{"id":1497,"date":"2025-08-25T18:04:54","date_gmt":"2025-08-25T21:04:54","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/semsono\/?p=1497"},"modified":"2025-08-25T18:04:54","modified_gmt":"2025-08-25T21:04:54","slug":"a-musica-das-plantas-e-a-escuta-na-era-do-multitasking","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/semsono\/2025\/08\/25\/a-musica-das-plantas-e-a-escuta-na-era-do-multitasking\/","title":{"rendered":"A m\u00fasica das plantas e a escuta na era do multitasking"},"content":{"rendered":"<p style=\"font-weight: 400; text-align: right;\"><em>Ensaio fabulat\u00f3rio apresentado no 1\u00ba Congresso therolingu\u00edsta: a(na)rqueologias da Terra, <\/em><em>24 de novembro de 2021<br \/>\n<\/em><em><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/live\/FdgA-F_jTu8?si=e8MFU_RO_9zhsyxM&amp;t=208\">Link para a apresenta\u00e7\u00e3o em v\u00eddeo<\/a><\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: center;\">Por<br \/>\n<strong>Marcelo B. Conter e L\u00edgia Lazevi<\/strong><\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"font-weight: 400; padding-left: 40px;\"><strong>Resumo: <\/strong>Navegando pelo YouTube em busca de playlists para estudar e trabalhar, nos deparamos com um v\u00eddeo de Shane Mendonsa em que uma muda de manjeric\u00e3o e uma s\u00e9rie de sintetizadores ocupam a tela. Captadores de contato presos aos galhos da planta conduzem varia\u00e7\u00f5es de resist\u00eancia el\u00e9trica a um aparelho de bio sonifica\u00e7\u00e3o, que por sua vez alimenta uma s\u00e9rie de equipamentos de s\u00edntese modular. O resultado \u00e9 uma paisagem sonora on\u00edrica, apaziguadora e com toques de trilha de filme de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, remetendo \u00e0s pe\u00e7as de ambient music de Brian Eno (excelente para ouvir enquanto ingressamos na d\u00e9cima segunda hora seguida de trabalho, fechando aquele freela para um cliente que polui o meio ambiente). Pretendemos especular sobre as maquina\u00e7\u00f5es decorrentes dos arranjos entre plantas, m\u00fasicos, aparelhos de s\u00edntese modular e ouvintes ansiosos e estressados, refletindo em especial sobre novas t\u00e9cnicas de audi\u00e7\u00e3o que se desenvolvem no tempo presente: uma aprecia\u00e7\u00e3o musical enquanto se faz outra coisa, uma escuta multitasking, decorrente da impossibilidade de dispor de tempo livre para o \u00f3cio e o entretenimento devido \u00e0 precariza\u00e7\u00e3o do trabalho e aceleracionismo.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Nosso estudo parte do canal do YouTube do artista <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=GhjucsgpX1w&amp;list=PLcj7XP1puJ2QAbYw5_jRgk_buGs4WOQtH\">Shane Mendonsa<\/a>, que vem fazendo parceria com artistas n\u00e3o-humanos, mais especificamente plantas artistas, na produ\u00e7\u00e3o de m\u00fasica. Isto \u00e9 poss\u00edvel gra\u00e7as a um aparelho de bio sonifica\u00e7\u00e3o, neste caso o aparelho empregado \u00e9 o Sc\u00edon Instruo, capaz de converter as diferen\u00e7as de resist\u00eancia el\u00e9trica que toda planta viva produz. O sinal em seguida passa por diversos outros aparelhos de s\u00edntese modular para gerenciar a frequ\u00eancia que certos samples ser\u00e3o executados, o que resulta numa esp\u00e9cie de m\u00fasica generativa. A m\u00fasica generativa \u00e9 um m\u00e9todo de composi\u00e7\u00e3o que se organiza em um centro de gravidade tonal e produz varia\u00e7\u00f5es de modo rand\u00f4mico. Mas, com a planta atuando como &#8220;programa&#8221;, temos uma outra ordem de composi\u00e7\u00e3o. Nesse arranjo, quem \u00e9 o compositor? Lembremos do editorial escrito pelo presidente da associa\u00e7\u00e3o de Therolingu\u00edstica, publicado no volume de 1974, quando se pergunta sobre &#8220;o que \u00e9 Arte?