e7a, por sua vez, com sua natureza m\u00f3vel, instigadora, potente o suficiente para transformar a menor part\u00edcula vivente em puro e visceral movimento.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">N\u00e3o \u00e0 toa os musicais se sobressa\u00edram nas \u00faltimas d\u00e9cadas. N\u00e3o \u00e0 toa os teatros do mundo inteiro, os espa\u00e7os de variados tipos, assistiram uma tomada de assalto por obras como The <i>West Side Story, Hairspray<\/i>, <i>Rent<\/i>, Six, ou, mais recentemente, <i>Hamilton: An American Musical<\/i>. \u00c9 a eleva\u00e7\u00e3o de pot\u00eancia na dose correta, a mistura promissora de artes extraordin\u00e1rias. Se a interpreta\u00e7\u00e3o, realizada em um teatro ou em um est\u00fadio, bem feita e conduzida, tem como garantia o poder de chamar a humanidade para discutir o que lhe constitui e atravessa, uma boa interpreta\u00e7\u00e3o, cercada por m\u00fasicas e pelo movimento de corpos, ganha contornos sublimes. O modelo perfeito. <i>Um Show de Rock y Horror<\/i>, est\u00e1gio de atua\u00e7\u00e3o de Renata Daneluz junto ao Departamento de Arte Dram\u00e1tica da UFRGS, sabia disso.<\/p>\n<figure id=\"attachment_1667\" aria-describedby=\"caption-attachment-1667\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1667 size-medium\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/rocky2-300x298.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"298\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/rocky2-300x298.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/rocky2-150x150.jpg 150w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/rocky2.jpg 382w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1667\" class=\"wp-caption-text\">Cr\u00e9ditos: Desenhos de Teti Tedesco \/Divulga\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<p align=\"JUSTIFY\">Ao ingressar na Sala Qorpo Santo, situada no Campus Centro da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, naquela quinta-feira de clima ameno e de conversas soltas, restou clara e evidente a consci\u00eancia, pelo elenco da obra, acerca dessa verdade. Cada aspecto do ambiente fora confeccionado a partir da no\u00e7\u00e3o de que, ao menos por algumas horas, no campo dieg\u00e9tico, o palco iria se converter em uma pista de dan\u00e7a e n\u00f3s, transfigurados na persona dos espectadores desse mover quase comunal.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">As luzes, vacilantes, escassas para um turno, no qual, segundo a liturgia da ilumina\u00e7\u00e3o c\u00eanica, demanda-se volume e n\u00e3o economia. O figurino, uma ode ao passado e ao presente, costurado em honra \u00e0s matin\u00eas de cinema, que, a partir do momento onde existiam, contavam sobre o que j\u00e1 fora, como uma esp\u00e9cie de t\u00fanel do tempo. Por fim, a banda. Uma banda inteira, ao vivo. O lembrete m\u00e1ximo de que o som r\u00edtmico e organizado dominaria o l\u00e9xico ao longo da noite.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Era uma aposta. Uma grande aposta, nesses elementos e nos seus efeitos positivos. Uma aposta cujo resultado, t\u00e3o desejado, j\u00e1 florescia ao t\u00e9rmino da primeira m\u00fasica: o arrebatamento do p\u00fablico. Quando a can\u00e7\u00e3o, uma vers\u00e3o modificada da celebrada <i>Time Warp<\/i>, despedia-se, o p\u00fablico respirava pesado, ansioso, em transe. O modelo perfeito mostrava a raz\u00e3o de sua perfei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Por\u00e9m, modelos perfeitos s\u00e3o modelos. S\u00e3o arqu\u00e9tipos, tipos ideais, sistemas de atua\u00e7\u00e3o abertos, espa\u00e7os desenhados de circula\u00e7\u00e3o livre. Sua perfei\u00e7\u00e3o decorre da presen\u00e7a e posi\u00e7\u00e3o de certas caracter\u00edsticas. No caso dos musicais, entende-se essas caracter\u00edsticas como uma boa can\u00e7\u00e3o, uma boa voz, uma boa dan\u00e7a. Indo al\u00e9m, \u00e9 preciso, tamb\u00e9m, de linearidade, de coer\u00eancia, de organiza\u00e7\u00e3o, de semi\u00f3tica. E tudo isso, em uma \u00faltima an\u00e1lise, carece de seres humanos, atentos, dedicados, cuidadosos, comprometidos. Seres que fitem com olhos de quem v\u00ea o texto e seus meandros. Seres que compreendam o indiz\u00edvel por tr\u00e1s da dramaturgia, mesmo a dramaturgia estabelecida entre acordes e <i>pli\u00e9s<\/i>.