{"id":497,"date":"2019-07-05T13:17:29","date_gmt":"2019-07-05T16:17:29","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/?p=497"},"modified":"2020-06-29T11:01:55","modified_gmt":"2020-06-29T14:01:55","slug":"o-cacador-de-hoje-e-o-mamute-de-amanha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/o-cacador-de-hoje-e-o-mamute-de-amanha\/","title":{"rendered":"O ca\u00e7ador de hoje \u00e9 o mamute de amanh\u00e3"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_498\" aria-describedby=\"caption-attachment-498\" style=\"width: 640px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-498\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/mamutes-03-QUADRADA.jpg\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"640\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/mamutes-03-QUADRADA.jpg 640w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/mamutes-03-QUADRADA-150x150.jpg 150w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/mamutes-03-QUADRADA-300x300.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-498\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Juni\u00ea Concei\u00e7\u00e3o.<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-size: 12pt; font-family: georgia, palatino, serif;\">Recordo-me com entusiasmo da primeira vez em que li o texto <i>Os Mamutes <\/i>do dramaturgo carioca J\u00f4 Bilac. A narrativa que me pareceu aparentemente dist\u00f3pica em um primeiro momento (e digo aparentemente porque as refer\u00eancias me foram, desde a primeira frase, bastante familiares, se devidamente contextualizadas) e o argumento de car\u00e1ter fant\u00e1stico criam um universo on\u00edrico peculiar. A hist\u00f3ria, que se apresenta em diferentes camadas cr\u00edticas ao longo da pe\u00e7a, \u00e9 contada por Isadora Faca no Peito, uma menina de 9 anos, que, no entanto, \u00e9 bastante \u00e1cida em rela\u00e7\u00e3o ao que conta. Ela gosta de \u201cmeter o dedo na ferida e fazer sangrar\u201d. Suas ideias s\u00e3o, muitas vezes, perversas em rela\u00e7\u00e3o ao que \u00e9 contado. No entanto, o que se percebe ao longo do texto, \u00e9 que a realidade apresentada pela crian\u00e7a \u00e9, na verdade, quem carrega a ins\u00edgnia de toda essa perversidade. Eis a quest\u00e3o que permeia essa teia dramat\u00fargica o tempo todo. <\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;\">Ao narrar a hist\u00f3ria de Leon, \u201cum jovem comum de uma cidade comum que precisa de um emprego comum\u201d, Isadora transita por diferentes lugares, discursos e representa\u00e7\u00f5es da realidade, sendo esse um meio de J\u00f4 Bilac criticar temas distintos em sua dramaturgia, tais como o consumismo desenfreado, a desigualdade social, a banaliza\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia, a aliena\u00e7\u00e3o e o poder da m\u00eddia em uma sociedade que tornou-se ref\u00e9m de seus pr\u00f3prios arqu\u00e9tipos e estere\u00f3tipos. Para conquistar uma vaga na Mamute\u2019s Food, rede multinacional de lanchonetes famosa por vender hamb\u00farguer de carne humana \u2013 ou melhor, carne de mamute -, Leon vai ter que matar um mamute. Um mamute, nesse caso, nada mais \u00e9 do que um ser humano sem valor na cadeia alimentar da sociedade contempor\u00e2nea. Pessoas que n\u00e3o fazem falta, n\u00e3o tem voz, n\u00e3o possuem identidade ou import\u00e2ncia (como as 123 pessoas mortas em um cinema que s\u00e3o transformadas em hamb\u00farguer de mamute, citadas j\u00e1 no in\u00edcio da pe\u00e7a pela menina). <\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-size: 12pt; font-family: georgia, palatino, serif;\">Flertes constantes com met\u00e1foras sociais e pol\u00edticas aliadas ao inconsciente de uma menina de 9 anos que n\u00e3o v\u00ea, propriamente, a realidade pela \u00f3tica da percep\u00e7\u00e3o infantil, mas, antes, pela \u00f3tica de sua jornada junto com Leon ao longo de seu dia, fazem de <i>Os Mamutes <\/i>um texto rico nas m\u00e3os de qualquer