{"id":2024,"date":"2024-10-30T17:38:54","date_gmt":"2024-10-30T20:38:54","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/?p=2024"},"modified":"2026-04-10T18:18:09","modified_gmt":"2026-04-10T21:18:09","slug":"cabare-dos-horrores-a-ultima-sessao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/cabare-dos-horrores-a-ultima-sessao\/","title":{"rendered":"Cabar\u00e9 dos Horrores &#8211; a \u00faltima sess\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-weight: 400; font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif;\">No dia 23 de outubro, uma quarta-feira, tive a honra e a grata miss\u00e3o de compartilhar minhas percep\u00e7\u00f5es sobre a pe\u00e7a \u201cCabar\u00e9 dos Horrores\u201d, apresentada no TPE (Teatro, Pesquisa e Extens\u00e3o) da UFRGS. Desde o momento em que aceitei o convite, refleti sobre a import\u00e2ncia desse projeto de extens\u00e3o, que visa dar visibilidade \u00e0s produ\u00e7\u00f5es acad\u00eamicas dos estudantes de teatro, al\u00e9m de uma fun\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, como defendia o cen\u00f3grafo, diretor e cr\u00edtico teatral Ruggero Jacobbi, o teatro como um servi\u00e7o p\u00fablico.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400; font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif;\">Nesse contexto, surgem questionamentos fundamentais: quem \u00e9 o p\u00fablico de cabar\u00e9? Que espa\u00e7o ocupa esse cabar\u00e9? Quem se prop\u00f5e a criticar suas performances e com quais fundamentos?\u00a0 E a partir disso, que an\u00e1lise eu poderia tra\u00e7ar?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Ao me apresentar para a plateia, o professor e orientador Henrique Saidel conta uma descri\u00e7\u00e3o pessoal.<\/span> <span style=\"font-weight: 400;\">Essa introdu\u00e7\u00e3o \u00e9 bastante pertinente, pois escolho cuidadosamente quais informa\u00e7\u00f5es sobre mim s\u00e3o relevantes para que todos compreendam de qual lugar estou tecendo meus coment\u00e1rios. A partir da\u00ed escolho fazer uma pequena e errante reconstitui\u00e7\u00e3o da linha do tempo do espet\u00e1culo, mas procuro me ater mais a uma an\u00e1lise que se faz no tempo da pe\u00e7a tentando preservar as sensa\u00e7\u00f5es como espectadora. E fa\u00e7o uma associa\u00e7\u00e3o com o cabar\u00e9 pois \u00e9 uma express\u00e3o que permite e estimula o espectador a reagir e manifestar em voz alta no ato a influ\u00eancia sensorial daquilo que est\u00e1 sendo assistido.\u00a0<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400; font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif;\">Ao assistir ao espet\u00e1culo, busquei analisar sua constru\u00e7\u00e3o a partir de diversas \u201ccaixinhas\u201d que, na minha perspectiva de espectadora, me auxiliam a compreender a complexidade da experi\u00eancia c\u00eanica. N\u00f3s temos ent\u00e3o: linha do tempo, espa\u00e7o c\u00eanico, caracteriza\u00e7\u00e3o, paleta de cores, objetos c\u00eanicos , ilumina\u00e7\u00e3o, m\u00fasica, t\u00e9cnica, tato, olfato e paladar.<\/span><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-2040\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/Design-sem-nome-1-1024x1024.png\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"640\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/Design-sem-nome-1-1024x1024.png 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/Design-sem-nome-1-300x300.png 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/Design-sem-nome-1-150x150.png 150w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/Design-sem-nome-1-768x768.png 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/Design-sem-nome-1-750x750.png 750w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/Design-sem-nome-1.png 1080w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/p>\n<h1><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: 14pt;\"><b>Linha do tempo<\/b><\/span><\/h1>\n<p><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif;\"><span style=\"font-weight: 400;\">No <\/span><b>Ato 1<\/b><span style=\"font-weight: 400;\">, somos introduzidos a um conjunto de personagens peculiares no hall de entrada da mans\u00e3o dos horrores. A cena abre com a presen\u00e7a de algumas figuras monstruosas no palco, mas o destaque inicial \u00e9 El Luisito, cuja reputa\u00e7\u00e3o j\u00e1 havia sido antecipada pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o. Para aqueles menos atentos, a Dra. Fensterseifer assume a fun\u00e7\u00e3o de guia e o apresenta formalmente. A figura de El Luisito, o &#8216;ca\u00e7ador de muenstros&#8217;, \u00e9 um arqu\u00e9tipo cl\u00e1ssico, mas aqui reconfigurado em um contexto contempor\u00e2neo. Sua miss\u00e3o de eliminar o &#8216;monstruoso&#8217; revela-se amb\u00edgua, pois os monstros da pe\u00e7a s\u00e3o, em sua maioria, v\u00edtimas de uma sociedade que os marginaliza. A intera\u00e7\u00e3o entre El Luisito e os demais personagens, como a M\u00e1 e a n\u00e3o-bin\u00e1ria, questiona a pr\u00f3pria no\u00e7\u00e3o de &#8216;monstro&#8217; e &#8216;normalidade&#8217;.