{"id":566,"date":"2020-02-09T16:23:59","date_gmt":"2020-02-09T19:23:59","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/?p=566"},"modified":"2020-06-29T11:07:35","modified_gmt":"2020-06-29T14:07:35","slug":"velhos-habitos-medos-vivos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/velhos-habitos-medos-vivos\/","title":{"rendered":"VELHOS H\u00c1BITOS \u2013 MEDOS VIVOS"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-size: 10pt; font-family: verdana, geneva, sans-serif; color: #808080;\"><i>Todos n\u00f3s sonhamos, mas \u00e9 dos nossos pesadelos que nunca esquecemos.<\/i><\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-size: 10pt; font-family: verdana, geneva, sans-serif; color: #808080;\">Quando crian\u00e7a, eu era louca pelo sobrenatural. Passava as tardes lendo sobre m\u00e1gica e assombra\u00e7\u00f5es, tentando desvendar onde poderia haver um portal que eu pudesse atravessar para me conectar com outros mundos. <\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-size: 10pt; font-family: verdana, geneva, sans-serif; color: #808080;\">Tempos mais tarde, eu percebi que n\u00e3o era apenas o metaf\u00edsico que me deslumbrava. Tudo o que era desconhecido, que n\u00e3o fazia parte do mundo que eu conhecia, era combust\u00edvel para a minha imagina\u00e7\u00e3o. O espa\u00e7o sideral e sua imensid\u00e3o, a profundidade do oceano com seus monstros marinhos e at\u00e9 o pr\u00f3prio ato de sonhar: qualquer coisa sobre a qual n\u00e3o se sabia muito despertava em mim uma puls\u00e3o estranha, um frio na barriga semelhante \u00e0quele que sentimos perante uma situa\u00e7\u00e3o de perigo.<\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-family: verdana, geneva, sans-serif; font-size: 10pt; color: #808080;\">E eu lembro de uma vez bem espec\u00edfica, de um momento em que, de repente, a consci\u00eancia de algo supremo arrebatou meu peito, talvez a maior \u201cepifania\u201d que j\u00e1 tive. A sensa\u00e7\u00e3o beirava acordar de um sonho que eu n\u00e3o sabia estar sonhando, como se, pela primeira vez, eu pudesse enxergar o mundo <i>de verdade. <\/i>Foi quando eu me deparei com o fato mais assombrosos de todos: tudo morre. Apenas lembrar dessa sensa\u00e7\u00e3o j\u00e1 \u00e9 o suficiente para que eu sinta um arrepio involunt\u00e1rio na minha espinha.<\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #808080; font-family: verdana, geneva, sans-serif; font-size: 10pt;\">Parece bobo dar-se conta da morte porque \u00e9 algo citado diariamente, mas conceb\u00ea-la como uma for\u00e7a inevit\u00e1vel\u2026 Bom, isso \u00e9, no m\u00ednimo, horr\u00edvel. <\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #808080; font-family: verdana, geneva, sans-serif; font-size: 10pt;\">Posso dizer que estou morrendo um pouco agora, enquanto escrevo essas palavras, e isso \u00e9 t\u00e3o perturbador que preciso me concentrar em outras coisas como os cap\u00edtulos que preciso terminar de escrever, na minha x\u00edcara de caf\u00e9 acusadoramente vazia, em qualquer coisa que me conecte com o momento presente. Caso contr\u00e1rio, \u00e9 certo que me perderia nessa viagem m\u00f3rbida\u2026 e ningu\u00e9m gosta de pensar sobre isso durante muito tempo. <\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-family: verdana, geneva, sans-serif; font-size: 10pt; color: #808080;\">Sinto que, no momento em que percebi a minha pr\u00f3pria mortalidade, a realidade \u2013 ou o que acreditava s\u00ea-la \u2013 desbotou. Saber \u00e9 sempre um caminho sem retorno, um marco de nossas vidas porque depois disso n\u00e3o temos como retornar ao nosso estado de ignor\u00e2ncia. Quando atravessei essa fronteira tive certeza de que minha pr\u00f3pria vida nunca mais seria a mesma, como se eu tivesse destrancado uma porta e jogado a chave fora.<\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #808080; font-family: verdana, geneva, sans-serif; font-size: 10pt;\">Isto \u00e9 curioso, n\u00e3o \u00e9? Pensar na finitude das coisas. Doer-se com isso.