{"id":1548,"date":"2025-12-10T18:22:35","date_gmt":"2025-12-10T21:22:35","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/semsono\/?p=1548"},"modified":"2025-12-10T18:47:23","modified_gmt":"2025-12-10T21:47:23","slug":"encontros-e-desencontros-de-bar-em-bar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/semsono\/2025\/12\/10\/encontros-e-desencontros-de-bar-em-bar\/","title":{"rendered":"Encontros e Desencontros de Bar em Bar"},"content":{"rendered":"<p><em>Z: Zonas, zumbidos e um Zzzzilh\u00e3o de coisas #2<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Por <span style=\"color: #800080;\">Bruna B\u00f6sing Minho<\/span>, <span style=\"color: #054d05;\">Ign\u00e1cio Cordeiro<\/span>, <span style=\"color: #000080;\">Jo\u00e3o V\u00edtor Debiasi<\/span> e <span style=\"color: #800000;\">Mariana Reyes<\/span>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-large wp-image-1594\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/semsono\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/IMG_8269-1-1024x576.jpeg\" alt=\"\" width=\"584\" height=\"329\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/semsono\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/IMG_8269-1-1024x576.jpeg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/semsono\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/IMG_8269-1-300x169.jpeg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/semsono\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/IMG_8269-1-768x432.jpeg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/semsono\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/IMG_8269-1-1536x864.jpeg 1536w, https:\/\/www.ufrgs.br\/semsono\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/IMG_8269-1-500x281.jpeg 500w, https:\/\/www.ufrgs.br\/semsono\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/IMG_8269-1.jpeg 1920w\" sizes=\"auto, (max-width: 584px) 100vw, 584px\" \/><\/p>\n<p>O nosso relato ser\u00e1 organizado por cores, para que o leitor identifique facilmente quem est\u00e1 falando. As experi\u00eancias da Bruna aparecer\u00e3o em rosa, as do Ign\u00e1cio em verde, as do Jo\u00e3o V\u00edtor em azul e as da Mariana em bord\u00f4. Optamos por essa paleta por preservar a legibilidade e, ao mesmo tempo, evidenciar quando nossos relatos se encontram, se afastam ou at\u00e9 mesmo se contradizem.<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400; color: #000080;\">O Bar em Bar \u00e9 aquele tipo de evento que, mesmo quando n\u00e3o \u00e9 bom, continua sendo bom pela simbologia. Em um primeiro momento, o que chamou aten\u00e7\u00e3o foi a empolga\u00e7\u00e3o coletiva que se formou quando o retorno <\/span><span style=\"font-weight: 400; color: #800080;\">de um dos rol\u00eas mais adorados pelos universit\u00e1rios de Porto Alegre<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"><span style=\"color: #800080;\"> foi anunciado. <\/span><span style=\"color: #000080;\">Um porto-alegrense pode at\u00e9 torcer o nariz para o Bar em Bar, mas vai defender sua exist\u00eancia como quem defende um patrim\u00f4nio emocional. Parte dessa excita\u00e7\u00e3o veio do hiato imposto pela prefeitura, uma prefeitura, digamos, nada simp\u00e1tica para qualquer pessoa munida de bom senso.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400; color: #800080;\">Eu, no entanto, n\u00e3o estava t\u00e3o animada para comparecer, mas esse era especial: marcava n\u00e3o somente o renascimento da festa como tamb\u00e9m a vit\u00f3ria dos alunos em exercer o seu direito de ocupar a cidade. <span style=\"color: #000080;\">A\u00a0empolga\u00e7\u00e3o inicial come\u00e7ou a evaporar conforme o evento se aproximava. E isso parecia geral. Todo mundo com quem eu falava ao longo da semana dizia que iria, mas sempre num tom desanimado, quase protocolar.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400; color: #000080;\">Essa vibe de \u201cvou porque tem que ir\u201d me chamou aten\u00e7\u00e3o. A semi-resposta que consegui elaborar \u00e9 que essa sensa\u00e7\u00e3o nasceu do pr\u00f3prio contexto e das mudan\u00e7as impostas para que o evento acontecesse.<\/span><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Encontros e Desencontros de Bar em Bar\" width=\"584\" height=\"329\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/h75Q1OA_feE?