{"id":4856,"date":"2022-12-16T13:12:42","date_gmt":"2022-12-16T16:12:42","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/radio\/?p=4856"},"modified":"2022-12-20T10:56:10","modified_gmt":"2022-12-20T13:56:10","slug":"cinema-para-os-ouvidos-joe-frank-o-genio-desconhecido-responsavel-pela-revolucao-narrativa-dos-podcasts","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/radio\/cinema-para-os-ouvidos-joe-frank-o-genio-desconhecido-responsavel-pela-revolucao-narrativa-dos-podcasts\/","title":{"rendered":"Cinema para os ouvidos: Joe Frank, o g\u00eanio desconhecido respons\u00e1vel pela revolu\u00e7\u00e3o narrativa dos podcasts"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O programa de r\u00e1dio <em>This American Life<\/em>, lan\u00e7ado em 1995, tornou-se uma esp\u00e9cie de modelo de storytelling para boa parte dos podcasts que v\u00eam fazendo sucesso nos \u00faltimos anos. O criador da s\u00e9rie \u00e9 o reverenciado Ira Glass, mestre da nova gera\u00e7\u00e3o de podcasters. Para criar seus document\u00e1rios radiof\u00f4nicos de enorme repercuss\u00e3o, Glass inspirou-se no que aprendeu quando trabalhou na NPR, a rede p\u00fablica de telecomunica\u00e7\u00f5es americana. No final dos anos 1970, Glass foi assistente de um idiossincr\u00e1tico e original criador da arte radiof\u00f4nica chamado Joe Frank.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Joe Frank (1938 &#8211; 2020) \u00e9 um nome t\u00e3o ordin\u00e1rio quanto Z\u00e9 da Silva &#8211; a m\u00e1scara perfeita para um homem comum. O pseud\u00f4nimo pertence a um autor pouco conhecido do grande p\u00fablico, mas indiretamente respons\u00e1vel por toda a revolu\u00e7\u00e3o da cultura radiof\u00f4nica impulsionada pelos podcasts. Amalgamando a literatura e o r\u00e1dio, Joe Frank criou o cinema para os ouvidos.<br><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foi das experimenta\u00e7\u00f5es de Joe Frank que Ira Glass tirou inspira\u00e7\u00e3o para seus document\u00e1rios. Um paradoxo: Frank inventou um fic\u00e7\u00e3o radiof\u00f4nica assustadoramente realista, sem ficar famoso, sempre restrito a um p\u00fablico cult e marginal. Ira Glass ficou famoso e se tornou o mestre da nova gera\u00e7\u00e3o de storytellers por fazer document\u00e1rios que parecem fic\u00e7\u00e3o. Usou os recursos estil\u00edsticos de Joe Frank adaptados a uma linguagem mais palat\u00e1vel ao p\u00fablico m\u00e9dio. As narrativas de Joe Frank s\u00e3o sofisticadas, mas ao mesmo tempo <em>udigrudi<\/em>. Grotescas, escatol\u00f3gicas, niilistas, cimentadas com humor bizarro, tingidas por ang\u00fastia, desesperadas demais para se tornarem mainstream. Joe Frank \u00e9 um g\u00eanio narrativo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Depois de deixar Nova York no in\u00edcio dos anos 1980, Frank se estabeleceu na r\u00e1dio KCRW, uma ousada esta\u00e7\u00e3o experimental com sede em Santa M\u00f4nica, na costa da Calif\u00f3rnia. Seu programa era transmitido para todo o pa\u00eds, mas nunca atingiu um grande p\u00fablico, mantendo uma aura cult junto a sua fiel audi\u00eancia. Frank foi colega de faculdade de Francis Ford Coppola, que tentou, assim como v\u00e1rios outros diretores de cinema, adaptar em pel\u00edcula algumas de suas narrativas. Martin Scorsese criou o seu maravilhoso e alucinado <em>Depois de Horas<\/em> (After Hours, 1985) a partir de uma narrativa de Joe Frank. Sem credit\u00e1-lo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Produzidos dos anos 1970 at\u00e9 sua morte, em 2018, os programas de Joe Frank exploraram diferentes linguagens: dramas interpretados por atores, conversas com amigos, improvisa\u00e7\u00f5es a partir de argumentos pr\u00e9-roteirizados, telefonemas. Em um epis\u00f3dio que ficou famoso, Frank telefona para todas suas ex-namoradas para cantar um velho standard de jazz.