<\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #808080; font-family: verdana, geneva, sans-serif; font-size: 10pt;\">E mesmo assim, com todas as dores e o medo, quando eu escuto (ou imagino escutar) aquele chamado misterioso vindo sabe-se l\u00e1 de onde, que sussurra meu nome e me enfeiti\u00e7a com a sua indecifrabilidade, parte de mim quer correr ao seu encontro. <\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #808080; font-family: verdana, geneva, sans-serif; font-size: 10pt;\">Comecei a observar como outras pessoas lidavam com esse anzol lan\u00e7ado pelo desconhecido. Enquanto algumas nadavam em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 isca (como se tamb\u00e9m procurassem algum portal para desertar da vida real), outras afastavam-se o m\u00e1ximo poss\u00edvel. Em ambos os casos, nenhuma delas conseguia tirar os olhos da coisa estranha que flutuava \u00e0 sua frente.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_567\" aria-describedby=\"caption-attachment-567\" style=\"width: 640px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-567\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/VELHOS-HA\u0301BITOS-01.png\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"640\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/VELHOS-HA\u0301BITOS-01.png 640w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/VELHOS-HA\u0301BITOS-01-150x150.png 150w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/VELHOS-HA\u0301BITOS-01-300x300.png 300w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-567\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Gabriel Viero.<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-size: 10pt; font-family: verdana, geneva, sans-serif; color: #808080;\">O ser humano sempre foi fascinado pelo desconhecido.<\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-size: 10pt; font-family: verdana, geneva, sans-serif; color: #808080;\">Penso que podemos compar\u00e1-lo com aquela voz que nos chama de dentro do arm\u00e1rio, que nos faz esconder debaixo dos len\u00e7\u00f3is e espiar entre as frestas dos dedos. Paradoxalmente queremos e n\u00e3o queremos saber o que est\u00e1 oculto atr\u00e1s das portas. <\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-family: verdana, geneva, sans-serif; font-size: 10pt; color: #808080;\">H\u00e1 um interesse intr\u00ednseco pelo <i>estranho<\/i>, o que existe al\u00e9m do que conhecemos \u2013 al\u00e9m do <i>\u201cmundo real\u201d<\/i><i> \u2013<\/i> e que nos acompanha como uma doen\u00e7a. Ansiamos por saber e essa \u00e2nsia guia a humanidade, nos influencia a desenvolver prot\u00f3tipos cient\u00edficos, maquin\u00e1rios que executam fun\u00e7\u00f5es biol\u00f3gicas, f\u00f3rmulas que expliquem fen\u00f4menos naturais &#8211; porque obviamente n\u00e3o basta compreender, precisamos ser capazes de explicar o motivo de tais fen\u00f4menos- e \u00e9 a morte a maior inc\u00f3gnita de todas.<\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-family: verdana, geneva, sans-serif; font-size: 10pt; color: #808080;\">Penso que a arte, assim como a ci\u00eancia, surge dessa vontade de desvendar o estranho. Que o processo art\u00edstico deve ser semelhante a atravessar um portal para outros universos. <i>(<\/i>novamente<i>, o arrepio)<\/i><\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-size: 10pt; font-family: verdana, geneva, sans-serif; color: #808080;\">Digo outros porque cada arte \u00e9, por si s\u00f3, plural. E imagino que n\u00e3o exista apenas uma porta solit\u00e1ria com um \u00fanico universo art\u00edstico atr\u00e1s da mesma. <\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-family: verdana, geneva, sans-serif; font-size: 10pt; color: #808080;\">Quando C. S. Lewis descreve um campo repleto de po\u00e7as d\u2019\u00e1gua que levariam a uma quantidade infinita de mundos em <i>As Cr\u00f4nicas de N\u00e1rnia<\/i>, cada uma dessas po\u00e7as, ainda que semelhantes entre si, seria um limiar para diferentes firmamentos, com caracter\u00edsticas e l\u00f3gica pr\u00f3prias. <\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-family: verdana, geneva, sans-serif; font-size: 10pt; color: #808080;\">Se pud\u00e9ssemos escolher mergulhar numa que retratasse os mist\u00e9rios do desconhecido, do <i>estranho<\/i> que nos chama, com certeza seria a po\u00e7a do terror. Um lugar onde coexistiram o medo, o fasc\u00ednio, e por consequ\u00eancia, a morte. <\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-family: verdana, geneva, sans-serif; font-size: 10pt; color: #808080;\">Essa <i>po\u00e9tica do terror<\/i> que regeria tal mundo \u00e9 esbo\u00e7ada por n\u00f3s h\u00e1 muito tempo. Antes mesmo do cinema ser inventado, obras liter\u00e1rias j\u00e1 especulavam o que seria parte desse fazer art\u00edstico. Diferentes autores como Mary Shelley, H.P. Lovecraft e Edgar Allen Poe, retrataram em suas narrativas a perplexidade humana perante acontecimentos que fugiam \u00e0 normalidade. Fosse a fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, o contato com divindades antigas e at\u00e9 mesmo o defrontamento com a morte; num ensaio de probabilidades, os mesmos projetavam a sensa\u00e7\u00e3o de estar perante algo incompreens\u00edvel, totalmente estranho a todos n\u00f3s.<\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-size: 10pt; font-family: verdana, geneva, sans-serif; color: #808080;\">Com o advento do cinema, as possibilidades de representa\u00e7\u00e3o desse universo foram multiplicadas exponencialmente. Surgiram diversas subcategorias que, de alguma forma, englobam esse sentimento de perplexidade. Entre os muitos diretores que flertaram com o terror est\u00e1 Alfred Hitchcock, um homem que se tornou refer\u00eancia no g\u00eanero.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_568\" aria-describedby=\"caption-attachment-568\" style=\"width: 960px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-568\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/VELHOS-HA\u0301BITOS-02.png\" alt=\"\" width=\"960\" height=\"640\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/VELHOS-HA\u0301BITOS-02.png 960w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/VELHOS-HA\u0301BITOS-02-300x200.png 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/VELHOS-HA\u0301BITOS-02-768x512.png 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/VELHOS-HA\u0301BITOS-02-750x500.png 750w\" sizes=\"(max-width: 960px) 100vw, 960px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-568\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Gabriel Viero.<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-family: verdana, geneva, sans-serif; font-size: 10pt; color: #808080;\">Hitchcock balan\u00e7ou o emocional de muita gente com suas obras. Entre elas, uma das mais conhecidas e consagradas, o filme <i>Psicose <\/i>gravado em 1960, uma adapta\u00e7\u00e3o do autor Robert Bloch. <\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-family: verdana, geneva, sans-serif; font-size: 10pt; color: #808080;\">A cl\u00e1ssica Cena do Chuveiro,<i> <\/i>em que a personagem Marion Crane (interpretada por Janet Leigh) \u00e9 esfaqueada at\u00e9 a morte enquanto toma banho, tornou-se um \u00edcone filmogr\u00e1fico. A composi\u00e7\u00e3o c\u00eanica de Hitchcock foi magistral ao ponto de ser conhecida mundialmente.<\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-family: verdana, geneva, sans-serif; font-size: 10pt; color: #808080;\">A m\u00e3o que afasta a cortina do box, a mulher gritando, o homem com o rosto sombrio segurando uma faca e at\u00e9 mesmo a perturbadora trilha tornaram-se parte do imagin\u00e1rio popular de terror. Ainda que muitos considerem <i>Psicose <\/i>um filme de suspense, analisando-o pela perspectiva do estranhamento e refletindo sobre a forma como o diretor comp\u00f4s o assassinato de Marion, criando uma atmosfera de tempo dilatado e por consequ\u00eancia gerando uma expectativa nos espectadores, percebemos que se enquadra dentro dessa Po\u00e9tica do Terror, no caso, trabalhada em cima de um <i>terror social,<\/i> uma qualidade do terror muito presente na contemporaneidade, que muitas