{"id":798,"date":"2020-06-22T11:42:29","date_gmt":"2020-06-22T14:42:29","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/?p=798"},"modified":"2020-06-29T11:14:48","modified_gmt":"2020-06-29T14:14:48","slug":"como-cavalgar-um-dragao-sobre-aqueles-que-ficam","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/como-cavalgar-um-dragao-sobre-aqueles-que-ficam\/","title":{"rendered":"COMO CAVALGAR UM DRAG\u00c3O: sobre aqueles que ficam"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-family: verdana, geneva, sans-serif; font-size: 10pt; color: #808080;\">Uma das coisas mais interessantes no teatro talvez seja a mudan\u00e7a. Quem faz e frequenta teatro sabe: uma sess\u00e3o nunca \u00e9 igual a outra. Mesmo que sejam executadas as marcas pr\u00e9-estabelecidas com perfei\u00e7\u00e3o e que o texto seja dado com todas as nuances requeridas, ainda assim, \u00e9 sempre diferente. Alguns poderiam dizer que esse \u00e9 o \u201cproblema\u201d do teatro quando comparado a outros tipos de arte que n\u00e3o fazem uso de um material humano para que aconte\u00e7a. As pinturas, depois de emolduradas, permanecem imortais em toda a sua magnitude e, quando colocamos os fones para ouvir uma m\u00fasica que gostamos, sabemos exatamente o que iremos escutar. Eu prefiro pensar que esse car\u00e1ter mut\u00e1vel, essa efemeridade que \u00e9 indissoci\u00e1vel do teatro ao ponto de servir para descrev\u00ea-lo, \u00e9 uma pot\u00eancia. E quando digo \u201cef\u00eamero\u201d para especificar a fragilidade que existe na arte teatral \u00e9 porque, no fim das contas, essa forte mutabilidade na qual o teatro se constr\u00f3i descreve tamb\u00e9m outro aspecto que faz parte dele: o teatro \u00e9 um acontecimento, e n\u00e3o existe nada mais fugidio que o <i>momento.<\/i><\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-size: 10pt; font-family: verdana, geneva, sans-serif; color: #808080;\">Existe uma tend\u00eancia a interpretar o \u201cef\u00eamero\u201d como facilmente destrut\u00edvel e desprovido de pot\u00eancia. Pensar em algo duradouro, por outro lado, desperta uma impress\u00e3o de vit\u00f3ria. \u00c9 evidente que artefatos antigos carregam um valor inestim\u00e1vel, principalmente do ponto de vista hist\u00f3rico, tal qual \u00e9 o caso de constru\u00e7\u00f5es milenares como as pir\u00e2mides, as est\u00e1tuas da ilha de p\u00e1scoa, o coliseu e tantas outras, e muitos concordam que entrar em contato com algum desses monumentos seria capaz de avivar um sentimento de deslumbramento\u2026 Mas n\u00e3o quero me demorar dissertando sobre monumentos grandiosos, quero atentar para o poder que h\u00e1 por tr\u00e1s da efemeridade. <\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-size: 10pt; font-family: verdana, geneva, sans-serif; color: #808080;\">Neil Gaiman, em seu livro intitulado \u201cCoisas Fr\u00e1geis\u201d, escreveu uma passagem que talvez auxilie para explicar esse encanto pela mudan\u00e7a, pelo ef\u00eamero e pela fragilidade que recheia os momentos.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"padding-left: 120px;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-size: 10pt; font-family: verdana, geneva, sans-serif; color: #808080;\"><i>Enquanto escrevo isto, me ocorre que a peculiaridade da maioria das coisas que consideramos fr\u00e1geis \u00e9 como elas s\u00e3o, na verdade, fortes. Havia truques que faz\u00edamos com ovos, quando crian\u00e7as, para demonstrar que eles s\u00e3o, apesar de n\u00e3o nos darmos conta disso, pequenos sal\u00f5es de m\u00e1rmore capazes de suportar grandes press\u00f5es, e muitos dizem que o bater de asas de uma borboleta no lugar certo pode criar um furac\u00e3o do outro lado de um oceano. Cora\u00e7\u00f5es podem ser partidos, mas o cora\u00e7\u00e3o \u00e9 o mais forte dos m\u00fasculos, capaz de pulsar durante toda a vida, setenta vezes por minuto, n\u00e3o falhando quase nunca. At\u00e9 os sonhos, que s\u00e3o as coisas mais intang\u00edveis e delicadas, podem se mostrar incrivelmente dif\u00edceis de matar.