{"id":2653,"date":"2026-01-28T20:55:55","date_gmt":"2026-01-28T23:55:55","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/?p=2653"},"modified":"2026-04-10T19:12:26","modified_gmt":"2026-04-10T22:12:26","slug":"o-profeta-louco-critica-institucional-metafisica-difusa-e-os-limites-ideologicos-da-catarse","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/o-profeta-louco-critica-institucional-metafisica-difusa-e-os-limites-ideologicos-da-catarse\/","title":{"rendered":"O Profeta Louco: cr\u00edtica institucional, metaf\u00edsica difusa e os limites ideol\u00f3gicos da catarse"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: 14pt;\">A encena\u00e7\u00e3o de O Profeta Louco constr\u00f3i uma cr\u00edtica consistente \u00e0s institui\u00e7\u00f5es e \u00e0s formas hist\u00f3ricas de domina\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica que sequestram a figura de Jesus, sobretudo a partir da tradi\u00e7\u00e3o eurocrist\u00e3. A obra tensiona o uso pol\u00edtico do sagrado, a moraliza\u00e7\u00e3o dos corpos \u2014 de homens e mulheres \u2014 e a exclus\u00e3o sistem\u00e1tica da mulher das decis\u00f5es institucionais que moldaram o cristianismo enquanto aparato de poder. Nesse sentido, a pe\u00e7a se afirma como uma cr\u00edtica \u00e9tica vigorosa \u00e0s formas de autoridade que transformaram o s\u00edmbolo religioso em instrumento de controle.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: 14pt;\">A dramaturgia estabelece di\u00e1logos entre Jesus e personagens seculares, elaborando rela\u00e7\u00f5es com Deus, Maria, Jos\u00e9 e Maria Madalena em cenas esteticamente potentes, por vezes contradit\u00f3rias, mas profundamente significativas. Essas rela\u00e7\u00f5es n\u00e3o aparecem como s\u00edmbolos est\u00e1ticos, mas como campos de tens\u00e3o atravessados por afetos, recusas e disputas de sentido. A figura de Maria surge como a encarna\u00e7\u00e3o da dor resignada \u2014 aquela que carrega o sofrimento hist\u00f3rico como destino \u2014 enquanto Jesus insiste em recusar essa dor como sua, deslocando o sacrif\u00edcio da esfera da inevitabilidade para a da imposi\u00e7\u00e3o institucional. J\u00e1 Maria Madalena \u00e9 apresentada como mulher liberta, mulher com alma e desejo, capaz de tensionar \u2014 e at\u00e9 equalizar simbolicamente \u2014 decis\u00f5es que a Igreja historicamente interditou \u00e0s mulheres. Em uma das cenas centrais da pe\u00e7a, o desejo de Jesus por Maria Madalena n\u00e3o se constr\u00f3i como erotiza\u00e7\u00e3o corporal vulgar, mas como desejo romanticamente sexual, humano e \u00e9tico, rompendo frontalmente com a tradi\u00e7\u00e3o de dessexualiza\u00e7\u00e3o moralizante do Cristo institucional.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: 14pt;\">\u00c9 ineg\u00e1vel que essa abordagem abre brechas importantes para o reconhecimento de m\u00faltiplas formas de opress\u00e3o que se aproximam da estrutura social: o apagamento hist\u00f3rico da mulher enquanto sujeito pol\u00edtico, o machismo institucional da Igreja Cat\u00f3lica, a pederastia, a moraliza\u00e7\u00e3o dos corpos e a viol\u00eancia simb\u00f3lica travestida de f\u00e9. No entanto, a obra permanece situada num entrelugar t\u00edpico de uma ideologia p\u00f3s-moderna teatral. Embora nomeie diversas opress\u00f5es, ela n\u00e3o as organiza a partir de uma determina\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica material e dial\u00e9tica. A corrup\u00e7\u00e3o da figura de Jesus aparece majoritariamente como deturpa\u00e7\u00e3o moral, como rapto simb\u00f3lico operado por sujeitos ou grupos conspirat\u00f3rios que manipulam o discurso e produzem sua \u201cverdade\u201d por meio de rela\u00e7\u00f5es de poder \u2014 num registro claramente foucaultiano.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: 14pt;\">Esse enquadramento produz um limite incontorn\u00e1vel: se o problema central \u00e9 o discurso, a solu\u00e7\u00e3o impl\u00edcita tende a ser uma reculturaliza\u00e7\u00e3o, uma troca de gest\u00e3o simb\u00f3lica, uma reeduca\u00e7\u00e3o da percep\u00e7\u00e3o. Ocorre que tal explica\u00e7\u00e3o n\u00e3o se sustenta historicamente de forma plena. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel compreender a reprodu\u00e7\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es religiosas \u2014 sejam elas cat\u00f3licas, evang\u00e9licas, esp\u00edritas ou de matriz africana \u2014 apenas como manipula\u00e7\u00e3o discursiva, pois a pr\u00f3pria realidade hist\u00f3rica revela a presen\u00e7a de agentes religiosos que participam ou n\u00e3o desses processos conforme sua posi\u00e7\u00e3o concreta na estrutura social. A religi\u00e3o n\u00e3o se adapta apenas ao discurso dominante: ela se ajusta ao Estado, \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o material da sociedade, aos princ\u00edpios do ac\u00famulo e \u00e0s formas de viol\u00eancia engendradas pela luta de classes. Reduzir sua fun\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o moral de indiv\u00edduos ou grupos \u00e9 insuficiente para explicar sua persist\u00eancia e sua capacidade de reconfigura\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: 14pt;\">A compreens\u00e3o desses limites se aprofunda quando situamos minimamente o campo hist\u00f3rico no qual se formam o autor e a tradutora-diretora da obra, n\u00e3o como biografias individuais, mas como trajet\u00f3rias produzidas por contextos materiais espec\u00edficos. Paco Bernal, nascido em 1972, forma-se subjetivamente no interior da transi\u00e7\u00e3o espanhola p\u00f3s-franquista. Sua inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia atravessam a d\u00e9cada de 1980, per\u00edodo marcado pela consolida\u00e7\u00e3o institucional da democracia espanhola sem ruptura estrutural com o regime anterior. A perman\u00eancia das elites, o pacto do esquecimento, a aus\u00eancia de justi\u00e7a hist\u00f3rica e a transforma\u00e7\u00e3o da cr\u00edtica pol\u00edtica em cr\u00edtica moral e cultural constituem o horizonte no qual sua gera\u00e7\u00e3o se forma. Nesse contexto, a palavra reaparece publicamente, mas deslocada do enfrentamento estrutural direto, frequentemente canalizada para den\u00fancias simb\u00f3licas, \u00e9ticas e institucionais. A figura do profeta emerge, assim, como aquele que fala demais num mundo que reaprendeu a falar, mas n\u00e3o a escutar estruturalmente.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: 14pt;\">Suzi Martinez, por sua vez, forma-se artisticamente no Brasil sob a ditadura civil-militar e atravessa o processo de abertura pol\u00edtica igualmente marcado pela aus\u00eancia de ruptura estrutural. O teatro brasileiro das d\u00e9cadas de 1970 e 1980 ensina a dizer por met\u00e1fora, deslocamento e alegoria \u2014 n\u00e3o como escolha est\u00e9tica livre, mas como necessidade hist\u00f3rica diante da censura e da repress\u00e3o. Ao estudar na Espanha no final dos anos 1980, Suzi encontra um campo cultural an\u00e1logo: um pa\u00eds rec\u00e9m-sa\u00eddo de uma ditadura, atravessado por intensa efervesc\u00eancia est\u00e9tica e simult\u00e2nea conten\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Sua tradu\u00e7\u00e3o e dire\u00e7\u00e3o de O Profeta Louco n\u00e3o se configuram, portanto, como mera media\u00e7\u00e3o lingu\u00edstica, mas como reconhecimento de um solo hist\u00f3rico compartilhado, ainda que vivido a partir de posi\u00e7\u00f5es nacionais distintas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: 14pt;\">Essa converg\u00eancia hist\u00f3rica ajuda a explicar a for\u00e7a da encena\u00e7\u00e3o, sua clareza \u00e9tica e sua efic\u00e1cia cr\u00edtica, sem que isso implique, necessariamente, uma supera\u00e7\u00e3o dos limites ideol\u00f3gicos do campo no qual autor e tradutora se formam. O que a obra oferece, com precis\u00e3o e honestidade, \u00e9 uma cr\u00edtica institucional potente e uma den\u00fancia \u00e9tica sens\u00edvel; o que ela n\u00e3o alcan\u00e7a \u00e9 a explicita\u00e7\u00e3o das determina\u00e7\u00f5es materiais que tornam essas institui\u00e7\u00f5es historicamente necess\u00e1rias. \u00c9 nesse intervalo \u2014 entre pot\u00eancia cr\u00edtica e limite estrutural \u2014 que O Profeta Louco se inscreve e se revela.