vezes foge desse metaf\u00edsico predisposto ao g\u00eanero. <\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-family: verdana, geneva, sans-serif; font-size: 10pt; color: #808080;\">Ao assistir e procurar por cat\u00e1strofes documentadas pelo jornalismo; quando caminhamos na rua \u00e0 noite e olhamos para tr\u00e1s para ver se estamos sendo seguidos por algu\u00e9m; nos ataques <i>terroristas <\/i>realizados por jovens que sofreram bullying em escolas e at\u00e9 quando optamos por assistir blockbusters como <i>Jogos Mortais, P\u00e2nico <\/i>e <i>O Massacre da Serra El\u00e9trica, <\/i>estamos imersos numa atmosfera de terror, buscando o momento em que haver\u00e1 uma ruptura da narrativa, onde iremos nos deparar com algo que n\u00e3o gostar\u00edamos.<\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-family: verdana, geneva, sans-serif; font-size: 10pt; color: #808080;\">Sendo assim, considero montar uma pe\u00e7a inspirada em <i>Psicose<\/i> uma escolha muito inteligente por explorar esse campo do terror social e simultaneamente bastante ousada, desafiadora.<\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-size: 10pt; font-family: verdana, geneva, sans-serif; color: #808080;\">O teatro \u00e9 feito de vida e, portanto, tamb\u00e9m \u00e9 feito de morte. Seria poss\u00edvel gerar um arrebatamento no n\u00edvel terror\u00edstico proposto por Hitchcock?<\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #808080; font-family: verdana, geneva, sans-serif; font-size: 10pt;\">Quero pontuar a iniciativa b\u00e1rbara de tentar montar uma pe\u00e7a de terror. Primeiro porque \u00e9 comum pensar que o terror necessita de artif\u00edcios audiovisuais. Quando pensamos em criar essa atmosfera mencionada \u2013 e o terror se vale principalmente de criar uma ambienta\u00e7\u00e3o prop\u00edcia para que haja estranhamento, a ruptura de narrativa ou ainda uma lacuna surpreendente de possibilidades \u00e0 frente do que estamos vivenciando \u2013 pensamos que \u00e9 necess\u00e1rio usufruir de efeitos que fogem da organicidade. Sendo o teatro a arte mais org\u00e2nica e ef\u00eamera de tantas outras \u00e9 l\u00f3gico imaginar que a ultraorganicidade do material c\u00eanico (no caso, os atores) torne dif\u00edcil essa constru\u00e7\u00e3o voltada ao medo. <\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #808080; font-family: verdana, geneva, sans-serif; font-size: 10pt;\">Ao adentrar o espa\u00e7o de acontecimento que o teatro prepara, nos encontramos como espectadores mergulhados nessa narrativa imposta pela pe\u00e7a. Estamos simultaneamente imersos e atentos ao que est\u00e1 acontecendo. De certa forma vivenciamos o que \u00e9 proposto pelo diretor. E \u00e9 importante pensar em tudo o que comp\u00f5e esse universo ef\u00eamero, onde a pe\u00e7a acontece, como assistimos ao acontecimento teatral e a maneira com a qual este nos chama. <\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-family: verdana, geneva, sans-serif; font-size: 10pt; color: #808080;\">No dia em que assisti a <i>Velhos H\u00e1bitos, <\/i>est\u00e1gio de dire\u00e7\u00e3o de Thiago Silva e de atua\u00e7\u00e3o de Frederico Vittola,<i> <\/i>era um dia de pr\u00e9-ver\u00e3o. Antes de adentrar no espa\u00e7o c\u00eanico, uma sala totalmente preta e fechada do Departamento de Arte Dram\u00e1tica, j\u00e1 nos encontr\u00e1vamos num ambiente claustrof\u00f3bico de corredor, com o calor pingando nossas testas. Nesse momento o inc\u00f4modo j\u00e1 come\u00e7ava a rondar os espectadores. A claustrofobia dilu\u00edda numa prepara\u00e7\u00e3o que antepunha o que vivenciar\u00edamos dentro da sala ajudou a preparar o p\u00fablico que ouvia uma can\u00e7\u00e3o aparentemente sacra num misto de curiosidade e desconforto. Isso me fez pensar sobre a import\u00e2ncia da prepara\u00e7\u00e3o que antecede uma obra, em como os espectadores precisam estar concentrados e conscientes para aproveitar a mesma. <\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #808080; font-family: verdana, geneva, sans-serif; font-size: 10pt;\">Ap\u00f3s