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400; color: #064706;\"><span style=\"color: #043604;\">Os boatos anunciavam um percurso controlado, delimitado pela Empresa P\u00fablica de Transporte e Circula\u00e7\u00e3o (EPTC). Esse suposto controle chegou a despertar um sentimento de que o prop\u00f3sito de invas\u00e3o e ocupa\u00e7\u00e3o da rua seria invalidado. <span style=\"color: #800080;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Como prop\u00f5e Camila Proto (2019, P.109), em seu ensaio Territ\u00f3rios resistentes: Arte, som e sociedade &#8211; <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cNa p\u00f3s-modernidade, o espa\u00e7o, que antes era delimitado por sua fun\u00e7\u00e3o, tornou-se lugar m\u00faltiplo, que independe de qualquer finalidade ou codifica\u00e7\u00e3o social pr\u00e9via. \u00c9 dizer, tamb\u00e9m, que em um mundo globalizado e p\u00f3s-industrial, todos os lugares p\u00fablicos acabaram, consequentemente, tornando-se lugares de consumo e, logo, lugares privados\u201d. <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">Isso explica alguns movimentos censuradores da vida bo\u00eamia na cidade, e consequentemente, desperta a vontade dos jovens de apoiar esse movimento de contracultura que o Bar Em Bar representa nesta edi\u00e7\u00e3o. E foi assim que, \u00e0s<\/span><\/span>\u00a0v\u00e9speras do rol\u00ea, o an\u00fancio de que a Pra\u00e7a da Matriz estaria fora do percurso contribuiu para o receio sentido por amigos pr\u00f3ximos. Foi dito, em uma publica\u00e7\u00e3o no Instagram, no perfil do evento, que estava proibida a aglomera\u00e7\u00e3o de pessoas na regi\u00e3o e foi destacado o alerta de que n\u00e3o seria permitido escalar o monumento central da Pra\u00e7a. No post em quest\u00e3o, o Diret\u00f3rio Acad\u00eamico da Faculdade de Arquitetura (DAFA) explica que incluir o espa\u00e7o na rota refor\u00e7ava ideias que n\u00e3o condizem com a ocupa\u00e7\u00e3o e ressignifica\u00e7\u00e3o da cidade e de seus espa\u00e7os de forma \u201csaud\u00e1vel e respons\u00e1vel&#8221;.<\/span> <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400; color: #000080;\">A retirada da parada na Pra\u00e7a da Matriz foi uma reclama\u00e7\u00e3o un\u00e2nime. A Matriz sempre foi o ponto alto, a imagem mais representativa, a coroa\u00e7\u00e3o do caos bonito que o evento traz. Ela nunca foi ponto final oficial, mas era t\u00e3o querida que muitos participantes simplesmente abandonavam o estandarte e encerravam por l\u00e1.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400; color: #000080;\">O Bar em Bar estava virando um evento \u201cliberado\u201d pela prefeitura. Parecia que aquilo que antes era puro fluxo \u2014 um rizoma se espalhando pela cidade \u2014 estava virando uma rota institucionalizada. Um territ\u00f3rio capturado. A cidade, que deveria ser vivida como devir e n\u00e3o como mapa pronto, estava tentando organizar o imprevis\u00edvel. E, no semestre, discutimos o quanto esse evento \u00e9 profundamente pol\u00edtico. Ocupar as ruas do Centro Hist\u00f3rico com milhares de jovens \u00e9 um ato pol\u00edtico em si, mesmo que a pessoa n\u00e3o v\u00e1 com essa inten\u00e7\u00e3o. A ocupa\u00e7\u00e3o acontece porque vivemos numa cidade que nos tira das ruas \u2014 seja pela inseguran\u00e7a, seja pela gentrifica\u00e7\u00e3o. Um Bar em Bar liberado pela prefeitura deixa de ser ocupa\u00e7\u00e3o. E isso parece ter afetado at\u00e9 quem nunca pensou politicamente sobre ele.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #0a2b08;\">O car\u00e1ter itinerante do evento, movendo uma grande massa de pessoas que procuram habitar a cidade, \u00e9 uma manifesta\u00e7\u00e3o exemplar daquilo que apontam os autores de <em>Inimigos do fim: apontamentos sobre o circuito de &#8220;afters&#8221; no Recife, <\/em>no que diz respeito ao ambiente comunicacional, \u00e0 corporeidade, \u00e0s ruas e aos entraves. O artigo trabalha os conceitos de cidades musicais: a articula\u00e7\u00e3o entre m\u00fasica e cidade, materializada em percursos, pressup\u00f5e corporeidades que surgem dos acoplamentos entre corpos humanos e n\u00e3o humanos, tr\u00e2nsitos, lugares, dispositivos t\u00e9cnicos e possibilidades que viv\u00eancias musicais associadas ao imagin\u00e1rio de cidade possibilitam para os corpos que habitam o universo dos trajetos das cidades ditas musicais. Como bem sabemos, h\u00e1 todo um imagin\u00e1rio audiovisual ligado a corpos e ambienta\u00e7\u00f5es que tocam, dan\u00e7am e encenam diferentes categoriza\u00e7\u00f5es, g\u00eaneros musicais e as cidades dentro da cidade.