<\/span><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: 14pt;\">Atua\u00e7\u00e3o, luz e m\u00fasica: media\u00e7\u00e3o c\u00eanica entre pot\u00eancia e esgotamento<\/span><\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: 14pt;\">A interpreta\u00e7\u00e3o de Juliano P\u00e4ssini apresenta um conjunto de momentos de grande pot\u00eancia c\u00eanica, mas tamb\u00e9m oscila\u00e7\u00f5es que interferem diretamente na media\u00e7\u00e3o est\u00e9tica e cr\u00edtica da obra. Essas oscila\u00e7\u00f5es n\u00e3o invalidam o trabalho do ator; ao contr\u00e1rio, revelam tra\u00e7os de uma forma\u00e7\u00e3o predominantemente pr\u00e1tica, marcada pela experimenta\u00e7\u00e3o em companhias, projetos audiovisuais e pela forte presen\u00e7a da com\u00e9dia autoral, cujos efeitos aparecem tanto como pot\u00eancia quanto como limite no interior de um drama comediado. Essa media\u00e7\u00e3o n\u00e3o se d\u00e1 apenas pela atua\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m pela articula\u00e7\u00e3o entre corpo, voz, luz e m\u00fasica, elementos que constroem conjuntamente o campo simb\u00f3lico da encena\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: 14pt;\">H\u00e1 cenas em que a partitura corporal \u00e9 extremamente precisa. O momento inicial, em que o ator se apresenta pendurado na cruz, \u00e9 exemplar: a tens\u00e3o constru\u00edda na m\u00e3o cria uma ilus\u00e3o f\u00edsica convincente de aprisionamento e peso, sugerindo de maneira eficaz a condi\u00e7\u00e3o de crucifica\u00e7\u00e3o. Trata-se de uma a\u00e7\u00e3o corporal bem lapidada, em que gesto, esfor\u00e7o e imagem convergem com clareza e rigor, sustentados pela composi\u00e7\u00e3o visual e pelo enquadramento luminoso da cena.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: 14pt;\">Do ponto de vista est\u00e9tico, a obra articula luz e m\u00fasica como figuras arquet\u00edpicas bem definidas: a luz associada \u00e0 m\u00fasica constr\u00f3i a presen\u00e7a de Deus; essa mesma rela\u00e7\u00e3o ilumina a figura de Maria; e o objeto, em di\u00e1logo com luz e som, marca a presen\u00e7a simb\u00f3lica de Maria Madalena. Essas escolhas s\u00e3o claras, comunicativas e eficazes, organizando a leitura simb\u00f3lica do espet\u00e1culo e orientando a percep\u00e7\u00e3o do p\u00fablico quanto \u00e0s rela\u00e7\u00f5es que Jesus estabelece em cena.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: 14pt;\">Em contraste com esses momentos de precis\u00e3o, surgem passagens em que a atua\u00e7\u00e3o se aproxima de um improviso pouco conscientizado \u2014 caracter\u00edstica recorrente de processos formativos baseados na cena viva e na experimenta\u00e7\u00e3o cont\u00ednua em processos fluidos que abdicam da ideia de um \u201cproduto finalizado\u201d. Um exemplo significativo \u00e9 a cena em que o ator menciona um torcicolo e a dor associada a essa condi\u00e7\u00e3o f\u00edsica. A fala sugere um estado corporal espec\u00edfico, mas a partitura seguinte o desmente: o corpo n\u00e3o sustenta o tensionamento anunciado, nem h\u00e1 continuidade dessa condi\u00e7\u00e3o ao longo das a\u00e7\u00f5es subsequentes. O efeito \u00e9 o de uma informa\u00e7\u00e3o lan\u00e7ada e logo abandonada, como res\u00edduo de ensaio que n\u00e3o se integra organicamente \u00e0 estrutura da cena. Ou esse estado deveria ser sustentado ao longo da sequ\u00eancia, ou a fala deveria ser suprimida, visto que, sendo acess\u00f3ria, apenas cria um ru\u00eddo desnecess\u00e1rio.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: 14pt;\">Essa mesma l\u00f3gica de sustenta\u00e7\u00e3o parcial aparece tamb\u00e9m no uso da m\u00fasica. Embora a repeti\u00e7\u00e3o sonora possa ser compreendida \u2014 e at\u00e9 justificada \u2014 como estrat\u00e9gia de desgaste, cansa\u00e7o e estranhamento, em conson\u00e2ncia com a insist\u00eancia discursiva do profeta, h\u00e1 momentos em que a monotonia sonora j\u00e1 cumpriu sua fun\u00e7\u00e3o sem\u00e2ntica e passa a limitar a experi\u00eancia sensorial. Pensar amplitudes, contrastes entre agudos e graves ou varia\u00e7\u00f5es t\u00edmbricas dentro da mesma proposta sonora poderia ampliar a pot\u00eancia da encena\u00e7\u00e3o sem diluir sua inten\u00e7\u00e3o cr\u00edtica, permitindo que a obra tensionasse seus pr\u00f3prios recursos com maior risco formal.