15/03/2021

Descrição da imagem: Mãe Eloá do Oxalá, acervo pessoal. "Boa distância para resistir à pandemia e às tentativas de despejo por parte da Aeronáutica na Base Aérea de Canoas". A divulgação da imagem foi autorizada pela fotografada.

“Então, o que é vida e o que é morte nesses tempos pandêmicos? Quando o vitalismo leva à morte e o silêncio (tão mortal, sinônimo de luto) preserva vidas? O certo é a controvérsia pública e o luto quase-coletivo por grandes nomes da religião que morreram nos últimos meses.”

 

Cauê Fraga Machado

Antropólogo e pesquisador da Rede Covid-19 Humanidades MCTI

 

Partindo da premissa de Marilyn Strathern (2006) de que cabe à antropologia o estudo das relações sociais e que todas as relações são sociais, proponho neste curto texto uma aproximação com os modos de composição dos “trabalhos” em casas de batuque e as fraturas e partições que a Covid-19 e a consequente quarentena causaram nas tecnologias religiosas a partir de um caso etnográfico. Os trabalhos, as técnicas, as pessoas, o tempo e o espaço que participam do plano de composição do que para os leigos é chamado de oferenda, macumba, serviço ou feitiço (nomes pelos quais batuqueiros também chamam os trabalhos, mas não em tom pejorativo) são, portanto, as relações sociais de que este texto se ocupa, bem como as afecções mortíferas da doença, do isolamento, da solidão. De tudo que diminui as potências vitais, o axé ou os axés que circulam justamente pelo estar junto, pelo toque, pelo suor, pela saliva, pelos beijos, pelos cheiros, pela música e pela conversa ao pé do ouvido. Por fim, falo um pouco sobre a morte, esse contra-axé[1] do silêncio e da distância.

Como demonstrei em outros lugares (Machado 2013a; 2013b), religião e seus rituais não tratam apenas de religar, de juntar, de fazer; fazem parte também as técnicas de desligamento, desfazer, afastar, destruir. Estas últimas compõem todo rito e seus diversos rituais ligados à morte. Quebrar, fraturar, partir são, desse modo, verbos que vem com o morrer. É preciso afastar a morte. Os mortos (eguns) são perigosos. Os ancestrais não, estes são fundamento. Com essas poucas palavras, pode-se imaginar o que o isolamento e a partição do espaço, do tempo e dos objetos podem causar em trabalhos pró-vida, quando técnicas de morte passam a fazer parte da produção da vida. Vida e morte – que não são coisas opostas, mas, antes, homorgânicas para a noção de pessoa batuqueira – precisam, contudo, de boa distância (sensus Lévi-Strauss) e possuem afastamento diferencial fortemente afetado pela desconhecida Covid-19.

Passemos ao trabalho. No batuque gaúcho, o ano é de Xapanã, orixá dono das doenças, dono da varíola, que pode matar e curar. Desde o final de 2019, o anúncio de que este orixá iria reger o ano era um presságio de que a vida em 2020 não seria fácil, muita misericórdia seria pedida. Com o propósito de pedir misericórdia e saúde para a casa e seus filhos, ao final de julho a mãe de santo resolveu fazer um trabalho para Xapanã. Como em todo trabalho, o batuqueiro cozinha para o orixá, constrói objetos relacionados, reúne velas, rezas são tiradas (cantadas), sinetas são tocadas e, obviamente, estão presentes filhos e filhas da casa que ajudaram em toda montagem do trabalho a ser passado no corpo dos afiliados e na própria casa.

Para evitar aglomeração[2] – que aqui deve ser relativizada, haja vista que uma casa de batuque pode comportar trezentas pessoas em uma festa – e não ter mais do que dez pessoas por período de tempo, a mãe de santo convida um número reduzido de filhos para ajudar na preparação do axé para o trabalho. Também pede que os outros filhos dividam-se em diferentes faixas de horários para visita, além de virem apenas um de cada família de sangue, levando as roupas dos outros membros para que assim o menor número de pessoas se concentre na casa, o que seria prejudicial especialmente à grande babalaoa (mãe de santo) em seus 70 anos de vida. “Ela é grupo de risco”. “É a nossa veinha”. E os mais velhos (vivos ou ancestrais) são o maior patrimônio da religião, são o fundamento.

Por mais que o efeito do trabalho sobre as roupas deva ser o mesmo do sobre o corpo, parece que não ser tocado pela comida do orixá, não estar envolvido no ambiente sagrado de rezas cantadas e tocadas e com a possível ocupação (possessão) das pessoas por seus orixás desliga alguma coisa. Não poder beijar a mão e receber o beija-mãos de volta da babalaoa parece quebrar um rito que ligaria (e liga, na verdade). Parece que a boa distância já não é tão boa. Parece que a alegria se transmuta em mau encontro, diminuindo potências e produzindo tristeza. Tudo apenas parece...

Patrimônio do batuque, os mais velhos, pais e mães de santo, morrem em grande quantidade aqui no estado. A tristeza e desespero de uns, por conta do isolamento, fica na quasidade, naquele mal-estar do não se tocar, beijar, trocar axé. A continuidade, a vida mesma, de obrigações e festejos, tem se mostrado mortífera. Os toques e obrigações com o que é chamado aglomeração – lembro mais uma vez que isso deve ser relativizado no batuque, pois as casas são lugares de intensa circulação de pessoas humanas e outras – acaba por acontecer. A vida se metamorfoseia em risco, o risco em adoecimento, hospital, dor, sofrimento, morte: axé de miséria (espécie de axé negativo que pode vir a ser contra-axé).