&#8221;:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>[Sobre &#8220;o que \u00e9 Arte?&#8221;, Tolstoi] respondeu com firmeza e clareza: Arte tamb\u00e9m \u00e9 comunica\u00e7\u00e3o. Essa resposta, creio eu, foi aceita sem revis\u00e3o ou cr\u00edtica pelos therolinguistas. Por exemplo: por que os therolinguistas estudam apenas animais?\u00a0<\/em><em>Ora, porque as plantas n\u00e3o se comunicam. <\/em><em>[&#8230;] [Mas e] se a arte n\u00e3o for comunicativa?\u00a0<\/em><em>Ou, se alguma arte for comunicativa e outras n\u00e3o?\u00a0<\/em><em>[&#8230;] Ainda n\u00e3o erguemos nossos olhos para os horizontes mais vastos que temos diante de n\u00f3s. N\u00e3o enfrentamos o desafio quase aterrorizante da Planta.\u00a0<\/em><em>Se existe uma arte vegetal n\u00e3o comunicativa, devemos repensar os pr\u00f3prios elementos de nossa ci\u00eancia e aprender todo um novo conjunto de t\u00e9cnicas. Isso est\u00e1 provado conclusivamente pelo fracasso \u2013 um nobre fracasso \u2013 dos esfor\u00e7os do Dr. Srivas, em Calcut\u00e1, usando a fotografia time-lapse, para produzir um l\u00e9xico do Girassol. Sua tentativa foi ousada, mas fadada ao fracasso. Pois sua abordagem era cin\u00e9tica \u2013 um m\u00e9todo apropriado para as artes comunicativas da tartaruga, da ostra e do bicho-pregui\u00e7a. Ele via a extrema lentid\u00e3o do movimento das plantas, e apenas isso, como o problema a ser resolvido.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"font-weight: 400;\">O erro do Dr. Srivas, em sua pesquisa em Calcut\u00e1, foi o de pensar na cin\u00e9tica \u00fanica e exclusivamente como um campo de estudos da f\u00edsica. Pela cin\u00e9tica musical, por exemplo, Srivas poderia ter refletido sobre a resist\u00eancia el\u00e9trica do girassol como um devir musical latente na planta \u2013 portanto \u2013 uma arte comunicativa passional. Nos <a href=\"https:\/\/www.sonoridades.net\/_files\/ugd\/3ca975_d5ebabafda764aaab449e2bb548cf274.pdf\">anais da\u00a0 CIPS II<\/a> , em 2021, em trabalho em parceria com o colega Andr\u00e9 Araujo, lembramos do agente da CIA <a href=\"https:\/\/www.google.com\/url?sa=t&amp;source=web&amp;rct=j&amp;opi=89978449&amp;url=https:\/\/translate.google.com\/translate%3Fu%3Dhttps:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Cleve_Backster%26hl%3Dpt%26sl%3Den%26tl%3Dpt%26client%3Dsrp&amp;ved=2ahUKEwjtiKnm7aaPAxXur5UCHYkVFJ8QFnoECCwQAQ&amp;usg=AOvVaw35WzWeBMYmkuCFk9wIrtK_\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Cleve Backster<\/a>, que experimentou conectar os receptores de um pol\u00edgrafo nas folhas de plantas. Ele reconheceu varia\u00e7\u00f5es de resist\u00eancia el\u00e9trica ao interagir com os vegetais.\u00a0Ora, o som que \u00e9 capturado por um microfone comum \u00e9 convertido em pulsos el\u00e9tricos an\u00e1logos \u00e0 onda sonora. \u00c9 poss\u00edvel, portanto, \u201cconectar\u201d uma planta a instrumentos musicais el\u00e9tricos e eletr\u00f4nicos, como amplificadores e aparelhos de s\u00edntese modular.