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: 14pt;\">Outro aspecto relevante diz respeito \u00e0 ambiguidade entre drama e com\u00e9dia. A obra se estrutura como um drama comediado, e o ator, vindo de uma trajet\u00f3ria vinculada \u00e0 com\u00e9dia, domina com seguran\u00e7a recursos fundamentais desse registro \u2014 timing, inflex\u00e3o, desvio e ironia. No entanto, em alguns momentos, a atua\u00e7\u00e3o n\u00e3o deixa suficientemente claro se determinadas inflex\u00f5es s\u00e3o propostas como ironia consciente ou como aprofundamento dram\u00e1tico. Isso produz uma divis\u00e3o percept\u00edvel na plateia: parte do p\u00fablico se inclina ao riso, n\u00e3o por descompromisso com a proposta, mas por n\u00e3o haver clareza quanto ao estatuto da a\u00e7\u00e3o c\u00eanica naquele instante.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: 14pt;\">Essa ambiguidade, assim como a repeti\u00e7\u00e3o musical, n\u00e3o \u00e9 em si um problema \u2014 ambos podem ser recursos potentes. O que se observa, por\u00e9m, \u00e9 que em certos momentos esses elementos n\u00e3o parecem plenamente resolvidos, gerando um curto-circuito entre inten\u00e7\u00e3o e recep\u00e7\u00e3o. O risco, nesses casos, \u00e9 que o riso opere como descompress\u00e3o quando a cena demandaria sustenta\u00e7\u00e3o cr\u00edtica ou aprofundamento da tens\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: 14pt;\">H\u00e1 ainda passagens em que a atua\u00e7\u00e3o se aproxima de uma sobreatua\u00e7\u00e3o, com gestos e inflex\u00f5es exageradas que n\u00e3o necessariamente correspondem \u00e0 densidade do discurso enunciado. Quando o texto convoca reflex\u00e3o hist\u00f3rica, contradi\u00e7\u00e3o e conflito ideol\u00f3gico, esse excesso expressivo pode reduzir a complexidade da escuta, aproximando a cena de uma caricatura involunt\u00e1ria. Trata-se de momentos pontuais, mas que impactam a coer\u00eancia entre corpo, palavra e composi\u00e7\u00e3o visual.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: 14pt;\">No que diz respeito \u00e0 voz, embora a proje\u00e7\u00e3o seja suficiente, a articula\u00e7\u00e3o clara e a compreens\u00e3o garantida \u2014 especialmente num espa\u00e7o de boa ac\u00fastica como o Teatro Sim\u00f5es Lopes Neto \u2014, nota-se uma limita\u00e7\u00e3o na explora\u00e7\u00e3o das possibilidades expressivas vocais do ator. A voz n\u00e3o alcan\u00e7a, em alguns momentos, a intensidade din\u00e2mica que poderia alcan\u00e7ar. N\u00e3o se trata de volume ou audibilidade, mas de sustenta\u00e7\u00e3o expressiva, varia\u00e7\u00e3o din\u00e2mica e aprofundamento da rela\u00e7\u00e3o entre voz, corpo e sentido. Considerando que o ator \u00e9 o principal mediador entre o conte\u00fado dramat\u00fargico e o p\u00fablico, essa conten\u00e7\u00e3o vocal se configura como uma escolha est\u00e9tica que dialoga com sua forma\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica, mas que se mostra pass\u00edvel de cr\u00edtica no contexto espec\u00edfico da obra.<\/span><br \/>\n<span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: 14pt;\">Em alguns momentos, a pe\u00e7a parece \u201cchover\u201d sobre a pr\u00f3pria concep\u00e7\u00e3o est\u00e9tica, ficando aprisionada a uma l\u00f3gica j\u00e1 estabelecida \u2014 tanto na atua\u00e7\u00e3o quanto no uso reiterado da m\u00fasica e da composi\u00e7\u00e3o visual \u2014 quando poderia tensionar esses mesmos recursos com maior abertura ao risco formal.