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400; color: #800000;\">Eu nunca tinha ido. Quer dizer, fui uma \u00fanica vez, no ponto final do trajeto, na Pra\u00e7a da Matriz. Desta vez, por\u00e9m, comecei do in\u00edcio. Cheguei por volta das 19h30 em frente \u00e0 Faculdade de Arquitetura, no Campus da UFRGS. A cena j\u00e1 era de movimento. Grupos se formando, conversas cruzadas, latas abrindo, aquela energia de come\u00e7o de noite. Encontrei a minha amiga, Gabriela, e ficamos bebendo e colocando a vida em dia. S\u00f3 meia hora depois lembrei de ativar minha localiza\u00e7\u00e3o no Strava, gesto que j\u00e1 denunciava o desejo do nosso grupo de registrar aquela experi\u00eancia de viver a cidade a p\u00e9, no fluxo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400; color: #800000;\">A Gab contou que j\u00e1 tinha ido a tr\u00eas edi\u00e7\u00f5es, embora sem muito entusiasmo pelas experi\u00eancias anteriores. Eu, estreante, ouvia tudo com curiosidade. Logo ela reencontrou alguns amigos, e nos juntamos a eles. Foi ali que percebi algo que marcaria minha noite: naquele evento, especificamente, as pessoas parecem energeticamente dispostas a furar suas bolhas. H\u00e1 uma abertura quase imediata para conversar, rir, seguir junto, como se, por algumas horas, a sociabilidade urbana ganhasse outra l\u00f3gica.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080;\"><span style=\"font-weight: 400;\">A noite come\u00e7ou com Jazz no espa\u00e7o onde trabalho. A saxofonista alem\u00e3 Nicole Joh\u00e4nntgen tocou um jazz contempor\u00e2neo misturado com afrobeat, m\u00fasica latina e afro-cubana em um show complexo e coeso ao mesmo tempo, sons muito diferentes daquilo que eu ouviria mais tarde naquela noite. Foi por causa desta atividade que tive que trabalhar at\u00e9 as 20h30, o que atrasou a minha chegada ao Bar em Bar. <\/span><span style=\"color: #000080;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Quinta-feira \u00e9 um desafio para quem trabalha. S\u00f3 chega no hor\u00e1rio quem vai direto do servi\u00e7o.<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400; color: #000080;\">Eu, como sempre, cheguei atrasado. Sa\u00ed de casa \u00e0s 20h20. Fui a p\u00e9, como costumo fazer, seguindo a Prot\u00e1sio e a Osvaldo. Dessa vez n\u00e3o estava sozinho. Meu grande amigo Rodrigo, que recentemente se mudou para minha rua e virou praticamente vizinho, foi junto. Caminhamos tomando uma ceva e batendo papo. A avenida estava meio vazia e tudo ressoava \u2014 os carros, os \u00f4nibus, at\u00e9 os passos. A academia do lado de casa exibia sua popula\u00e7\u00e3o de infelizes, foi o que pensei na hora.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400; color: #000080;\">Quanto mais nos aproxim\u00e1vamos do Campus do Centro da UFRGS, mais gente aparecia. Quem estivesse na rua naquele hor\u00e1rio provavelmente tinha o mesmo destino. Com o passo apertado alcan\u00e7amos um grupo de amigos que encontramos por acaso. Antes mesmo de chegar no evento j\u00e1 t\u00ednhamos nosso primeiro encontro da noite. Quando finalmente chegamos, quase 21h, descobrimos que o estandarte ainda mal tinha sa\u00eddo, mesmo com a previs\u00e3o das 20h. Tinha gente saindo de bueiro. Caixas de som por todos os lados, ambulantes, churrasquinho, motoristas buzinando estressados, uma onda de conversas que se misturava e virava apenas barulho. Parecia que tudo fazia parte de um mesmo som gigante. A largada finalmente foi dada. Sa\u00edmos do pr\u00e9dio da faculdade de Arquitetura da UFRGS e o Bar em Bar oficialmente estava de volta.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400; color: #800000;\">Por volta das 20h30 come\u00e7amos a caminhada at\u00e9 o segundo ponto, no Boulevard da Duque. Pelo caminho, cruzamos ainda mais conhecidos, e acabamos consolidando um grupinho. A verdade \u00e9 que partimos aceitando um risco, se termin\u00e1ssemos a noite sem ningu\u00e9m se perder, seria pura sorte.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400; color: #800000;\">No trajeto, uma cena se repetia e me chamou aten\u00e7\u00e3o. As pessoas se cumprimentavam, desejavam \u201cbom rol\u00ea\u201d e sempre finalizavam com um \u201ca gente se encontra durante a noite\u201d. Era um pacto t\u00e1cito. Uma confian\u00e7a no acaso.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\"><span style=\"color: #800000;\">Quando nos aproximamos da Faculdade de Direito da UFRGS, o \u201cmodo sobreviv\u00eancia\u201d foi acionado. Era gente demais e a cada passo parecia mais dif\u00edcil manter o grupo unido.<\/span> <\/span><span style=\"font-weight: 400; color: #000080;\">O in\u00edcio sempre \u00e9 um aperto. Todo mundo caminhando como um amontoado de pinguins tentando descobrir onde d\u00e1 para passar.<\/span><span style=\"font-weight: 400; color: #800000;\"> Em certo momento, olhei para tr\u00e1s e n\u00e3o reconheci mais ningu\u00e9m. Senti a ansiedade subir, aquela sensa\u00e7\u00e3o breve e aguda de estar perdida no meio de uma multid\u00e3o. E agora? Por sorte, cerca de dez minutos depois, eles me encontraram. Ser alta, nessas horas, vira ponto de refer\u00eancia involunt\u00e1rio.