A música como protagonista no cinema

Há palavras que até o Houaiss desconhece. Uma delas é diegese, de origem grega (diegesis: narrativa), e suas derivações: diegético, não diegético, metadiegético, etc.

Para Étiene Souriau, que retoma a palavra em 1951 no campo dos estudos de cinema, “os ‘fatos diegéticos’ são aqueles representados na tela, relativos à apresentação em projeção diante dos espectadores. É diegético tudo o que se passa conforme a ficção que o filme apresenta, tudo o que essa ficção implicaria se fosse supostamente verdadeira.” ( Jacques Aumont e Michel Marie, Dicionário teórico e crítico de cinema, ed. Papirus, 2006.)

Música diegética é, portanto, aquela que está dentro da cena e que é ouvida pelos personagens. Diferentemente da não diegética, que é a trilha sonora ouvida apenas pelo público. O exemplo mais famoso e mais celebrado de música tocada em cena talvez seja o de Casablanca, em que Sam, o pianista do Rick’s Café, interpreta As time goes by para os personagens de Humphrey Bogart e Ingrid Bergman.

Umberto Eco chegou a publicar um livro inteiro dedicado à mania catalogadora, taxonômica e obsessiva das listas. A vertigem  das listas (Ed. Record), sugere o erudito italiano, pode ter sido inaugurada com o arrolamento da frota grega (e, em número muito menor de versos, a troiana) na Ilíada de Homero, no famoso “Catálogo das naus”. Nos anos 90, com Alta fidelidade, livro de Nick Hornby adaptado ao cinema, a obsessão catalogadora (musicais, especialmente) ganhou uma nova dimensão pop. Hoje, as listas infestam virulentamente todo o universo internético.

Jorge Luis Borges tem uma frase que diz mais ou menos assim: o que mais se destaca em uma lista são as ausências. Temos a esperança, pelo menos, de que a nossa lista traga surpresas, ou, no mínimo, relembranças.

Caetano Veloso em Fale com ela (Hable con ella, 2002) de Pedro Almodóvar

Almodóvar tem uma excelente relação com a música brasileira. Já no princípio de Fale com ela, enquanto assistimos à toureira (representada pela cantora Rosario Flores) em plena ação na Praça dos Touros, ouvimos na trilha sonora Por toda minha vida, do disco Elis e Tom (1974). Em outro trecho, o personagem de Dario Grandinetti cita um verso de Jobim (“O amor é a coisa mais triste quando se desfaz”). Praticamente um clipe musical dentro do filme, a cena com Caetano Veloso apresenta a interpretação definitiva da famosa canção mexicana, gravada por tantos artistas, com destaque para Miguel Aceves Mejía.

Quintessência do brega-chique, a cena com Caetano é a suma da obra almodovariana, em que é indistinguível a separação entre o kitsch e o sublime.

Toda melancolia existencialista do protagonista (o insuperável Marcello Mastroianni), toda a delicadeza do mundo frenético e desalentado da Doce vida (1959, Fellini) romana representada em uma cena-síntese, onde um palhaço toca trompete para um exército de solitários balões. E sai de cena, lentamente, como quem chama seus cães de estimação.

Fellini compõe não apenas com o onipresente autor de suas trilhas, Nino Rota. Compõe com o vento e os ruídos, os silvos e suspiros de um mundo prestes a desaparecer. A elegia tragicômica da “italieta” fascista ao fim de Amarcord (1973) é representada pela música do gaiteiro louco e cego que continua a tocar mesmo depois que a festa acabou e os convivas já se foram. A música, a festa, os sonhos, a juventude, tudo vai desvanecendo com a música e o vento.

Klaus Kinski tocando Caruso no gramofone no meio da Amazônia, em Fitzcarraldo (1981).      

Werner Herzog e Klaus Kinski talvez tenham combinado a mais neurótica das relações no cinema. Quem assistiu ao belíssimo documentário Meu melhor inimigo sabe que Herzog estimulava Kinski a enlouquecer até o limite do histrionismo imaginável, beirando à violência e à loucura, para extrair a melhor atuação possível de seu alter ego demoníaco. Em Fitzcarraldo, a história de um idealista que deseja levar a ópera à selva amazônica é a maior representação do cinema feito por Herzog e, possivelmente, a metáfora de toda forma de civilização.