<\/i><\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_799\" aria-describedby=\"caption-attachment-799\" style=\"width: 853px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-799\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/como-cavalgar-um-draga\u0303o-01.png\" alt=\"\" width=\"853\" height=\"853\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/como-cavalgar-um-draga\u0303o-01.png 853w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/como-cavalgar-um-draga\u0303o-01-300x300.png 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/como-cavalgar-um-draga\u0303o-01-150x150.png 150w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/como-cavalgar-um-draga\u0303o-01-768x768.png 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/como-cavalgar-um-draga\u0303o-01-750x750.png 750w\" sizes=\"(max-width: 853px) 100vw, 853px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-799\" class=\"wp-caption-text\">Foto: N\u00f3s em Arte.<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-size: 10pt; font-family: verdana, geneva, sans-serif; color: #808080;\">Todos momentos s\u00e3o fr\u00e1geis. Desaparecem rapidamente e n\u00e3o conseguimos resguard\u00e1-los entre os dedos. A \u00fanica coisa que sobra depois deles \u00e9 a hist\u00f3ria que contamos a n\u00f3s mesmos sobre eles. E por mais ef\u00eameros que sejam, se deles lembramos e criamos narrativas inspiradas por eles, n\u00e3o seria correto dizer que nos impactaram ao ponto de continuar ecoando dentro da gente? E que esse eco \u00e9 uma forma de continuar existindo?<\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-size: 10pt; font-family: verdana, geneva, sans-serif; color: #808080;\">Acontece que o teatro, assim como os momentos, finda. A cada sess\u00e3o, ao abrir das cortinas, um mundo inteiro \u00e9 criado, ao qual espectadores e atores s\u00e3o transportados para coexistirem numa fic\u00e7\u00e3o de acontecimento que desaparece ao cair do pano. O teatro, portanto, nasce, vive e morre todos os dias e, se ressurge ap\u00f3s a sua morte, j\u00e1 \u00e9 outra coisa, modificada e parecida com o que fora, mas nunca mais a mesma. Poderia haver algo mais po\u00e9tico do que invocar vida atrav\u00e9s da arte? <\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-size: 10pt; font-family: verdana, geneva, sans-serif; color: #808080;\">Dessa maneira, nesse bater de asas de borboletas que podem gerar vendavais, o acontecimento teatral, que deveria ser fr\u00e1gil, tamb\u00e9m produz tempestades fortes o suficiente para derrubar governos, incitar revolu\u00e7\u00f5es, produzir sonhos de liberdade, ampliar gritos do\u00eddos, desestruturar hipocrisias, desenterrar mortos e reviv\u00ea-los com poesia. Se a morte faz parte da vida e teatro \u00e9 sobre a efemeridade da vida, tamb\u00e9m \u00e9 sobre a morte e todos os mist\u00e9rios que ela cont\u00e9m.<\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-size: 10pt; font-family: verdana, geneva, sans-serif; color: #808080;\">\u00c9 um paradoxo. Assim como precisamos citar a luz para descrever a escurid\u00e3o, s\u00f3 podemos adentrar nos mist\u00e9rios da morte se nos valermos do acontecimento vivo.<\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-size: 10pt; font-family: verdana, geneva, sans-serif; color: #808080;\">E a pe\u00e7a sobre a qual escrevo hoje \u00e9 sobre tudo isso. <\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-size: 10pt; font-family: verdana, geneva, sans-serif; color: #808080;\">Somos muitos, ainda que n\u00e3o declaradamente, os fascinados por aventuras de finais tr\u00e1gicos. Sempre amamos as trag\u00e9dias. Os amores imposs\u00edveis que acabam em mortes belas, os destinos irremedi\u00e1veis do que somos perante o que gostar\u00edamos que f\u00f4ssemos e tudo aquilo que acontece entre o in\u00edcio de uma jornada e o seu final. Adoramos ler, ouvir e assistir a hist\u00f3rias que contam sobre um destino triste e como seus protagonistas tentam evit\u00e1-lo fracassadamente. H\u00e1 quem diga que \u00e9 por causa de uma proje\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria que fazemos nas personagens, outros dir\u00e3o que \u00e9 pelo sentimento de catarse, t\u00e3o citado nas teorias teatrais e liter\u00e1rias, e tem, tamb\u00e9m, alguns que citam um prazer s\u00e1dico em presenciar as desventuras dos outros. <\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-size: 10pt; font-family: verdana, geneva, sans-serif; color: #808080;\">Eu acredito que \u00e9, em parte, pela nossa paix\u00e3o pelo desconhecido que a morte nos enfeiti\u00e7a com a sua falta de respostas.<\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-size: 10pt; font-family: verdana, geneva, sans-serif; color: #808080;\">Como Cavalgar um Drag\u00e3o \u00e9 sobre morte. N\u00e3o apenas sobre A morte, mas sobre a escolha estranha que alguns fazem dela e a incompreens\u00e3o daqueles que ficam.