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A mistura de fic\u00e7\u00e3o e n\u00e3o-fic\u00e7\u00e3o \u00e9 permanente. Frank gravava todas as suas conversas, com amigos e desconhecidos, na sala de casa, nos bares ou pelo telefone. Usava as grava\u00e7\u00f5es diretamente nos programas ou as recriava em seus roteiros, inserindo trechos em suas hist\u00f3rias ficcionais. Quando dirigia atores, o realismo era chocante, frequentemente obsceno, tamanha a intimidade com que penetra nos nossos ouvidos. Al\u00e9m das grava\u00e7\u00f5es em est\u00fadio, era muito comum que pe\u00e7as fossem registradas atrav\u00e9s do telefone &#8211; falsas liga\u00e7\u00f5es de ouvintes ou improvisos a partir de um argumento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O formato que me parece mais marcante e definidor s\u00e3o os seus mon\u00f3logos e solil\u00f3quios. Sua voz \u00e9 uma inven\u00e7\u00e3o, cujo efeito era resultado de uma degrada\u00e7\u00e3o sonora proposital. Frank gravava primeiro em um sistema Dolby e depois transmitia em um aparelho de som mais simples, gravando essa vers\u00e3o final em fita de rolo comum. O efeito \u00e9 imediatamente reconhec\u00edvel: um timbre autoral, uma assinatura vocal. Quando ouvimos Joe Frank \u00e9 sempre tr\u00eas horas de uma madrugada escura e fria &#8211; mesmo que seja tr\u00eas da tarde de um dia ensolarado de ver\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A degrada\u00e7\u00e3o do Dolby, regravada em fita ordin\u00e1ria, emprestava uma profundidade rascante a sua voz de fumante alco\u00f3latra decadente. Sua voz parece vir de dentro da nossa cabe\u00e7a, gra\u00e7as a outro recurso determinante: o seu uso muito particular da m\u00fasica. As trilhas sonoras de seus mon\u00f3logos eram, em geral, um loop extenso de algum trecho (sample) de rock, jazz ou m\u00fasica ambiente. O efeito era de uma m\u00fasica minimalista de Steve Reich ou Brian Eno, sublinhando, em forma de mantra, suas narra\u00e7\u00f5es. Hipn\u00f3tico, de certo modo entorpecente. A ideia do r\u00e1dio como um filme para os ouvidos, em que o cinema \u00e9 uma proje\u00e7\u00e3o ocorrendo dentro de nossa mente, atinge com Joe Frank sua m\u00e1xima express\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">T\u00e3o realistas eram suas pe\u00e7as radiof\u00f4nicas que, ao longo de sua carreira, ocorreram in\u00fameras situa\u00e7\u00f5es que lembram a c\u00e9lebre transmiss\u00e3o de <em>A Guerra dos Mundos<\/em>, por Orson Welles, em 1938 &#8211; quando ainda era comum que os ouvintes, mesmo entre o p\u00fablico sofisticado da rede p\u00fablica americana, n\u00e3o percebessem a ficcionalidade da transmiss\u00e3o, telefonando para a rede local para denunciar a morte de um cachorro ou o assassinato de um personagem ainda durante o programa. Nas pe\u00e7as com atores, tudo soava documental, longe do que entendemos por r\u00e1dio-teatro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Grotesco, engra\u00e7ado de forma esquisita e bizarra, assustador, em um permanente clima de noir absurdo, Joe Frank constr\u00f3i pesadelos realistas, com para\u00edsos esparsos, ilhas de beleza em meio a um oceano de desespero. Suas hist\u00f3rias tem laivos do existencialismo camusiano, do absurdo kafkiano e uma abordagem provocadora parecida com a do cinema da nova Hollywood.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em uma de suas \u00faltimas entrevistas, Frank afirmou que a revolu\u00e7\u00e3o do podcast era um grande banquete sobre uma mesa servida por ele &#8211; mas ningu\u00e9m conhecia seu nome.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Alguns links para mergulhar no universo de Joe Frank<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a href=\"https:\/\/www.kcrw.com\/culture\/shows\/joe-frank-return-engagement\">Programas dispon\u00edveis na KCRW, r\u00e1dio p\u00fablica em Santo Monica, Calif\u00f3rnia, EUA<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/@JoeFrankOfficial\">https:\/\/www.youtube.com\/@JoeFrankOfficial<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ira Glass aborda Joe Frank <a href=\"https:\/\/radiolab.org\/episodes\/voice-your-head-tribute-joe-frank\">AQUI<\/a> e <a href=\"https:\/\/www.thirdcoastfestival.org\/feature\/these-are-a-few-of-ira-glasss-favorite-things\">AQUI<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Juliano Fontanive Dupont<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O programa de r\u00e1dio This American Life, lan\u00e7ado em 1995, tornou-se uma esp\u00e9cie de modelo de storytelling para boa parte dos podcasts que v\u00eam fazendo sucesso nos \u00faltimos anos. 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