A ópera chega à Amazônia.

Inspirado na vida de – e interpretado por – Dexter Gordon, Por volta da meia-noite (1986), de Bertrand Tavernier, é muito amado pelos jazzófilos do mundo todo. Mais amado que filmes excelentes como Paris vive à noite, de Martin Ritt, (1966, com Paul Newman), Bird, de Clint Eastwood, sobre Charlie Parker, e os inovadores Shadows (1959) e Too late blues (1961), ambos de John Cassavetes.

Na cena, no lendário Blue Note, Dexter Gordon está acompanhado de John McLaughlin, Billy Higgins, Pierre Michelot e Herbie Hancock, que assina a trilha sonora original.

Blow up (1966), de Michelangelo Antonioni, documenta o espírito contracultural londrino da metade dos anos 60 – a famigerada swinging London, que antecede por um triz a explosão psicodélica e o flower power. Com Vanessa Redgrave e David Hemmings, conta com a participação da jovem Jane Birkin.  

Jeff Beck destrói a guitarra e o amplificador num show dos Yardbirds (Jimmy Page à esquerda do quadro).

Antonioni parece ter captado o sentido sacrificial pagão que caracteriza, ou caracterizava, o rock.  Em 1967, como em um ritual de imolação, Hendrix incendiaria a própria guitarra no festival de Monterey, e Pete Towshend passaria longos anos destruindo sua guitarra em shows do The Who. Em Zabriskie Point (1970), em outra cena antológica e purgatória, Antonioni explode uma casa na Califórnia ao som de Pink Floyd.

Blow up inspirou outros filmes, como Blow out de Brian the Palma, com John Travolta. Mas a melhor derivação de Blow up é mesmo A Conversação (1974), de Francis Ford Coppola. Todo o clima do período Watergate está representado neste filme sobre paranóia e solidão, antecipando reflexões bastante contemporâneas sobre sistemas de segurança, invasão de privacidade e outras maravilhas modernas.

Harry Caul (Gene Hackman), depois de uma vida dedicada a espiar e invadir a intimidade dos outros, descobre que está sendo espionado. A devastação de sua solidão está retratada em um final desesperado e resignado. Como Nero tocando o lendário e apócrifo violino sobre Roma em chamas, o personagem toca o saxofone, a única coisa que lhe sobrou, sobre as próprias ruínas – as suas e as de sua época.

Cléo das 5 às 7 (1962) é um marco de ousadia formal, uma pletora de vitalidade juvenil e inventividade. Agnés Varda é delicada, inteligente, corajosa. No filme que transcorre nas duas horas anunciadas no título, acompanhamos a personagem de Cleo errando pelas ruas, à disposição dos eventos e da aleatoriedade dos acontecimentos.

E ninguém mais ninguém menos que Michel Legrand é o amigo da protagonista e aparece para brindar a plateia com sua graça.

A introdução do filme Lightning over water (1980), documentário de Win Wenders sobre o lendário e enigmático cineasta Nicholas Ray, tem uma ótima performance de Ronee Blakley (ela aparece na tela, em poucos mas marcantes planos de seu rosto em close). Um videoclipe, talvez, como abertura e apresentação dos créditos.

O show deve continuar (All that jazz, 1979) de Bob Fosse, é uma obra-prima do cinema americano. Roy Scheider interpreta o diretor de musicais e de filmes, exatamente como Bob Fosse,  que dirige a própria morte num espetáculo irônico e grotesco.

Há um momento sublime, uma espécie de epifania para os personagens de La cena (1998, de Ettore Scola), em que se escutam uma harpa e uma flauta tocadas em cena e ouvidas por todo o restaurante onde a história se passa, a 1h40m. É inencontrável o trecho isolado. O vídeo está marcado para tocar no exato instante.

Quando passou em Porto Alegre, no verão de 2001, três anos depois de sua produção, o filme foi um relativo sucesso no circuito alternativo. Hoje parece esquecido, mas é um dos melhores filmes de Scola.

Em Antes do amanhecer (1994), na cena musical mais romântica da história do cinema, Julie Delpy e Ethan Hawke ouvem Come here, de Kath Bloom,

No segundo filme da série, Antes do pôr do sol, do diretor Richard Linklater, nove anos depois, Julie Delpy toca Just in time com Nina Simone (da gravação ao vivo em Paris 68) para Ethan Hawke.