encenador. E nas m\u00e3os de v\u00e1rios encenadores? Como dar vaz\u00e3o a esse feito sem cair em armadilhas comuns? Como dar unidade ao universo de J\u00f4 Bilac, quando muitas m\u00e3os definem a identidade do trabalho c\u00eanico? Eis o que acontece na montagem de <i>Os Mamutes <\/i>desenvolvida na disciplina de <i>Dramaturgia do Encenador, <\/i>no segundo semestre de 2018, no Departamento de Arte Dram\u00e1tica da UFRGS. A pe\u00e7a, que fez temporada ao longo do m\u00eas de maio de 2019, na Sala Qorpo Santo, pelo projeto Teatro, Pesquisa e Extens\u00e3o da mesma Universidade, se prop\u00f5e esse desafio de encenar coletivamente.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;\">A proposta da montagem surgiu da necessidade de cada um dos alunos\/as encenadores\/as dirigirem uma cena como exerc\u00edcio de dire\u00e7\u00e3o para a disciplina supracitada. Sendo assim, o espet\u00e1culo nasceu no \u00e2mago de uma encena\u00e7\u00e3o coletiva, pautada por muitas vozes, ideias e m\u00e3os. Em muitos casos, o que se percebe em exerc\u00edcios como esse, \u00e9 um resultado onde h\u00e1 muitos caminhos e pouca unidade de pensamento nas escolhas de dire\u00e7\u00e3o, tendo em vista que as refer\u00eancias s\u00e3o m\u00faltiplas e confusas, afinal, s\u00e3o m\u00faltiplos os\/as diretores\/as. No entanto, o que se percebe na montagem em quest\u00e3o, \u00e9 justamente o contr\u00e1rio. H\u00e1 um pensamento, uma unidade de a\u00e7\u00e3o dram\u00e1tica, de escolhas est\u00e9ticas e refer\u00eancias diversas que contribuem positivamente para a encena\u00e7\u00e3o do texto de J\u00f4 Bilac. Se n\u00e3o h\u00e1 a originalidade pr\u00f3pria de um pensamento de encena\u00e7\u00e3o ou metodologia advinda de um\/uma diretor\/a, h\u00e1 um trabalho em equipe que, em grande parte da pe\u00e7a, \u00e9 bem executado. <\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;\">Os alunos\/as diretores\/as alcan\u00e7am \u00eaxito ao pensar previamente sobre aquilo que levar\u00e3o para a cena, sendo que, mesmo que a dire\u00e7\u00e3o do trabalho seja coletiva, h\u00e1 uma qualidade evidente nas marcas, na proposta cenogr\u00e1fica, na indument\u00e1ria e, sobretudo, na ilumina\u00e7\u00e3o como elemento narrativo, que contribui para a compreens\u00e3o do que \u00e9 narrado. A prop\u00f3sito, figurino, cenografia e ilumina\u00e7\u00e3o encontram-se em perfeita sintonia na montagem dos alunos do Departamento de Arte Dram\u00e1tica. H\u00e1 um pensamento est\u00e9tico criativo e eficaz. As costuras de cena poderiam ser melhor exploradas, contribuindo assim na dinamicidade do jogo entre o elenco. Todavia, isso n\u00e3o compromete o todo. <\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;\">A op\u00e7\u00e3o de uma luz recortada e com focos definidos que especificam o que e de onde olhar, d\u00e1 um tom midi\u00e1tico para as cenas, trazendo o car\u00e1ter espetacular da dramaturgia de J\u00f4 Bilac. O cen\u00e1rio, um grande M criado com paletes, sugere o logo da pr\u00f3pria rede de fast food, empresa que manipula as rela\u00e7\u00f5es dos indiv\u00edduos na hist\u00f3ria. A trilha sonora, que mistura m\u00fasicas cl\u00e1ssicas com o pop contempor\u00e2neo de r\u00e1pida assimila\u00e7\u00e3o por parte dos espectadores, ainda que n\u00e3o original, \u00e9 boa e funcional. E, por fim, os figurinos de cores intensas e a maquiagem que lembra os primeiros trabalhos do diretor Z\u00e9 Celso Martinez Corr\u00eaa, d\u00e3o um tom altamente teatral para a montagem, legitimando um universo que \u00e9 surreal, extraordin\u00e1rio e absurdo. <\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-size: 12pt; font-family: georgia, palatino, serif;\">No que tange o elenco, mesmo sem uma proposta de atua\u00e7\u00e3o clara, o que influ\u00eancia na miscel\u00e2nea de refer\u00eancias e personas, as atua\u00e7\u00f5es s\u00e3o, em sua maioria, vivas e em conflu\u00eancia com o universo on\u00edrico e espetacular criado pela