a tens\u00e3o inicial, as portas da sala abriram e entramos no universo criado pelo grupo. Para minha feliz surpresa, um tipo de lugar antigo, com m\u00f3veis velhos e luz tremeluzente de abajures, fazendo refer\u00eancia ao Hotel da fam\u00edlia Bates. <\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-family: verdana, geneva, sans-serif; font-size: 10pt; color: #808080;\">Outro fator muito importante para o terror (e talvez uma das principais diferencia\u00e7\u00f5es entre ele e o <i>horror<\/i>) \u00e9 a constru\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria. Em <i>Velhos H\u00e1bitos, <\/i>fomos apresentados a uma personagem enigm\u00e1tica interpretada por Frederico Vittola, o conhecido Norman Bates, que contava causos sobre a rela\u00e7\u00e3o que tinha com a sua m\u00e3e, brilhantemente interpretada por Arlete Cunha (ao ponto de eu pensar que o papel havia sido feito para ela!). A narrativa se desdobrou a partir do encontro de Norman com uma mulher indigente que encontrou na rua. <\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #808080; font-family: verdana, geneva, sans-serif; font-size: 10pt;\">Em meio aos recortes temporais, alternando entre o p\u00f3s-acontecimento que culminou numa esp\u00e9cie de pris\u00e3o do protagonista e os momentos estranhos de conviv\u00eancia que o homem teve com as outras duas mulheres, o p\u00fablico tornava-se c\u00famplice da psicopatia de Norman.<\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #808080; font-family: verdana, geneva, sans-serif; font-size: 10pt;\">A ilumina\u00e7\u00e3o e a trilha foram elementos fundamentais da obra, repletos de uma precis\u00e3o e progress\u00e3o totalmente org\u00e2nica, deixando evidente que dramaturgia \u00e9 muito mais do que apenas um texto escrito: trata-se de escolhas precisas por parte do diretor para implementar a hist\u00f3ria como um acontecimento vivo, teatral em sua ess\u00eancia. Parecia que eu estava assistindo a um filme vivo, ao vivo e interdimensional. <\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #808080; font-family: verdana, geneva, sans-serif; font-size: 10pt;\">A escurid\u00e3o propositada tamb\u00e9m foi um fator important\u00edssimo para gerar o estranhamento. Interpreto que a escolha de deixar a figura da m\u00e3e presente em momentos em que n\u00e3o estava fisicamente foi respons\u00e1vel por sobrep\u00f4r mem\u00f3ria e alucina\u00e7\u00e3o, fazendo com que compreend\u00eassemos um pouco mais da loucura do protagonista. <\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-family: verdana, geneva, sans-serif; font-size: 10pt; color: #808080;\">Alguns momentos espec\u00edficos marcaram a experi\u00eancia de assistir a <i>Velhos H\u00e1bitos. <\/i><\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-family: verdana, geneva, sans-serif; font-size: 10pt; color: #808080;\">O primeiro foi uma partitura realizada pela atriz Bruna Johann. Emoldurada numa luz vermelha, a personagem deslocava-se pelo espa\u00e7o em contor\u00e7\u00f5es totalmente estranhas que me remeteram um pouco \u00e0 figura da Samara, de <i>O Chamado. <\/i>Havia apenas a luz, o ch\u00e3o e atriz. Parece pouco mas mesmo assim a atriz conseguiu desestabilizar quem assistia com uma performance totalmente verdadeira, como se estiv\u00e9ssemos assistindo a uma possess\u00e3o demon\u00edaca. <\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-family: verdana, geneva, sans-serif; font-size: 10pt; color: #808080;\">O segundo, que tentarei descrever numa tentativa de n\u00e3o dar <i>spoilers,<\/i> \u00e9 o cl\u00edmax da rela\u00e7\u00e3o entre o filho perturbado e a m\u00e3e louca, onde encaixamos as pe\u00e7as necess\u00e1rias para compreender a narrativa. <\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #808080; font-family: verdana, geneva, sans-serif; font-size: 10pt;\">Como f\u00e3 de Alfred Hitchcock, posso dizer que fui tomada pelo prazer ao presenciar uma adapta\u00e7\u00e3o teatral potente e inovadora. Tenho certeza de que outros espectadores apreciadores da obra tamb\u00e9m sa\u00edram bastante satisfeitos. <\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #808080; font-family: verdana, geneva, sans-serif; font-size: 10pt;\">Ainda que aproxime a experi\u00eancia do suspense, principalmente porque o terror, o suspense e o horror compartilham uma simbiose, \u00e9 ineg\u00e1vel o flerte profundo que a equipe teve com esse g\u00eanero do estranhamento. Ao t\u00e9rmino da pe\u00e7a, aquele gostoso friozinho na barriga estava l\u00e1, produzindo altas viagens sobre a morte e a loucura.