{"id":848,"date":"2020-06-25T10:42:05","date_gmt":"2020-06-25T13:42:05","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/?p=848"},"modified":"2020-06-29T11:15:31","modified_gmt":"2020-06-29T14:15:31","slug":"a-voluptuosa-pele-do-ecra-ou-a-carne-da-imagem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/a-voluptuosa-pele-do-ecra-ou-a-carne-da-imagem\/","title":{"rendered":"A VOLUPTUOSA PELE DO ECR\u00c3 (OU: A CARNE DA IMAGEM)"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"western\" style=\"text-align: right;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #808080; font-family: 'times new roman', times, serif; font-size: 10pt;\"><em>\u201cE o verbo se fez carne e habitou entre n\u00f3s&#8230; E vimos a sua gl\u00f3ria.\u201d<\/em> (Jo\u00e3o I,I)<\/span><\/p>\n<p class=\"western\" style=\"text-align: right;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-size: 10pt; color: #808080; font-family: 'times new roman', times, serif;\">ou<\/span><\/p>\n<p class=\"western\" style=\"text-align: right;\" align=\"JUSTIFY\"><em><span style=\"font-size: 10pt; color: #808080; font-family: 'times new roman', times, serif;\">E a linguagem se erotizou. E gozamos&#8230;<\/span><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-family: 'times new roman', times, serif; font-size: 10pt; color: #808080;\"><em>&#8220;De fato, existe uma estreita liga\u00e7\u00e3o entre a n\u00e3o-aceita\u00e7\u00e3o da apar\u00eancia, o temos \u00e0 imagem, sob suas diversas formas, e o horror dos sentidos, o medo da beleza ou ainda o \u00f3dio \u00e0 mat\u00e9ria.&#8221;<\/em> (Michel Maffesoli, A contempla\u00e7\u00e3o do mundo)<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_849\" aria-describedby=\"caption-attachment-849\" style=\"width: 2335px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-849 size-full\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Mesac.jpg\" alt=\"\" width=\"2335\" height=\"2335\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Mesac.jpg 2335w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Mesac-300x300.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Mesac-1024x1024.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Mesac-150x150.jpg 150w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Mesac-768x768.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Mesac-1536x1536.jpg 1536w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Mesac-2048x2048.jpg 2048w, https:\/\/www.ufrgs.br\/qorpoqritico\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Mesac-750x750.jpg 750w\" sizes=\"(max-width: 2335px) 100vw, 2335px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-849\" class=\"wp-caption-text\">Sobreposi\u00e7\u00e3o com a imagem da Live Premi\u00e8re mundial do Grupo de Pesquisa Insubordinada.<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"western\" style=\"text-align: left;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-size: 12pt; color: #808080; font-family: 'times new roman', times, serif;\">Aqui num pequeno e pouco charmoso Caf\u00e9 do centro relendo Fragmentos de um discurso amoroso, do fil\u00f3sofo franc\u00eas Roland Barthes encontro \u201ca m\u00e3o repousa sobre a pele:.. regi\u00e3o paradis\u00edaca dos signos sutis e clandestinos: como uma festa, n\u00e3o dos sentidos, mas do sentido&#8221; e sinto que n\u00e3o escrevo apenas sobre a pele, mas na pele, \u00e0 merc\u00ea da pele, subjugado por ela&#8230; E a pr\u00f3pria escrita, acaricia a superf\u00edcie da alma, do corpo. E os meus olhos apalpam a pel\u00edcula, a imagem. E o verbo se faz pele, pele acariciada, pele&#8230; linguagem. &#8220;Moi peau&#8221; (eu pele) afirma o psicanalista franc\u00eas Didier Anzieu; eu digo: Moi image (eu imagem). E, num repente, sou como que possu\u00eddo pela imagem, tomado pelo discurso da imagem, arrebatado. Ela fala por mim, sou seu m\u00e9dium, sua m\u00eddia.