Manejo de Situações Agudas

 

         Existem situações de sofrimento urgente que nos geram muitas dúvidas e insegurança sobre como agir e ajudar a pessoa que sofre. De forma geral, os princípios que devem guiar nossa conduta são os mesmos e sobre isso sugiro a leitura da aba sobre Primeiros Socorros Psicológicos. Mas existem particularidades em cada tipo de situação aguda em saúde mental e aponto aqui algumas dicas sobre como manejar tais situações.

 

Agitação psicomotora, comportamento desorganizado e risco de agressividade:

    • O objetivo principal é garantir a segurança da pessoa e dos que estão ao entorno.
    • Evite uma postura coercitiva, pois isso contribui para aumentar a agitação.
    • Às vezes a pessoa agitada pode ter uma postura de provocação. Tenha a clareza que esse é um processo de autodefesa.
    • Se a pessoa agitada não lhe conhece, comece dizendo seu nome e perguntando como ela prefere ser chamada.
    • Escute o que ela tem a dizer.
    • Use sempre frases curtas, com linguagem simples, dê tempo para a pessoa assimilar o que foi dito e de responder antes de você dar novas informações.
    • Proponha o que você gostaria que ela fizesse, por exemplo, acalmar-se, sentar-se, falar mais baixo.
    • Lembre-se que alguém agitado tem dificuldade de absorver informações, portanto será necessário repetir mais de uma vez com paciência.
    • Temos a tendência a desistir rapidamente frente alguém agitado, pois parece que a pessoa não ouve e não quer colaborar. Na verdade, o tempo necessário pode variar, mas no geral a redução da agitação através do manejo verbal leva 5 minutos. Portanto, não desista na primeira tentativa.
    • Procure entender os desejos da pessoa. Alguns poderão ser facilmente atendidos, como chamar alguém de sua confiança. Outros serão mais difíceis, mas demonstre que você se importa.
    • Repita o que entendeste. Comece com “diga se entendi direito…” e fale o que entendeu. Isso não significa que você concorda com o que foi dito, mas que está se esforçando em compreender o que a pessoa está sentindo.
    • Lembre-se que demonstrar o desejo de ajudar o outro não significa ser abusado.
    • Dizer que comportamento que resulte em lesões para si mesmo ou para outras pessoas não será aceito, é fundamental.
    • Bater na parede ou quebrar algo exige relembrar os limites e as consequências, mas não significa contenção física.
    • Nunca engane ou prometa algo que não poderá ser cumprido.
    • Melhorar o conforto também ajuda, como alcançar um agasalho se ela estiver com frio, ou refrescar o ambiente se estiver com calor, oferecer água ou algo para comer, disponibilizar telefone se ela quiser falar com alguém de sua confiança.
    • O ideal é só uma pessoa fazer o manejo verbal. Outras pessoas podem auxiliar garantindo a privacidade no ambiente e buscando recursos.

 

Uso de substâncias e intoxicação:

    • Pergunte para a pessoa se ela fez uso de alguma substância há pouco tempo. Ou ao contrário, se faz uso regular e está há muito tempo sem usar.
    • Demonstre uma postura acolhedora, porém firme.
    • Busque garantir a segurança da pessoa e dos que estão entorno.
    • Evite contenção física, pois você não tem treinamento para manejar situações de intoxicação e isso pode agravar os sintomas.
    • O cuidado às intoxicações é eminentemente clínico! Portanto, chame atendimento médico.

 

Depressão, crise de ansiedade e angústia:

    • Episódios depressivos ou ansiosos agudos tendem a ser vistos como menos graves ou desconsiderados, porém podem ser tão graves quanto uma agitação psicomotora.
    • Um episódio agudo depressivo tende a se alastrar por dias ou semanas, trazendo consequências ruins para a pessoa.
    • Pessoas com episódios agudos depressivos ou ansiosos tendem a não conseguir levantar da cama, ou sair de casa, não se alimentam, não dormem, causando um prejuízo importante para o equilíbrio orgânico.
    • Também é importante lembrar que pessoas em ataque de pânico ou crises depressivas agudas podem estar com um problema clínico concomitante.
    • Ajude a pessoa a buscar auxílio médico e se ofereça para acompanhá-la se não tiver ninguém de confiança para fazê-lo.
    • Uma pessoa em crise de ansiedade tende a respirar mais rápido, causando uma “hiperventilação” no sangue. Excesso de oxigênio no sangue piora os sintomas ansiosos. Portanto, ajude-a a respirar melhor. A técnica de respirar dentro do saco de papel realmente funciona.
    • Procure não deixar pessoas nesse tipo de situação aguda sozinhas.

 

Quadros confusionais e orgânicos:

    • Um estado de confusão aguda se caracteriza por um estreitamento da consciência, prejuízo na atenção, alterações cognitivas e sensoperceptivas. Tem fundo orgânico.
    • Costuma ter um curso flutuante, com melhora e piora ao longo dos dias, às vezes o discurso perde a articulação lógica.
    • Pode ser desencadeado por mau uso de medicações ou complicações clínicas, como acidente vascular.
    • Por ser um quadro orgânico, se faz urgente a busca por atendimento médico!

 

Situações de perda e luto:

    • Não há maneira certa de sofrer, portanto evite invadir o espaço de quem sofre (isso não vale se você percebe que o outro está em risco).
    • Da mesma forma, não existe um prazo, um tempo limite para o sentimento de luto. Respeite o tempo diferente de cada um. O que a pessoa precisa é de espaço e tempo adequados para vivenciar seu luto para que não passe o resto da vida DE luto.
    • EVITE CLICHÊS! Frases como “não chore”, “não sofra”, “o tempo cura”, “eles estão em um lugar melhor”, “ele não ia querer te ver assim”, “vai passar”, “sei como você está se sentindo” devem ser evitadas. Tais comentários, apesar de bem intencionados, acabam por menosprezar a experiência e gerar um sentimento de incompreensão do sofrimento.
    • Se está na dúvido do que dizer, prefira sempre um “sinto muito”.
    • Não tente conter as lágrimas da pessoa enlutada.
    • A pessoa enlutada precisa falar, chorar e ser escutada.
    • Evite tomar todas as decisões por ela. A pessoa enlutada está sentindo que a vida perdeu o controle, por isso dê espaço para ela retomar esse controle. Dê espaço para ela decidir o que quer almoçar, ou jantar, o que quer fazer, etc.
    • Animais de estimação sempre ajudam, procure estimular a pessoa com eles.
    • Se você percebe sinais de “luto complicado”, isso é, perda de interesse na vida cotidiana, isolamento social, perda de emprego ou de relacionamentos, de uma maneira frequente, converse com a pessoa para buscar ajuda especializada.
    • As pessoas enlutadas precisam falar e compartilhar suas lembranças em voz alta, apenas escute-as, isso fará uma enorme diferença.

 

PARA SABER MAIS:

Crise e Urgência em Saúde Mental: o cuidado às pessoas em situações de crise e urgência na perspectiva da atenção psicossocial / Maria Terezinha Zeferino, Jeferson Rodrigues, Jaqueline Tavares de Assis (orgs.). 4ª Edição – Florianópolis (SC): Universidade Federal de Santa Catarina, 2015.

Livro: Luto: Estudos sobre a perda na vida adulta (Colin Murray Parkes)

 

Autora: Mariana Valls Atz