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400; font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif;\">El Luisito depois vai nos apresentar a La P, sua fiel lobisomem. A M\u00e1, uma M\u00e1 sensual, d\u00e1 seguimento, introduzindo os demais personagens: \u00c3rrrr, Dra. Correntes, casal cis-hetero, a pr\u00f3pria Dra. Fensterseifer, Tutancamona, Cupide, Eug\u00eanio Barba Eugenio, Dengosa, Sat\u00e2nica, Noiva Cad\u00e1ver. A M\u00e1 \u00e9 tamb\u00e9m, quase de maneira pedag\u00f3gica, orienta o p\u00fablico sobre as regras do cabar\u00e9 para uma melhor experi\u00eancia, onde a celebra\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s de gritos s\u00e3o bem-vindos, mas nenhuma express\u00e3o de preconceito ser\u00e1 tolerada.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400; font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif;\">A introdu\u00e7\u00e3o da figura n\u00e3o-bin\u00e1rie \u00e9 trazida \u00e0 cena por uma intelig\u00eancia artificial, criada a partir da intera\u00e7\u00e3o do casal cis-hetero, que, desorientado, busca um ref\u00fagio para passar a noite. J\u00e1 a apresenta\u00e7\u00e3o da dona Morte \u00e9 feita de maneira contundente, por meio da primeira elimina\u00e7\u00e3o de El Luisito: Dra Correntes.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400; font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif;\">Progressivamente, as hist\u00f3rias dos personagens v\u00e3o se entrela\u00e7ando com a trajet\u00f3ria de El Luisito, cuja motiva\u00e7\u00e3o \u00e9 destruir os \u201cmuenstros\u201d daquele local.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400; font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif;\">A M\u00e1 relembra \u00e0 Dra Correntes sobre o novo \u201cmonstrinho\u201d prometido. \u00c9 ent\u00e3o que o casal cis-hetero entra em cena. Esse casal ativa uma intelig\u00eancia artificial que, aos poucos, revela desejos e possibilidades sensuais, culminando em uma tentativa de representa\u00e7\u00e3o das identidades de g\u00eanero. Passamos, ent\u00e3o, por um desfile de performatividades: uma masculina, uma feminina e, por fim, a n\u00e3o-bin\u00e1rie, que desafia a binariedade tradicional com uma abordagem instigante.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400; font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif;\">El Luisito, nosso anti-her\u00f3i sensual, segue sua jornada, ap\u00f3s ceifar a vida de Tutanc\u00e2mon, La P se apaixona pela gatinha Dengosa. Ent\u00e3o \u00e9 revelada a alergia de El Luisito a gatos, momento que encerra o primeiro ato de forma cativante.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif;\"><span style=\"font-weight: 400;\">No <\/span><b>Ato 2<\/b><span style=\"font-weight: 400;\">, a trama se aprofunda com a morte de Sat\u00e2nica, que, em uma performance de <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">lipsync<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, interpreta uma carta dirigida a L\u00facifer, encerrando com um n\u00famero de tradu\u00e7\u00e3o simult\u00e2nea no melhor estilo r\u00e1dio continental. \u00c9 nesse momento que somos apresentados \u00e0 Cupide, cujo poder vai al\u00e9m do clich\u00ea rom\u00e2ntico. Cupide cria flechas personalizadas com diversas finalidades. \u00c9 atrav\u00e9s de uma dessas flechas que El Luisito, finalmente, se v\u00ea atingido pelo amor e encontra a M\u00e1.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400; font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif;\">O espet\u00e1culo apresenta algumas palavras-chave e imagens que, desde sua divulga\u00e7\u00e3o, oferecem pistas sobre o que podemos esperar. Ao longo dos dois atos, a proposta c\u00eanica desestabiliza as expectativas, explorando as possibilidades expressivas dos corpos dissidentes em cena. O riso e a transgress\u00e3o caminham lado a lado<\/span><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-2025\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/cabare-141-1024x683.jpg\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"427\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/cabare-141-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/cabare-141-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/cabare-141-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/cabare-141-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/cabare-141-2048x1365.jpg 2048w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/cabare-141-750x500.jpg 750w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/p>\n<h1><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: 14pt;\"><b>Espa\u00e7o C\u00eanico: Cenografia, Concretude e Simbolismo, Imagin\u00e1rio e Experi\u00eancia do Olhar<\/b><\/span><\/h1>\n<p><span style=\"font-weight: 400; font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif;\">O espet\u00e1culo come\u00e7a a moldar nosso imagin\u00e1rio desde a sua divulga\u00e7\u00e3o, preparando-nos para o ambiente que iremos encontrar. Ao adentrar o espa\u00e7o c\u00eanico, j\u00e1 somos recebidos por monstros oferecendo cacha\u00e7a, um gesto que imediatamente nos insere no universo proposto. No entanto, em certos momentos, h\u00e1 uma sensa\u00e7\u00e3o de abandono dos personagens, embora n\u00e3o se trate de algo que comprometa a experi\u00eancia geral.