<\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #808080; font-family: verdana, geneva, sans-serif; font-size: 10pt;\">Por mais que tentamos escapar das armadilhas sedutoras que o conhecido fim da exist\u00eancia nos prega, acabamos nos entregando para a curiosidade. <\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #808080; font-family: verdana, geneva, sans-serif; font-size: 10pt;\">Buscamos experi\u00eancias que nos permitam deslumbrar com o desconhecido porque no fundo desejamos que exista algo mais. Porque precisa existir algo al\u00e9m disso tudo, n\u00e3o \u00e9?<\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #808080; font-family: verdana, geneva, sans-serif; font-size: 10pt;\">No fim, as m\u00e3os enluvadas padecem da mesma doen\u00e7a que tentam curar. <\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #808080; font-family: verdana, geneva, sans-serif; font-size: 10pt;\">\u00c9, vida.<\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #808080; font-family: verdana, geneva, sans-serif; font-size: 10pt;\">E, portanto, \u00e9, Teatro.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #808080; font-family: verdana, geneva, sans-serif; font-size: 10pt;\">***<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><strong><span style=\"color: #808080; font-family: verdana, geneva, sans-serif; font-size: 10pt;\">Ficha T\u00e9cnica:<\/span><\/strong><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #808080; font-family: verdana, geneva, sans-serif; font-size: 10pt;\">Dramaturgia de Frederico Vittola e Thiago Silva, a partir da obra PSICOSE de Robert Bloch<\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #808080; font-family: verdana, geneva, sans-serif; font-size: 10pt;\">Dire\u00e7\u00e3o: Thiago Silva<\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #808080; font-family: verdana, geneva, sans-serif; font-size: 10pt;\">Elenco: Arlete Cunha, Bruna Johann e Frederico Vittola<\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #808080; font-family: verdana, geneva, sans-serif; font-size: 10pt;\">Trilha Sonora Original composta por R\u00e9gis Moewius<\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #808080; font-family: verdana, geneva, sans-serif; font-size: 10pt;\">Trilha Sonora Pesquisada: Frederico Vittola e Thiago Silva<\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #808080; font-family: verdana, geneva, sans-serif; font-size: 10pt;\">Cenografia e Dire\u00e7\u00e3o de Arte: Clarissa Ramires<\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #808080; font-family: verdana, geneva, sans-serif; font-size: 10pt;\">Ilumina\u00e7\u00e3o: Henrique Strieder<\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #808080; font-family: verdana, geneva, sans-serif; font-size: 10pt;\">Arte: Pingo Alabarce<\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #808080; font-family: verdana, geneva, sans-serif; font-size: 10pt;\">Orienta\u00e7\u00e3o: Cl\u00f3vis Dias Massa<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"color: #333333;\"><em><span style=\"font-family: verdana, geneva, sans-serif; font-size: 8pt;\">Qorpo Qr\u00edtico \u2013 Vol. 02, n. 03, fevereiro a maio de 2020. <span style=\"color: #000000; font-family: verdana, geneva, sans-serif; font-size: 8pt;\">ISSN 2675-4207.<\/span><\/span><\/em><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Todos n\u00f3s sonhamos, mas \u00e9 dos nossos pesadelos que nunca esquecemos. &nbsp; Quando crian\u00e7a, eu era louca pelo sobrenatural. 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