Trabalhar para os orixás em um plano de consistência limítrofe com a morte provê vida-continuidade-axé – movimentos e velocidades infinitas. Seu contrário, o contato, o cuspe (como diz o sociólogo Muniz Sodré [2017] acerca do axé), o suor, o beijo, o abraço agora se tornam sinônimos de morte. E a morte, como o batuqueiro bem sabe, requer mais contato, mais rituais, mais vida. Então, o que é vida e o que é morte nesses tempos pandêmicos? Quando o vitalismo leva à morte e o silêncio (tão mortal, sinônimo de luto) preserva vidas? O certo é a controvérsia pública e o luto quase-coletivo por grandes nomes da religião que morreram nos últimos meses. “Orixá não imuniza, o que imuniza é vacina. Orixá dá força para seguir”, disse uma grande Ialorixá, ao passo que outros sacerdotes apostam na força de suas deidades como proteção contra o vírus. A celeuma é grande e a unanimidade estúpida. Uma das riquezas e patrimônios das religiões afro-brasileiras é sua diversidade e sua filosofia política com ênfase na diferença e diferenciação.

Deste modo, se, antes o dualismo vida-morte já não funcionava muito bem para os afro-religiosos em um plano cosmológico, cosmogônico e cosmopolítico, agora, graças a Covid-19, é no nível fenomenológico, bio e necropolítico, que a dualidade (não-existente, mas existente) se inverte, para logo se diluir nos ritos fúnebres que seguem. Quem trabalha na quasidade[3] da morte, vive. Quem batuca no plano de consistência vital entra em devir morte. E, como se sabe, quando o devir devém, tudo se transforma: vida não é mais vida, morte não é mais morte e voltamos ao que faz e constitui o batuque: cada caso é um caso, cada casa é um caso e é da ordem do acontecimento qualquer definição, bifurcação ou hecceidade morte-vida-rito-vida-morte.

Aqui caberia a célebre máxima de Herskovits sobre o candomblé (ou todas as religiões afro-brasileiras):

Enfim, o supremo dispositivo compensador na estrutura do candomblé é encontrado em sua flexibilidade. Não há regra que não tenha sua exceção; em todas as circunstâncias, as situações alteram os casos[4]. Essa tradição é básica na psicologia do candomblé; do ponto de vista da estrutura do candomblé, ela é um dos legados da tradição africana que constituiu uma das principais causas da sobrevivência dessa instituição complexa a despeito das pressões históricas a que foi submetida. (Herskovits 1956:165 apud. Goldman 2012).

De toda forma, morrem pessoas, orixás e conhecimento! Isso parece não variar, nem ter exceções com a Covid-19, o novo que não tem onde se encaixar e faz pensar. Tempos mortíferos! Mas sempre há exceção e variação, sempre... Afinal, orixás não adoecem, pessoas sim.

 

Referências:

 

GOLDMAN, Marcio. 2012. O dom e a iniciação revisitados: o dado e o feito em religiões de matriz africana no brasil. Mana, Rio de Janeiro, v. 18, n. 2, p. 269-288, Ago. 2012. Disponível em http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-93132012000200002&lng=en&nrm=iso. Acesso em jan. 2021. http://dx.doi.org/10.1590/S0104-93132012000200002.

 

MACHADO, Cauê Fraga. 2013a. Desfazer Laços e Obrigações: sobre a morte e a transformação das relações no batuque de Oyó/RS. (Dissertação de Mestrado) Rio de Janeiro: PPGAS/Museu Nacional/UFRJ.

 

MACHADO, Cauê Fraga. 2013b. Tem que Saber Iniciar, Tem que Saber Terminar: o desfazer no batuque gaúcho. Debates do NER, v. 1, n. 23, p. 145-165, Jan./Jun. 2013. Disponível em https://seer.ufrgs.br/debatesdoner/article/view/35888

 

SODRÉ, Muniz. 2017.  Pensar Nagô. Petrópolis: Vozes.

STRATHERN, Marilyn. 2006. O Gênero da Dádiva. Problemas com as Mulheres e Problemas com a Sociedade na Melanésia. Campinas: Unicamp.



[1] Contra-axé no sentido contra-vida; mais do que axé de miséria, uma despotencialização.

[2] Em outra casa pesquisada, a limpeza de final de ano funcionou com hora marcada para que não estivesse presente mais de um filho/a por vez. As comidas dos orixás foram embrulhadas em sacos plásticos e após serem passadas nos corpos eram borrifadas com álcool para que, ao passar os pacotes na próxima pessoa, não houvesse risco de contaminação. Além disso, orixás foram avisados para não descerem em seus/suas filhos/as e aqueles que trabalhavam passando a limpeza de final de ano, bem como os que estavam sendo limpos, mantiveram boa distância e utilizaram máscaras o tempo todo.

[3] Em relação a práticas e performances que estariam ligadas ao afastamento, ao desligar, àquilo que se faz em razão da morte, quase morte porque se assemelha ao modo de proceder nos ritos fúnebres e funerários.

[4] Em uma mesma casa as boas distâncias podem variar de acordo com as idades e problemas de saúde de cada membro. Em uma das casas pesquisadas, a babalaoa mais velha fica isolada, ao passo que a mais jovem, de quarenta anos, joga búzios e faz trabalhos. Esse sistema não é contraditório, mas uma tecnologia de ajuste de boas distâncias pró-vida até que a anciã receba a vacina.




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