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Talvez o Dr. Srivas n\u00e3o tenha obtido acesso a esta tecnologia na \u00e9poca, mas alguns membros da associa\u00e7\u00e3o j\u00e1 vinham experimentando agenciamentos entre seus corpos, aparelhos de s\u00edntese modular e cogumelos para a produ\u00e7\u00e3o de m\u00fasica. O problema \u00e9 que na \u00e9poca estudava-se a possibilidade de uma arte musical passiva produzida pelos mic\u00e9lios quase que exclusivamente consumo dos fungos, na forma de ch\u00e1 ou in natura, para em seguida tocar rock progressivo em sintetizadores, como nosso associado Keith Emerson bem tentou junto de seus amigos Greg Lake e Carl Palmer. N\u00e3o havia, tamb\u00e9m, na \u00e9poca, uma tecnologia que permitisse uma tradu\u00e7\u00e3o da resist\u00eancia el\u00e9trica das plantas em pulsos sonoros. Mas tudo era uma quest\u00e3o de tempo, como nosso presidente j\u00e1 previa nos anos 1970:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>No entanto, prevejo com alguma certeza de que [A Arte da Planta] existe e que, quando for encontrada, provar\u00e1 ser, n\u00e3o uma a\u00e7\u00e3o, mas uma rea\u00e7\u00e3o: n\u00e3o uma comunica\u00e7\u00e3o, mas uma recep\u00e7\u00e3o. Ser\u00e1 exatamente o oposto da arte que conhecemos e reconhecemos. Ser\u00e1 a primeira arte passiva que conheceremos.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"font-weight: 400;\">O que encontramos n\u00e3o \u00e9 exatamente o que o presidente imaginava, mas passou muito perto. Se n\u00e3o vejamos: n\u00e3o sabemos ainda se essas plantas, ligadas ao Sc\u00edon Instruo, s\u00e3o seres conscientes, mas nota-se claramente que n\u00e3o est\u00e3o &#8220;tocando&#8221; os instrumentos musicais \u2013 portanto, n\u00e3o s\u00e3o ativas. Mas, como seres vivos, o que faz com que a m\u00fasica se desenvolva, produza varia\u00e7\u00f5es de intensidade, \u00e9 o el\u00e3 vital das plantas: sua luta por um lugar ao sol, seu esfor\u00e7o ao realizar a fotoss\u00edntese, as mudan\u00e7as de estado do corpo, linhas de fuga e adapta\u00e7\u00f5es ao ambiente, a varia\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas que v\u00e3o deix\u00e1-la mais ou menos hidratada, tudo isto afeta os sons que ouvimos, porque a varia\u00e7\u00e3o de resist\u00eancia el\u00e9trica da planta nada mais s\u00e3o que sinais vitais. Podem n\u00e3o ser especificamente da planta, mas certamente s\u00e3o sinais vitais de Gaia, como veremos no exemplo a seguir. H\u00e1 uma transdu\u00e7\u00e3o \u2013 convers\u00e3o de resist\u00eancia el\u00e9trica conduzida pelo corpo da planta em pulso el\u00e9trico conduzido por fios de cobre \u2013 seguida de uma tradu\u00e7\u00e3o \u2013 convers\u00e3o do ritmo biol\u00f3gico da planta em ritmo de ritmos sonoros. \u00c9 uma tradu\u00e7\u00e3o de suas paix\u00f5es alegres. Ela n\u00e3o sabe que sua for\u00e7a vital est\u00e1 sendo traduzida. Quer dizer, ainda n\u00e3o temos ferramentas cient\u00edficas que sejam capazes de reconhecer se as plantas conseguem produzir m\u00fasica, ou ao menos controlar suas varia\u00e7\u00f5es de resist\u00eancia el\u00e9trica com o intento de controlar o pulso musical que ela mesma est\u00e1 produzindo. Como prop\u00f5em Deleuze e Guattari (2010), uma planta pode produzir blocos de sensa\u00e7\u00f5es a partir de sua pr\u00f3pria semiose, sem depender necessariamente de um interpretante que lhe \u00e9 externo, como uma pintura a \u00f3leo.