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400; font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif;\">H\u00e1 um esfor\u00e7o evidente em expandir o espa\u00e7o c\u00eanico para al\u00e9m do palco, envolvendo a plateia com elementos como as teias de aranha, criando uma atmosfera imersiva. No palco, o cen\u00e1rio \u00e9 composto por uma distribui\u00e7\u00e3o interessante de mesas e cadeiras: \u00e0 direita, em menor quantidade, e \u00e0 esquerda, em maior propor\u00e7\u00e3o. Ao fundo, uma penteadeira com alguns objetos divide a cena com um arco prateado adornado por cortinas, posicionado ao centro, enquanto um pequeno pratic\u00e1vel funciona como uma eleva\u00e7\u00e3o discreta. Chap\u00e9us pendurados completam o cen\u00e1rio, embora a adi\u00e7\u00e3o de mais elementos pudesse intensificar a verticalidade e enriquecer a composi\u00e7\u00e3o visual.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400; font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif;\">As cenas transcorrem como se estiv\u00e9ssemos em um hall, a entrada de uma mans\u00e3o. O arco prateado desempenha o papel de um portal, pelo qual o casal cis-hetero \u00e9 repetidamente sugado e, de forma evolutiva, convidado a se despir. A cada retorno, est\u00e3o com menos roupas e mais libertos. Em determinado momento, o arco prateado cai, o que me parece \u00f3timo pois constr\u00f3i a impress\u00e3o de que algo se encerrou ali. A partir desse ponto, sua aus\u00eancia n\u00e3o faz falta.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400; font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif;\">A penteadeira, por outro lado, parece subaproveitada, funcionando mais como um suporte para objetos do que como um elemento c\u00eanico ativo. J\u00e1 as mesas e cadeiras \u00e0 esquerda do espectador s\u00e3o manipuladas com intelig\u00eancia, desaparecendo e reaparecendo em cena por meio de movimentos fluidos, orquestrados por Cupide ou dona Morte. Essa transi\u00e7\u00e3o discreta, quase impercept\u00edvel, refor\u00e7a a ideia de que estamos presenciando personagens que habitam com naturalidade aquela mans\u00e3o e organizam sua pr\u00f3pria casa.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400; font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif;\">O uso do espa\u00e7o pelos atores \u00e9 not\u00e1vel. Eles se distribuem com precis\u00e3o, ocupando diferentes \u00e1reas de forma din\u00e2mica. Quando uma cena central est\u00e1 em andamento, outros personagens povoam o palco, funcionando como um coro que enriquece a a\u00e7\u00e3o principal.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-2026\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/cabare-292-1024x683.jpg\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"427\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/cabare-292-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/cabare-292-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/cabare-292-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/cabare-292-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/cabare-292-2048x1365.jpg 2048w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/cabare-292-750x500.jpg 750w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/p>\n<h1><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: 14pt;\"><b>Caracteriza\u00e7\u00e3o (maquiagem, figurino, cabelo)<\/b><\/span><\/h1>\n<p><span style=\"font-weight: 400; font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif;\">A caracteriza\u00e7\u00e3o de cada monstro no espet\u00e1culo, embora simples, \u00e9 bem pensada e funcional. Os clich\u00eas presentes, longe de enfraquecer a proposta, s\u00e3o abra\u00e7ados com\u00a0 efic\u00e1cia, construindo uma imagem que dialoga com o imagin\u00e1rio coletivo. Um exemplo not\u00e1vel \u00e9 &#8220;\u00c3rrrr&#8221;, cuja maquiagem detalhada e precisa nos ajuda a compreender essa figura n\u00e3o-bin\u00e1ria que se comunica sem palavras. A escolha de uma bota de salto alto em um p\u00e9 e outra sem salto no outro \u00e9 uma sacada est\u00e9tica que refor\u00e7a a singularidade do personagem. Outro destaque \u00e9 a M\u00e1, que encarna o clich\u00ea do preto e vermelho com maestria. Seu figurino \u00e9 uma obra em camadas, come\u00e7ando com um vestido vermelho de renda e brilhos, sapatos de salto e uma flor vermelha, elementos que se conectam \u00e0 cena final do tango. Desde o in\u00edcio, sua presen\u00e7a \u00e9 opulenta e dominadora, transmitindo sua import\u00e2ncia dentro daquele universo. Destaco a caracteriza\u00e7\u00e3o inteligente e engra\u00e7ada do Eug\u00eanio Barba que nos revela posteriormente um desdobrar da sua capa de trabalho. J\u00e1 a caracteriza\u00e7\u00e3o de dona Morte \u00e9 um exemplo perfeito de como o clich\u00ea pode ser utilizado com eleg\u00e2ncia e humor. O striptease com as luvas de caveira e a m\u00e1scara do P\u00e2nico culmina em uma revela\u00e7\u00e3o sensual e inesperada, acentuada por uma maquiagem com pequenos pontos de luz dourados que trazem frescor \u00e0 figura da Morte.