<\/span><\/p>\n<p class=\"western\" style=\"text-align: left;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-size: 12pt; color: #808080; font-family: 'times new roman', times, serif;\">Sou Vol\u00fapia, uma imagem penetr\u00e1vel, envolvente, acarici\u00e1vel. Tamb\u00e9m, uma imagem male\u00e1vel, manipul\u00e1vel; uma imagem que se oferece n\u00e3o s\u00f3 aos olhos, mas ao corpo, \u00e0 m\u00e3o, \u00e0s pontas dos dedos, que me apalpam, me beliscam, me contraem e me distendem. Tanto \u00e0 portas abertas ao p\u00fablico como \u00e0 portas fechadas das alcovas sou lasciva e obscena. Posso me tornar imagem de qualquer outra coisa ou ser, n\u00e3o h\u00e1 limites para o meu poder de muta\u00e7\u00e3o. Sou uma imagem eletr\u00f4nica, uma infoimagem, uma imagem que perambula na rede digital. Proteiforme, tenho mil faces, e posso mostr\u00e1-las todas ao mesmo tempo numa massa amorfa, ou uma a uma. N\u00e3o h\u00e1 limites para os meus poderes. Em fra\u00e7\u00e3o de segundo posso me transmutar assumindo qualquer apar\u00eancia. Sou indecente &#8211; e iridescente -, concupiscente, prom\u00edscua, er\u00f3gena. Eu, a louca da casa, perseguida tanto por adoradores como por detratores, agora estou solta na cidade.<\/span><\/p>\n<p class=\"western\" style=\"text-align: left;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-size: 12pt; color: #808080; font-family: 'times new roman', times, serif;\">Habito impudentemente esses lugares fronteiri\u00e7os, at\u00f3picos, das redes digitais, onde me instalo, provis\u00f3ria, modificando tempos e espa\u00e7os. Meu tempo \u00e9 o Kair\u00f3s dos gregos, tempo da gra\u00e7a, da oportunidade, da possibilidade. Sou feita da mat\u00e9ria reticular da dan\u00e7a dos signos digitais bin\u00e1rios. Pele male\u00e1vel e m\u00f3vel do pixel: pele da tela. <\/span><\/p>\n<p class=\"western\" style=\"text-align: left;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-size: 12pt; color: #808080; font-family: 'times new roman', times, serif;\">Tomo as palavras da escritora e psicanalista francesa Ana\u00efs Nin, e afirmo que tamb\u00e9m &#8220;uma fome de maravilhas me aflige\u201d. Como aquela mulher polifac\u00e9tica, male\u00e1vel, pl\u00e1stica, despeda\u00e7ada que era Nin, infinitas camadas possuo, e me realizo, atualizo e virtualizo na remo\u00e7\u00f5es ininterruptas das minhas p\u00e1tinas. Sou p\u00e1tina sobre p\u00e1tina. Sou p\u00e1tina sob, intra, infra e justa p\u00e1tina. Na conflagra\u00e7\u00e3o de todas minhas camadas vivifico. Percorrer-me \u00e9 perscrutar cavernas, decifrar hier\u00f3glifos, desvendar l\u00ednguas pret\u00e9ritas. Ent\u00e3o me revelo, me desvelo; retiro meus v\u00e9us um a um, impudica. \u00c1vida de aleatoriedades, abandono meus vest\u00edgios, minhas roupagens e cascas transl\u00facidas por onde passo. <\/span><\/p>\n<p class=\"western\" style=\"text-align: left;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-size: 12pt; color: #808080; font-family: 'times new roman', times, serif;\">Infiel e corrupt\u00edvel, n\u00e3o tenho pretens\u00f5es de representar um original, essa inst\u00e2ncia primeira, essa realidade, essa verdade, esse Deus. Deuses omnipotentes n\u00e3o me atraem, ao contr\u00e1rio, me rejubilo com o que \u00e9 terreno, baixo, abjecto, res\u00edduo, resto, coisa. Congratulo-me com os seres das sombras, dos crep\u00fasculos, das encruzilhadas, seres hermesianos, suspeitos; talvez por isso me temam e me vilipendiem. Mas, mesmo escarnecida, abandonada e renegada, prossigo \u00edgnea, inflam\u00e1vel, pervertida e perversora, voraz e inexaur\u00edvel; dona de um frenesi que condena \u00e0 vertigem quem me olha no olhos. Provoco a ira dos Deuses ciumentos que convertem em est\u00e1tua de sal \u00e0quelas que ousam n\u00e3o resistir a minha sedu\u00e7\u00e3o. Por\u00e9m, n\u00e3o seduzo como o fazem as imagens nobres, sublimes, sagradas; mas bem, prefiro ser talism\u00e3, imagem banal, supersticiosa, clich\u00ea. Repetitiva e vulgar, fujo das paredes pulcras dos museus para macular-me nos ecr\u00e3s das pequenas m\u00e1quinas descart\u00e1veis, esses aparelhos \u201cde ser in\u00fatil\u201d, jogados \u201cno ch\u00e3o, quase coberto de limos\u201d, como no verso do poeta brasileiro Manoel de Barros.