{"id":1487,"date":"2025-08-11T18:04:49","date_gmt":"2025-08-11T21:04:49","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/semsono\/?p=1487"},"modified":"2025-08-11T18:05:22","modified_gmt":"2025-08-11T21:05:22","slug":"o-conceito-de-valor-e-imagem-do-dinheiro-desmaterializado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/semsono\/2025\/08\/11\/o-conceito-de-valor-e-imagem-do-dinheiro-desmaterializado\/","title":{"rendered":"O conceito de valor e imagem do dinheiro desmaterializado"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><em>Texto produzido para a disciplina Estudos Cr\u00edticos da Comunica\u00e7\u00e3o &#8211; Turma B, 2025\/1<br \/>\n<\/em><em>FABICO\/UFRGS<br \/>\nProf. Marcelo Bergamin Conter<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Por<br \/>\n<strong>Rodrigo Borkert<\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">O dinheiro, ao longo da hist\u00f3ria, nunca foi est\u00e1tico. Foi pedra, sal, metal, papel, e agora se transforma em c\u00f3digo. O Bitcoin, nesse contexto, representa o \u00e1pice da desmaterializa\u00e7\u00e3o do valor: uma moeda que existe apenas como registro matem\u00e1tico em redes descentralizadas.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Este trabalho busca analisar:<\/p>\n<ul>\n<li>Como a imagem e as representa\u00e7\u00f5es do Bitcoin no senso comum comunicam (ou distorcem) a ideia de desmaterializa\u00e7\u00e3o do dinheiro.<\/li>\n<li>Quais paralelos podem ser tra\u00e7ados entre o surgimento do Bitcoin e as formas hist\u00f3ricas de moeda \u2013 do sal \u00e0s rodas de pedra dos iapeenses, do ouro ao dinheiro fiduci\u00e1rio, at\u00e9 chegar ao \u201cdinheiro vapor\u201d.<\/li>\n<li>Explorar as transforma\u00e7\u00f5es nas media\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas do valor e as consequ\u00eancias disso para a percep\u00e7\u00e3o p\u00fablica, confian\u00e7a social e identidade econ\u00f4mica.<\/li>\n<\/ul>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><strong>1 &#8211; Porque vemos valor no que usamos como dinheiro?<\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">A hist\u00f3ria do dinheiro revela um cont\u00ednuo processo de abstra\u00e7\u00e3o do valor. Cada forma monet\u00e1ria carrega, al\u00e9m da fun\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, sentidos sociais, pol\u00edticos e simb\u00f3licos profundamente enraizados em seu contexto hist\u00f3rico. Da materialidade absoluta \u2014 o peso do metal, o brilho da pedra, o toque do sal \u2014 \u00e0 pura abstra\u00e7\u00e3o digital do Bitcoin, o dinheiro sempre foi, antes de tudo, uma tecnologia de confian\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">O sal foi usado como moeda e s\u00edmbolo de riqueza em v\u00e1rias civiliza\u00e7\u00f5es antigas, especialmente em Roma. Seu valor estava na utilidade vital e na dificuldade de obten\u00e7\u00e3o, sempre ligado ao seu car\u00e1ter f\u00edsico.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Conchas, especialmente b\u00fazios, serviram como dinheiro em \u00c1frica, \u00c1sia e Oceania devido \u00e0 raridade, facilidade de transporte e forte apelo simb\u00f3lico. O valor era coletivo e dependia do consenso social, antecipando a l\u00f3gica das moedas simb\u00f3licas.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Ouro, prata e cobre inauguraram as moedas cunhadas, trazendo valor intr\u00ednseco e autoridade estatal, consolidaram o dinheiro met\u00e1lico como instrumento de poder e controle.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">O papel-moeda, surgido na China, acelerou a desmaterializa\u00e7\u00e3o do dinheiro. Inicialmente atrelado a reservas met\u00e1licas, depois sustentado apenas pela confian\u00e7a coletiva, tornou-se s\u00edmbolo m\u00e1ximo do valor consensual e fiduci\u00e1rio.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">As pedras Rai funcionam como moeda simb\u00f3lica em Yap: enormes discos de pedra cujo valor depende do reconhecimento p\u00fablico de propriedade, n\u00e3o de uso f\u00edsico. Antecipam o conceito de valor descentralizado e abstrato das moedas digitais.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><strong>2 \u2013 Desmaterializa\u00e7\u00e3o do dinheiro e o surgimento do Bitcoin<\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">A desmaterializa\u00e7\u00e3o do dinheiro, intensificada com o surgimento do Bitcoin e das moedas digitais, se conecta ao hibridismo corpo-tecnologia de Canevacci (2009): tecnologia dissolve fronteiras, tornando nossos corpos extens\u00f5es de m\u00eddias e interfaces. Isso se reflete no modo como lidamos com o dinheiro \u2014 antes carregado como objeto f\u00edsico, hoje como informa\u00e7\u00e3o criptografada em telas, protegida por biometria e senhas. Vivemos uma condi\u00e7\u00e3o ciborgue na experi\u00eancia financeira: valor simb\u00f3lico que migra do material ao digital, acompanhando nossa transforma\u00e7\u00e3o em sujeitos tecnossociais.