<\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-size: 10pt; font-family: verdana, geneva, sans-serif; color: #808080;\">Nas desventuras ficcionais, muitas s\u00e3o as hist\u00f3rias sobre os her\u00f3is que se v\u00e3o. H\u00e1 um qu\u00ea de aud\u00e1cia por tr\u00e1s do papel do her\u00f3i, seja nos livros, nas conta\u00e7\u00f5es, nas m\u00fasicas, nas pe\u00e7as. Vemo-os como aqueles protagonistas que enfrentam o perigo da morte em prol de algo maior. Talvez esteja a\u00ed uma das principais peculiaridades da pe\u00e7a. Tudo come\u00e7a pelo meio, a partir da morte de Let\u00edcia e, diferente dessas hist\u00f3rias de her\u00f3is que lutam contra algo maior arriscando perder suas vidas, nos confrontamos com uma escolha dific\u00edlima de ser compreendida, a op\u00e7\u00e3o de Let\u00edcia por antecipar sua pr\u00f3pria morte cometendo suic\u00eddio. <\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-size: 10pt; font-family: verdana, geneva, sans-serif; color: #808080;\">Quando assisti ao espet\u00e1culo apresentado na Mostra DAD, o est\u00e1gio dos atores Pedro Schilling e Nairim Tomazini, eu j\u00e1 sabia sobre o que se tratava. Tamb\u00e9m conhecia o texto e as ideias de encena\u00e7\u00e3o, isso porque pude presenciar alguns fragmentos do processo em um ensaio aberto ao qual fui convidada e tamb\u00e9m pela conversa constante com parte do elenco durante a elabora\u00e7\u00e3o da pe\u00e7a. <\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-size: 10pt; font-family: verdana, geneva, sans-serif; color: #808080;\">Por\u00e9m, como disse anteriormente, o teatro \u00e9 eternamente mut\u00e1vel. Mesmo tendo assistido a alguns fragmentos, quando fui assistir \u00e0 pe\u00e7a \u201cpronta\u201d (e digo pronta entre aspas porque me parece que o teatro nunca est\u00e1 finalizado) me senti transportada para um mundo que n\u00e3o conhecia. <\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-size: 10pt; font-family: verdana, geneva, sans-serif; color: #808080;\">Eu sabia, por exemplo, como seria o cen\u00e1rio. Tamb\u00e9m sabia um pouco sobre a concep\u00e7\u00e3o de dire\u00e7\u00e3o e outros aqu\u00e9ns que comporiam o espet\u00e1culo, mas jamais poderia dizer que imaginava os sentimentos que surgiriam ao assistir \u00e0 hist\u00f3ria escrita por Diogo Liberano (o dramaturgo) como espectadora.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_800\" aria-describedby=\"caption-attachment-800\" style=\"width: 1280px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-800\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/como-cavalgar-um-draga\u0303o-02.png\" alt=\"\" width=\"1280\" height=\"853\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/como-cavalgar-um-draga\u0303o-02.png 1280w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/como-cavalgar-um-draga\u0303o-02-300x200.png 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/como-cavalgar-um-draga\u0303o-02-1024x682.png 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/como-cavalgar-um-draga\u0303o-02-768x512.png 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/como-cavalgar-um-draga\u0303o-02-750x500.png 750w\" sizes=\"(max-width: 1280px) 100vw, 1280px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-800\" class=\"wp-caption-text\">Foto: N\u00f3s em Arte.<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-size: 10pt; font-family: verdana, geneva, sans-serif; color: #808080;\">Quando adentrei a Sala Qorpo Santo em outubro do ano passado, lembro de me surpreender com uma estrutura estranha posta no palco. Havia tr\u00eas paredes brancas, mas n\u00e3o eram paredes comuns; estavam tortas pendendo para fora como um tipo de bacia, como se esperassem o derramamento de alguma coisa. E n\u00e3o existia parede entre o p\u00fablico e a cena, ou na verdade havia, mas era invis\u00edvel aos olhos do espectador, existindo apenas como uma membrana identific\u00e1vel apenas por aqueles que executavam a cena. De qualquer forma, sugeria um ar estranho, beirando o hiperb\u00f3lico- paredes sobre um palco fechado por outras paredes maiores.