encena\u00e7\u00e3o. Destaco a atua\u00e7\u00e3o de Marina Diesel Greve, que encontrou, de forma madura, segura e bastante pr\u00f3pria, uma Isadora Faca no Peito que mistura a energia e a inoc\u00eancia da crian\u00e7a com a acidez e a desilus\u00e3o do mundo adulto, pr\u00f3prias da personagem crian\u00e7a de J\u00f4 Bilac. Narrar em cena nunca \u00e9 f\u00e1cil, pois requer controle do p\u00fablico e do mundo interposto entre plateia e palco, o que, no caso de <i>Os Mamutes, <\/i>est\u00e1 intimamente interligado com as a\u00e7\u00f5es das personagens. Marina Diesel Greve encontra um lugar interessante nesse sentido, transitando pelo ato de narrar e refletir sobre o que acontece ao mesmo tempo em que cria uma textura ficcional intensa para a sua Isadora, nos cativando e nos convidando com convic\u00e7\u00e3o para adentrar a hist\u00f3ria que \u00e9 apresentada no palco. <\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-family: georgia, palatino, serif; font-size: 12pt;\">Como acontece em \u201cAlice no Pa\u00eds das Maravilhas\u201d de Lewis Carroll, uma das refer\u00eancias citadas pelo pr\u00f3prio autor nas v\u00e1rias rubricas presentes no texto, cada personagem, por mais maluco e absurdo que seja, vai ajudando Leon a se tornar mais adulto, mais consciente de suas decis\u00f5es, ainda que elas sejam cru\u00e9is e nem sempre estejam de acordo com o pensamento inicial da personagem. E, apesar do mundo ca\u00f3tico apresentado ser uma inven\u00e7\u00e3o da menina Isadora (o que nem sempre fica claro para o espectador), a montagem em quest\u00e3o traz para a cena diversas refer\u00eancias de pessoas reais no contexto social e pol\u00edtico brasileiro, colocando n\u00f3s, pessoas que assistem ao espet\u00e1culo, em uma situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade acerca de um universo absurdo que, por estar t\u00e3o pr\u00f3ximo, talvez n\u00e3o seja t\u00e3o ficcional quanto pensamos. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt; font-family: georgia, palatino, serif;\">Cabe ressaltar, ainda, que <i>Os Mamutes <\/i>dos\/as alunos\/as do Departamento de Arte Dram\u00e1tica da UFRGS apresenta, de forma divertida e \u00e1cida, a descartabilidade dos indiv\u00edduos em uma sociedade de apar\u00eancias. O riso est\u00e1 aliado \u00e0 reflex\u00e3o das discuss\u00f5es propostas pelo coletivo de encenadores\/as, e as personagens, muitas vezes, podem ser qualquer um de n\u00f3s, que estamos sentados confortavelmente na plateia. Alternando entre o ca\u00e7ador e o mamute, entre o real e a apar\u00eancia, entre o empregador e o empregado, estamos todos interligados nessa grande rede imagin\u00e1ria e discursiva que \u00e9 a sociedade capitalista contempor\u00e2nea. E, se por algum motivo, nos identificamos e\/ou condenamos as personagens da pe\u00e7a, \u00e9 porque sabemos que, no fundo, estamos absolvendo ou condenando a n\u00f3s mesmos.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_499\" aria-describedby=\"caption-attachment-499\" style=\"width: 640px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-499\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/mamutes-01.jpg\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"960\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/mamutes-01.jpg 640w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/mamutes-01-200x300.jpg 200w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-499\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Juni\u00ea Concei\u00e7\u00e3o.<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><span style=\"color: #000000; font-family: verdana, geneva, sans-serif; font-size: 8pt;\">Qorpo Qr\u00edtico \u2013 Vol. 01, n. 01, junho a setembro de 2019. ISSN 2675-4207.<\/span><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; &nbsp; Recordo-me com entusiasmo da primeira vez em que li o texto Os Mamutes do dramaturgo carioca J\u00f4 Bilac. 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