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400; font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif;\">Ao refletir sobre a ordem de cria\u00e7\u00e3o entre figurino e personagem, surge a quest\u00e3o: o figurino d\u00e1 origem ao personagem ou o personagem ao figurino? Quanto dessa constru\u00e7\u00e3o \u00e9 uma escolha do ator e quanto pertence \u00e0 ess\u00eancia do personagem? As limita\u00e7\u00f5es impostas pelos figurinos tamb\u00e9m despertam curiosidade \u2013 at\u00e9 que ponto eles influenciam a performance? Outro aspecto fascinante \u00e9 a capacidade do figurino de aproximar o espectador, n\u00e3o apenas visualmente, mas tamb\u00e9m sensorialmente. A escolha das texturas, como brilhos, glitter, lantejoulas, veludo, renda, algod\u00e3o e pelos, proporciona uma concretude que enriquece a experi\u00eancia sensorial, criando uma ponte entre o visual e o t\u00e1til. O espectador, mesmo \u00e0 dist\u00e2ncia, pode &#8220;sentir&#8221; o figurino, ampliando a imers\u00e3o na atmosfera da cena.<\/span><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-2027\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/cabare-396-1024x683.jpg\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"427\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/cabare-396-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/cabare-396-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/cabare-396-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/cabare-396-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/cabare-396-2048x1365.jpg 2048w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/cabare-396-750x500.jpg 750w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/p>\n<h1><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: 14pt;\"><b>Paleta de cores<\/b><\/span><\/h1>\n<p><span style=\"font-weight: 400; font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif;\">A paleta de cores \u00e9 predominantemente escura, uma escolha comum que refor\u00e7a tanto a monstruosidade dos personagens quanto a atmosfera sombria e c\u00f4mica da mans\u00e3o. O preto se conecta diretamente \u00e0 ideia de mist\u00e9rio e sensualidade, dialogando n\u00e3o apenas com a est\u00e9tica dos monstros, mas tamb\u00e9m com o conceito de caixa preta do palco italiano, que envolve o espectador nesse universo sombrio.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400; font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif;\">No entanto, algumas escolhas crom\u00e1ticas rompem essa homogeneidade de maneira interessante. Um exemplo \u00e9 Cupide, cujo figurino se destaca em suaves tons de rosa, criando um contraste visual e simb\u00f3lico com o resto dos personagens. Outro destaque \u00e9 a noiva cad\u00e1ver, que surge toda vestida de branco, um contraste claro em rela\u00e7\u00e3o ao fundo predominantemente escuro. Essas escolhas de cores pontuam e enriquecem a narrativa visual, oferecendo respiros est\u00e9ticos.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h1><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: 14pt;\"><b>Objeto C\u00eanico: Tudo que N\u00e3o \u00c9 o Ator\/Bailarino<\/b><\/span><\/h1>\n<p><span style=\"font-weight: 400; font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif;\">Cada personagem \u00e9 associado a um objeto c\u00eanico que complementa sua constru\u00e7\u00e3o e presen\u00e7a em cena.\u00a0<\/span><\/p>\n<ul>\n<li style=\"font-weight: 400;\" aria-level=\"1\"><span style=\"font-weight: 400; font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif;\">El Luisito: espadita de bolitas<\/span><\/li>\n<li style=\"font-weight: 400;\" aria-level=\"1\"><span style=\"font-weight: 400; font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif;\">Noiva cad\u00e1ver: buqu\u00ea<\/span><\/li>\n<li style=\"font-weight: 400;\" aria-level=\"1\"><span style=\"font-weight: 400; font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif;\">Dengosa: bo\u00e1<\/span><\/li>\n<li style=\"font-weight: 400;\" aria-level=\"1\"><span style=\"font-weight: 400; font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif;\">La P: sem objetos<\/span><\/li>\n<li style=\"font-weight: 400;\" aria-level=\"1\"><span style=\"font-weight: 400; font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif;\">Doutora correntes: corrente<\/span><\/li>\n<li style=\"font-weight: 400;\" aria-level=\"1\"><span style=\"font-weight: 400; font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif;\">Casal cis: lanternas e chale<\/span><\/li>\n<li style=\"font-weight: 400;\" aria-level=\"1\"><span style=\"font-weight: 400; font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif;\">Dra. Fensterseifer: cartas e ba\u00fazinho<\/span><\/li>\n<li style=\"font-weight: 400;\" aria-level=\"1\"><span style=\"font-weight: 400; font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif;\">Sabrina Sat\u00e2nica: capa, microfone<\/span><\/li>\n<li style=\"font-weight: 400;\" aria-level=\"1\"><span style=\"font-weight: 400; font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif;\">Dona morte: n\u00e3o tinha objeto espec\u00edfico<\/span><\/li>\n<li style=\"font-weight: 400;\" aria-level=\"1\"><span style=\"font-weight: 