<\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-size: 10pt; font-family: verdana, geneva, sans-serif; color: #808080;\">No fundo, na parede contr\u00e1ria ao p\u00fablico, havia uma janela fechada e isso tamb\u00e9m me soou estranho. \u00c9 curioso pensar em como reconhecemos janelas em cena sendo que a sua fun\u00e7\u00e3o, que \u00e9 abrir os ambientes e mostrar o que h\u00e1 do lado de fora, perde o sentido quando colocadas em cena. Ainda assim, era \u00f3bvio que o buraco sim\u00e9trico em uma das paredes era, de fato, uma janela. Novamente, hiperbolicamente fechada. <\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-size: 10pt; font-family: verdana, geneva, sans-serif; color: #808080;\">Havia caixas, objetos, m\u00f3veis que simbolizavam que aquele espa\u00e7o um dia foi o quarto de algu\u00e9m, mas que aparentemente n\u00e3o estava mais sendo utilizado por seu dono. <\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-size: 10pt; font-family: verdana, geneva, sans-serif; color: #808080;\">Aos poucos, a medida em que as personagens entravam em cena, naquele quarto estranho de janela fechada, descobrimos que eram amigos da antiga moradora do lugar e que se encontravam ali para guardar os pertences dela. Lembro de ter a sensa\u00e7\u00e3o de que um sitcom similar a Friends ia se desenrolar para o p\u00fablico.<\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-size: 10pt; font-family: verdana, geneva, sans-serif; color: #808080;\">O grupo de amigos era composto por v\u00e1rios tipos. Havia o rebelde, com atitudes grosseiras e l\u00edngua afiada; a apaziguadora, que tenta fazer os outros se conciliarem; a melanc\u00f3lica, que culpa a si mesma pela morte da amiga Let\u00edcia; e outros dois que tentam lidar com a pr\u00f3pria dor recorrendo \u00e0 fuga, atrav\u00e9s de rem\u00e9dios e distanciamento geogr\u00e1fico da situa\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-size: 10pt; font-family: verdana, geneva, sans-serif; color: #808080;\">Entre as v\u00e1rias discuss\u00f5es e acusa\u00e7\u00f5es de uns aos outros, o grupo tenta encontrar respostas para a atitude de Let\u00edcia, tentando lembrar de algum ind\u00edcio que pudesse explicar porque a amiga havia se atirado da janela daquele quarto, agora concluidamente fechada numa tentativa de tapar a dor de todos aqueles que permaneceram. <\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-size: 10pt; font-family: verdana, geneva, sans-serif; color: #808080;\">Durante as cenas, eles decupam os \u00faltimos momentos que tiveram com Let\u00edcia detalhadamente, procurando neles pistas mas, aparentemente, n\u00e3o h\u00e1 nada que possa auxiliar em alguma conclus\u00e3o. Percebemos, ent\u00e3o, que a pe\u00e7a \u00e9 sobre mais do que apenas o suic\u00eddio. \u00c9 sobre a dor daqueles que ficam, sobre como tentamos encontrar l\u00f3gica por tr\u00e1s de uma atitude t\u00e3o tr\u00e1gica, numa tentativa de aliviar um pouco a tristeza que sentimos quando algu\u00e9m querido parte. <\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-size: 10pt; font-family: verdana, geneva, sans-serif; color: #808080;\">Enquanto assistia, percebi que a pot\u00eancia da pe\u00e7a est\u00e1 al\u00e9m da t\u00e9cnica dos atores, da dramaturgia ou da encena\u00e7\u00e3o. As vezes, olhava para os lados e via meus pr\u00f3prios amigos emocionados com o que presenciavam, absortos na tristeza da fic\u00e7\u00e3o que movia-se do palco e adentrava nas experi\u00eancias de cada um. Eu mesma n\u00e3o conseguia afugentar minhas pr\u00f3prias mem\u00f3rias enquanto assistia, e foi nesse momento que compreendi que o que havia ali, nesse acontecimento ef\u00eamero, era um tipo de comunh\u00e3o. Todos j\u00e1 haviam perdido algu\u00e9m, e toda aquela confus\u00e3o nas quais as personagens se encontravam era a mesma bagun\u00e7a que nos acomete quando temos que nos despedir de algu\u00e9m. <\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-size: 10pt; font-family: verdana, geneva, sans-serif; color: #808080;\">O conflito n\u00e3o estava na hist\u00f3ria que se desenvolvia perante nossos olhos, iniciava-se na obra e tomava corpo nos pr\u00f3prios espectadores. Os que assistiam incorporavam o pr\u00f3prio luto \u00e0 pe\u00e7a, qualquer um, naquela sala, poderia ser algum dos sujeitos interpretados pelos atores, repletos de d\u00favidas, de dor e a procura de um entendimento acerca do mist\u00e9rio que \u00e9 a morte. Se as personagens n\u00e3o encontram respostas, tampouco n\u00f3s conseguimos faz\u00ea-lo.