{"id":1919,"date":"2024-09-04T15:41:13","date_gmt":"2024-09-04T18:41:13","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/?p=1919"},"modified":"2026-04-10T18:16:53","modified_gmt":"2026-04-10T21:16:53","slug":"nenhuma-dor-a-menos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/nenhuma-dor-a-menos\/","title":{"rendered":"Nenhuma dor a menos"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-medium wp-image-1920\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Design-sem-nome-2-fotor-2024090202453-300x292.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"292\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Design-sem-nome-2-fotor-2024090202453-300x292.png 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Design-sem-nome-2-fotor-2024090202453-768x749.png 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Design-sem-nome-2-fotor-2024090202453-750x731.png 750w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Design-sem-nome-2-fotor-2024090202453.png 988w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400; font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif;\">Assisti \u201cO instinto da Miscel\u00e2ngela em camadas\u201d, \u00fanica apresenta\u00e7\u00e3o da Mostra de Cenas de Atua\u00e7\u00e3o IV, turma B. Na entrada, muitos espectadores aguardavam e imaginavam como seria a mostra, at\u00e9 que as portas se abriram e o Prof Daniel Colin apareceu, nos explicando que a mostra seria constitu\u00edda por autocr\u00edticas performativas produzidas por cada aluno.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400; font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif;\">O p\u00fablico entra e o elenco j\u00e1 est\u00e1 em cena, depois as movimenta\u00e7\u00f5es levam ao preparo da primeira performance, e ent\u00e3o a imagem que vemos \u00e9 o corpo de um homem negro de costas, o Li Pereira. A luz lateral faz com que se forme um buraco de sombras em suas costas, nas m\u00e3os carrega tijolos que colidem e retornam ao p\u00f3, ele levanta as m\u00e3os como em uma revista policial, e esse corpo-alvo, carregado de estigma e culpa pensa sobre seu estado de corpo-mat\u00e9ria que s\u00f3 de existir tem tanta coisa atribu\u00edda a si. Um bom come\u00e7o, a performance sintetiza quest\u00f5es que est\u00e3o presentes em toda a mostra: o vazio, o desajuste, a marginaliza\u00e7\u00e3o e a fragmenta\u00e7\u00e3o entre o que se \u00e9 e como se \u00e9 percebido.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif;\"><span style=\"font-weight: 400;\">As cenas seguem e o p\u00fablico recebe um curr\u00edculo, \u00e9 o da Vivian Azevedo, ela se desdobra, se equilibrando em diversas fun\u00e7\u00f5es para cumprir com as expectativas do mercado de trabalho, esse conceito est\u00e1 no curr\u00edculo, no corpo, no texto, nos bambol\u00eas, na tentativa de perfei\u00e7\u00e3o ao executar cada movimento e responder cada quest\u00e3o da entrevista de emprego, simultaneamente. S\u00f3 que quanto mais coisas se consegue equilibrar mais esperam dela, que cai, e divide com o p\u00fablico seu cansa\u00e7o e revolta, acompanhados de movimentos desordenados, que parece nem terem sido premeditados, ufa, n\u00e3o \u00e9 momento de ser <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">clean<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">soft<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, coreografado, \u00e9 um grito com uma boa dose de insanidade que a vida contempor\u00e2nea fomenta e condena.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400; font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif;\">As cenas foram evocando meus pr\u00f3prios conflitos, a an\u00e1lise foi ficando mais pessoal e breve. Uma observa\u00e7\u00e3o com menos linhas n\u00e3o \u00e9 um dem\u00e9rito para a performance, \u00e9 um sintoma do quanto eu fiquei envolvida assistindo e tamb\u00e9m pensando a minha pr\u00f3pria autocr\u00edtica.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif;\"><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0<\/span> <span style=\"font-weight: 400;\">As pr\u00f3ximas performances tratavam de um sentimento denso, pesado, parece dif\u00edcil levantar, respirar, viver. Do ch\u00e3o uma das performers se dissolvia, essa sensa\u00e7\u00e3o de ver tudo o que construiu se esvaindo e n\u00e3o poder pegar de volta, materializada pelo croch\u00ea de Danielle Farias se desfazendo em linha. J\u00e1 com Rafaela Zwierzynski, a fisicaliza\u00e7\u00e3o desse sentimento era de correr contra o tempo, cadeiras que colegas enfileiravam em um ritmo cada vez mais r\u00e1pido at\u00e9 que seus p\u00e9s n\u00e3o acompanham, falta ch\u00e3o e falta ar.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400; font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif;\">A noite \u00e9 preenchida por duas drags apresentadoras, Victor Guimar\u00e3es e Ally Anller, bem Ana Maria Braga, no quadro &#8220;pratos e prantos&#8221;, misturando receitinhas e relatos de telespectadores, interagindo com o p\u00fablico que fica cada vez mais animado. At\u00e9 que os white people problems das cartinhas d\u00e3o lugar a problemas sem solu\u00e7\u00e3o, realidades amargas, que nem o ru\u00eddo do liquidificador e o cheiro de cebola s\u00e3o capazes de silenciar, principalmente quando os atores tiram a lace e mostram os bastidores da persona c\u00f4mica, dando o seu relato carregado de culpa e medo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400; font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif;\">A acidez segue na performance de um menino-homem, Rafael Dorneles, que manuseia uma toalha como se fosse a boneca com a qual gostaria de brincar, conta que quando crian\u00e7a foi aconselhado a brincar de bonecas escondido, d\u00e1 vontade de ver mais, de assistir ele livre, cheio dos brinquedos que quisesse, mas ele n\u00e3o \u00e9 mais s\u00f3 um menino, \u00e9 um homem que carrega um esconderijo dentro de si. E num sonho todo o elenco entra numa dan\u00e7a de afago em movimentos t\u00e3o suaves. A atmosfera de colabora\u00e7\u00e3o estava presente durante toda a mostra, as performances eram fortemente conectadas por transi\u00e7\u00f5es sutis e coerentes.