Dislexia

O que é dislexia?

A Dislexia é um Transtorno Específico da Aprendizagem da língua escrita, de origem neurobiológica e com forte tendência genética. É caracterizada por falhas na precisão e/ou fluência no reconhecimento de palavras escritas que podem ou não comprometer, em grau variado, a compreensão da leitura. A escrita ortográfica também se encontra prejudicada. Resulta de um déficit no componente fonológico da linguagem, permanecendo até a vida adulta. As dificuldades são inesperadas em relação à capacidade intelectual do indivíduo, déficits sensoriais e à escolaridade adequada. O disléxico responde lentamente às intervenções terapêuticas e educacionais específicas e o prognóstico depende de diversos fatores facilitadores como: nível intelectual, precocidade no diagnóstico e apoio familiar e escolar.

O aluno disléxico pode evoluir no desempenho acadêmico, desde que sejam feitas acomodações especiais (avaliação oral, maior tempo, desconsideração de erros ortográficos).

Código presente nos manuais diagnósticos: DSM-V 315.00, CID 10 F8I.0, CID 11 6A03.0 315.2.

Quais as causas?

Existe um consenso na literatura em relação as falhas no processamento fonológico. Este processamento cognitivo permite que a criança na fase de alfabetização compreenda o princípio alfabético e consiga realizar a relação letra/som. Este mecanismo se torna automatizado, permitindo que o leitor utilize a cognição para processos mais complexos relacionado a compreensão de textos. Entretanto, na dislexia do desenvolvimento, esta automatização se encontra prejudicada, impactando a acurácia e velocidade no reconhecimento de palavras.

Estudos atuais da neurociência têm comprovado esta teoria. O uso de ressonância magnética funcional permitiu observar que as áreas de processamento fonológico estão hipoativadas, bem como a região de processamento visual que se torna responsável, através de plasticidade cerebral, pelo reconhecimento das letras.

Principais sintomas na idade adulta?

A Dislexia, mesmo com tratamento precoce, permanece até a vida adulta. Em recente pesquisa com 32 disléxicos e 32 controles adultos gaúchos, sendo a grande maioria universitários, ou já graduados, pareados por sexo, idade, ocupação, anos de escolaridade, foi constatado que os disléxicos adultos apresentam:

  • Leitura mais lenta. Na pesquisa, a média observada do grupo foi de 129 palavras por minuto na leitura silenciosa (DP:4), enquanto seus controles foi de 181 palavras por minuto (DP:59). Essa lentidão faz com que necessitem mais tempo para a realização da leitura de tal forma que frequentemente não conseguem acompanhar legenda de filmes. Entretanto, observou-se que o nível da compreensão do texto não difere dos controles, explicando, assim, porque conseguiram atingir elevados níveis de educação.
  • Frequência de erros ortográficos muito elevada, podendo ser comparadaaos padrões esperados para alunos de quarto ano do ensino fundamental, particularmente em acentuação e irregularidades da língua. A produção de textos apresentou-se igualmente complexa e extensa como a dos controles, mas, devido ao número de erros ortográficos e gramaticais, sua leiturabilidade ficou aquém.
  • Dificuldades no aprendizado de língua estrangeira (particularmente na escrita).
  • Sofrimento intenso, particularmente quando o diagnóstico foi tardio, com sentimentos de incapacidade e baixa autoestima.

Como é feito o diagnóstico?

O diagnóstico de dislexia depende de uma equipe multidisciplinar constituída por, pelo menos, 2 especialistas:

Fonoaudiólogo ou psicopedagogo para avaliar a consciência fonológica, leitura, escrita;

e psicólogo para avaliar o nível intelectual e outras funções neuropsicológicas, bem como aspectos emocionais.


Estes profissionais, precisam se comunicar com as instituições educacionais, quando possível, a fim de verificar o impacto e a frequência dos sintomas apresentados. Algumas vezes são necessárias outras avaliações para descartar déficits sensoriais, quadros neurológicos e/ou psiquiátricos.

Pode vir acompanhada de outros transtornos?

