04/04/2022

Figura 1 - Ilustração representando a tela do Google Meet visualizada durante os encontros síncronos. Por Fabíola de Carvalho Leite.

A dissertação “Entre Meets e Classrooms: etnografia comparativa de uma escola pública e de uma escola privada de Porto Alegre durante a pandemia de Covid-19 em 2020 e 2021”, defendida em 28 de março de 2022 por Fabíola de Carvalho Leite no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social (PPGAS/UFRGS), compara as vivências de estudantes e educadores de duas instituições da capital gaúcha durante um ano de ensino remoto emergencial. Para a pesquisadora, observar as aulas síncronas evidenciou, para além das questões da desigualdade educacional e de seu agravamento a partir da realização do ensino em formato online, fatores até então pouco cogitados pela literatura brasileira (tecnológicos, familiares, emocionais e de infraestrutura doméstica), bem como comportamentos, personalidades, linguagens e referências culturais diferentes de acordo com a classe social e o gênero das e dos estudantes.

Conforme a pesquisadora, “a inserção de fato nas duas escolas pesquisadas começou após a etapa de realização de entrevistas exploratórias com algumas educadoras de escolas públicas e se caracterizou pela observação, com caráter etnográfico, dos encontros síncronos de uma turma de primeiro ano de Ensino Médio, que resultou em grande parte das descobertas”. Além da observação participante, Fabíola utilizou para a construção dos seus relatos a clássica descrição textual no diário de campo e a criação de ilustrações para descrever elementos e comportamentos intraduzíveis em palavras. Ela também acionou animações para demonstrar certos movimentos realizados pelos estudantes em frente às câmeras.

    
Figuras 2 e 3 representam os equipamentos tecnológicos exibidos pelos estudantes das escola privada durante os encontros síncronos (ilustrações produzidas pela autora)

A pesquisa englobou duas perspectivas: a das e dos estudantes e a das e dos professores, a partir de dois objetivos principais: 1. a observação da assiduidade, do funcionamento e da participação das e dos estudantes nas aulas online e a identificação dos fatores que interferiam nessa participação, percebendo os perfis de interação de cada escola e dos seus respectivos estudantes, e 2. o processo de preparação e planejamento das professoras e equipes pedagógicas, bem como o suporte das mantenedoras e da Secretaria de Educação no desenvolvimento do ensino remoto emergencial. “Do ponto de vista dos profissionais da educação, se somam à realidade dura das educadoras da instituição pública (baixos salários, acúmulo de disciplinas, extensa carga horária de trabalho e triplas jornadas) descobertas sobre o relacionamento professor-aluno que levam a crer, por exemplo, que componentes geracionais, gênero ou disciplina ministrada não são fatores responsáveis pela facilidade (ou não) do estabelecimento dessa relação”, constatou Fabíola.

Na perspectiva dos professores, Fabíola ressalta três achados etnográficos. O primeiro atesta que estar em uma instituição privada não é sinônimo de excelência absoluta, assim como estar em uma escola estatal não é sinônimo de obsolescência. “Um potencial inovador pode ser identificado nas escolas públicas, mesmo sem incentivo para isso”, pontua. Também foi possível para ela perceber que a facilidade ou a dificuldade na interação professor-aluno diz respeito muito mais à personalidade e à forma como a ou o professor se coloca em sala de aula do que com marcadores como gênero, geração ou área de conhecimento. O terceiro achado se refere à vivência docente na pandemia e demonstra o grande recorte de gênero que carrega, seja na carga de trabalho (com duplas e triplas jornadas), seja no adoecimento físico e emocional que ela pode resultar.

Na perspectiva dos estudantes, a pesquisadora salienta quatro principais descobertas e reflexões. A primeira delas é o questionamento quanto à noção de participação. “Afinal, o que é participar? Ter imagem de câmeras em silêncio absoluto ou não contar com a imagem, mas com a participação assídua pelo microfone?”, questiona. A segunda incorpora análises a partir dos recortes de raça e gênero entre as e os estudantes observados. “No caso de gênero, a ocorrência do monopólio de fala dos meninos alerta para a ocorrência do machismo discursivo tão cedo, neste caso, identificado como a prática de manterrupting”, analisa. O terceiro achado se refere aos fatores que influenciam na inserção dos estudantes no ambiente online. “Além da já consolidada discrepância de acesso a equipamentos tecnológicos e à conexão de internet, a infraestrutura doméstica, a intensificação das relações familiares, a desmotivação, o desconhecimento digital (que nos mostra que ser jovem não é sinônimo de facilidade com equipamentos digitais e tecnologia) e a potencialização da perda de concentração nos ambientes de ensino remoto também apareceram como potenciais interferências na participação e assiduidade dos alunos. E, quanto ao quarto ponto, cabe ressaltar que estas observações contribuem, ainda, para reflexões acerca da possibilidade e da efetividade do homeschooling, ainda que este não seja o objetivo central do trabalho”, enfatiza.

A pesquisa contribui, ainda, para outros levantamentos e estudos antropológicos. “O trabalho suscita reflexões sobre os estudos antropológicos de educação, o local da antropologia e o potencial que nossas análises podem alcançar na construção, até mesmo, de políticas públicas. Uma segunda contribuição, na minha percepção, está na demonstração prática, realizada por este estudo e por tantos outros, de autoria de meus colegas, da viabilidade e da relevância dos achados que práticas etnográficas no ambiente digital podem trazer e que são, até hoje, questionados na área”, afirma a Fabíola.

A dissertação está disponível na plataforma Lume (https://lume.ufrgs.br/handle/10183/239822), repositório digital da UFRGS e pode ser acessada por todas as pessoas interessadas.

         
Figuras 4 e 5 ilustram os cenários em que os estudantes acompanham os encontros síncronos na escola privada (e) e na escola pública (d) (ilustrações produzidas pela autora)
 
 
     
Figuras 6 e 7 representam as movimentações observadas nos cômodos em que os estudantes participavam das aulas




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