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"font-weight: 400;\">A planta contempla contraindo os elementos dos quais ela procede, a luz, o carbono e os sais e se preenche a si mesma com cores e odores que qualificam sempre sua variedade, sua composi\u00e7\u00e3o: \u00e9 sensa\u00e7\u00e3o em si. (DELEUZE; GUATTARI, 2010, p. 250)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><strong>\u00a0<\/strong><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=f273DxMhQk0\">Nesse v\u00eddeo<\/a>, Shane Mendonsa conectou um p\u00e9 de eucalipto que estava murcho, quase morto, ao Sc\u00edon Instruo e conseguiu um pulso el\u00e9trico est\u00e1vel. Num outro dia foi tentar conectar novamente e s\u00f3 conseguiu ligando os captadores mais perto da raiz. Tocos de madeira tratadas n\u00e3o produziram pulso algum, mas esta planta ainda tinha energia. Notem, colegas therolingu\u00edstas, que mesmo uma planta &#8220;quase-morta&#8221; \u00e9 capaz de emitir resist\u00eancia el\u00e9trica.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>O arrepio de uma pena; o deslocamento de uma asa; o toque, o toque leve e quente daquele ao seu lado. Na solid\u00e3o indescrit\u00edvel, miser\u00e1vel e escura, a afirma\u00e7\u00e3o. Na aus\u00eancia, presen\u00e7a. Na morte, vida &#8211; D. Petri<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Nos perguntamos, no entanto, se talvez a carga el\u00e9trica n\u00e3o esteja sendo emitida por uma rede micelial que est\u00e1 decompondo o eucalipto por dentro, sendo ent\u00e3o o eucalipto s\u00f3 mais um dentre v\u00e1rios agentes do el\u00e3 vital de Gaia. Mas a\u00ed j\u00e1 n\u00e3o estamos mais falando de uma m\u00fasica das plantas, e sim de uma m\u00fasica da mecanosfera.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">De todo modo, se as plantas s\u00e3o passivas na produ\u00e7\u00e3o desse material art\u00edstico, se elas s\u00e3o ref\u00e9ns desse agenciamento, os aparelhos de s\u00edntese modular tamb\u00e9m s\u00e3o. Eles precisam do input das plantas para acionar os samples, o que s\u00f3 ressalta a import\u00e2ncia de nossa epistemologia para acabar de vez com o iluminismo que nos leva em dire\u00e7\u00e3o acelerada ao fim da sociedade industrial. Nem a pandemia foi capaz de frear o aumento da polui\u00e7\u00e3o. Alguns oportunistas falam de industrializa\u00e7\u00e3o 4.0, mas o fato \u00e9 que nenhum <em>rebranding<\/em> do per\u00edodo hist\u00f3rico mudar\u00e1 a rota que tomamos no s\u00e9culo XIX. At\u00e9 parece que superamos a queima de carv\u00e3o e a explora\u00e7\u00e3o do proletariado que fundamentaram o dito &#8220;est\u00e1gio 1.0&#8221;.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Desculpem pela digress\u00e3o. Ap\u00f3s meses frente \u00e0s telas trabalhando das oito da manh\u00e3 at\u00e9 a meia noite, lendo emails durante o caf\u00e9 da manh\u00e3 e a janta, o multi-tasking virou um modo de pensar.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Voltando ao assunto da fala de hoje: Tem algo delicado nessas pe\u00e7as publicadas por Shane Mendonsa, no modo como a c\u00e2mera \u00e9 posicionada, fixa, apresentando o rack de aparelhos de s\u00edntese modular em primeiro plano e a planta ao fundo, colocando os aparelhos entre n\u00f3s, ouvintes humanos e as plantas. [babel fish] Os aparelhos musicais aparecem como uma esp\u00e9cie de peixe de Babel, agora com a fun\u00e7\u00e3o de transdutores de sensa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">O que nos coloca em comunica\u00e7\u00e3o com as plantas \u00e9 o sintetizador articulado com o pol\u00edgrafo como um agente de comunica\u00e7\u00e3o aberrante, como a vespa que poliniza as orqu\u00eddeas. Os estudos de Andr\u00e9 Araujo, em especial em sua sistematiza\u00e7\u00e3o do pensamento de Gilles Deleuze em busca de uma teoria da comunica\u00e7\u00e3o, nos ajudam a entender como torna-se poss\u00edvel para n\u00f3s, therolingu\u00edstas, reconhecer uma arte passiva das plantas:<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">O