  • A principal comorbidade é o Transtorno de Déficit de Atenção/ Hiperatividade ou somente TDA (ver descrição deste site), seguida de:
  • Discalculia ou Transtorno Específico da Aprendizagem da Matemática:

A Discalculia é um distúrbio do neurodesenvolvimento, de origem genética que afeta a aquisição e o desenvolvimento de competências acadêmicas na área da Matemática, de forma persistente e pervasiva. Ao nível comportamental, o Transtorno Específico da Matemática, ou Discalculia caracteriza-se por uma fraca evocação de fatos numéricos da memória, uso de procedimentos imaturos de cálculo e contagem, além de representação e processamento atípicos da magnitude numérica.

Código presente nos manuais diagnósticos: DSM-V 315.1; CID 10 F8I.2; CID 11 6A03.2.
  • Transtorno de Ansiedade (ver descrição aqui)

Acomodações sugeridas ao disléxico na Universidade

  1. No exame vestibular:
  • mais tempo para realização da prova (recomenda-se pelo menos 25% a mais)
  • realização em sala separada (de preferência silenciosa)
  • desconsideração dos erros ortográficos
  • presença opcional de um ledor
  • presença opcional de um transcritor, em casos mais raros

2. Nas disciplinas do curso:

É importante que o aluno possa ser orientado a montar sua grade, evitando sobrecarga de cadeiras e para balancear cadeiras muito teóricas com outras mais práticas. Além deste apoio algumas medidas se fazem essenciais:

  • não permitir que seja ridicularizado pelos erros ortográficos que são inevitáveis;
  • não solicitar que leia em público em voz alta. Quando isso for absolutamente necessário, fornecer, antecipadamente, uma cópia do material a ser lido para que ele se familiarize com o texto;
  • oportunizar local tranquilo para realizar trabalhos escritos;
  • avaliá-lo preferencialmente pela modalidade oral;
  • não reprová-lo por dificuldades em língua estrangeira;
  • oferecer mais tempo para as tarefas curriculares e avaliativas.

Autoras: Fonoaudióloga e psicopedagoga Sônia Moojen e fonoaudióloga Ana Bassoa

Referências:

American Psychiatric Association. (2013). American Psychiatric Association. Diagnostic and statistical manual of mental disorders. Washington DC.
Arruda, Marco Antônio & Almeida, Marcos (Coord). Cartilha da Inclusão Escolar: incluindo com base em evidências científicas. Comunidade Aprender Criança, 2014. Site: http://congressoaprendercrianca.com.br/sobre-aprender-crianca
Basso, F. P., de Jou, G. I., Gonçalves, H. A., Bassôa, A., Moojen, S., & de Salles, J. F. (2017). A produção textual escrita de adultos com dislexia de desenvolvimento. Neuropsicologia Latinoamericana9(2).
Borba, Ana Luiza & Baggio, Mário Ângelo. Como interagir com o Jovem e o Adulto Disléxico. Associação Brasileira de Dislexia (ABD).
Bruck, M. (1990). Word-recognition skills of adults with childhood diagnoses of dyslexia. Developmental Psychology, 26(3), 439–454.
Como interagir em sala de aula com alunos portadores de transtornos de aprendizagem. Associação Brasileira de Dislexia (ABD).
Dehaene, S. (2012). Os neurônios da leitura. Porto Alegre: Penso.
Guia para Escolas e Universidades sobre o aluno com dislexia e outros transtornos de aprendizagem. Instituto ABCD
Moojen, S. M. P.; Bassôa, A. ; Gonçalves, H. A. . Dislexia ao longo da vida: perfil de leitura, escrita e consciência fonológica em disléxicos adultos brasileiros. In: Luciana Mendonça Alves; Renata Mousinho; Simone Aparecida Capellini. (Org.). Dislexia: novos tempos, novas perspectivas. 1ed.Rio de Janeiro: WAK Editora, 2018, v. 4, p. 49-60.
Moojen, S. M. P., Bassôa, A., & Gonçalves, H. A. (2016). Características da dislexia de desenvolvimento e sua manifestação na idade adulta. Revista Psicopedagogia33(100), 50-59.
Moojen, S., & França, M. (2006). Dislexia: visão fonoaudiológica e psicopedagógica. ROTTA, Newra T. et al. Transtornos da Aprendizagem: Abordagem Neurobiológica e Multidisciplinar.
Organização Mundial de Saúde. Classificação de Transtornos Mentais e de Comportamento da CID -10. Porto Alegre: Artes Médicas, 1993
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