400; font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif;\">N\u00e3o bin\u00e1rie: n\u00e3o tinha objeto espec\u00edfico<\/span><\/li>\n<li style=\"font-weight: 400;\" aria-level=\"1\"><span style=\"font-weight: 400; font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif;\">\u00c3rrrr: n\u00e3o tinha objeto espec\u00edfico<\/span><\/li>\n<li style=\"font-weight: 400;\" aria-level=\"1\"><span style=\"font-weight: 400; font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif;\">M\u00e1, a vampira: faquinha<\/span><\/li>\n<li style=\"font-weight: 400;\" aria-level=\"1\"><span style=\"font-weight: 400; font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif;\">TutancaMona: espelhinho e mesa<\/span><\/li>\n<li style=\"font-weight: 400;\" aria-level=\"1\"><span style=\"font-weight: 400; font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif;\">Eug\u00eanio Barba: navalha<\/span><\/li>\n<li style=\"font-weight: 400;\" aria-level=\"1\"><span style=\"font-weight: 400; font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif;\">Cupide: flechas<\/span><\/li>\n<\/ul>\n<p><span style=\"font-weight: 400; font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif;\">El Luisito, por exemplo, carrega uma \u201cespadita de bolitas\u201d que, apesar de sua apar\u00eancia fr\u00e1gil e c\u00f4mica, se revela uma aliada fiel e surpreendentemente eficaz em seus objetivos de ca\u00e7ador. Outro objeto que merece aten\u00e7\u00e3o s\u00e3o as flechas de Cupide, introduzidas no final, \u201csalvam&#8221; alguns personagens dos seus desafinos. A hist\u00f3ria de cada flecha e seu processo de cria\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m \u00e9 explorada de maneira criativa. Em contraste, a navalha do Eug\u00eanio Barba, apesar de n\u00e3o roubar a cena, desempenha bem seu papel. Durante o combate, entretanto, houve uma oportunidade perdida de enfatizar ainda mais o aspecto visual da c\u00e2mera lenta. O espelhinho de Tutancamona, por sua vez, poderia ter sido maior e mais explorado. Sua presen\u00e7a em cena foi sutil demais, deixando a sensa\u00e7\u00e3o de que o objeto, apesar de pertinente, n\u00e3o teve o destaque visual ou simb\u00f3lico que poderia alcan\u00e7ar.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400; font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif;\">Entre os outros personagens, h\u00e1 uma simplicidade nas escolhas de objetos que tem pap\u00e9is claros dentro da narrativa, mas n\u00e3o necessariamente provocam momentos de grande impacto.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-2028\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/cabare-451-1024x683.jpg\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"427\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/cabare-451-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/cabare-451-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/cabare-451-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/cabare-451-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/cabare-451-2048x1365.jpg 2048w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/cabare-451-750x500.jpg 750w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/p>\n<h1><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: 14pt;\"><b>Ilumina\u00e7\u00e3o\u00a0<\/b><\/span><\/h1>\n<p><span style=\"font-weight: 400; font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif;\">Penso na ilumina\u00e7\u00e3o sempre em sintonia com a cenografia, figurino e objetos, formando uma est\u00e9tica que refor\u00e7a as atmosferas e simbolismos de cada cena. Ao considerar a ilumina\u00e7\u00e3o, gosto de refletir sobre o plano de luz adotado e os crit\u00e9rios para a escolha das cores, tons e intensidades que marcam os diferentes momentos da narrativa.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Destaco na ilumina\u00e7\u00e3o a cena da Sat\u00e2nica que apesar de usar a mesma cor de seu figurino \u2013 o vermelho \u2013, a ilumina\u00e7\u00e3o cria um visual interessante com o uso do canh\u00e3o de luz. O vermelho, longe de saturar a cena, potencializa o impacto visual e colabora com o tom dram\u00e1tico e exagerado da personagem. Al\u00e9m disso, gosto da seriedade com que a tradu\u00e7\u00e3o simult\u00e2nea da m\u00fasica estilo r\u00e1dio continental, itapema, ipanema, antena 1 foi conduzida. Por outro lado, senti falta de uma ilumina\u00e7\u00e3o mais din\u00e2mica em cenas energ\u00e9ticas, como o <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">lipsync <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">de Tutancamona. A aus\u00eancia de uma luz que acompanhasse a intensidade da performance deixou a cena menos vibrante do que parecia ser.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400; font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif;\">Outro ponto positivo que observei foi o uso da luz nos momentos de entrada de Dona Morte. A ilumina\u00e7\u00e3o, especialmente com a escolha do tom \u00e2mbar, ajuda a marcar essas transi\u00e7\u00f5es de forma clara e eficiente, guiando o olhar do espectador e criando um efeito de antecipa\u00e7\u00e3o. Esse recurso constroi a presen\u00e7a de Dona Morte em cena, proporcionando uma leitura visual imediata de sua import\u00e2ncia.