{"id":1699,"date":"2023-08-01T10:07:54","date_gmt":"2023-08-01T13:07:54","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/?p=1699"},"modified":"2023-12-17T22:21:03","modified_gmt":"2023-12-18T01:21:03","slug":"um-medo-transcendente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/um-medo-transcendente\/","title":{"rendered":"Um medo transcendente"},"content":{"rendered":"<p lang=\"en-US\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #808080; font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 10pt;\">Existem dois tipos de medo. Um \u00e9 o paralisante, que congela suas entranhas e inibe qualquer rea\u00e7\u00e3o positiva. \u00c9 o medo comum, tradicional, fruto de infinitas transforma\u00e7\u00f5es gen\u00e9ticas e evolutivas. O outro \u00e9 o medo impulsionador, fomentador. \u00c9 ele que, quando acionado, instala a consci\u00eancia da realidade f\u00e1tica e possibilita respostas positivas mesmo em momentos dif\u00edceis, mesmo em contextos fatais. \u00c9 ele, esse medo, que preserva a nossa humanidade quando o previs\u00edvel, o normal, o esperado, o meticulosamente calculado d\u00e1 lugar ao caos simples e puro.<\/span><\/p>\n<p lang=\"en-US\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #808080; font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 10pt;\">Este \u00e9 um medo constante. N\u00e3o \u00e0 toa, quando not\u00edcias acerca dos rumos catastr\u00f3ficos da esp\u00e9cie humana avolumam-se, textos e mais textos irrompem, corajosos, dissertando sobre o que far\u00edamos durante e ap\u00f3s o t\u00e3o temido fim. Estamos com medo. Esta \u00e9 nossa realidade. Com medo, mas instados. Acuados, mas de p\u00e9. Prontos para falar de n\u00f3s e de nossos sentimentos enquanto o rel\u00f3gio d\u00e1 sua volta derradeira. E \u00e9 nesse cen\u00e1rio permeado pela risco existencial e pela necessidade de falar que surge <i>Se eu tiver um amor no fim do mundo, por favor n\u00e3o me acorde<\/i>, pe\u00e7a que comp\u00f4s, no \u00faltimo dia 17 de Abril, a Mostra de Cenas de Atua\u00e7\u00e3o IV, do Departamento de Arte Dram\u00e1tica da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.<\/span><\/p>\n<p lang=\"en-US\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #808080; font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 10pt;\">Totalmente original, de autoria dos pr\u00f3prios atores &#8211; Damiel Brocker e Endrius Nu, a pe\u00e7a foi apresentada na Sala Qorpo Santo, no Campus Centro da UFRGS, em uma noite fria, t\u00e3o fria quanto um epis\u00f3dio de uma s\u00e9rie apocal\u00edptica daquelas que jazem aos montes em plataformas de <i>Streaming<\/i>. A obra, constru\u00edda em muito pouco tempo e frente a adversidades diversas vividas pelos artistas envolvidos, contava uma hist\u00f3ria simples: dois atores, dois namorados, refugiam-se na Qorpo Santo quando o mundo assiste, como dito em cena, seus \u201csistemas materiais e simb\u00f3licos\u201d ca\u00edrem ao ch\u00e3o, pesados, mortos.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_1705\" aria-describedby=\"caption-attachment-1705\" style=\"width: 640px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1705 size-large\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/se5-1024x1021.jpg\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"638\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/se5-1024x1021.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/se5-300x300.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/se5-150x150.jpg 150w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/se5-768x766.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/se5-750x748.jpg 750w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/se5.jpg 1361w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1705\" class=\"wp-caption-text\">Cr\u00e9ditos: Ren\u00ea de Palma<\/figcaption><\/figure>\n<p lang=\"en-US\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #808080; font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 10pt;\">Era uma pe\u00e7a teatral com sabor de final de festa. E a festa era a nossa. Contudo, n\u00e3o tratava-se do final normal, atravessado por intensas luzes estrobosc\u00f3picas e por m\u00fasicas que, despedindo-se, iniciam um progressivo baixar de volume. O final em quest\u00e3o era o pior de todos. O mais indesejado: o t\u00e9rmino abrupto, intenso, vazio. O findar que deixa como rastro apenas a luz inexistente e um oceano de bal\u00f5es dispersos. <\/span><\/p>\n<p lang=\"en-US\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #808080; font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 10pt;\">Nesse fim de festa, conhecemos Damiel e Endrius (Sim, os dois preservam seus reais nomes &#8211; uma feliz t\u00e1tica que revestiu a dramaturgia de mais realidade).O casal de atores, de amigos, de namorados, conduz a plateia, risonha e chorosa, por uma caminhada ora dos dois e ora individual. Uma caminhada sem ponto de chegada, limitada pela impossibilidade de sa\u00edda e pelo igualmente proporcional desejo desesperado de perman\u00eancia. Uma caminhada imposta. Uma caminhada amedrontada. Uma caminhada de sobreviv\u00eancia.<\/span><\/p>\n<figure id=\"attachment_1701\" aria-describedby=\"caption-attachment-1701\" style=\"width: 640px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1701 size-large\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/se2-1024x683.jpg\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"427\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/se2-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/se2-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/se2-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/se2-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/se2-750x500.jpg 750w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/se2.jpg 2048w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1701\" class=\"wp-caption-text\"><span style=\"font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 10pt; color: #808080;\">Cr\u00e9ditos: Ren\u00ea de Palma<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p lang=\"en-US\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #808080; font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 10pt;\">Com uma cenografia econ\u00f4mica, usu\u00e1ria de elementos t\u00e3o simpl\u00f3rios quanto o texto, como bal\u00f5es, pistolas de \u00e1gua, flores, cadeiras e mesas, a hist\u00f3ria se desenrola. Em um primeiro momento, conhecemos a fase inicial de toda perda &#8211; a insistente alegria. Damiel e Endrius narram seus primeiros dias ap\u00f3s o fim de tudo. Nessa fra\u00e7\u00e3o da obra, o amor dos dois \u00e9 desnudado, dominando o ambiente e escamoteando o armagedom. As cenas nascem e s\u00e3o ritmadas pela paix\u00e3o que une os dois jovens. N\u00e3o sentimos dor. N\u00e3o notamos que a festa acabou.