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Parece exagero, entretanto, como dito, modelos s\u00e3o apenas modelos, por mais perfeitos que sejam. O uso errado de um modelo desarticula sua ess\u00eancia e anula qualquer resultado positivo. E n\u00e3o falamos de verossimilhan\u00e7a, que \u00e9 quando defende-se a predomin\u00e2ncia <i>ipsis litteris<\/i> de uma obra. H\u00e1<i> covers<\/i>, adapta\u00e7\u00f5es extraordin\u00e1rias de muitos textos. O problema n\u00e3o est\u00e1 nesse ponto. At\u00e9 um <i>cover<\/i> \u00e9 capaz de cumprir a fun\u00e7\u00e3o-mor de uma dramaturgia ao mobilizar corretamente as caracter\u00edsticas do modelo. A necessidade posta \u00e9 a de sempre lembrar que \u00e9 preciso mobilizar corretamente, de fazer um bom uso dos componentes do modelo. Do contr\u00e1rio, de nada adianta referenciar uma produ\u00e7\u00e3o com recortes de um passado extasiante, pois, no final da noite, quando a \u00faltima can\u00e7\u00e3o irradiar do sistema de som, o produzido apenas ser\u00e1 mera c\u00f3pia do que j\u00e1 n\u00e3o habita a realidade contempor\u00e2nea.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Outra aposta certeira de <i>um Show de Rock y Horror<\/i>.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">O grupo demonstrava uma consci\u00eancia de que, para alcan\u00e7ar a proposta, precisavam tomar para si as caracter\u00edsticas do sistema, apropriar-se do modelo. Cada cena traduzia esse clamor do elenco. Era como assistir uma batalha sendo desenvolvida diante dos nossos olhos. Cada palmo do ch\u00e3o sendo buscado ansiosamente, sem reservas. O compromisso pela vit\u00f3ria pairava no ar. E eles venceram.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><i>Um Show de Rock y Horror<\/i> tomou as r\u00e9deas, as regras, brincou com elas, brincou com tudo. Com um grande elenco e uma invej\u00e1vel organiza\u00e7\u00e3o, demonstrou capacidade de articular-se com o modelo e o rearticular, se fosse necess\u00e1rio.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Ao fim e ao cabo, todos n\u00f3s fomos absorvidos pela obra. Quando atravessamos as portas da Sala Qorpo Santo rumo a noite, atravessamos em plena combust\u00e3o, refletindo sobre n\u00f3s, sobre o outro, sobre cada nota do repert\u00f3rio que, estranhamente, contava a nossa hist\u00f3ria.<\/p>\n<figure id=\"attachment_1664\" aria-describedby=\"caption-attachment-1664\" style=\"width: 225px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1664 size-medium\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/rck-225x300.jpg\" alt=\"\" width=\"225\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/rck-225x300.jpg 225w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/rck-768x1024.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/rck-1152x1536.jpg 1152w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/rck-750x1000.jpg 750w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/rck.jpg 1536w\" sizes=\"(max-width: 225px) 100vw, 225px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1664\" class=\"wp-caption-text\">Campus Centro da UFRGS, 02 de Mar\u00e7o de 2023 Cr\u00e9ditos: Maicon Matos\/Arquivo Pessoal<\/figcaption><\/figure>\n<p align=\"JUSTIFY\"><strong>Ficha t\u00e9cnica<\/strong><br \/>\nDire\u00e7\u00e3o: Juliano Rabello<br \/>\nDramaturgia: Juliano Rabello e Renata Daneluz, inspirada em \u201cRocky Horror Show\u201d musical de Richard O\u2019 Brian<br \/>\nElenco: Aline Centeno, Ana Clara Lauffer, Anderson Likoski, Douglas Lunardi, Eduardo Cassimiro, Jennifer Franco, J\u00falio Carissini, Renata Daneluz, Teti Tedesco<br \/>\nOrienta\u00e7\u00e3o: Gisela Habeyche<br \/>\nIlumina\u00e7\u00e3o: Henrique Strieder<br \/>\nCenografia: Tony Franco<br \/>\nIndument\u00e1ria: Aline Centeno, Jennifer Franco, Teti Tedesco e Renata Daneluz<br \/>\nMaquiagem e Identidade visual: Teti Tedesco<br \/>\nTrilha sonora: The Phantoms<br \/>\nOpera\u00e7\u00e3o de luz: Henrique Strieder<br \/>\nDire\u00e7\u00e3o coreogr\u00e1fica: Aline Centeno<br \/>\nDire\u00e7\u00e3o musical, prepara\u00e7\u00e3o vocal e vers\u00e3o brasileira: Jennifer Franco<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">\n<p align=\"JUSTIFY\">\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-size: 10pt; color: #000000;\"><em>Qorpo Qr\u00edtico &#8211; Vol. 05, n. 12, mar\u00e7o a julho de 2023. ISSN 2675-4207.<\/em><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em um mundo que, diariamente, colide consigo mesmo e em uma realidade t\u00e3o freneticamente inst\u00e1vel, dois elementos sempre foram h\u00e1beis na arte de absorver a exist\u00eancia humana e suas nuances, extraindo dessa absor\u00e7\u00e3o alguma forma de reflex\u00e3o: a m\u00fasica e a dan\u00e7a. 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