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400; font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif;\">No geral, a ilumina\u00e7\u00e3o teve uma fun\u00e7\u00e3o essencial na constru\u00e7\u00e3o da narrativa visual do espet\u00e1culo, enfatizando momentos-chave e dialogando com as escolhas de cenografia e figurino.\u00a0<\/span><\/p>\n<h1><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: 14pt;\"><b>M\u00fasica\u00a0<\/b><\/span><\/h1>\n<p><span style=\"font-weight: 400; font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif;\">Ao refletir sobre a m\u00fasica no espet\u00e1culo, busco abord\u00e1-la a partir de uma perspectiva decolonial, onde a trilha sonora e os sons n\u00e3o s\u00e3o meros elementos de fundo, desconexos da cena, mas sim um dos elementos que nos convida a observar a alian\u00e7a que se estabelece com outros sistemas c\u00eanicos. \u00c9 interessante notar que o espet\u00e1culo incorpora pitadas de musical, o que enriquece ainda mais essa rela\u00e7\u00e3o entre m\u00fasica e narrativa. As escolhas de trilha sonora parecem atuar com objetivos est\u00e9ticos e po\u00e9ticos, impactando diretamente a constru\u00e7\u00e3o dos personagens e a percep\u00e7\u00e3o do espectador. Nesse sentido, percebo que as escolhas de trilha sonora trabalharam a favor da pe\u00e7a, contribuindo para a ambienta\u00e7\u00e3o e a profundidade emocional das cenas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Entretanto, senti que, em alguns momentos, o som estava um pouco baixo, especialmente durante as cenas de <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">lipsync<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">. Isso prejudicou a imers\u00e3o e a energia que esses momentos poderiam ter, tornando a experi\u00eancia menos vibrante do que eu esperava.\u00a0<\/span><\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-2029\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/cabare-446-1024x683.jpg\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"427\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/cabare-446-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/cabare-446-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/cabare-446-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/cabare-446-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/cabare-446-2048x1365.jpg 2048w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/cabare-446-750x500.jpg 750w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/p>\n<h1><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: 14pt;\"><b>T\u00e9cnica (movimento, gesto, dan\u00e7a)<\/b><\/span><\/h1>\n<p><span style=\"font-weight: 400; font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif;\">Observo a influ\u00eancia da dan\u00e7a nos deslocamentos e postura dos atores. A coreografia aparece na sua natureza mais abrangente onde os artistas se utilizam das suas estrat\u00e9gias e m\u00e9todos de organiza\u00e7\u00e3o. O elenco opera numa dimens\u00e3o coreogr\u00e1fica que pensa sobre o fluxo do corpo de baile que atua em conjunto com o n\u00famero de corpos pensando sobre o posicionamento destes corpos no espa\u00e7o c\u00eanico. A dan\u00e7a se revela nas caminhadas, paradas e nas partituras de movimento. E a coreografia \u00e9 observ\u00e1vel nas escolhas espaciais, na composi\u00e7\u00e3o dos fluxos de deslocamento e nas velocidades de movimento. Embora o elenco mencione a inclus\u00e3o repentina e quase infantil de uma coreografia, no seu conceito mais comum de organizar corpos e movimentos, destaco o sucesso no desejo de propor movimentos sincronizados que acentuam a cena.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400; font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif;\">Neste momento quero falar especificamente sobre a inclus\u00e3o do tango, uma dan\u00e7a da qual sou grande f\u00e3 e que j\u00e1 explorei em alguns de meus trabalhos. O tango \u00e9 uma express\u00e3o desafiadora, especialmente para aqueles que, como n\u00f3s, admiramos, mas n\u00e3o tangueiros.\u00a0 A primeira conex\u00e3o que fiz foi com os trabalhos de dan\u00e7a de sal\u00e3o queer da artista, diretora, roteirista porto alegrense Paola Vasconselos. Sua proposta \u201cpretende romper com os padr\u00f5es heteronormativos\u201d. Especificamente seu trabalho com Tango Queer onde prop\u00f5e pensar a pr\u00e1tica do tango numa perspectiva pol\u00edtica sobre diversidade, representa\u00e7\u00f5es do feminino, identidades de g\u00eanero, amplia\u00e7\u00e3o e democratiza\u00e7\u00e3o da pr\u00e1tica. Al\u00e9m disso, a sensualidade presente no tango nos ajuda a entendera complexa rela\u00e7\u00e3o de avers\u00e3o e desejo de El Luisito com M\u00e1. Ela ocupa esse espa\u00e7o do proibido e ex\u00f3tico, enquanto El Luisito percebe que seu desejo por ela se op\u00f5e ao seu destino de exterminar monstros. O tango orquestra a queda dessas barreiras entre os personagens, proporcionando uma narrativa de amor que se revela ap\u00f3s um momento significativo em que M\u00e1 morde El Luisito, afetando ambos: El Luisito pelo veneno de M\u00e1 e M\u00e1 pelo sangue de El Luisito. Estamos acompanhando ao vivo uma hist\u00f3ria de amor, de repente?