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400; color: #000080;\">Os encontros come\u00e7am cedo, mas s\u00e3o tantos que se dissolvem r\u00e1pido. Os desencontros tamb\u00e9m chegam cedo. <\/span><span style=\"font-weight: 400; color: #800000;\">No meio do caminho, encontrei minha melhor amiga da faculdade, a Giovana. N\u00f3s hav\u00edamos combinado de chegar juntas ao in\u00edcio do trajeto, mas no momento combinado ela me respondeu que estava lavando o box e ainda ia tomar banho. Aquilo me fez pensar no pr\u00e9-rol\u00ea da vida adulta. Moramos sozinhas, temos outras rotinas, outros tempos. N\u00e3o somos mais t\u00e3o jovens.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400; color: #000080;\">Subimos a Duque e ali as coisas engrenam de verdade. <\/span><span style=\"font-weight: 400; color: #800000;\">O caos reinava, mas de um jeito curioso. Um caos que n\u00e3o incomodava tanto. Carros presos, motoristas perdidos, e frequentadores tentando, com boa vontade, indicar algum caminho poss\u00edvel. Na cal\u00e7ada, uma fileira de patinetes. Um deles jogado no ch\u00e3o, obrigando as pessoas a pular por cima. Era vis\u00edvel a irrita\u00e7\u00e3o, trope\u00e7os e quase quedas. At\u00e9 que uma \u201cboa alma\u201d interrompeu o fluxo para recoloc\u00e1-lo no lugar. Esse gesto simples me fez pensar no quanto esses patinetes, s\u00edmbolo de mobilidade urbana \u201cfuturista\u201d do governo Melo, seguem representando riscos e atritos, especialmente quando somos pedestres em massa.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400; color: #800000;\">Outro aspecto que me surpreendeu foi a rela\u00e7\u00e3o dos moradores com o evento. <\/span><span style=\"font-weight: 400;\"><span style=\"color: #000080;\">Os curiosos aparecem nas sacadas, observando a multid\u00e3o como papas aben\u00e7oando fi\u00e9is.<\/span> <span style=\"color: #000080;\">Os cachorros ficam hipnotizados nas janelas, e j\u00e1 que n\u00e3o adianta reclamar do barulho, parece que resolvem aproveitar o espet\u00e1culo.<\/span><\/span><span style=\"font-weight: 400; color: #800000;\"> Lembro de um cachorro im\u00f3vel na janela, acompanhando a multid\u00e3o como quem assiste a um desfile. Em outra sacada, um casal de idosos, sorridente, virou atra\u00e7\u00e3o quando a multid\u00e3o come\u00e7ou a gritar \u201cbeija, beija\u201d. Eles se beijaram e a rua inteira comemorou. Por alguns instantes, parecia r\u00e9veillon, uma celebra\u00e7\u00e3o coletiva, espont\u00e2nea, de estar vivo e partilhar a cidade.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400; color: #800000;\">Foi nesse clima que me senti, pela primeira vez, verdadeiramente pertencente. Brinquei at\u00e9 que, finalmente, me senti porto-alegrense, justo eu, que sou de Uruguaiana, na fronteira oeste do Rio Grande do Sul. Algo na mistura entre o caos, o encontro e a cidade em festa me deu essa sensa\u00e7\u00e3o de que, naquela noite, eu habitava Porto Alegre de um jeito novo. E Porto Alegre, de algum modo, tamb\u00e9m me habitava.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400; color: #800080;\">Naquela noite, tamb\u00e9m tinha um recital de orquestra para comparecer com minhas amigas, o qual t\u00ednhamos comprado ingressos fazia algum tempo, muito antes do an\u00fancio da data do Bar Em Bar, e por isso n\u00e3o podia desmarcar. Passado estas diverg\u00eancias de hor\u00e1rio e compromissos, finalmente chamo meu Uber para o rol\u00ea.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400; color: #800080;\">Primeiro passo: entrar no Instagram do DAFA para localizar o ponto da rota que estaria a multid\u00e3o. Localizamos eles na rua Duque de Caxias, por volta das 22h, e o endere\u00e7o refer\u00eancia colocado no aplicativo foi o col\u00e9gio Bom Jesus Sevigne. O caminho at\u00e9 l\u00e1 foi tranquilo, mas n\u00e3o esper\u00e1vamos ter que descer 2 quadras antes do destino. As ruas estavam lotadas de jovens e carro nenhum estava conseguindo passar com facilidade ou agilidade, por isso a solu\u00e7\u00e3o foi caminhar at\u00e9 a Duque. Durante a caminhada, j\u00e1 conseguimos notar os rastros deixados por uma festa caracter\u00edstica de rua: algumas garrafas quebradas, pessoas indo comprar bebidas em mercados pr\u00f3ximos, gritos de gente tentando se comunicar com seus amigos no meio da multid\u00e3o, coisas normais de todos os Bar Em Bar que j\u00e1 presenciei. Quando finalmente chegamos onde est\u00e3o a maioria das pessoas, noto que existe um membro dos organizadores do rol\u00ea com um megafone nas m\u00e3os, pedindo para as pessoas abrirem espa\u00e7o nas ruas para que os carros pudessem passar. Penso na hora que esta \u00e9 uma estrat\u00e9gia de organiza\u00e7\u00e3o que n\u00e3o era praticada nas edi\u00e7\u00f5es anteriores, e algo que facilitou a mobilidade urbana naquela noite de festa.