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400; font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0Somos acordados, e as cenas seguintes chegam em camadas mais profundas das minhas ang\u00fastias, Clar\u00ed Tittoni vem em uma conversa muito franca, falando sobre as dificuldades de resgatar uma parte de sua ancestralidade para construir sua cena, a tia que viveu com outra mulher, o medo as fez viver de maneira t\u00e3o silenciosa que pouco ficou registrado, mas atrav\u00e9s dessa busca, percebe que fez um resgate de si. Clar\u00ed tamb\u00e9m tem medo, a performance fala, pelo menos para mim, do quanto de n\u00f3s morre cada vez que o medo nos impede, ele sangra, mas encontra uma fonte de \u00e1gua, se limpa e consegue seguir. A Polyana Mello tamb\u00e9m passa por uma limpeza, mas dessa vez uma s\u00e9rie de higieniza\u00e7\u00f5es, tentativas de (auto)controle que se tornam cada vez mais violentas, criando uma imagem forte do corpo de uma mulher que est\u00e1 ref\u00e9m de uma padroniza\u00e7\u00e3o, \u00e9 sufocada e certa forma o p\u00fablico tamb\u00e9m \u00e9.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400; font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif;\">Ent\u00e3o, a Fernanda Fiuza traz para cena um aconchego que eu estava precisando, um longo abra\u00e7o, na Nati, e compartilha lembran\u00e7as t\u00e3o carinhosas e nost\u00e1lgicas, mas que s\u00e3o atravessadas por um tipo de viol\u00eancia que se d\u00e1 de maneira sutil e at\u00e9 \u201csimp\u00e1tica\u201d, que faz quest\u00e3o de comentar, deixando marcado o que foge da expectativa, ela usa uma fita m\u00e9trica para tentar medir o que foi dito a ela, para quem disse talvez o impacto seja pequeno, para quem ouve o tamanho \u00e9 outro. N\u00e3o h\u00e1 como mensurar o quanto o conjunto dessas pequenas agress\u00f5es nos distancia de viver plenamente.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400; font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif;\">\u00c0s vezes, nos vemos escondidos dentro de tantas camadas para nos proteger que isso nos desconecta da vida, e somos capazes de absurdos para nos aproximar de um sentimento de vivacidade, Theo Troyack nos lembra que arte ajuda a compreender e lidar com isso, em uma performance auto retrato, reconstroi seus momentos mais sombrios, tenta sentir a vida pelo gosto, cheiro e dor. Lutamos para tentar viver como somos, seguimos, \u00e0s vezes sem saber porqu\u00ea, Nat\u00e1lia Izaguirre vive em cena essa batalha, com unhas, dentes e canivete, \u00e9 o instinto tentando se livrar das amarras, encontrando for\u00e7a e sentido em si e nas suas, seu corpo transp\u00f5e os limites do palco e, indo ao encontro da mostra, deixa evidente o quanto estamos restritos e anestesiados. E por fim, Daniel Colin entra em cena, abra\u00e7a seus alunos que se despedem deste semestre e do p\u00fablico.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400; font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif;\">\u00a0A apresenta\u00e7\u00e3o acaba e eu sigo pra casa, o medo de estar sozinha na rua \u00e9 um instinto que est\u00e1 mais dif\u00edcil de ignorar, no \u00f4nibus tento escrever e n\u00e3o consigo, ao chegar, abra\u00e7o meu travesseiro, como um abra\u00e7o de v\u00f3. Dormi, morri ou sonhei? um h\u00edbrido, acordo e ainda n\u00e3o abandonei a atmosfera densa, penso na minha autocr\u00edtica e nessa cr\u00edtica. Me frustro, sinto que n\u00e3o vai ser poss\u00edvel sintetizar o que vi, mas QUERO QUE SE ALGU\u00c9M QUE ESTEVE L\u00c1 LER ESSA CR\u00cdTICA PENSE QUE EU CONSEGUI EXPRESSAR TUDO O QUE FOI FEITO E SENTIDO NAQUELA NOITE EM UM TEXTO GOSTOSO DE LER. MAS TENHO MEDO DE SER MUITO PESSOAL OU IMPESSOAL, DE OPINAR DEMAIS OU DE MENOS. MEDO. EU QUERO QUE O LEITOR GOSTE DESSA CR\u00cdTICA E DE MIM, SEI QUE \u00c9 IMPOSS\u00cdVEL AGRADAR A TODOS MAS GOSTO DE ME PUNIR TENTANDO.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400; font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif;\">A MOSTRA \u00c9 UM SOCO NO EST\u00d4MAGO, QUANTO MAIS CAMADAS SE REVELAM MAIS \u00c1CIDO FICA, DEIXA UM GOSTO DE SANGUE NA BOCA o trabalho, cumpre com o papel cat\u00e1rtico da arte, p\u00f5e pra fora o que tentamos ignorar e incomoda. Agrade\u00e7o, \u00e9 importante MAS PUTA QUE PARIU, QUANDO ESSE GOSTO VAI PASSAR?<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Qorpo Qr\u00edtico \u2013 Vol. 6 , n. 16 , agosto a novembro de 2024. ISSN 2675-4207<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Assisti \u201cO instinto da Miscel\u00e2ngela em camadas\u201d, \u00fanica apresenta\u00e7\u00e3o da Mostra de Cenas de Atua\u00e7\u00e3o IV, turma B. 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