{"id":2440,"date":"2025-08-27T20:50:40","date_gmt":"2025-08-27T23:50:40","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/?p=2440"},"modified":"2026-04-10T18:58:16","modified_gmt":"2026-04-10T21:58:16","slug":"elocubracoes-de-ana-amelia-nunes-sobre-a-peca-vestido-de-noiva-de-nelson-rodrigues","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/elocubracoes-de-ana-amelia-nunes-sobre-a-peca-vestido-de-noiva-de-nelson-rodrigues\/","title":{"rendered":"ELOCUBRA\u00c7\u00d5ES de ANA AM\u00c9LIA NUNES sobre a pe\u00e7a: VESTIDO DE NOIVA de NELSON RODRIGUES"},"content":{"rendered":"<p>Sugest\u00e3o: Fa\u00e7a a leitura ouvindo Garota de Ipanema e tomando uma caipirinha.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Sem Malandragem na Po\u00e9tica Carioca<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Eu fico imaginando a burguesia carioca sentada na plateia para ver: Vestido de Noiva, de Nelson Rodrigues. Aquela fam\u00edlia t\u00edpica, perfumada, roupa bacana, elegante, que n\u00e3o teve \u201cproblema\u201d em pagar o ingresso e se achando a nata da HIGH SOCIETY aguardando a cortina abrir.<\/p>\n<p>E quando ela abre, a plateia \u00e9 golpeada por um cen\u00e1rio tridimensional e fica tentando entender o que est\u00e1 acontecendo ali. Imersa entre sons aleat\u00f3rios, blackouts, e outros efeitos sonoros e visuais, a plateia \u00e9 transportada \u00e0 mente de Ala\u00edde e, n\u00e3o sabe bem como, d\u00e1 de cara com uma prostituta (que pecado! Sacril\u00e9gio!), uma pessoa com um rosto coberto por um v\u00e9u, uma hist\u00f3ria n\u00e3o linear e um homem que tem o seu semblante figurado em todos os outros homens.<\/p>\n<p>Para subverter a ordem, ele \u00e9 o coadjuvante. Porque, finalmente, o homem em quest\u00e3o n\u00e3o ser\u00e1 o centro da pe\u00e7a. Pode ser o centro da canalhice, pode estar em qualquer lar, pode, at\u00e9 mesmo, ser o seu marido (oh! Que horror!), e Pedro ser\u00e1 s\u00f3 mais um canalha que vive pela sociedade carioca, SOLTINHO DA SILVA.<\/p>\n<p>Pedros fazem o que quiserem, inclusive ter duas mulheres (n\u00e3o me diga! \u2013 Estupor).<\/p>\n<p>Contudo, o foco n\u00e3o est\u00e1 nele. Est\u00e1 em tr\u00eas mulheres, e, o mais impressionante: na mente de uma delas, que ora alucina, ora esquece, ora lembra fragmentos de sua vida transpassada pela dor de um falso amor (o amor pode ser falso ent\u00e3o?).<\/p>\n<p>A nata carioca, de boca aberta, teve que engolir suas pr\u00f3prias mazelas jogadas na sua cara! Quietinha, tentou absorver o que estava acontecendo no palco entre efeitos cinematogr\u00e1ficos e o puro suco da hipocrisia.<\/p>\n<p>E Nelson Rodrigues parou o Brasil!<\/p>\n<p>E fez mais ainda: rompeu com a forma de fazer teatro que era vigente na \u00e9poca.<\/p>\n<p>A burguesia carioca, sem saber, foi imersa em um novo patamar, uma nova possibilidade de ver a si mesma e, de quebra, presenciou o nascimento de um novo teatro brasileiro. \u00c9 mole?<\/p>\n<p>Imagino o quanto isso foi instigante, revelador, inc\u00f4modo e tragic\u00f4mico. Pois eram duas noivas, e n\u00e3o uma! Eram v\u00e1rios Pedros contendo um patriarcado inteiro. E, para piorar, uma prostituta mais velha que \u201ccome um novinho\u201d! S\u00e9culo XXI? N\u00e3o! Bem antes! E pode isso?<\/p>\n<p>A\u00ed est\u00e1 a quest\u00e3o elementar:<\/p>\n<p>Pode<\/p>\n<p>ou<\/p>\n<p>n\u00e3o pode?