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400; color: #000080;\">\u00c9 nessa parte que as ruas paralelas se transformam em mict\u00f3rios. N\u00e3o h\u00e1 container, canteiro ou fachada que escape do \u201cpipi amigo\u201d, como minha m\u00e3e dizia quando eu era crian\u00e7a. E \u00e9 sempre uma experi\u00eancia curiosamente comunit\u00e1ria, sem julgamentos. A gente se ajuda, indica bons lugares, faz rodinha pras gurias terem seu al\u00edvio com um m\u00ednimo de dignidade improvisada.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400; color: #000080;\">Por algum motivo, esse trecho da Duque parece ser o grande v\u00f3rtice de encontros e desencontros. Todo tipo de conhecido aparece. Ex-colegas de col\u00e9gio, gente da faculdade, ex e futuras namoradas. O Bar em Bar tem essa energia de abra\u00e7os e sorrisos espont\u00e2neos acompanhados de um \u201cquanto tempo\u201d. \u00c9 bonito. Nessas pequenas cenas d\u00e1 pra sentir como o evento proporciona essas microafetividades espalhadas pelo caminho. Como se, por algumas horas, surgisse outra cidade por cima da Porto Alegre de sempre. Uma cidade que s\u00f3 existe nessa noite.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400; color: #800080;\">Mais uns passos a frente, paramos para comprar bebida com um vendedor ambulante, e \u00e9 nessa hora que um coro alt\u00edssimo de pessoas cantando \u201cVamos Para Gaiola\u201d, do funkeiro Kevin O Chris, come\u00e7a a repercutir pela rua inteira. Paro para ouvir, e a sensa\u00e7\u00e3o \u00e9 energizante, sinto a frequ\u00eancia em que todas aquelas pessoas est\u00e3o vibrando, e \u00e9 pela m\u00fasica que se conectam. O p\u00fablico parece ser bem maior em n\u00famero desta vez, o que aumenta o tremor dos cantos e dos gritos de festejo durante a caminhada. N\u00e3o demora muito para encontrarmos as primeiras pessoas conhecidas. Um grupo de meninas da faculdade de psicologia da UFCSPA, amigas de amigas. Logo mais adiante, vejo alguns colegas de curso, outro grupo de amigos, al\u00e9m de pessoas que n\u00e3o gostaria de ter esbarrado.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400; color: #000080;\">O trajeto oficial seguia direto para a Pra\u00e7a dos A\u00e7orianos. Quase ningu\u00e9m acreditava que as pessoas realmente abririam m\u00e3o de ir \u00e0 Pra\u00e7a da Matriz. <\/span><span style=\"font-weight: 400; color: #800080;\">O fluxo at\u00e9 a pra\u00e7a \u00e9 natural, pois o corpo dos frequentadores ass\u00edduos do Bar Em Bar j\u00e1 caminha sozinho pela rota dos bares, e a parada no monumento da Matriz era obrigat\u00f3ria, mas esse ano foi diferente. <\/span><span style=\"font-weight: 400; color: #000080;\">A curiosidade nos fez ir at\u00e9 l\u00e1, eu, Rodrigo e nossa amiga Carolina. Para nossa surpresa, a pra\u00e7a estava praticamente vazia. Meia d\u00fazia de gatos pingados e policiamento. Uma vis\u00e3o estranha para um lugar que sempre foi pulsante no evento. Ali fui percebendo que o m\u00e9todo cartogr\u00e1fico \u00e9 isso mesmo: seguir pistas, mesmo quando elas n\u00e3o d\u00e3o em nada. Ou melhor, d\u00e3o em algo, nesse caso uma sensa\u00e7\u00e3o de aus\u00eancia. A Matriz vazia tamb\u00e9m era um dado. Um sil\u00eancio no meio do barulho todo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400; color: #000080;\">A cartografia implica que o pesquisador adote uma postura de explorador, de descobridor, observando os caminhos desordenados dos processos e mantendo uma aten\u00e7\u00e3o sens\u00edvel para a detec\u00e7\u00e3o de signos e for\u00e7as circulantes. A pista metodol\u00f3gica \u00e9 um guia no percurso da pesquisa, permitindo que o pesquisador cultive a aten\u00e7\u00e3o concentrada e aberta \u00e0 experi\u00eancia de problematiza\u00e7\u00e3o. Como apontado pela pesquisadora N\u00edsia Martins do Ros\u00e1rio, a cartografia lida com a multiplicidade, transversalidade, processo e rizoma e n\u00e3o se opera sobre modelos pr\u00e9vios.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400; color: #000080;\">Diante da situa\u00e7\u00e3o, resolvemos apenas regar as plantas e voltar para a rota.<\/span><span style=\"font-weight: 400; color: #800080;\"> Quando chegamos pr\u00f3ximo \u00e0 Igreja, demos de cara com a Guarda Municipal, e pegamos uma rua alternativa para voltar a rota estabelecida pelo DAFA. Nesse caminho, vejo um grupo de meninas que encontram outra menina conhecida, \u201clembram de mim?