logos seria como um animal, operando de acordo com uma ideia anterior acerca de sua funcionalidade \u2013 acoplamentos e reproduc\u0327a\u0303o. As plantas, por outro lado, seriam a expressa\u0303o do antilogos, o pathos, no qual nenhuma totalizac\u0327a\u0303o orga\u0302nica e\u0301 possi\u0301vel. A vespa acaba tornando-se algo que na\u0303o ela mesma do ponto de vista do logos, diferencia-se de si em sua dimensa\u0303o animal para compor pec\u0327a no aparelho reprodutor da planta, que incita esse devir por seu pro\u0301prio hermafroditismo. A separac\u0327a\u0303o fundamental entre os sexos das plantas cria uma situac\u0327a\u0303o de na\u0303o-comunicac\u0327a\u0303o, na qual e\u0301 preciso intervir um elemento disparatado para inventar essa comunicac\u0327a\u0303o. (ARAUJO, 2020, p. 130)<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Ainda que se possa colocar certo controle da obra musical nas m\u00e3os do agente humano Shane Mendonsa, vale observar as descri\u00e7\u00f5es de seus v\u00eddeos. Para cada planta, ele sente a necessidade de modificar os valores dos aparelhos de s\u00edntese para que se produza uma m\u00fasica que seja interessante para a aprecia\u00e7\u00e3o de humanos. \u00c9 preciso que o sintetizador se organize de tal forma que seja poss\u00edvel tal acoplamento aberrante entre vasos n\u00e3o-comunicantes.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Assim, nota-se que n\u00e3o se trata de arte passiva, mas de uma s\u00e9rie de cont\u00e1gios entre os agentes envolvidos, como bem observamos na sexta-feira com o relat\u00f3rio sobre os fungos praticantes de interven\u00e7\u00e3o art\u00edstica de Tuane Eggers. N\u00e3o podemos simplesmente apontar para os elementos de outros reinos e acus\u00e1-los de artistas sem perceber que n\u00f3s pesquisadores e nossas ferramentas de tradu\u00e7\u00e3o e transdu\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m entram nesta intrincada rede de agenciamentos para produzir arte.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Vamos pensar, a seguir, em como este tipo de m\u00fasica se manifesta no tempo presente.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Elaboradas com poucas varia\u00e7\u00f5es din\u00e2micas, arranjos aconchegantes e ritmos est\u00e1veis, acaba por se aproximar do que estamos compreendendo por <em>m\u00fasica ambiente contempor\u00e2nea<\/em>. Avan\u00e7ando nas propostas de Erik Satie, George Squier e Brian Eno, a m\u00fasica ambiente contempor\u00e2nea tamb\u00e9m ocupa os sil\u00eancios constrangedores, compromete-se com o consumismo capitalista e pretende-se interessante tanto quanto ignor\u00e1vel, mas d\u00e1 um passo al\u00e9m ao se pretender como um elixir contra a ansiedade que assola os seres humanos na era do capitalismo tardio. At\u00e9 h\u00e1 pouco, est\u00e1vamos familiarizados com vers\u00f5es <em>high-tech<\/em> como o vaporwave, o lo-fi hip hop, a m\u00fasica binaural e a m\u00fasica generativa, elaboradas por <em>samples<\/em>, arquivos eletr\u00f4nicos e complexos algoritmos inform\u00e1ticos, acompanhando a utopia tecnocrata dos anos 1980 e 1990, distanciando-se da semi\u00f3tica de varia\u00e7\u00e3o cont\u00ednua de Gaia, preferindo uma semi\u00f3tica do eterno imut\u00e1vel da mem\u00f3ria computacional, tal como o sonho de transferir a consci\u00eancia para as infovias. Se assim fosse, que emprego ter\u00edamos neste del\u00edrio coletivo que n\u00e3o fosse o de servir de baterias para manter os computadores energizados? Com a m\u00fasica das plantas, a m\u00fasica ambiente freia tal puls\u00e3o de morte dos corpos org\u00e2nicos humanos para uma reconex\u00e3o cient\u00edfica com Gaia.