{"id":2722,"date":"2022-04-19T19:51:59","date_gmt":"2022-04-19T22:51:59","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/radio\/?p=2722"},"modified":"2022-04-28T11:18:19","modified_gmt":"2022-04-28T14:18:19","slug":"rumi-o-mundo-e-apenas-um-venci-o-dois","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/radio\/rumi-o-mundo-e-apenas-um-venci-o-dois\/","title":{"rendered":"Rumi: O mundo \u00e9 apenas Um, venci o Dois"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Hei de lan\u00e7ar-me b\u00eabado sem medo<\/em><em><br>a contemplar a alma do universo:<br>ou meus passos se apressam ao destino,<br>ou perco a vida, al\u00e9m do cora\u00e7\u00e3o<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um poeta nascido no territ\u00f3rio do atual Afeganist\u00e3o (ou do Tajiquist\u00e3o, segundo outras fontes), no s\u00e9culo 13, \u00e9 hoje um dos mais populares nos Estados Unidos. A poesia de Rumi est\u00e1 presente na \u00f3pera<em> Monsters of grace<\/em>, de Philip Glass, na obra musical de Arooj Aftab, mas tamb\u00e9m em can\u00e7\u00f5es do Coldplay e de Madonna. O guru new age Deepak Chopra criou livros e discos inspirados em sua obra. No s\u00e9culo inaugurado pelo ataque \u00e0s Torres G\u00eameas, o maior poeta do Isl\u00e3 est\u00e1 mais vivo do que nunca no Ocidente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Antes de conhecer a vers\u00e3o em portugu\u00eas do escritor Marco Lucchesi, ex-presidente da Academia Brasileira de Letras, li a tradu\u00e7\u00e3o para o ingl\u00eas de Coleman Barks, respons\u00e1vel pelo recente sucesso editorial de Rumi. Barks, nascido no Texas, \u00e9 poeta e professor de literatura. N\u00e3o conhece a l\u00edngua persa \u2012 nem &nbsp;turca ou &nbsp;\u00e1rabe, eventualmente usadas por Rumi. O tradutor conta que, em 1976, seu amigo (e tamb\u00e9m poeta) Robert Bly deu-lhe um livro de tradu\u00e7\u00f5es acad\u00eamicas do bardo e lhe disse: \u201cEstes versos precisam ser libertados de suas jaulas\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Barks, a partir do que ele descreve praticamente como uma epifania, recriou os poemas de Rumi na dic\u00e7\u00e3o moderna americana \u2012 a de Walt Whitman, William Carlos Williams etc. \u2012 em versos brancos e livres. As recria\u00e7\u00f5es de Barks renderam mais de 20 volumes e venderam mais de 2 milh\u00f5es de c\u00f3pias em todo o mundo, tendo sido traduzidas para 23 idiomas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A cr\u00edtica mais comum dirigida ao tradutor norte-americano \u00e9 a de que ele teria \u201cdesislamizado\u201d Rumi, omitindo todas as refer\u00eancias ao Cor\u00e3o. Barks alega que a supera\u00e7\u00e3o de todas as religi\u00f5es, o amor universal e o ecumenismo est\u00e3o presentes na obra de Rumi. Os cr\u00edticos n\u00e3o engolem e afirmam que a universalidade que muitos reverenciam em Rumi hoje vem do contexto mu\u00e7ulmano de sua \u00e9poca.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As vers\u00f5es de Barks e Lucchesi (que tamb\u00e9m o ecumeniza) cumprem o que geralmente se espera de um tradutor: traz ao p\u00fablico do s\u00e9culo 21, cuja \u201cespiritualidade\u201d se manifesta em diferentes grada\u00e7\u00f5es \u2012laica, relativista, ateia \u2012, o que h\u00e1 de essencial na obra de um poeta isl\u00e2mico do s\u00e9culo XIII. Barks foi fiel, traindo. O aspecto new age, comumente atacado e apontado ao Rumi ocidentalizado e desislamizado pelos tradutores, de espiritualidade dilu\u00edda e kitsch, se deve a excertos descontextualizados que s\u00e3o jogados na rede, servindo como est\u00edmulos pseudofilos\u00f3ficos da autoajuda.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na tradu\u00e7\u00e3o organizada por Marco Lucchesi, lemos:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>O que fazer, se n\u00e3o me reconhe\u00e7o?<\/em><em><br>N\u00e3o sou crist\u00e3o, judeu ou mu\u00e7ulmano.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><br><em>Se j\u00e1 n\u00e3o sou do Ocidente ou do Oriente,<\/em><em><br>n\u00e3o sou das minas, da terra ou do c\u00e9u.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><br><em>N\u00e3o sou feito de terra, \u00e1gua, ar ou fogo;<\/em><em><br>n\u00e3o sou do Emp\u00edreo, do Ser ou da Ess\u00eancia.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><br><em>Nem da China, da \u00cdndia ou Sax\u00f4nia,<\/em><em><br>da Bulg\u00e1ria, do Iraque ou Hurass\u00e2n.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><br><em>N\u00e3o sou do para\u00edso ou deste mundo,<\/em><em><br>n\u00e3o sou de Ad\u00e3o e Eva, nem do Hades.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><br><em>O meu lugar \u00e9 sempre o n\u00e3o lugar,<\/em><em><br>n\u00e3o sou do corpo, da alma, sou do Amado.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><br><em>O mundo \u00e9 apenas Um, venci o Dois.<\/em><em><br>Sigo a cantar e a buscar sempre o Um.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><br><em>Primeiro e \u00faltimo, de dentro e fora,<\/em><em><br>eu canto e reconhe\u00e7o aquele que \u00c9.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><br><em>\u00c9brio de amor, n\u00e3o sei de c\u00e9u e terra.<\/em><em><br>N\u00e3o passo do mais puro libertino.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><br><em>Se houver passado um dia em minha vida<\/em><em><br>sem ti, eu desse dia me arrependo.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><br><em>Se pudesse passar um s\u00f3 instante<\/em><em><br>contigo, eu dan\u00e7aria nos dois mundos.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><br><em>Sams de Tabriz, vou \u00e9brio pelo mundo<br>e beijo com meu l\u00e1bios a loucura.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">LUCCHESI, Marco. A flauta e a lua: poemas de R\u00fbm\u00ee. Ed. Bazar do Tempo<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com o sabor da eternidade, os versos de Rumi vencem o tempo, al\u00e9m de qualquer tradu\u00e7\u00e3o, trai\u00e7\u00e3o ou tradi\u00e7\u00e3o. Sua po\u00e9tica er\u00f3tica e espiritual, cheia de amor \u00e0 vida, faz \u00e1gua de todas as arengas e disputas. A obra de Rumi n\u00e3o \u00e9 o choque, mas o encontro das civiliza\u00e7\u00f5es. Aspirando ao divino, sua poesia \u00e9 o triunfo do humano.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Juliano Fontanive Dupont<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Hei de lan\u00e7ar-me b\u00eabado sem medoa contemplar a alma do universo:ou meus passos se apressam ao destino,ou perco a vida, al\u00e9m do cora\u00e7\u00e3o Um poeta nascido no territ\u00f3rio do atual Afeganist\u00e3o (ou do Tajiquist\u00e3o, segundo outras fontes), no s\u00e9culo 13, \u00e9 hoje um dos mais populares nos Estados Unidos. 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