\u201d uma delas pergunta, e cenas como essas se repetem ao longo da noite. Os encontros, reencontros e desencontros s\u00e3o a marca registrada dessa reuni\u00e3o de universit\u00e1rios, que se aglomeram no centro da cidade para beber, se divertir e tomar posse das ruas por algumas horas.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400; color: #800000;\">No fim, o \u201cgrup\u00e3o\u201d em que est\u00e1vamos acabou naturalmente se reduzindo a um trio: eu, a Gab e a Gi. Seguimos juntas at\u00e9 o final. Depois da segunda parada, rompemos com o roteiro oficial, nos desprendemos do restante da galera e fomos parar no Brech\u00f3 do Futebol. Eu e a Gi somos amigas dos atendentes, ent\u00e3o aproveitamos para colocar o papo em dia e, claro, usar o banheiro, um privil\u00e9gio rar\u00edssimo em noites assim.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400; color: #800000;\">Na sequ\u00eancia, retomamos a caminhada e cruzamos com um casal vendendo Melz, o famoso mel com cacha\u00e7a. A Gab me perguntou se eu j\u00e1 tinha provado; respondi que n\u00e3o. Ela fez quest\u00e3o absoluta de comprar um para mim, e eu adorei. Mais uma primeira vez registrada naquela noite cheia de estreias. Seguimos n\u00f3s tr\u00eas pelas ruas, conversando sobre tudo: ficantes e ex-ficantes, dilemas familiares, hist\u00f3rias de vida. Era como se o Bar em Bar nos oferecesse n\u00e3o apenas deslocamentos, mas uma esp\u00e9cie de suspens\u00e3o do cotidiano, um espa\u00e7o para que certas conversas acontecessem.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400; color: #800000;\">Em meio ao trajeto, encontramos um dos organizadores, megafone em m\u00e3os, orientando a multid\u00e3o a seguir para o \u00faltimo ponto, a Ponte de Pedra.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400; color: #800000;\">A caminho da ponte, a Gab resolveu comprar uma ceva em um bar que nem fazia parte da rota oficial. Ficou um bom tempo conversando com o atendente, como se aquele encontro improvisado fosse parte da pr\u00f3pria noite. Ali me dei conta de que o Bar em Bar n\u00e3o se limita \u00e0 linha que liga um ponto ao outro. Ele vaza, transborda. O evento ativa a cidade inteira, seus bares, suas esquinas, seus trabalhadores e, de algum modo, faz com que tudo isso passe a compor a experi\u00eancia. A rota \u00e9 s\u00f3 um pretexto, o essencial acontece no meio.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400; color: #000080;\">Deleuze e Guattari (1995, Vol. 1) afirmam que o rizoma &#8220;n\u00e3o come\u00e7a nem conclui, ele se encontra sempre no meio, entre as coisas, inter-ser, intermezzo&#8221;. O rizoma \u00e9 composto por linhas de segmentaridade, estratos e territorialidades, mas tamb\u00e9m por linhas de fuga e movimentos de desterritorializa\u00e7\u00e3o, fazendo dele um mapa m\u00f3vel que se constitui em suas m\u00faltiplas conex\u00f5es. O evento, ao vazar e transbordar, exemplifica perfeitamente essa din\u00e2mica do rizoma.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400; color: #000080;\">Chegamos na Pra\u00e7a dos A\u00e7orianos perto da meia-noite. O lugar hist\u00f3rico e lind\u00edssimo, estava tomado de gente em cima e ao redor da ponte de pedra. M\u00fasica para todos os lados, uma multid\u00e3o vibrante. Penso quanto esse lugar \u00e9 mal aproveitado.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400; color: #800080;\">A noite foi marcada por v\u00e1rios p\u00fablicos diferentes, com caixas de som tocando de funk \u00e0 Chali XCX. O que chamou a aten\u00e7\u00e3o nesta edi\u00e7\u00e3o foi a presen\u00e7a de um DJ com uma CDJ e caixas grandes de som esperando a multid\u00e3o chegar na ponte de pedra. E todos chegaram, curtiram a m\u00fasica, dan\u00e7aram. Quando a rota finalmente teve seu destino alcan\u00e7ado, olhei em volta e vi pessoas em cima das paradas de \u00f4nibus, ocupando.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400; color: #800000;\">O som se impunha o tempo inteiro. Vinha das conversas entrela\u00e7adas, das risadas, das JBLs disputando espa\u00e7o com as vozes, dos ambulantes anunciando seus produtos, da multid\u00e3o que aplaudia, cantava, vibrava. E tamb\u00e9m das buzinas dos carros, presos no tr\u00e2nsito humano que tomava as ruas. O cheiro, igualmente presente, compunha sua pr\u00f3pria camada, com churrasquinho, cachorro-quente, cerveja derramada, perfumes dos mais variados tipos das mais variadas pessoas, lixo acumulado, xixi nos cantos. Caminhar por Porto Alegre naquela noite era atravessar uma explos\u00e3o sensorial.<\/span><\/p>\n<p>O \u00e1udio a seguir re\u00fane trechos que sintetizam a viv\u00eancia do grupo no Bar em Bar, evidenciando as diferentes experi\u00eancias sonoras sobre o percurso. D\u00ea o play!