\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400; font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif;\">Aprecio a troca das condu\u00e7\u00f5es e as m\u00e3os n\u00e3o-hesitantes quando necess\u00e1rio. Tudo vai nos encaminhando para o cl\u00edmax dessa cena que \u00e9 a concretiza\u00e7\u00e3o desse desejo por ambos os personagens. Ainda que o cl\u00edmax pudesse ter me excitado mais como espectadora ou entregado mais energia, \u00e9 compreens\u00edvel para o espectador que \u00e9 a proposta do grupo naquele momento.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400; font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif;\">N\u00e3o entregam t\u00e9cnica, pois n\u00e3o prometem e nem deveriam. Entregam um desejo bem desenhado pelo tango o que \u00e9 suficiente para me contemplar.<\/span><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-2030\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/cabare-464-1024x683.jpg\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"427\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/cabare-464-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/cabare-464-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/cabare-464-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/cabare-464-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/cabare-464-2048x1365.jpg 2048w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/cabare-464-750x500.jpg 750w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/p>\n<h1><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: 14pt;\"><b>Tato (textura)<\/b><\/span><\/h1>\n<p><span style=\"font-weight: 400; font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif;\">Como proporcionar uma experi\u00eancia t\u00e1til atrav\u00e9s da cena?\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400; font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif;\">Acho que o grupo soluciona a quest\u00e3o, com os m\u00e9todos do cabar\u00e9 e burlesco, quando fazem trocas com a plateia. O tato, um dos sentidos mais presentes entre os atores que prop\u00f5em trocas sensuais entre si e a plateia, \u00e9, na minha percep\u00e7\u00e3o, caracter\u00edstica fundamental de conex\u00e3o. Pavis (2015) salienta que \u201cuma vez tocado n\u00e3o somente pela gra\u00e7a teatral mas tamb\u00e9m pelo corpo do ator\/atriz, o espectador modifica radicalmente sua abordagem do espet\u00e1culo.\u201d E o toque f\u00edsico mesmo, na minha percep\u00e7\u00e3o, \u00e9 favorecido pela express\u00e3o art\u00edstica escolhida pelo grupo. O cabar\u00e9 abre espa\u00e7o para uma troca mais horizontal com o espectador. Uma conex\u00e3o que \u00e9 composta pelo olhar, pela audi\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m pelo toque.<\/span><\/p>\n<h1><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: 14pt;\"><b>Olfato e paladar<\/b><\/span><\/h1>\n<p><span style=\"font-weight: 400; font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif;\">O olfato e o paladar s\u00e3o os sentidos mais dependentes da provoca\u00e7\u00e3o da imagina\u00e7\u00e3o sensorial do espectador, na minha percep\u00e7\u00e3o. Algo que pergunto a mim e as minhas bailarinas quando estamos em processo criativo \u00e9 justamente como podemos evocar sensa\u00e7\u00f5es olfativas e gustativas na aus\u00eancia f\u00edsica desses est\u00edmulos? Entrar no teatro j\u00e1 provoca sensa\u00e7\u00f5es olfativas, aquele \u201ccheiro de teatro\u201d que por vezes dificulta mergulhar no ambiente que est\u00e1 sendo proposto pelo espet\u00e1culo, mas tamb\u00e9m estar\u00e1 presente no perfume de cada personagem e no cheiro da fuma\u00e7a da m\u00e1quina que ajuda a desenhar a luz. J\u00e1 a cacha\u00e7a oferecida na entrada satisfaz a fun\u00e7\u00e3o de integrar o paladar \u00e0 experi\u00eancia do p\u00fablico. O olfato e o paladar s\u00e3o sentidos que, para efetivamente contribuir no processo de ficcionaliza\u00e7\u00e3o, precisam ser combinados com outros elementos da cena.\u00a0<\/span><\/p>\n<h1><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: 14pt;\"><b>Considera\u00e7\u00f5es finais<\/b><\/span><\/h1>\n<p><span style=\"font-weight: 400; font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif;\">Acredito que os atores nas coxias poderiam ter um pouco mais de aten\u00e7\u00e3o durante a apresenta\u00e7\u00e3o. \u00c9 fundamental que estejam sempre pr\u00f3ximos das pernas para evitar apari\u00e7\u00f5es indesejadas e que mantenham o estado c\u00eanico, mesmo quando n\u00e3o est\u00e3o em cena. Destaco o casal hetero cis branco que convenceu plenamente, mas gostaria de ter visto mais a presen\u00e7a deles no segundo ato.