11/03/2022

Detalhe da matéria Projeto atende trabalhadoras da saúde vítimas da violência de gênero do ES360

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Projeto atende trabalhadoras da saúde vítimas da violência de gênero

O projeto terá início nesta quarta-feira (9), no Museu Capixaba do Negro, no Centro de Vitória

Publicado em 07/03/2022 por Danielli Saquetto

A violência contra as mulheres é problema de todos e todas. O apelo é para que as pessoas usem suas vozes e posições na sociedade e atuem para prevenir e erradicar a violência de gênero — por meio de debates, marchas, reuniões, audiências públicas, concertos e festivais públicos. Que passem do clamor para a ação. E o Instituto Casa Lilás tem dado passos largos nessa direção. O Projeto Pretas Vivas vai atender com serviços gratuitos de saúde mental 40 trabalhadoras da saúde afetadas pelas violências de gênero.

O projeto terá início nesta quarta-feira (9), no Museu Capixaba do Negro, no Centro de Vitória. Serão oferecidos atendimentos semanais com psicólogas e de arteterapia. Estão inscritas agentes de saúde, técnicas, enfermeiras, profissionais da limpeza e alimentação de hospitais públicos. A proposta do projeto é trabalhar as emoções de quem foi afetada pela violência, incluindo mulheres negras e do grupo LGBTQIA+.

Déborah Nicchio Sathler, vice-presidenta e pesquisadora do Instituto Casa Lilás, comenta que além dos atendimentos psicológicos individuais e da arteterapia, também terá uma capacitação sobre violências de gênero com as lideranças das trabalhadoras da saúde. “A ideia é que ao final da capacitação, elas possam identificar os casos de violência de gênero e saber como agir em determinadas situações. As atendidas se tornam um canal direto de acolhimento e proteção seja em casos no ambiente doméstico ou profissional”, explica.

Ainda segundo a vice-presidenta, todas as mulheres inscritas revelaram já terem sido vítimas de violência de gênero, a maioria delas verbal e psicológica. “A violência permeia nossa sociedade, seja no trânsito, ou qualquer outro ambiente. Nós estamos fazendo a parte que nos cabe, oferecendo acolhimento, suporte e apoio profissional”, declarou Deborah.

Em agosto, outras 50 trabalhadoras da saúde serão capacitadas pelo instituto no enfrentamento às violências de gênero. Serão priorizadas as profissionais que estão atendendo na pandemia e que sofrem duplamente, com as violências de gênero e racial. O projeto conta com o apoio do Governo do Estado do Espírito Santo, por intermédio da Secretaria de Direitos Humanos e do Programa Estadual de Ações Integradas sobre Drogas – Rede Abraço.

Estudo

Um estudo americano divulgado pela Revista de Psiquiatria da Universidade de São Paulo, aponta que o uso de substâncias psicoativas pela vítima de violências de gênero está envolvido em até 92% dos episódios notificados. O projeto trabalhará as emoções afetadas pelas violências, empoderando mulheres diversas, incluindo negras e do grupo LGBTQIA+, melhorando a condição da saúde mental, promovendo ações visibilizatórias, prevenindo o abuso de álcool e uso de drogas.

Segundo pesquisa “A pandemia de Covid-19 e (os)as profissionais de saúde pública: uma perspectiva de gênero e raça sobre a linha de frente”, que ouviu trabalhadores da saúde de todos os estados, e foi realizada pela Fiocruz, FGV e a Rede Covid-19 Humanidades, no que diz respeito à saúde mental durante a crise sanitária, a pandemia afeta de forma desproporcional as profissionais de saúde que estão na linha de frente do combate à Covid-19, e as disparidades de gênero e raça fazem parte deste contexto. Neste grupo, as mulheres pretas-negras e pardas trabalhadoras da saúde têm sido as mais afetadas, 83% das mulheres negras afirmaram ter a saúde mental impactada, esse número sobe para 89% quando fazem parte do grupo LGBTQIA+. O pouco apoio no cuidado da saúde mental oferecido também foi destacado na pesquisa, somente 29%, contaram com alguma ajuda.

No Brasil, as mulheres negras estão frequentemente expostas a contextos de maior vulnerabilidades e adoecimento. A psicóloga do Instituto Casa Lilás Claudia Sales que atua com a psicologia de abordagem antirracista falou que: “Esses posicionamentos em projetos pela equidade de gênero e raça são urgentes, não precisamos de mais feminilidades morrendo para ter um engajamento contínuo na pauta da igualdade de gênero e raça, a sociedade clama por mudanças transformadoras, o machismo e o racismo são ações propositais que causam sofrimento psíquico, dores emocionais e físicas. As trabalhadoras da saúde em situação de violências estão em extremo desgaste mental, a situação na ponta de quem cuida mas não é cuidada, a saúde emocional destas mulheres é fundamental”.

O Instituto Casa Lilás

O Instituto Casa Lilás possui sua sede no Barro Vermelho em Vitória, é uma organização da sociedade civil especializada, sem fins lucrativos, comprometida no enfrentamento às violências de gênero, incluindo na pauta mulheres negras, LGBTQIA+ e de comunidades tradicionais com suporte de projetos itinerantes que promovem saúde mental por meio de atendimentos psicológicos combinados a arteterapia. A equipe do Instituto Casa Lilás é formada por ativistas psicólogas, incluindo psicóloga negra para o atendimento de demandas de violências por racismo, educadores de arteterapia e pesquisadora que possuem ampla experiência em projetos com grupos de feminilidades em situação de violência e vulnerabilidade. No ano passado, o Instituto atendeu o grupo das trabalhadoras operárias da Chocolates Garoto com o projeto “Trilhando Novos Rumos” com atendimentos psicológicos na porta da fábrica, os resultados do projeto serão apresentados em junho deste ano, no Congresso Internacional de Saúde da Rede Unidas, que acontece em Vitória.




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