<\/p>\n<audio class=\"wp-audio-shortcode\" id=\"audio-1548-1\" preload=\"none\" style=\"width: 100%;\" controls=\"controls\"><source type=\"audio\/mpeg\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/semsono\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/WhatsApp-Audio-2025-11-26-at-19.16.24-online-audio-converter.com_.mp3?_=1\" \/><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/semsono\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/WhatsApp-Audio-2025-11-26-at-19.16.24-online-audio-converter.com_.mp3\">https:\/\/www.ufrgs.br\/semsono\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/WhatsApp-Audio-2025-11-26-at-19.16.24-online-audio-converter.com_.mp3<\/a><\/audio>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400; color: #800000;\">Esses est\u00edmulos agrad\u00e1veis e inc\u00f4modos moldam nossas trajet\u00f3rias di\u00e1rias. Da casa \u00e0 faculdade, da faculdade ao trabalho, do trabalho ao retorno para casa, ou, naquela noite, da Arquitetura at\u00e9 a Ponte de Pedra. No fundo, estamos sempre expostos a tudo. Aos sons, aos cheiros, aos espa\u00e7os e \u00e0s pessoas que comp\u00f5em essa cidade que transborda para muito al\u00e9m do que conseguimos processar. Mas ali, no Bar em Bar, essa exposi\u00e7\u00e3o deixava de ser apenas pano de fundo e se tornava parte essencial da experi\u00eancia de ocupar a rua.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Algumas cervejas e muita caminhada depois, era hora de ir ao banheiro, algo que, para mulheres, significa ficar horas em uma fila. Fomos em dupla e deixamos o resto do grupo curtindo a m\u00fasica na pra\u00e7a, e 30 minutos depois nos reencontramos para ir embora, pois a noite j\u00e1 tinha sido cansativa e a ida ao banheiro sempre \u00e9 desestimulante. Fomos embora por volta das 1h30, e fui refletindo na volta sobre o que tinha experienciado. No fim, os encontros e desencontros s\u00e3o algo n\u00e3o s\u00f3 vividos no Bar Em Bar , mas ao longo de toda vida acad\u00eamica. N\u00e3o esbarrei em tantos amigos como nas edi\u00e7\u00f5es anteriores, pois hoje alguns est\u00e3o no mestrado, outros foram estudar fora, outros mudaram de curso e a comunica\u00e7\u00e3o ficou falha. Isso evidencia o fim da trilha da gradua\u00e7\u00e3o, que termina com um indiv\u00edduo modificado pelo espa\u00e7o da cidade e por seus processos. Como contemplaria Foucault (2009, p.414),\u201c<\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Dito de outra forma, n\u00e3o vivemos em uma esp\u00e9cie de vazio, no interior do qual se poderiam situar os indiv\u00edduos e as coisas. N\u00e3o vivemos no interior de um vazio que se encheria de cores com diferentes reflexos, vivemos no interior de um conjunto de rela\u00e7\u00f5es que de nem posicionamentos irredut\u00edveis uns aos outros e absolutamente imposs\u00edveis de ser sobrepostos\u201d.<\/span><\/i><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400; color: #000080;\">Na A\u00e7orianos encontrei uma gurizada, inclusive minha ex que n\u00e3o era exatamente ex e agora virou ex de fato. Com ela e v\u00e1rios amigos segui a noite at\u00e9 \u00e0s duas da manh\u00e3. J\u00e1 n\u00e3o conseguimos seguir at\u00e9 depois das 4h como antigamente.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400; color: #000080;\">Utilizamos o Strava para demarcar os passos e o trajeto de cada um do grupo. Ao final do rol\u00ea, o meu marcou 21,25 km percorridos em 3h57min, o da Mari 11,66 km em 2h17min e o do Ign\u00e1cio 22,98 km em 2h25min . O aplicativo n\u00e3o se deu bem com a Bruna e o trajeto dela se perdeu, faz parte do processo. O registro, no fim, virou uma esp\u00e9cie de representa\u00e7\u00e3o gr\u00e1fica rizom\u00e1tica \u2014 aquela maluquice de linhas cruzando por todos os lados, sem hierarquia, sem centro, s\u00f3 um emaranhado que fazia sentido porque era exatamente assim que a noite tinha sido vivida. Como se o mapa tivesse ficado b\u00eabado tamb\u00e9m.<\/span><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-large wp-image-1888\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/semsono\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Captura-de-Tela-2025-12-10-as-18.32.59-1024x679.png\" alt=\"\" width=\"584\" height=\"387\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/semsono\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Captura-de-Tela-2025-12-10-as-18.32.59-1024x679.png 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/semsono\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Captura-de-Tela-2025-12-10-as-18.32.59-300x199.png 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/semsono\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Captura-de-Tela-2025-12-10-as-18.32.59-768x509.png 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/semsono\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Captura-de-Tela-2025-12-10-as-18.32.59-453x300.png 453w, https:\/\/www.ufrgs.br\/semsono\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Captura-de-Tela-2025-12-10-as-18.32.59.png 1488w\" sizes=\"auto, (max-width: 584px) 100vw, 584px\" \/><\/p>\n<p><strong><a href=\"https:\/\/www.google.com\/maps\/d\/edit?hl=pt-BR&amp;mid=1TgxvxYbphuW6SAGGSEas69ytxvgZc0U&amp;ll=-30.03688764368085%2C-51.211856478459595&amp;z=15\">Clique aqui para conferir o mapa em detalhes.