Com a fala da professora Gema Piccinini, “rondonista” desde a década de 1970 e que identifica o título desta matéria, se evidencia o caráter do Projeto Rondon ao longo dos seus 40 anos na UFRGS, e principalmente com as reformulações ocorridas em sua nova fase, a partir de 2005. O coordenador Renato Ribas apresentou essa trajetória, reuniu os “rondonistas” pioneiros para uma roda de conversa ancorada pelo acadêmico de Jornalismo Glauber Cruz, e projetou a Operação Parnaíba, que ocorrerá no Piauí entre 18 de janeiro e 3 de fevereiro de 2019.
Os professores que participaram das primeiras expedições resgataram importantes histórias, onde refletiram acerca das condições precárias e ausência de direitos verificados em muitas comunidades do interior brasileiro. O “rondonista” João Falk, à época residente em Medicina, trouxe relatos da situação no sertão de Sergipe, onde ele foi o primeiro médico a chegar no município de São Miguel do Aleixo, comunidade que carecia de serviços de saúde. Falk destacou que todo o conhecimento trazido pelo acadêmico se desconstrói diante da realidade comunitária, de forma que o extensionista necessita compreender a cultura com a qual está interagindo. Ele ainda relatou a viagem de Porto Alegre para Aracaju, que foi realizada de ônibus, durando entre 6 e 7 dias. O médico lembrou do impacto causado por uma paciente, que dos 17 filhos que havia gerado, restavam apenas 9.
A professora de enfermagem Gema Piccinini lembrou que suas ações iniciaram junto à periferia de Porto Alegre e logo após, se incorporaram na operação realizada na Vila de Rondônia em 1972, hoje Porto Velho. Depois, no interior do então território de Rondônia, atuou junto a uma comunidade que vivia da mineração de cassiterita, e testemunhou a “entrega” das riquezas do Brasil. A docente destacou um curso ministrado a parteiras leigas, relatando que as alunas estavam em estado de graça ao participarem de uma formação na universidade. Ver a alegria nas pessoas simples motivou Gema a seguir por mais 11 anos no Rondon.
A fala da professora de enfermagem encontrou reverberação em uma aluna, que recentemente percorreu a mesma região. O desafio agora, foi oferecer prática de basquete a jovens envolvidos com drogas. O Projeto Rondon é oficializado para as universidades através de edital do Ministério da Defesa em parceria com estados e municípios, se adequando às demandas locais. Cada município recebe voluntários de diferentes áreas, abrangendo um total de 15 cidades, com operações que duram duas semanas. Os “rondonistas” mais experientes ressaltaram que a transformação humana para quem participa do projeto é impactante. Conforme o professor Ribas, os alunos que aproveitam o aprendizado do Rondon são aqueles que fazem uma imersão no projeto, voltando com uma nova percepção do ensino e da vida.


