10/03/2021

Descrição da imagem: Expositor com cartões postais de destinos turisticos. Crédito: Markus Spiske/Unsplash

“Em minhas interlocuções com guias autônomos e com proprietárias de microempresas do ramo, tenho escutado que as grandes empresas do setor estão sendo, por exemplo, as mais beneficiadas por auxílios governamentais, enquanto as micro e pequenas empresas e os profissionais autônomos estão tendo que buscar outras formas de auxílio, como empréstimos monetários por meio de financiamentos nos grandes bancos. Todavia, os acordos oferecidos pelos grandes bancos contêm exigências que esses profissionais e essas micro e pequenas empresas não são capazes de arcar sem se endividarem por longos períodos. É uma escolha de Sofia: aceite o acordo oferecido e endivide-se ou não aceite o acordo e não tenha capital de giro para seguir em atuação.”

 

Thiago Luz

Mestrando em Antropologia Social (PPGAS/UFRGS)

A precariedade da vida faz parte da existência humana, como muito bem apontou Judith Butler (2019). Porém, como destaca a autora, a condição precária da existência humana difunde-se de formas desiguais. No início da pandemia de COVID-19, as ideias sobre como o vírus era “democrático” espalharam-se através de narrativas e discursos diversos. Entretanto, como podemos observar atualmente, essa tese inicial não se sustentou por muito tempo. As ciências sociais, por exemplo, passaram a questionar essas narrativas e discursos.

As reflexões sobre as epidemias anteriores à atual (Zika, Dengue, HIV-Aids, Ebola, Febre Amarela) provenientes de pesquisas antropológicas passaram, assim, novamente a figurar em nosso horizonte teórico, nos ajudando a compreender como essas epidemias desencadearam efeitos variados nas pessoas de acordo com o que nomeamos, nas ciências sociais, como marcadores sociais da diferença: raça, classe, região, identidade de gênero, geração, dentre outros. Logo, as vulnerabilidades sociais difundem-se de maneira desigual entre as pessoas. Assim, as análises empreendidas por pessoas vinculadas à Rede Covid-19 Humanidades MCTI nos auxiliam a compreender essas inequidades, agora, em relação à pandemia de COVID-19.

Enquanto estudante e pesquisador da Rede, tenho me focado em compreender quais os efeitos da pandemia nas vidas das pessoas que atuam no setor de turismo. E o que tenho observado através de minhas interlocuções com profissionais da área é justamente a manutenção dessa geografia desigual.

Em relação a esse ponto, destaco o que venho acompanhando em meu campo de pesquisa junto às/aos profissionais do setor de turismo. Em minhas interlocuções com guias autônomos e com proprietárias de microempresas do ramo, tenho escutado que as grandes empresas do setor estão sendo, por exemplo, as mais beneficiadas por auxílios governamentais, enquanto as micro e pequenas empresas e os profissionais autônomos estão tendo que buscar outras formas de auxílio, como empréstimos monetários por meio de financiamentos nos grandes bancos. Todavia, os acordos oferecidos pelos grandes bancos contêm exigências que esses profissionais e essas micro e pequenas empresas não são capazes de arcar sem se endividarem por longos períodos. É uma escolha de Sofia: aceite o acordo oferecido e endivide-se ou não aceite o acordo e não tenha capital de giro para seguir em atuação. Como aponta Segata (2019, p. 282), “caos e perdas irreparáveis para uns, oportunidades para outros”.

Tenho observado, também, uma prevalência de discursos governamentais que operam através de um viés individualizante. Por exemplo, através das narrativas que evidenciam a necessidade do setor de turismo “reagir à pandemia”. Essa “reação” que o setor deve desempenhar, entretanto, vem acompanhada de pouquíssimas políticas sociais que auxiliem as/os profissionais do setor. Os protocolos de biossegurança – aquisição de EPIs, adequação das infraestruturas, dentre outros que estão dentre as recomendações do Estado para que seja possível o retorno das viagens turísticas de maneira segura – devem ser efetivadas pelos próprios trabalhadores ou pelas micro/pequenas empresas turísticas, mesmo que as/os profissionais ou as micro/pequenas empresas tenham experimentado grandes perdas monetárias.

As reflexões de Dardot & Laval (2017) sobre a presença de uma racionalidade neoliberal que difunde um modelo de sociedade cada vez mais pautado em uma lógica empresarial de competição, na qual os indivíduos são os únicos responsáveis por suas “vitórias” e “fracassos”, têm se apresentado como uma boa fonte de interlocução teórica para pensar, justamente, os discursos em relação ao setor do turismo. Esse ideário neoliberal, que é inclusive afirmado e propagado pelo Estado, evoca e multiplica cada vez mais a ideia de empreendedorismo a partir de slogans do tipo “você deve se reinventar em momentos difíceis”, como o mecanismo mais adequado para superar a atual “crise” que vivenciamos. Assim, como ilustrei brevemente, as pessoas que trabalham no setor turístico devem driblar de forma inventiva e por conta própria seus problemas para que não pereçam, mesmo que necessitem se endividar. Caso não consigam superar esses problemas, os únicos responsáveis são os próprios sujeitos. É uma lógica cruel que abandona ao invés de acolher.

 

Referências

BUTLER, Judith. Vida precária: os poderes do luto e da violência. Belo Horizonte: Autêntica, 2019.

DARDOT, Pierre; LAVAL, Christian. A nova razão do mundo: ensaio sobre a sociedade neoliberal. São Paulo: Boitempo, 2017.

SEGATA, Jean. Covid-19, biossegurança e antropologia. Horizontes antropológicos, n. 57, p. 275-313, 2020.




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