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><strong>Considera\u00e7\u00f5es finais<\/strong><\/p>\n<p>N<span style=\"font-weight: 400;\">ossos estudos confidenciais em conluio com a CIA, quando tent\u00e1vamos descobrir com pol\u00edgrafos se as plantas tinham de fato sentimentos, bem como os ensaios cl\u00ednicos para conex\u00e3o com Gaia por meio do consumo de <em>psilocibina<\/em>, que foram desenvolvidos \u00fanica e exclusivamente com o intuito de resolver o problema de pesquisa proposto pelo nosso presidente, foram deturpadas pelos dissidentes da Associa\u00e7\u00e3o que foram morar em San Francisco. Transformaram nossa ci\u00eancia em um estilo de vida! Hippies catando cogumelos no meio do esterco ouvindo Jefferson Airplane e Yuppies criando esquemas de pir\u00e2mide vendendo \u00f3leos essenciais extra\u00eddos das plantas. Como se os vegetais se importassem com nossos desbalan\u00e7os qu\u00edmicos! Enfim, o ser humano e sua insist\u00eancia em achar que Gaia compensar\u00e1 suas intempestividades. Hoje sabemos que ela n\u00e3o tem poder de cura, e sim poder de cont\u00e1gio \u2013 cont\u00e1gio therosemi\u00f3tico, \u00e9 claro. N\u00f3s somos os poucos alunos que prestaram aten\u00e7\u00e3o na aula do Professor Challenger. H\u00e1 toda uma semi\u00f3tica da Terra esperando ser explorada e traduzida para diferentes idiomas.<\/span><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Foi s\u00f3 quando resolvemos nos comunicar com a natureza aceitando nossa a\u00e7\u00e3o tecnocolonizante, isto \u00e9, vestindo nossos aparelhos de s\u00edntese modular com uma pele de vespa, \u00e9 que nos foi poss\u00edvel enfim reconhecer a arte das plantas \u2013 n\u00e3o uma arte passiva, mas uma arte contagiante. Infelizmente para chegar a esta etapa milh\u00f5es de humanos foram mortos: ironicamente, o sintetizador \u00e9 resultado de tecnologias de decodifica\u00e7\u00e3o de mensagens da Segunda Guerra Mundial e de t\u00e9cnicas de minera\u00e7\u00e3o desenvolviaos nas primeiras e segunda revolu\u00e7\u00f5es industriais. Exploramos a Terra nos dois sentidos da palavra. Paradoxos da ci\u00eancia emp\u00edrica.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Assim, nossas hip\u00f3teses iniciais naquele volume da revista de Therolingu\u00edstica de 1973 fecham, hoje, um c\u00edrculo completo: ainda n\u00e3o nos comunicamos com as plantas tal como nos comunicamos entre n\u00f3s, mas j\u00e1 conseguimos <em>produzir comunica\u00e7\u00e3o<\/em> com elas, gra\u00e7as a um agente de transdu\u00e7\u00e3o: o sintetizador, que, propomos, passe a ser considerado como ferramenta cient\u00edfica. Propomos que ao final do encontro, na sess\u00e3o de encaminhamentos, que se adicione \u00e0 pauta a aquisi\u00e7\u00e3o de Moogs, Korgs, Rolands e Instruos para nossos laborat\u00f3rios.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">ARAUJO, Andr\u00e9 C. S. <strong>Deleuze e o problema da comunica\u00e7\u00e3o<\/strong>. Tese de doutorado apresentado \u00e0 banca examinadora do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Comunica\u00e7\u00e3o da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (PPGCOM-UFRGS) como requisito para obten\u00e7\u00e3o do t\u00edtulo de doutor. 2020. 175f.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">BACKSTER, Cleve. <strong>Primary Perception<\/strong>: Biocommunication with plants, living foods, and human cells. White Rose Millennium Press, 2003.