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Conforme Conter (2017), a m\u00fasica tornou-se \u201cvapor\u201d, ubiquidade e fluxo. O dinheiro segue o mesmo caminho: a trajet\u00f3ria hist\u00f3rica aponta para a preval\u00eancia do simb\u00f3lico, do consenso social, e do puro dado matem\u00e1tico. O Bitcoin representa o \u00e1pice desse processo \u2014 n\u00e3o \u00e9 tang\u00edvel, n\u00e3o tem respaldo em metais ou estados, existe como c\u00f3digo em registros p\u00fablicos distribu\u00eddos (blockchain), garantido por criptografia e consenso descentralizado.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">No senso comum, por\u00e9m, a imagem do Bitcoin muitas vezes comunica ou distorce a ideia de desmaterializa\u00e7\u00e3o: para alguns, simboliza autonomia e inova\u00e7\u00e3o; para outros, \u00e9 associado \u00e0 instabilidade, risco ou at\u00e9 fraude, dificultando a aceita\u00e7\u00e3o do dinheiro puramente digital. Assim, o Bitcoin condensa e potencializa a \u201cvaporiza\u00e7\u00e3o do valor\u201d \u2014 puro s\u00edmbolo, puro c\u00f3digo, puro consenso \u2014 e revela tanto as promessas quanto as contradi\u00e7\u00f5es desse novo cen\u00e1rio.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Esse fen\u00f4meno \u00e9 vis\u00edvel em pa\u00edses como a China, onde o uso de c\u00e9dulas se tornou exce\u00e7\u00e3o e as transa\u00e7\u00f5es digitais j\u00e1 dominam a economia cotidiana, impulsionadas por aplicativos e pela ado\u00e7\u00e3o do yuan digital. O Brasil segue tend\u00eancia semelhante ao implementar o PIX e desenvolver o DREX, sua pr\u00f3pria moeda digital, buscando acelerar a desmaterializa\u00e7\u00e3o do dinheiro e ampliar a digitaliza\u00e7\u00e3o financeira.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">No entanto, essas moedas digitais estatais levantam quest\u00f5es de vigil\u00e2ncia, controle e centraliza\u00e7\u00e3o, problemas que criptomoedas descentralizadas como o Bitcoin foram criadas justamente para evitar.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><strong>3 \u2013 O senso comum sobre o Bitcoin<\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">A percep\u00e7\u00e3o p\u00fablica do Bitcoin \u00e9 resultado direto das transforma\u00e7\u00f5es nas media\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas do valor e de como esses processos s\u00e3o comunicados e ressignificados no cotidiano. A circula\u00e7\u00e3o de sentidos sobre o Bitcoin n\u00e3o ocorre apenas nos grandes ve\u00edculos de m\u00eddia, mas se expande em memes, discuss\u00f5es em redes sociais, aplicativos financeiros e experi\u00eancias pessoais de usu\u00e1rios. Mart\u00edn-Barbero (2006) ressalta que as media\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas n\u00e3o apenas conectam, mas tamb\u00e9m reconfiguram pr\u00e1ticas sociais, afetando profundamente a confian\u00e7a coletiva e as formas de pertencimento econ\u00f4mico.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">No senso comum, o Bitcoin aparece simultaneamente como promessa e amea\u00e7a. Para alguns, representa inova\u00e7\u00e3o, autonomia e possibilidade de ascens\u00e3o financeira fora dos limites do sistema banc\u00e1rio tradicional. Para outros, ainda \u00e9 visto com desconfian\u00e7a, associado \u00e0 instabilidade, risco, bolhas especulativas e ao uso em atividades il\u00edcitas. Essa polariza\u00e7\u00e3o \u00e9 amplificada pelas pr\u00f3prias media\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas: not\u00edcias, aplicativos e plataformas digitais permitem tanto a dissemina\u00e7\u00e3o r\u00e1pida de informa\u00e7\u00e3o qualificada quanto a propaga\u00e7\u00e3o de mitos, fake news e p\u00e2nicos morais.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">O efeito dessas novas media\u00e7\u00f5es sobre a confian\u00e7a social e a identidade econ\u00f4mica \u00e9 amb\u00edguo. Por um lado, a digitaliza\u00e7\u00e3o e a descentraliza\u00e7\u00e3o prometem empoderamento individual e transpar\u00eancia nas transa\u00e7\u00f5es; por outro, podem intensificar o sentimento de incerteza e de desprote\u00e7\u00e3o diante do desconhecido tecnol\u00f3gico.<strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><strong>4 \u2013 O dinheiro et\u00e9reo e os outros dinheiros<\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">A trajet\u00f3ria do dinheiro revela um processo cont\u00ednuo de abstra\u00e7\u00e3o e desmaterializa\u00e7\u00e3o do valor, desde suas formas mais concretas at\u00e9 o chamado \u201cdinheiro et\u00e9reo\u201d. O Bitcoin, frequentemente compreendido como o \u00e1pice dessa transforma\u00e7\u00e3o, reativa l\u00f3gicas antigas sob novas tecnologias.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">O sal, uma das moedas mais antigas, tinha valor intr\u00ednseco por sua utilidade vital, mas j\u00e1 dependia de consenso social sobre seu papel em trocas. As conchas (cowries) circularam por mil\u00eanios em diversos continentes, com seu valor baseado na raridade e aceita\u00e7\u00e3o coletiva, antecipando o princ\u00edpio do valor simb\u00f3lico. Os metais preciosos, como ouro e prata, somaram \u00e0 aceita\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria a chancela estatal, tornando-se instrumentos de poder e controle. O papel-moeda radicalizou a abstra\u00e7\u00e3o ao romper o v\u00ednculo direto com metais e depender unicamente da confian\u00e7a no emissor.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Meu caso preferido, as pedras Rai, na ilha de Yap, ilustra de modo emblem\u00e1tico a l\u00f3gica do valor simb\u00f3lico e descentralizado: gigantes discos de pedra dificilmente movidos, cujo valor \u00e9 definido pela hist\u00f3ria compartilhada e pelo reconhecimento p\u00fablico do propriet\u00e1rio, e n\u00e3o pela posse f\u00edsica, pode ser visto como um dos mais primitivos, por\u00e9m, o Bitcoin se insere nessa mesma l\u00f3gica de exist\u00eancia &#8211; n\u00e3o \u00e9 algo que pode ser facilmente false\u00e1vel.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Ele percorre o percurso como o primeiro dinheiro global completamente digital, sem exist\u00eancia material, sustentado apenas por registros distribu\u00eddos e regras matem\u00e1ticas. Assim como cada forma hist\u00f3rica de moeda exigiu novos acordos de confian\u00e7a, o dinheiro et\u00e9reo das criptomoedas convida a sociedade a reimaginar o que significa valor, propriedade e seguran\u00e7a. Em \u00faltima inst\u00e2ncia, o \u201cdinheiro vapor\u201d \u00e9 menos uma ruptura e mais a express\u00e3o m\u00e1xima de l\u00f3gicas ancestrais que confiamos h\u00e1 muito tempo: o valor, ontem e hoje, sempre dependeu do consenso, da media\u00e7\u00e3o e da confian\u00e7a coletiva.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><strong>5 &#8211; Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">DAVIES, Glyn. A history of money: from ancient times to the present day. Cardiff: University of Wales Press, 1994.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">EINZIG, Paul. Primitive Money: In Its Ethnological, Historical and Economic Aspects. 2. ed. Oxford: Pergamon Press, 1966.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">FERGUSON, Niall. The ascent of money: a financial history of the world. New York: Penguin Press, 2008.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">FURNESS, William Henry. The Island of Stone Money: Uap of the Carolines. Philadelphia: J.B. Lippincott Company, 1910. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.nationalgeographic.com\/culture\/article\/the-island-of-stone-money. Acesso em: 11 jun. 2025.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">KURLANSKY, Mark. Salt: a world history. New York: Penguin Books, 2002.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">OXFORD REFERENCE. Salt as currency. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.oxfordreference.com\/display\/10.1093\/oi\/authority.20110803100402114. Acesso em: 11 jun. 2025.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">SHELL MONEY OF THE WORLD (COWRIES). The British Museum. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.britishmuseum.org\/collection\/object\/C_1978-0201-16. Acesso em: 11 jun. 2025.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">THE BRITISH MUSEUM. Paper money in Ancient China. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.britishmuseum.org\/collection\/object\/C_1981-0202-100. Acesso em: 11 jun. 2025.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">WEATHERFORD, Jack. The history of money. New York: Crown Publishers, 1997.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Texto produzido para a disciplina Estudos Cr\u00edticos da Comunica\u00e7\u00e3o &#8211; Turma B, 2025\/1 FABICO\/UFRGS Prof. Marcelo Bergamin Conter Por Rodrigo Borkert O dinheiro, ao longo da hist\u00f3ria, nunca foi est\u00e1tico. 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