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400; font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif;\">A cr\u00edtica de espet\u00e1culos de cabar\u00e9 requer um olhar sens\u00edvel e atento \u00e0s m\u00faltiplas camadas que envolvem essa express\u00e3o art\u00edstica \u00fanica, misturando humor, sensualidade, provoca\u00e7\u00e3o e cr\u00edtica social. No contexto do TPE, a presen\u00e7a de um espet\u00e1culo de cabar\u00e9 \u00e9 fundamental para ampliar as possibilidades de express\u00e3o art\u00edstica no espa\u00e7o acad\u00eamico,\u00a0 tamb\u00e9m cria um espa\u00e7o onde a cr\u00edtica pode explorar as nuances desse g\u00eanero que convida o espectador a refletir e se envolver ativamente. O espet\u00e1culo reafirma a import\u00e2ncia de o TPE acolher e incentivar produ\u00e7\u00f5es que desafiam as conven\u00e7\u00f5es, preservando o esp\u00edrito de experimenta\u00e7\u00e3o e liberdade caracter\u00edstico do cabar\u00e9.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif;\"><b>Cabar\u00e9 dos Horrores<\/b><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400; font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif;\">Sinopse:<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400; font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif;\">El Luisito El Pistolero acompanhado por sua fiel mascote La P, uma lobisomem domesticada, embarca numa noite alucinante em busca do seu grande objetivo: matar todos os \u201cmuenstros\u201d do mundo. Em sua aventura her\u00f3ica, al\u00e9m de encontrar os monstrinhos mais carism\u00e1ticos do Brasil, El Luisito tem diversos encontros com figuras como O Cupido e a Dona Morte, e percebe que aquilo que parecia apenas uma mans\u00e3o, se converte em um grande Cabar\u00e9 dos Horrores. Um espet\u00e1culo com muita cantoria e pouca roupa!<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif;\"><b>Cabar\u00e9 dos Horrores<\/b><\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif;\"><b>Ficha T\u00e9cnica:<\/b><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400; font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif;\">Elenco: Adami (\u00c3rrrrr), Al\u00ea Agnes (Sabrina Sat\u00e2nica), Andrielli Machado (La P), Camila Consi (Dra Correntes), Clarissa Bock (TutancaMona),<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400; font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif;\">Eduard Pereira (N\u00e3o-binarie), Gabi Fernandes (Noiva Cad\u00e1ver), Helena Moreira (Dona Morte), Larissa Lima (Mulher Cis-hetero),<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400; font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif;\">Laura Fensterseifer (Dra Fensterseifer), Leonardo Mello (Eug\u00eanio Barba), Marcelo Stravalacci (Homem Cis-H\u00e9tero), Marina<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400; font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif;\">Lopes (M\u00e1), P\u00e2mela Walter (Luisito, El Pistolero), Sofhia Lovison (Dengosa) e Victoria Muraro (Cupide).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400; font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif;\">Dire\u00e7\u00e3o: O grupo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400; font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif;\">Dramaturgia: O grupo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400; font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif;\">Ilumina\u00e7\u00e3o: Kim Pereira.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400; font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif;\">Opera\u00e7\u00e3o de Som: J\u00falia Bueno e Vit\u00f3ria Stifft.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400; font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif;\">Fotos: Fae de Souza\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400; font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif;\">Orienta\u00e7\u00e3o: Henrique Saidel;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400; font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif;\">Classifica\u00e7\u00e3o indicativa: 16 anos<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif;\"><b>Refer\u00eancia:<\/b><\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif;\"><span style=\"font-weight: 400;\">PAVIS, Patrice. <\/span><b>A an\u00e1lise dos espet\u00e1culos<\/b><span style=\"font-weight: 400;\">: teatro, m\u00edmica, dan\u00e7a, dan\u00e7a-teatro, cinema. 2. ed. S\u00e3o Paulo: Editora Perspectiva, 2015. Tradu\u00e7\u00e3o de: S\u00e9rgio S\u00e1lvia Coelho.<\/span><\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif;\"><span style=\"font-weight: 400;\">VASCONCELOS, Paola. Artigos. <\/span><b>Paola Vasconcelos \u2013 Arte em Movimento<\/b><span style=\"font-weight: 400;\">. Dispon\u00edvel em:<\/span><a href=\"https:\/\/paolavasconcelos.wordpress.com\/artigos\/\"> <span style=\"font-weight: 400;\">https:\/\/paolavasconcelos.wordpress.com\/artigos\/<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">. Acesso em: 25 out. 2024.<\/span><\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Qorpo Qr\u00edtico \u2013 Vol. 6 , n. 16 , agosto a novembro de 2024. ISSN 2675-4207<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No dia 23 de outubro, uma quarta-feira, tive a honra e a grata miss\u00e3o de compartilhar minhas percep\u00e7\u00f5es sobre a pe\u00e7a \u201cCabar\u00e9 dos Horrores\u201d, apresentada no TPE (Teatro, Pesquisa e Extens\u00e3o) da UFRGS. 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