<\/p>\n<p>Assim? Abertamente?<\/p>\n<p>A cariocada aguarda, estatelada na cadeira, o desfecho final.<\/p>\n<p>Ala\u00edde morre ou n\u00e3o morre no atropelamento?<\/p>\n<p>Quem morre, afinal?<\/p>\n<p>O sonho de L\u00facia em casar-se com Pedro?<\/p>\n<p>Nem pode ter o rosto descoberto, assim como seu amor, que s\u00f3 existe por debaixo dos panos. Bela met\u00e1fora! \u00c0 L\u00facia, s\u00f3 resta o v\u00e9u da noiva. Nem o noivo pode ter, nem a legitimidade, nem a possibilidade de um casamento vestida de branco, imaculada.<\/p>\n<p>Quem \u00e9 a prostituta, afinal?<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, a \u00fanica que morre \u00e9 Madame Clessi. Essa, sim, viveu um amor de verdade, CORRESPONDIDO. T\u00e3o apaixonado, ao ponto de gerar ci\u00fames, o que lhe foi fatal.<\/p>\n<p>Imagino o esc\u00e2ndalo e o burburinho na plateia, desconfort\u00e1vel com tais verdades, e chocada com a brutalidade nas rela\u00e7\u00f5es amorosas apresentadas no palco, refletindo como um espelho seus pr\u00f3prios comportamentos il\u00edcitos, escancarados nas personagens que Nelson trouxe ao palco.<\/p>\n<p>Quantas mortes contabilizar\u00edamos s\u00f3 a\u00ed?<\/p>\n<p>Madame Clessi, v\u00edtima de feminic\u00eddio de um amor correspondido (que era o sonho das duas irm\u00e3s, mas que s\u00f3 a prostituta teve, virando assim \u00edcone para Ala\u00edde e causando desgosto em ambas).<\/p>\n<p>At\u00e9 L\u00facia morreu, metaforicamente, por n\u00e3o conseguir subir no altar de jeito nenhum, mesmo querendo muito, porque n\u00e3o tem como vestir um vestido branco digno, honrado, trof\u00e9u das mulheres criadas para casar. S\u00f3 o v\u00e9u! Somente um espectro de noiva. H\u00e1 uma mancha vermelha que marca sua alma feminina, perdida entre o desejo, a culpa e a perda da sua irm\u00e3.<\/p>\n<p>Ou a sobrevida de Ala\u00edde, alucinando, desmemoriada, entre len\u00e7ois ileg\u00edtimos e carregados de tens\u00e3o dram\u00e1tica e psicol\u00f3gica?<\/p>\n<p>Quem morre primeiro: Ala\u00edde, Madame Clessi, ou a mulher de v\u00e9u, que nem rosto pode ter?<\/p>\n<p>S\u00f3 Pedro n\u00e3o morre.<\/p>\n<p>Pedro est\u00e1 em toda parte. No garoto de 17 anos que mata por ci\u00fames. Nos amantes escondidos e suas trai\u00e7\u00f5es veladas. No altar. No quarto. Nos len\u00e7\u00f3is alheios. E o pior: no seu lar.<\/p>\n<p>Como a sociedade carioca engoliu isso?<\/p>\n<p>A seco.<\/p>\n<p>Goela abaixo.<\/p>\n<p>Quando a pe\u00e7a acabou, houve sil\u00eancio. S\u00f3 depois, bem depois, houve aplauso. Primeiro, a plateia teve que absorver o que viu.<\/p>\n<p>Entrar na mente de Ala\u00edde foi uma chicotada! D\u00e1 at\u00e9 para sentir o cheiro das flores m\u00f3rbidas.<\/p>\n<p>A alucina\u00e7\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o era s\u00f3 dela. A plateia foi jogada de um lado para o outro, entre a realidade, a mem\u00f3ria e a hipocrisia dos seus pr\u00f3prios lares.<\/p>\n<p>Junto com eles, o Brasil entrou no modernismo, chacoalhado nas poltronas do Teatro Municipal do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>Nem BBB.<\/p>\n<p>Nem novela das 20h.<\/p>\n<p>Nem psicose.<\/p>\n<p>Causou tanto!<\/p>\n<p>Nelson Rodrigues lacrou!<\/p>\n<p>Jogou todo mundo na cama, tirou len\u00e7ol e desnudou uma sociedade inteira!