<\/a><\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400; color: #800000;\">Uma verdadeira cartografia de encontros e desencontros, de seguir a rota e de se permitir dispersar, de sons sobrepostos em camadas, porque sil\u00eancio, de fato, n\u00e3o houve. Nem mesmo na volta para casa. No Uber, o motorista perguntou o que estava acontecendo na cidade, e acabamos conversando sobre o evento e sobre a energia que se espalhava pelas ruas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400; color: #800000;\">O Bar em Bar, naquela noite, ultrapassou a simples l\u00f3gica do deslocamento. Foi como se acordasse Porto Alegre, devolvendo-lhe um ritmo que h\u00e1 tempos parecia suspenso. A cidade pulsava e n\u00f3s puls\u00e1vamos com ela. <span style=\"font-weight: 400; color: #000080;\">Essa pulsa\u00e7\u00e3o e o ritmo s\u00e3o elementos que, segundo Deleuze e Guattari, s\u00e3o essenciais na constitui\u00e7\u00e3o de um territ\u00f3rio existencial. A cartografia, ao buscar a identifica\u00e7\u00e3o das linhas de fuga, acompanha os fluxos e movimentos de desterritorializa\u00e7\u00e3o que definem esses mapas moventes.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400; color: #043604;\">Confesso que n\u00e3o senti o impacto de alguma restri\u00e7\u00e3o imposta pela EPTC, nem percebi se houve uma interven\u00e7\u00e3o de fato. Ainda assim, a ronda de viaturas da Brigada Militar foi expressiva, mas isso \u00e9 costume por aqui, principalmente em momentos festivos de grande fluxo de pessoas pelas ruas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400; color: #000080;\">O rol\u00ea, no fim das contas, foi muito afud\u00ea, mesmo com todas as mudan\u00e7as. E foi interessante vivenciar tudo com os olhos e ouvidos mais atentos, como quem oficialmente est\u00e1 estudando a pr\u00f3pria cidade enquanto bebe e abra\u00e7a conhecidos.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400; color: #043604;\">Faz algum tempo que a juventude da capital busca ambientes para viver sua pr\u00f3pria cultura e habitar a cidade com liberdade e seguran\u00e7a. Em um contexto de cerceamento e proibi\u00e7\u00f5es, o corpo procura por espa\u00e7os de lazer onde a aglomera\u00e7\u00e3o conduzida pela m\u00fasica seja permitida, para que seja poss\u00edvel o movimento dan\u00e7ante que tire dos m\u00fasculos o cansa\u00e7o da rotina, dando espa\u00e7o a outro cansa\u00e7o, um que deixa saudade e a gente procura de novo pelos bares, shows, feiras ou mesmo ao redor de uma caixa de som pirata por alguma esquina em mais um after.<\/span><\/p>\n<p>Refer\u00eancias:<\/p>\n<p>PROTO, Camila. <strong>Territ\u00f3rios resistentes: arte, som e sociedade<\/strong>. In: CASTANHEIRA, J. C. S; et al. (Orgs.). Poderes do som: pol\u00edticas, escutas e identidades. Florian\u00f3polis: Insular, 2019.\u00a0p.\u00a0107-126.<\/p>\n<p>FOUCAULT, M. <strong>Outros espa\u00e7os<\/strong>. In: MOTTA, M. B. (Org.) Est\u00e9tica: literatura e pintura, m\u00fasica e cinema\/Michel Foucault. Rio de Janeiro:\u00a0Forense,\u00a02009.<\/p>\n<p>MONTEIRO, Gabriel et al.<strong>\u00a0Inimigos do fim: apontamentos sobre o circuito de \u201cafters\u201d no Recife<\/strong>. 33\u00ba Encontro Anual da Comp\u00f3s. Anais. UFF. Niter\u00f3i &#8211; RJ. 23 a 26 de julho de 2024.<\/p>\n<p><em>Texto realizado como atividade final para a disciplina Semin\u00e1rio de Cultura e Comunica\u00e7\u00e3o, Ministrada pelo Prof. Marcelo Bergamin Conter e pelo mestrando Gabriel Gil. Publicada na edi\u00e7\u00e3o #2 da revista digital Z: Zonas Zumbidos e um Zzzzilh\u00e3o de coisas. <\/em><em>Faculdade de Biblioteconomia e Comunica\u00e7\u00e3o (Fabico), UFRGS, dezembro de 2025.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Z: Zonas, zumbidos e um Zzzzilh\u00e3o de coisas #2 Por Bruna B\u00f6sing Minho, Ign\u00e1cio Cordeiro, Jo\u00e3o V\u00edtor Debiasi e Mariana Reyes\u00a0 O nosso relato ser\u00e1 organizado por cores, para que o leitor identifique facilmente quem est\u00e1 falando. 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