<\/span><\/p>\n<p class=\"western\" style=\"text-align: left;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-size: 12pt; color: #808080; font-family: 'times new roman', times, serif;\">Vol\u00fapia suprema, obscena, manifesto-me como uma esp\u00e9cie de glossolalia visual: cintilante, imperiosa, vibrante, potente e descontrolada. A efervesc\u00eancia e o rejubilar-se do pixel, da eletricidade. O bacanal concupiscente da tela libidinosa e ardente. \u201cMir\u00edade de efloresc\u00eancias\u201d, como descreve o fil\u00f3sofo franc\u00eas Michel Onfray as propriedades borbulhantes da champagne, em A Raz\u00e3o gulosa. \u00c9 outro deus que habita aqui (assim como d min\u00fasculo), ou melhor, deusas: as deusas do entusiasmo. Imagens que inebriam, fascinam, sideram. A imageria como um m\u00e9dium, que me coloca em rela\u00e7\u00e3o com um isto do corpo. Possess\u00e3o m\u00fatua, exorcismo m\u00fatuo. Liberta\u00e7\u00e3o. <\/span><\/p>\n<p class=\"western\" style=\"text-align: left;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-size: 12pt; color: #808080; font-family: 'times new roman', times, serif;\">Finalmente, nos dom\u00ednios das apar\u00eancias, a carne se divorcia do Esp\u00edrito e associa-se aos esp\u00edritos, aos daimones. A carne se assume como coisa, n\u00e3o necessita mais um Esp\u00edrito que a habite e a enobre\u00e7a, se satisfaz com a apar\u00eancia, os sentidos. Batismo na carne e pela carne, onde a apar\u00eancia se faz carne. Aquilo que era apar\u00eancia se concretiza virtualizando-se. \u00c9 a vez da coisa e da apar\u00eancia cohabitarem. A tela se espiritualiza num tecnopentecostalismo pag\u00e3o. \u00c9 a era dos esp\u00edritos, dos dem\u00f4nios, das Bacas, de Dioniso, do simulacro, dos emblemas vulgares e talism\u00e3s &#8211; esse \u00eddolo port\u00e1til.<\/span><\/p>\n<p class=\"western\" style=\"text-align: left;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-size: 12pt; color: #808080; font-family: 'times new roman', times, serif;\">Agora, a imagem se banha nela mesma, na sua espiritualidade polifac\u00e9tica, entidade viciada em si mesma como coisas, a carne se realizando plena e atuando num pacto er\u00f3tico com os esp\u00edritos, as apar\u00eancias, as confus\u00f5es. As bodas dos daimones e sarke, dem\u00f4nio e carne cohabitando. Os esp\u00edritos tornam-se assim coisas, e a coisa transcende, se transcende na apar\u00eancia imanente. Um concubinato: coisa e apar\u00eancia se amasiam, e sob o ausp\u00edcio da Era da apar\u00eancia e da coisas, se apaixonam e copulam. Uma total ateologia da imagem nasce desse amor dos esp\u00edritos pela carne e vice e versa. Toda tentativa de matar a carne, aprision\u00e1-la pela lei ou numa esp\u00e9cie de semelhan\u00e7a, fracassou. N\u00e3o se trata mais de realiza\u00e7\u00e3o ou semelhan\u00e7a, tampouco de reden\u00e7\u00e3o: a carne est\u00e1 aberta \u00e0s influ\u00eancias e poderes do mundo. A imagem como coisa, sem aura, sem original, ac\u00e9fala, sem precisar de ningu\u00e9m para cuid\u00e1-la. N\u00e3o \u00e9 mais plena. N\u00e3o tem necessidade de significa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o precisa ser insuflada. \u00c9 apar\u00eancia, \u00e9 coisa, \u00e9&#8230; imagem: apenas carne e sangue do mundo; n\u00e3o carece mais de justifica\u00e7\u00e3o, de amparo do grande Esp\u00edrito \u00fanico. N\u00e3o tem pretens\u00f5es de onisci\u00eancia, onipot\u00eancia ou onipresen\u00e7a. Ao contr\u00e1rio, ela se entrega \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o, \u00e0 ignor\u00e2ncia de si mesmo. Fragmentada, concupiscente e desnaturada, pode ser perversa e atraente, mas sempre exibindo uma sensualidade