<\/p>\n<p>Sem internet.<\/p>\n<p>Sem redes sociais.<\/p>\n<p>Nelson fez, pela dramaturgia brasileira, o que ningu\u00e9m tinha feito ainda. E tem mais, influenciou o que veio depois.<\/p>\n<p>Pe\u00e7a FASCINANTE!<\/p>\n<p>Cen\u00e1rio, figurino, personagens, conte\u00fado e um final apote\u00f3tico e grandiloquente.<\/p>\n<p>Magaldi classificou o texto como psicol\u00f3gico, embora Nelson achasse ter escrito uma trag\u00e9dia.<\/p>\n<p>Seria um del\u00edrio s\u00f3 dos cariocas, ent\u00e3o? A densidade das rela\u00e7\u00f5es expostas no palco denotam que n\u00e3o.<\/p>\n<p>Em forma c\u00eanica, a sociedade sofreu um processo de decanta\u00e7\u00e3o. Ela, que j\u00e1 estava traumatizada, fraturada e embaralhada, tentava sobreviver ao passado que teve antes de 1943. Os impasses que a modernidade estava tendo que lidar, foi Nelson que colocou no palco, entre uma perspectiva dram\u00e1tica, tumultuada e arquitetada em um plano visual rigoroso, cinematogr\u00e1fico e eloquente, para densificar o cen\u00e1rio carioca. A po\u00e9tica est\u00e1 na escritura c\u00eanica, provocativa, que foge da linearidade e da sociedade.<\/p>\n<p>A insatisfa\u00e7\u00e3o de Ala\u00edde a tornou v\u00edtima de si mesma e impulsionou seu fim tr\u00e1gico. A desmesura se d\u00e1 em roubar o namorado da sua irm\u00e3, sentenciando a sua falha tr\u00e1gica.<\/p>\n<p>Surgir\u00e1, portanto, um conflito entre o desejo e o dever. E, justamente, ser\u00e1 no seio familiar que a trag\u00e9dia vai aflorar, consolidando, por assim dizer, a premissa aristot\u00e9lica.<\/p>\n<p>Interessante ressaltar que o reconhecimento vir\u00e1 na mulher de v\u00e9u, e n\u00e3o em outras personagens, comprometendo assim a sua felicidade conjugal. Nota-se nas mulheres da pe\u00e7a uma profunda solid\u00e3o, imersas em uma vida mesquinha e um desejo irrefre\u00e1vel de romper com a moralidade convencional.<\/p>\n<p>Se Ziembinski sabia que os recursos inovadores que usou nos tr\u00eas planos narrativos ia dar nesse SUCESSO todo para a pe\u00e7a, e consagrar Nelson Rodrigues, eu n\u00e3o sei.<\/p>\n<p>Nem S\u00e1bato e nem Nelson imaginavam tamanho sucesso.<\/p>\n<p>A montagem inaugurou uma nova po\u00e9tica, combinando texto dram\u00e1tico, encena\u00e7\u00e3o e dire\u00e7\u00e3o espetaculares.<\/p>\n<p>Vestido de Noiva \u00e9 uma obra-prima da dramaturgia brasileira.<\/p>\n<p>O jornalista Magaldi percebeu isso.<\/p>\n<p>Nelson trouxe a m\u00eddia jornal\u00edstica para o palco quando houve o atropelamento de Ala\u00edde, que foi noticiado, provavelmente, no jornal: O Globo, onde trabalhou. Sua vis\u00e3o jornal\u00edstica teve influ\u00eancia em suas pe\u00e7as teatrais. Aparecendo na presen\u00e7a dos jornalistas, redatores e rep\u00f3rteres na trama carioca.<\/p>\n<p>Fico imaginando a felicidade de ser amiga desses caras! Entre um chopp e outro no bar: Garota de Ipanema, poder rir da burguesia carioca e escrachar com a sua \u00edndole.<\/p>\n<p>Nem mesmo o funk teria tantos subterf\u00fagios para explorar quanto teve Nelson.<\/p>\n<p>Entre uma batatinha frita e outra, sairia um samba-enredo magn\u00edfico, em que Jo\u00e3ozinho Trinta ganharia a apoteose com maestria!<\/p>\n<p>\u00c9 muito ZIRIGUIDUM e n\u00e3o \u00e9 pouco SIRICUTICO!