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: 14pt;\">Em s\u00edntese, a media\u00e7\u00e3o c\u00eanica de O Profeta Louco se constr\u00f3i entre momentos de grande precis\u00e3o \u2014 ancorados na composi\u00e7\u00e3o corporal, na clareza arquet\u00edpica da luz e na organiza\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica da cena \u2014 e outros em que improvisa\u00e7\u00f5es n\u00e3o plenamente elaboradas, ambival\u00eancias entre com\u00e9dia e drama ou esgotamento de recursos expressivos interferem na clareza da proposta. Nomear essas oscila\u00e7\u00f5es n\u00e3o \u00e9 desqualificar o trabalho, mas compreend\u00ea-lo como parte ativa da est\u00e9tica e da media\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica da obra, revelando como escolhas formativas e composicionais produzem efeitos concretos na recep\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: 14pt;\">Catarse, afeto e os limites da cr\u00edtica<\/span><\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: 14pt;\">O Profeta Louco \u00e9 uma obra excelente dentro do que se prop\u00f5e. Suas concep\u00e7\u00f5es est\u00e3o bem dialogadas, dramaturgicamente resolvidas e esteticamente comunicativas. A pe\u00e7a enfrenta temas complexos \u2014 sexualidade, g\u00eanero, f\u00e9 e poder \u2014 com coragem e consist\u00eancia, produzindo uma cr\u00edtica institucional clara e uma den\u00fancia \u00e9tica sens\u00edvel. Nesse percurso, a encena\u00e7\u00e3o mobiliza afetos de forma intensa e eficaz.<\/span><br \/>\n<span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: 14pt;\">A pe\u00e7a produz catarse \u2014 tanto no ator quanto no p\u00fablico. O afeto mobilizado, num sentido espinosano, \u00e9 real e potente: o p\u00fablico levanta, ovaciona, reconhece a entrega do ator Juliano e se deixa atravessar pela den\u00fancia. No entanto, essa mesma catarse tende a fechar o circuito cr\u00edtico, gerando satisfa\u00e7\u00e3o e al\u00edvio. O gesto de reconhecimento coletivo funciona como descarga afetiva, mas tamb\u00e9m como ponto de encerramento, produzindo a sensa\u00e7\u00e3o de que algo foi resolvido.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: 14pt;\">N\u00e3o se trata aqui de uma cr\u00edtica moral \u00e0 obra, tampouco de desqualificar sua pot\u00eancia emp\u00edrica. O que se reconhece \u00e9 um limite estrutural. Ao permanecer situada no campo ideol\u00f3gico p\u00f3s-moderno \u2014 e n\u00e3o no hist\u00f3rico-material dial\u00e9tico, marxista \u2014, a cr\u00edtica da pe\u00e7a n\u00e3o incorpora a determina\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica material como eixo organizador. Por isso, algumas perguntas permanecem inevitavelmente em aberto: o que explica a perman\u00eancia dessas formas de domina\u00e7\u00e3o para al\u00e9m do discurso? Por que a figura de Jesus se mant\u00e9m funcional a projetos t\u00e3o distintos ao longo da hist\u00f3ria? Que rela\u00e7\u00e3o entre religi\u00e3o, classe e poder n\u00e3o se resolve por meio de uma simples mudan\u00e7a cultural?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: 14pt;\">A figura de Jesus, nesse sentido, n\u00e3o \u00e9 apenas sequestrada por pessoas ou grupos espec\u00edficos: ela \u00e9 utilizada historicamente por estruturas determinadas, em contextos concretos, por sujeitos formados em condi\u00e7\u00f5es materiais espec\u00edficas. Essas utiliza\u00e7\u00f5es seguem par\u00e2metros pass\u00edveis de generaliza\u00e7\u00e3o, decorrentes da estrutura prim\u00e1ria das formas de viol\u00eancia engendradas pela luta de classes. \u00c9 exatamente nesse ponto que a obra encontra seu limite \u2014 nunca como falha, mas como resultado de uma aplica\u00e7\u00e3o metodol\u00f3gica insatisfat\u00f3ria frente \u00e0 complexidade hist\u00f3rica do fen\u00f4meno que aborda.<\/span><br \/>\n<span style=\"font-family: tahoma, arial, helvetica, sans-serif; font-size: 14pt;\">Reconhecer esse limite \u00e9 um gesto de rigor cr\u00edtico. Ele n\u00e3o diminui o empirismo possibilitado pela pe\u00e7a levada a p\u00fablico no dia 27\/01\/2026; ao contr\u00e1rio, a situa com precis\u00e3o. Permitindo que a cr\u00edtica avance para al\u00e9m da catarse, recolocando a arte em sua rela\u00e7\u00e3o indissoci\u00e1vel com a ideologia e com a hist\u00f3ria.