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">EGGERS, Tuane. <strong>A po\u00e9tica dos fungos<\/strong>. Disserta\u00e7\u00e3o de Mestrado apresentada ao Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Artes Visuais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, como requisito parcial para obten\u00e7\u00e3o do t\u00edtulo de mestre em Artes Visuais. 2021. 187f.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Felix. <strong>O que \u00e9 a filosofia?<\/strong> S\u00e3o Paulo: Editora 34, 2010.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">EDITORIAL. Pelo Presidente da Associa\u00e7\u00e3o de Therolingu\u00edstica. An\u00fancio de uma expedi\u00e7\u00e3o. <strong>Revista da associa\u00e7\u00e3o de Therolingu\u00edstica<\/strong>. Ano 12, vol. 1. Berkeley, 1973. p. 3-6.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">PETRI, D.\u00a0 An\u00fancio de uma expedi\u00e7\u00e3o. <strong>Revista da associa\u00e7\u00e3o de Therolingu\u00edstica<\/strong>. Ano 12, vol. 1. Berkeley, 1973. p. 32-40.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">SHANE Mendonsa. Canal do YouTube. <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/channel\/UCpjl7axNrHYPh53gezouYxA\">https:\/\/www.youtube.com\/channel\/UCpjl7axNrHYPh53gezouYxA<\/a>. Acesso em 23 nov. 2021.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">SRIVAS, A. Time-lapse photography: towards a sunflower lexicon. <strong>Revista da associa\u00e7\u00e3o de Therolingu\u00edstica<\/strong>. Ano 8, vol. 3. Berkeley, 1969. p. 62-75.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ensaio fabulat\u00f3rio apresentado no 1\u00ba Congresso therolingu\u00edsta: a(na)rqueologias da Terra, 24 de novembro de 2021 Link para a apresenta\u00e7\u00e3o em v\u00eddeo Por Marcelo B. Conter e L\u00edgia Lazevi Resumo: Navegando pelo YouTube em busca de playlists para estudar e trabalhar, &hellip; <a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/semsono\/2025\/08\/25\/a-musica-das-plantas-e-a-escuta-na-era-do-multitasking\/\">Continue lendo <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[534],"tags":[6,160,538,541,539,517,540,19,506],"class_list":["post-1497","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-estudos-criticos-da-comunicacao","tag-antropoceno","tag-devir","tag-fabulacao","tag-fungos","tag-multitasking","tag-musica-ambiente","tag-plantas","tag-therolinguistica","tag-youtube"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/semsono\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1497","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/semsono\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/semsono\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/semsono\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/semsono\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1497"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/semsono\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1497\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1500,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/semsono\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1497\/revisions\/1500"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/semsono\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1497"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/semsono\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1497"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/semsono\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1497"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}