<\/p>\n<p>Viva o Brasil e sua dramaturgia, t\u00e3o sensacional quanto o futebol, com a diferen\u00e7a que Nelson Rodrigues sempre ganha!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u201cOlha que coisa mais linda<\/p>\n<p>mais cheia de gra\u00e7a<\/p>\n<p>a dramaturgia de Nelson Rodrigues<\/p>\n<p>estonteando a cariocadaaaaaa<\/p>\n<p>\u00c9 a coisa mais linda para atuar!<\/p>\n<p>AH! A beleza que existe!<\/p>\n<p>A beleza que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 minha!<\/p>\n<p>A beleza que passa sozinha<\/p>\n<p>AH! Se ela soubesse<\/p>\n<p>Que quando ela passa<\/p>\n<p>O mundo inteirinho se enche de gra\u00e7a<\/p>\n<p>E fica mais lindo por causa do teatro brasileiro\u201d<\/p>\n<figure id=\"attachment_2441\" aria-describedby=\"caption-attachment-2441\" style=\"width: 640px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-2441 size-large\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/vestido43-scaled-e1756338609490-1024x1024.jpg\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"640\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/vestido43-scaled-e1756338609490-1024x1024.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/vestido43-scaled-e1756338609490-300x300.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/vestido43-scaled-e1756338609490-150x150.jpg 150w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/vestido43-scaled-e1756338609490-768x768.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/vestido43-scaled-e1756338609490-1536x1536.jpg 1536w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/vestido43-scaled-e1756338609490-750x750.jpg 750w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/vestido43-scaled-e1756338609490.jpg 1732w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-2441\" class=\"wp-caption-text\">Vestido de Noiva, 1943<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas<\/p>\n<p>CAPELOZI, Lays. C. Nelson Rodrigues e S\u00e1bato Magaldi: Muito al\u00e9m de Cr\u00edticas. In: XXVII SIMP\u00d3SIO NACIONAL DE HIST\u00d3RIA, 2013, Natal. Caderno de Resumos -Sess\u00e3o dos Graduandos, 2013. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.snh2013.anpuh.org\/resources\/anais\/27\/1364738929_ARQUIVO_NelsoneSabato-ANPUH2013.pdf.<\/p>\n<p>FARIA, C. Cr\u00edtica: Vestido de Noiva, dire\u00e7\u00e3o Ione de Medeiros. Dispon\u00edvel em: https:\/\/eurbanidade.com.br\/critica-vestido-de-noiva-direcao-ione-de-medeiros\/.<\/p>\n<p>LEDUR, D. F. . Tr\u00e1gico e trag\u00e9dia em Vestido de Noiva. 2012. (Apresenta\u00e7\u00e3o de Trabalho\/Comunica\u00e7\u00e3o). Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.ufrgs.br\/ppgletras\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/LEDURDaniela.pdf.<\/p>\n<p>LINN FALC\u00c3O. Vestido de Noiva de Nelson Rodrigues Cia Grutta Teatral. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=PmA_gg9SriY.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Qorpo Qr\u00edtico \u2013 vol. 7, n. 19 \u2013 agosto a novembro de 2025. ISSN 2675-4207<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sugest\u00e3o: Fa\u00e7a a leitura ouvindo Garota de Ipanema e tomando uma caipirinha. &nbsp; Sem Malandragem na Po\u00e9tica Carioca &nbsp; Eu fico imaginando a burguesia carioca sentada na plateia para ver: Vestido de Noiva, de Nelson Rodrigues. 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