<\/span><\/p>\n<figure id=\"attachment_2654\" aria-describedby=\"caption-attachment-2654\" style=\"width: 734px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-2654 size-full\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/WhatsApp-Image-2026-01-28-at-19.37.33.jpeg\" alt=\"Vilmar Carvalho\" width=\"734\" height=\"734\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/WhatsApp-Image-2026-01-28-at-19.37.33.jpeg 734w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/WhatsApp-Image-2026-01-28-at-19.37.33-300x300.jpeg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/WhatsApp-Image-2026-01-28-at-19.37.33-150x150.jpeg 150w\" sizes=\"(max-width: 734px) 100vw, 734px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-2654\" class=\"wp-caption-text\">Vilmar Carvalho<\/figcaption><\/figure>\n<p><span style=\"font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 14pt;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-2655\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/WhatsApp-Image-2026-01-28-at-19.39.12-1024x683.jpeg\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"427\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/WhatsApp-Image-2026-01-28-at-19.39.12-1024x683.jpeg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/WhatsApp-Image-2026-01-28-at-19.39.12-300x200.jpeg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/WhatsApp-Image-2026-01-28-at-19.39.12-768x512.jpeg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/WhatsApp-Image-2026-01-28-at-19.39.12-1536x1024.jpeg 1536w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/WhatsApp-Image-2026-01-28-at-19.39.12-750x500.jpeg 750w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/WhatsApp-Image-2026-01-28-at-19.39.12.jpeg 1600w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 14pt;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-2656\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/WhatsApp-Image-2026-01-28-at-19.42.37-1024x666.jpeg\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"416\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/WhatsApp-Image-2026-01-28-at-19.42.37-1024x666.jpeg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/WhatsApp-Image-2026-01-28-at-19.42.37-300x195.jpeg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/WhatsApp-Image-2026-01-28-at-19.42.37-768x499.jpeg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/WhatsApp-Image-2026-01-28-at-19.42.37-1536x998.jpeg 1536w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/WhatsApp-Image-2026-01-28-at-19.42.37-750x488.jpeg 750w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/WhatsApp-Image-2026-01-28-at-19.42.37.jpeg 1600w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 14pt;\">Sobre a pessoa que escreveu a cr\u00edtica:<\/span><br \/>\n<span style=\"font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 14pt;\">Rodrigo SanCarlo (nome art\u00edstico de Rodrigo dos S. Carlosso) \u00e9 mulher trans, comunista, professora de canto e multiartista. Formada em M\u00fasica Popular pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), possui passagens pelo canto l\u00edrico e pela licenciatura em canto pela mesma universidade. Atualmente, \u00e9 licencianda em Teatro pelo Departamento de Artes Dram\u00e1ticas da UFRGS. Sua atua\u00e7\u00e3o transita entre o ensino do canto e teatro, a cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica e a reflex\u00e3o cr\u00edtica sobre arte, ideologia e hist\u00f3ria, com interesse especial nas rela\u00e7\u00f5es entre corpo, voz e media\u00e7\u00e3o forma-conte\u00fado.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 14pt;\">Ficha t\u00e9cnica &#8211; O profeta Louco<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 14pt;\">Texto: Paco Bernal.<\/span><br \/>\n<span style=\"font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 14pt;\">Tradu\u00e7\u00e3o, adapta\u00e7\u00e3o e dire\u00e7\u00e3o: Suzi Martinez.<\/span><br \/>\n<span style=\"font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 14pt;\">Elenco: Juliano Passini<\/span><\/p>\n<p>Qorpo Qritico \u2013 vol. 8, n. 20 \u2013 dezembro de 2025 a mar\u00e7o de 2026. ISSN 2675-4207.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A encena\u00e7\u00e3o de O Profeta Louco constr\u00f3i uma cr\u00edtica consistente \u00e0s institui\u00e7\u00f5es e \u00e0s formas hist\u00f3ricas de domina\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica que sequestram a figura de Jesus, sobretudo a partir da tradi\u00e7\u00e3o eurocrist\u00e3. 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