<\/span><\/p>\n<p lang=\"en-US\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #808080; font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 10pt;\">Ent\u00e3o, o degrau seguinte. O mal exterior invade o santu\u00e1rio constru\u00eddo, lan\u00e7ando o casal na realidade. H\u00e1 medo, ansiedade. Vontade de sair e medo de permanecer s\u00f3. Um cabo de guerra ergue-se no meio da dupla, afastando e aproximando-os.. A insistente alegria desvanece frente a um novo cen\u00e1rio. Ao final\u00edssimo cen\u00e1rio. O fim exterior tamb\u00e9m pode ser o fim interior.<\/span><\/p>\n<p lang=\"en-US\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #808080; font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 10pt;\">E o t\u00e9rmino nos atinge. R\u00e1pido. Potente. Agressivo. Um salto para frente e fitamos o abandono. A solid\u00e3o. A sensa\u00e7\u00e3o de desnorteamento. A saudade que exala na aus\u00eancia de algu\u00e9m amado. Endrius desperta no palco e n\u00e3o encontra mais Damiel, seu parceiro de vida e ref\u00fagio. \u201cEle se foi h\u00e1 muito\u201d, diz o texto. Ao mesmo tempo e em complemento, a obra grita: \u201cele era real\u201d. A festa tinha seu encerramento.<\/span><\/p>\n<p lang=\"en-US\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #808080; font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 10pt;\">Quando as luzes da Sala Qorpo Santo retomam a normalidade, h\u00e1 \u00eaxtase no ar. <i>Se eu tiver um amor no fim do mundo, por favor n\u00e3o me acorde<\/i> havia, como diz o velho ditado, mirado no que visualizara e acertado o que n\u00e3o enxergara. Erguida a partir do medo que circula na sociedade humana sobre um eventual final de tudo o que tomamos como nosso mundo, a pe\u00e7a teatral foi al\u00e9m. Convertera o mote principal em uma premissa secund\u00e1ria, por\u00e9m igualmente essencial e reflexiva da macroestrutura. O findar vigente deixa de ser somente global, coletivo, social ou comunit\u00e1rio. O fim, o final, o t\u00e9rmino, torna-se tamb\u00e9m algo do campo pessoal, individual, restrito. N\u00e3o apenas o risco de extin\u00e7\u00e3o f\u00edsica ou semi\u00f3tica constitui uma espada de d\u00e2mocles. H\u00e1 o risco de se perder e de perder algu\u00e9m. H\u00e1 o risco de perder o amor. E h\u00e1, por consequ\u00eancia, medo. Medo de perdermos. Um medo que nos afeta, nos alerta e nos faz avan\u00e7ar.<\/span><\/p>\n<figure id=\"attachment_1702\" aria-describedby=\"caption-attachment-1702\" style=\"width: 640px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1702 size-large\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/se3-1024x683.jpg\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"427\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/se3-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/se3-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/se3-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/se3-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/se3-750x500.jpg 750w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/se3.jpg 2048w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1702\" class=\"wp-caption-text\"><span style=\"color: #808080;\">Cr\u00e9ditos: Ren\u00ea de Palma<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 10pt; color: #808080;\"><b>Sinopse: <\/b>A sa\u00edda est\u00e1, expressamente, proibida! L\u00e1 fora, no mundo, um caos\u2026 aqui dentro, no teatro, dois atores apaixonados um pelo outro se inventam todos os dias como sobreviv\u00eancia. At\u00e9 quando essa inven\u00e7\u00e3o pode durar? At\u00e9 quando esse ninho aguenta? Se o ser humano, natural como \u00e9, nasce, cresce e morre, todas coisas que partem dele n\u00e3o compreendem o mesmo ciclo? Entre amor, medo e saudade, o casal dan\u00e7a e brinca num intenso jogo de olhares que se contradizem e se complementam. Ali\u00e1s, eu sou Valqu\u00edria! A consci\u00eancia artificial desse teatro.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt; font-family: georgia, palatino, serif; color: #808080;\"><b>Ficha T\u00e9cnica:<\/b><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #808080; font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 10pt;\">Elenco: Damiel Brocker, Endrius Prates e Nairim Tomazini.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #808080; font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 10pt;\">Dire\u00e7\u00e3o: O grupo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #808080; font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 10pt;\">Dramaturgia: O grupo. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #808080; font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 10pt;\">Ilumina\u00e7\u00e3o: Bathista Freire e Li Pereira. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #808080; font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 10pt;\">Opera\u00e7\u00e3o de Som: Laura Fensterseifer.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #808080; font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 10pt;\">Fotos: Ren\u00ea de Palma<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #808080; font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 10pt;\">Orienta\u00e7\u00e3o: Patr\u00edcia Leonardelli<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt; color: #000000;\"><em>Qorpo Qr\u00edtico &#8211; Vol. 05, n. 13, agosto a novembro de 2023. ISSN 2675-4207.<\/em><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Existem dois tipos de medo. Um \u00e9 o paralisante, que congela suas entranhas e inibe qualquer rea\u00e7\u00e3o positiva. \u00c9 o medo comum, tradicional, fruto de infinitas transforma\u00e7\u00f5es gen\u00e9ticas e evolutivas. 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