Rede de Acolhimento e Apoio aos Trabalhadores e Trabalhadoras do SUS

Coordenação Geral: Tadeu de Paula Souza e José Soares Damico

Equipe: Dario Pasche, Roberto Amorin, Frederico Viana Machado, Edelves Vieira Rodrigues, Vera Lúcia Pasini

A pandemia pelo novo Coronavírus tem exigido respostas institucionais de ordem técnica, política e científica que devem convergir na produção de conhecimentos e tecnologias capazes de atuar nos diversos âmbitos da vida social, economia, na saúde, na educação, na assistência social, dentre outros. 

Os cursos de Bacharelado em Saúde Coletivo e de Psicologia da Universidade Federal do Rio Grande Sul (UFRGS) compreendem que um dos focos prioritários de atuação que compete a esses dois campos de conhecimento é na promoção à saúde do trabalhador de saúde do SUS com ênfase na gestão dos processos de trabalho.

A evolução da pandemia em diversos países tem indicado que os profissionais de saúde constituem um grupo de risco em função da sobrecarga e exposição ao vírus que tem levado a um elevado percentual de adoecimentos e óbitos. Para exemplificar, na Espanha 14% dos infectados são trabalhadores da saúde[1], levando, até o dia 05 de abril de 2020, 12 profissionais a óbito[2]. No Brasil, dados revelam que só em  São Paulo, até o dia 31 de março, 600 profissionais foram suspensos do trabalho devido à suspeita ou a confirmação da infecção por coronavírus[3]. Ainda em São Paulo os Hospitais Albert Einstein e Sírio Libanês, juntos, tiveram até o dia 30 de março, 452 profissionais diagnosticados com o novo Coronavírus[4]. Esses dados apontam para um cenário bastante complexo para os trabalhadores da saúde, que ao prestar cuidado são também infectados, correndo risco de adoecimento grave e mesmo morte. Além desse risco direto, os trabalhadores da saúde sofrem também pelas alterações nos processos de trabalho e sobrecarga de tarefas, pois a redução do número de trabalhadores nos serviços de saúde tem exigido improvisações e rearranjos no trabalho, trazendo encargos físicos e subjetivos importantes. Soma-se a isso, o temor de introduzir o novo vírus em seus familiares, o que não pode ser menosprezado.

Estruturar ofertas qualificadas que deem suporte para as equipes de saúde se constituem enquanto uma agenda estratégica e prioritária no enfrentamento a epidemia COVID-19.


Maiores informações acessar:
[1] https://g1.globo.com/bemestar/coronavirus/noticia/2020/03/30/ao-menos-14percent-dos-851-mil-infectados-por-coronavirus-na-espanha-sao-profissionais-da-saude.ghtml
[2] https://www.noticiasaominuto.com/mundo/1450683/12-profissionais-de-saude-ja-morreram-com-covid-19-em-espanha
[3] https://agenciabrasil.ebc.com.br/saude/noticia/2020-03/sp-tem-mais-de-600-profissionais-de-saude-afastados-devido-ao-covid-19
[4] https://saude.estadao.com.br/noticias/geral,einstein-e-sirio-ja-tiveram-450-afastados-por-coronavirus,70003254246

Apoio Institucional como metodologia de gestão para qualificação do controle da pandemia 

O Apoio Institucional (AI) é uma estratégia e metodologia consolidada no Sistema Único de Saúde que amplia a capacidade de análise e de atuação das equipes de saúde. O AI compreende que a complexidade dos processos de trabalho em saúde se devem a dimensões concretas e subjetivas inerentes ao fazer-saúde. Acolher os sujeitos nas suas singularidades subjetivas e nas suas especificidades profissionais é condição para criar condições de trabalho em equipe. Sabe-se que a fragmentação, ou taylorização dos processos de trabalho em saúde é um dos grandes problemas para que os diferentes saberes possam atuar de modo articulado na produção de saúde. Por ser efeito de múltiplas variáveis (sociais, políticas, subjetivas, epidemiológicas, biológicas, geográficas, etc) o processo de saúde exige uma convergência de diferentes saberes. Uma concepção ampliada de saúde, que não se reduz a ausência de doença, exige um olhar ampliado que somente a partir do trabalho inter ou transdisciplinar é possível de ser construído. 

O AI procura analisar com os sujeitos (autogestão-cogestão), suas práticas profissionais em arranjos institucionais que potencializam ou dificultam uma ação efetivamente coletiva. Oferta uma escuta para os não-ditos, para os afetos, para as disputas e relações de poder, bem como para as condições concretas e materiais em que estão inseridas as equipes de saúde é uma importante oferta do AI, que se propõe a ampliar a capacidade de análise das equipes do seu próprio processo de trabalho e construir tecnologias e arranjos mais apropriados para resolver problemas em saúde.

A pandemia do COVID-19 afeta, portanto, instituições de saúde com histórias e acúmulos de práticas, bem como de problemas que a antecedem. Apoiar as equipes na escuta ao sofrimento causado pela pandemia não deve ser, portanto, feito sem um olhar criterioso sobre as condições concretas de trabalho que exigem construções ágeis de resposta. Essa alta exigência por que passam as equipes de saúde torna fundamental que atores externos possam apoiá-las, auxiliando na cartografia de conflitos e potencialidades a fim de evitar o isolamento e cronificação dos problemas que vivem os profissionais de saúde. O AI objetiva, portanto, atuar no âmbito institucional, de modo a potencializar as práticas e assim potencializar os trabalhadores de saúde, não individualizando o sofrimento.

Rede de Apoio e Acolhimento

A RAAT-SUS se coloca como uma experiência aberta a troca de experiência com outros grupos que estão se consolidando com objetivos semelhantes, criando uma rede de suporte. Ao se apresentar como um ponto de uma rede a RAAT-SUS se propõe a produzir conhecimento e gerar acúmulos numa lógica de acompanhamento avaliativo que permita corrigir rumos, gerar novas pactuações e propor transferência de tecnologia para outros grupos/experiências no Brasil.

Experiência piloto da SMS de Sapucaia-RS

A experiência piloto de apoio a SMS de Sapucaia se estrutura em três frentes de ação

1)  Apoio à Gestão: apoio online a equipe de de 7 apoiadores institucionais da SMS-RS. Reunião semanal para construção do projeto institucional de apoio a rede no enfrentamento da epidemia 

2)  Apoio às Equipes de Saúde: estruturação de apoio online a 30 Equipes de Saúde da Família com foco na análise de processo de trabalho e construção de ofertas de gestão do cuidado em rede  

3)   Suporte Psicológico individual: estruturação de uma rede de psicólogos para ofertar suporte individual aos trabalhadores e trabalhadoras da rede em situação de sofrimento psíquico