e sedu\u00e7\u00e3o completamente fr\u00e1gil, f\u00fatil e fugaz, com voca\u00e7\u00e3o mais para est\u00e1tua corrupt\u00edvel e quebradi\u00e7a de sal, que de monumento de solidez perp\u00e9tua. Repleta de desejos e camuflada, miragem, simula\u00e7\u00e3o, m\u00e1scara, n\u00e3o esconde mais a alma, a ess\u00eancia. N\u00e3o mais ess\u00eancia e pureza, mas apar\u00eancia e hibridismo. Desaparece a ess\u00eancia e permanecemos na apar\u00eancia. J\u00e1 n\u00e3o vemos face a face. De volta do santu\u00e1rio, podemos finalmente atravessar a terra em dire\u00e7\u00e3o ao hades. <\/span><\/p>\n<p class=\"western\" style=\"text-align: left;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #808080; font-family: 'times new roman', times, serif; font-size: 12pt;\">\u201c<span lang=\"pt-BR\">&#8230;a imagem \u00e9, de parte a parte, org\u00edaca.\u201d <\/span><span lang=\"fr-FR\">(Michel Maffesoli, A contempla\u00e7\u00e3o do mundo)<\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"western\" style=\"text-align: left;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-size: 12pt; color: #808080; font-family: 'times new roman', times, serif;\">Pele e carne eletr\u00f4nicas, el\u00e9tricas, sou as imagens pirot\u00e9cnicas, ef\u00eameras, anam\u00f3rficas, metam\u00f3rficas; nem fic\u00e7\u00e3o nem real, mas a realidade da mat\u00e9ria, do pixel, e seu sonho. Imagem perturbada, arranhada, furada, penetrada, desvairada. Fr\u00e1gil e poderosa ao mesmo tempo, na minha delicadeza reside a minha for\u00e7a. Em destrui\u00e7\u00e3o e reconstru\u00e7\u00e3o perp\u00e9tua evidencio a materialidade mutante do ser, a mat\u00e9ria do mundo. Er\u00f3gena, er\u00f3tica, erotizada, imagem erigida como fluxo que jorra ou que escorre. Sem vergonha de ser coisa&#8230;, sem vergonha de ser irreal. O fetiche do ser. Em mim, imagem digital, o corpo aparece festivamente travestido em coisa. E a pele se faz pixel e habita entre n\u00f3s. N\u00e3o se quer o real, nem melhorar o real, n\u00e3o s\u00e3o registros de corpos, mas, antes, a corporifica\u00e7\u00e3o dos registros. A m\u00e1quina eletr\u00f4nica vis\u00edvel, a vertigem do jogo eletr\u00f4nico dos pixels evidenciada. Corpo eletr\u00f4nico voluptuoso. O entrela\u00e7amento concupiscente e lascivo da pele, do pixel e da m\u00e1quina. Uma imagem que n\u00e3o representa e nem significa, n\u00e3o tem sentido: apenas mostra. Corpo-coisa, imagem-m\u00e1quina, numa c\u00f3pula libertina perfeita e plena. Sem qualquer d\u00edvida com o real. Sem pretens\u00f5es de preceder ou engendrar o real, eu, a infoimagem, pelo simples fato de mostrar-me, revelo a incontest\u00e1vel inexist\u00eancia do real. Tampouco procuro coincidir as info-miragens que reproduzo com um real, um original. Em mim desaparece a diferen\u00e7a soberana entre real e apar\u00eancia, deserto e miragem, diluindo, assim, o prest\u00edgio de uma aura que enobrecia o real, o original, a despeito da apar\u00eancia. A mat\u00e9ria das infoimagens celebra o reino das apar\u00eancias que n\u00e3o representam nada, nem ocultam nem revelam o original. <\/span><\/p>\n<p class=\"western\" style=\"text-align: left;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-size: 12pt; color: #808080; font-family: 'times new roman', times, serif;\">Atrav\u00e9s da replica\u00e7\u00e3o indefinida dessa \u00ednfima lumin\u00e2ncia, dessa matriz sint\u00e9tica miniaturizada, que \u00e9 o pixel, mat\u00e9ria male\u00e1vel que n\u00e3o se aventura pelos territ\u00f3rios do sentido mas encena artificialmente circuitos de jogos em qualquer sistema de signos, finalmente o real &#8211; o original, o theos &#8211; morre. Boicotando o sistema plat\u00f4nico por onde ele menos esperava, eu, a apar\u00eancia, n\u00e3o suplanto o real, nem me arrogo o estatuto de original ou de legitimidade; sem recalque nem decalque, n\u00e3o desejo instaurar uma hiperrealidade, nem um desrealidade; n\u00e3o h\u00e1 em mim