(ooh baby, you’re gonna miss that plane)

A festa de Babette é sempre lembrado quando se fala na relação entre cinema e gastronomia. Não menos importante é a música como um outro fator de sensualidade a perturbar os habitantes de uma puritaníssima aldeia dinamarquesa.

Um tenor de ópera, de passagem pelo lugarejo, seduz uma das filhas do pastor  com Là ci darem la mano, de Mozart.

Aqui é o meu lugar (2011, Paolo Sorrentino) é ruim e chato, mas, quando David Byrne surge, em um plano cinematograficamente virtuosístico, cantando o velho sucesso dos Talking Heads, This must be the place, temos um dos grandes momentos da música pop em um filme de ficção.

Sorrentino sabe usar a música de forma profunda e significativamente relevante, criando novos sentidos narrativos. Em A grande beleza (2013) há claramente uma dicotomia musical entre o sacro e profano refletindo o conflito do personagem. As peças sacras são todas de compositores contemporâneos, como David Lang, Arvo Part, etc.

No início do filme, diante da vista panorâmica da cidade eterna, um japonês se desgarra da sua trupe em excursão e desmaia, ao que  parece devido à síndrome de Stendhal, isto é, um colapso psicológico diante da grande beleza. Ouvimos a arrepiante, profunda e gélida I lie, de David Lang, cantada em cena pelo Torino Vocalesemble.

A paixão de Cameron Crowe por música, seu passado de crítico na revista Rolling Stone, transbordam em seu cinema. Vida de solteiro (1992) capta no ápice o momento grunge como fundo para uma história de jovens descobrindo as dores e delícias da vida adulta. O filme é uma comédia romântica inofensiva; a música é menos inócua, composta por petardos de raiva. Com participações no elenco dos integrantes do Pearl Jam, conta com algumas apresentações ao vivo de Soundgarden e Alice in Chains.

|Em Quase famosos (2000), de Cameron Crowe, assistimos à ilustração mais direta do poder integrador da música. A banda de rock retratada na película está em plena crise de relação, quando, rompendo o gelo e o silêncio rancoroso que perpassa os tripulantes do ônibus em turnê, um dos músicos começa a cantar Tiny dancer, de Elton John. Lentamente, um a um, todos acabam aceitando o convite e cantam juntos

Todas as manhãs do mundo (1991, de Alain Corneau), baseado no livro de Pascal Quignard, é uma obra sobre a relação  arquetípica entre mestre e discípulo, e sobre o eterno conflito entre um ideal de arte “pura” e mercantilização. As comoventes interpretações na viola da gamba da obra de Marin Marais e Sainte-Colombe são do catalão Jordi Savall. Inclui música de Lully, Couperin e do próprio Savall.

No clássico da sessão da tarde, Curtindo a vida adoidado (1986), Matthew Broderick dubla a versão dos Beatles para Twist and shout.

Bar Esperança (o último que fecha) é o melhor filme de Hugo Carvana, muito menos valorizado do que sua arte cômica, humanista e muito carioca mereceria. Bandeira Branca, na interpretação de Dalva de Oliveira, faz a trilha de encerramento do bar mais legal da história do cinema brasileiro, emendando o fim da história com os créditos dos atores ao final.

Glauber Rocha usou a música de forma sempre criativa. Ninguém esquece quando Corisco e Rosa se agarram selvagemente, como se o mundo estivesse por acabar, ao som da  Cantilena de Bachianas Brasileiras n. 5, de Villa-Lobos. Em O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro (1969) há algumas cenas de rituais extáticos e bastante sincréticos – como o Brasil.

No filme Terra em transe (1967), obra-prima de Glauber e, talvez, o tratado sociológico definitivo sobre o Brasil, Edison Machado e banda surgem em cena para um jazz desalentado e crepuscular, enquanto Jardel Filho e Paulo Gracindo naufragam em seu transe alucinatório dentro de uma boate carioca.

Muito inspirado em A noite (1961), de Antonioni, Noite vazia (1964), de Walter Hugo Khouri, tem a trilha sonora original de Rogério Duprat, com participações de Zimbo Trio e os The Fevers.

Juliano Fontanive Dupont