<\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-size: 10pt; font-family: verdana, geneva, sans-serif; color: #808080;\">No fim, penso que Como Cavalgar um Drag\u00e3o tamb\u00e9m \u00e9 sobre as mudan\u00e7as que somos obrigados a enfrentar, as coisas pequenas para o universo como um todo, t\u00e3o fr\u00e1geis se comparadas \u00e0s tempestades, mas que nos impactam violentamente.<\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-size: 10pt; font-family: verdana, geneva, sans-serif; color: #808080;\">Acredito que muitos tamb\u00e9m se perguntam sobre o t\u00edtulo da pe\u00e7a, que drag\u00e3o \u00e9 esse que pensamos em como cavalgar\u2026 <\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-size: 10pt; font-family: verdana, geneva, sans-serif; color: #808080;\">Mas eu, pessoalmente, nunca vi um drag\u00e3o. Se algu\u00e9m viu\u2026 Bom, duvido muito que queira estragar o mist\u00e9rio que mobiliza a nossa imagina\u00e7\u00e3o a pensar sobre eles, muito menos sobre como dom\u00e1-los. Acho que deveriam ser livres, mut\u00e1veis, ef\u00eameros\u2026 Como a arte, a vida e, portanto, a morte, em toda a incompreens\u00e3o que temos a respeito delas.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_801\" aria-describedby=\"caption-attachment-801\" style=\"width: 1280px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-801\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/como-cavalgar-um-draga\u0303o-03.png\" alt=\"\" width=\"1280\" height=\"720\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/como-cavalgar-um-draga\u0303o-03.png 1280w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/como-cavalgar-um-draga\u0303o-03-300x169.png 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/como-cavalgar-um-draga\u0303o-03-1024x576.png 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/como-cavalgar-um-draga\u0303o-03-768x432.png 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/como-cavalgar-um-draga\u0303o-03-750x422.png 750w\" sizes=\"(max-width: 1280px) 100vw, 1280px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-801\" class=\"wp-caption-text\">Foto: N\u00f3s em Arte.<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\" align=\"CENTER\"><span style=\"font-size: 10pt; font-family: verdana, geneva, sans-serif; color: #808080;\">***<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: verdana, geneva, sans-serif; font-size: 10pt; color: #808080;\"><strong>Ficha T\u00e9cnica<\/strong><\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt; font-family: verdana, geneva, sans-serif; color: #808080;\">Elenco: Cl\u00e1udia Carvalho, Dani Dutra, Mariana Fernandes, Nairim Tomazini e Pedro Schilling<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt; font-family: verdana, geneva, sans-serif; color: #808080;\">Dire\u00e7\u00e3o: Henrique Strieder e Pedro Schilling<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt; font-family: verdana, geneva, sans-serif; color: #808080;\">Assist\u00eancia de dire\u00e7\u00e3o: Renata Lorenzi<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt; font-family: verdana, geneva, sans-serif; color: #808080;\">Dramaturgia: Diogo Liberano<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt; font-family: verdana, geneva, sans-serif; color: #808080;\">Orienta\u00e7\u00e3o: Luciana \u00c9boli<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt; font-family: verdana, geneva, sans-serif; color: #808080;\">Cria\u00e7\u00e3o de luz: Henrique Strieder<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt; font-family: verdana, geneva, sans-serif; color: #808080;\">Opera\u00e7\u00e3o de luz e som: O Grupo<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt; font-family: verdana, geneva, sans-serif; color: #808080;\">Est\u00e1gio de Atua\u00e7\u00e3o de Nairim Tomazini e Pedro Schilling<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt; font-family: verdana, geneva, sans-serif; color: #808080;\">Foto: Renata Lorenzi<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"color: #333333;\"><em><span style=\"font-family: verdana, geneva, sans-serif; font-size: 8pt;\">Qorpo Qr\u00edtico \u2013 Vol. 02, n. 04, junho a setembro de 2020. <span style=\"color: #000000; font-family: verdana, geneva, sans-serif; font-size: 8pt;\">ISSN 2675-4207.<\/span><\/span><\/em><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Uma das coisas mais interessantes no teatro talvez seja a mudan\u00e7a. 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