tal pretens\u00e3o. N\u00e3o envolvo o corpo ou as coisas do mundo como uma segunda pele. A imagem da nudez do corpo e das coisas \u00e9 a nudez da imagem, a minha nudez; n\u00e3o os apresento como real, nem os vitrifico ou impermeabilizo envolvendo-os em uma pel\u00edcula. Ao contr\u00e1rio, como imagem eletr\u00f4nica, brinco com esses signos-significantes do corpo. Quebro o vidro do original estilha\u00e7ando-o, derreto a pele do referencial, que escorre pela tela. Liquefa\u00e7o a imagem e a ofere\u00e7o aos comandos maqu\u00edinicos que podem apresenta-la protuberante, \u00e1spera, borbulhenta, inflamada, saturada, lacerada, esfolada, desintegrada: alqu\u00edmica.<\/span><\/p>\n<p class=\"western\" style=\"text-align: left;\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-size: 12pt; color: #808080; font-family: 'times new roman', times, serif;\">Fr\u00e1gil, fal\u00edvel, vulner\u00e1vel, n\u00e3o ofere\u00e7o quaisquer promessas, um dia existo, outro sou jogada fora; como a flor das ervas daninhas, como folhas ao vento, assim sou a imagem da tela. Despojada, \u00e0 merc\u00ea, sem respeito pr\u00f3prio, extraviada nas fantasias de minha pr\u00f3pria feitura. Deserdada e erradia, enferma de mim mesma, em mim me encho e logo me esvai, num fluxo constante. E o logos se fez pele, se fez ecr\u00e3? N\u00e3o, a pele se fez pele. Del\u00e9vel, impermanente, vis\u00edvel e tang\u00edvel, desagrado a aura e o prest\u00edgio do original que me \u00e9 hostil, mas que agora j\u00e1 n\u00e3o me pode tocar porque me espalhei pelo mundo. N\u00e3o tenho finalidade a n\u00e3o ser em mim mesma. Composta somente de v\u00e9us. V\u00e9us vaidosos: a vaidade da efemeridade do pixel. Uma pele de lumens revestindo sem vestir, transparecendo luminosos, transl\u00facidos&#8230; na lucidez do del\u00edrio da luz. Lumin\u00e2ncias concupiscentes; carnes transl\u00facidas. Apare\u00e7o, e logo me vou. Vida breve, epifania el\u00e9trica. Port\u00e1til, conectiva, transmissora, promiscua. Imagem-carne vadia, vagabunda, inapreens\u00edvel. Contudo, me deixo possuir por instantes fugazes, me entrego, para imediatamente desaparecer e me transmutar. Sou a \u201csombra de Dioniso\u201d sugerida por Michel Maffesoli; mas aqui, uma sombra luminosa, a sombra do virtual, que cintila e se vai, cadente, decadente, marginal, er\u00f3tica. Uma esp\u00e9cie de perturbadora das divindades, como as bacas, sou a pr\u00f3pria mat\u00e9ria, o objeto, a coisa, ganhando vida atrav\u00e9s dessa exist\u00eancia n\u00e3o-control\u00e1vel e desordenada da imagem eletr\u00f4nica.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #808080; font-family: 'times new roman', times, serif; font-size: 12pt;\">***<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-size: 10pt; color: #808080; font-family: 'times new roman', times, serif;\"><em><strong>Mesac Silveira.<\/strong><\/em> P\u00f3s-doutor em Sociologia da Comunica\u00e7\u00e3o pelo CEAQ, Sorbonne, Paris V, mestre e doutor em Educa\u00e7\u00e3o, FEUSP &#8211; USP. Coordenou o grupo de pesquisa Soundscape\/Atopos, ECA USP. Licenciado e Artes C\u00eanicas, atualmente \u00e9 professor adjunto do Departamento de Arte Dram\u00e1tica do Instituto de Artes da UFRGS onde, entre outras atividades, ministra a disciplina Pr\u00e1ticas do Jogador Performer e coordena o Grupo de Pesquisa Navio Proteu.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"color: #333333;\"><em><span style=\"font-family: verdana, geneva, sans-serif; font-size: 8pt;\">Qorpo Qr\u00edtico \u2013 Vol. 02, n. 04, junho a setembro de 2020. <span style=\"color: #000000; font-family: verdana, geneva, sans-serif; font-size: 8pt;\">ISSN 2675-4207.<\/span><\/span><\/em><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; \u201cE o verbo se fez carne e habitou entre n\u00f3s&#8230; E vimos a sua gl\u00f3ria.\u201d (Jo\u00e3o I,I) ou E a linguagem se erotizou. 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