{"id":1551,"date":"2025-12-10T18:21:00","date_gmt":"2025-12-10T21:21:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/semsono\/?p=1551"},"modified":"2025-12-11T16:26:09","modified_gmt":"2025-12-11T19:26:09","slug":"como-nao-ficar-ate-o-final-de-uma-batukbaile","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/semsono\/2025\/12\/10\/como-nao-ficar-ate-o-final-de-uma-batukbaile\/","title":{"rendered":"Como n\u00e3o ficar at\u00e9 o final de uma BatukBaile"},"content":{"rendered":"<p><em>Z: Zonas Zumbidos e um Zzzzilh\u00e3o de Coisas #2<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Por Daniel Machado, Fabiola Correa, Laura Bender e Milena Gomes<\/em><\/p>\n<p><em>Na nen\u00eatuk, os debutantes foram dormir cedo<\/em><\/p>\n<p>No dia 18 de outubro, quatro cabe\u00e7as pensantes sa\u00edram de suas casas para ir at\u00e9 o Esquenta Batuk Baile, festa criada, feita por e direcionada \u00e0 pessoas negras. Os \u00e2nimos estavam meio baixos gra\u00e7as \u00e0 rotina corrida da semana e ao cansa\u00e7o do final do ano. Ningu\u00e9m estava com muito saco para ir, por\u00e9m as expectativas eram de que haveria ao menos um incentivo (nem que fosse s\u00f3 pelo \u00e1lcool) e o trabalho a ser feito.<\/p>\n<p>A metodologia do grupo era a de analisar o senso de coletividade presente na festa e como as sonoridades afetavam cada pessoa que estivesse no ambiente, inclusive n\u00f3s. No entanto, isso logo caiu por terra porque at\u00e9 que as pessoas chegassem na festa&#8230;demorou um pouquinho.<\/p>\n<p>Enfim, ao longo da noite, os objetivos mudaram e novos rumos foram tra\u00e7ados. Mesmo levemente desanimados, as quatro cabe\u00e7as pensantes colocaram suas roupas e foram \u00e0 luta.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Como N\u00c3O ficar at\u00e9 o final de uma BatukBaile\" width=\"493\" height=\"876\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/Zf-MPuPOBwo?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><b>Laura: uma astronauta sem lua<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Nos encontramos todos na cal\u00e7ada em frente ao Workroom. N\u00e3o havia nenhuma fila. O meu primeiro pensamento quando entramos no lugar foi: esse rol\u00ea vai flopar. N\u00e3o me levem a mal. Por\u00e9m, ainda eram apenas 23h da noite e o pessoal n\u00e3o tinha chegado. Normal. Me acalmei. Mas o lugar seguia vazio. As luzes escuras dan\u00e7avam sem companhia e uma DJ (a DJ Karina) mexia na mesa de som, sozinha. As m\u00fasicas ecoavam no ambiente, reverberando sem nenhum corpo para absorver o som na pista de dan\u00e7a. Meio triste.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Sabe quando o Neil Armstrong e outros astronautas pisaram na lua? Pois. Na Lua, n\u00e3o tinha ningu\u00e9m al\u00e9m deles e foi esse o sentimento que tive enquanto entrava na festa. Ok, existiam outras pessoas no espa\u00e7o, mas tinha um v\u00e1cuo t\u00e3o grande no come\u00e7o. E eu era uma astronauta sem lua para pousar. Fui filos\u00f3fica demais? Talvez. Credo. Mas enfim.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Superada essa primeira impress\u00e3o c\u00f3smica, observei a arquitetura da festa. No canto esquerdo da casa, ficava o bar. No direito, uma \u00e1rea de conviv\u00eancia com uns sof\u00e1zinhos meio insalubres. A pista era&#8230; todo o resto. O lugar n\u00e3o era um quadrado, mas um ret\u00e2ngulo. Deu pra entender? Enfim, ficamos espremidos num cantinho, nervosos demais para se desprender no in\u00edcio da festa. O sentimento chato de vergonha e cansa\u00e7o j\u00e1 estava em mim e nem tinha gente ainda para me julgar. Pat\u00e9tico, honestamente.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">At\u00e9 que a m\u00fasica foi ultrapassando as minhas barreiras. Aos poucos, meus ombros relaxaram. Na minha frente, vi um mo\u00e7o usando uma blusa regata branca com a frase \u201cSe o Brasil n\u00e3o presta como voc\u00ea me explica\u201d nas costas. Meu pensamento foi \u201cque divo\u201d assim que olhei para ele.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Ah, outra coisa, aparentemente o <em>dress code<\/em> do rol\u00ea envolvia regatas brancas. Vi muita gente usando. Eu n\u00e3o estava de regata branca.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Os minutos foram passando. Fomos comprar bebida. Paguei uns 20 pila numa caipirinha que n\u00e3o estava boa e isso j\u00e1 piorou o meu humor. Deu para ver que eu n\u00e3o estava nas minhas melhores noites. Mas t\u00e1. Fomos andando pelo lugar, todos juntinhos. A DJ Karina seguia tocando e eventualmente uma m\u00fasica eu conhecia e murmurava quando largava o canudo da caipirinha da boca (n\u00e3o havia SABOR naquela bebida, s\u00f3 gelo. Mas se eu paguei, eu vou desfrutar de cada segundo com o copo na m\u00e3o). Na minha frente, o Dan, a Fabs e a Milena pareciam saber mais m\u00fasicas. Achei fofo ver os tr\u00eas cantando. Mas, de astronauta, passei a me sentir um ET.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">J\u00e1 com a bebida em m\u00e3os, a Fabs disse que viu os tios do bar cheirando (\u00e9. Cheirando. O qu\u00ea? S\u00f3 Deus sabe. Ou talvez nem Ele queira saber, coitado). Rimos do relato dela. As pessoas come\u00e7aram a chegar.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">E eu esqueci de dizer, at\u00e9 agora, onde a gente estava, n\u00e9? Enfim:\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Est\u00e1vamos na festa Batuk Baile, criada para valorizar pessoas negras, ritmos e encontros negros. Proposta massa. Foda mesmo. Mas confesso que, sei l\u00e1, me cruzou o pensamento de que me podiam me barrar da festa porque eu sou branca KKKKKKK, idiota, eu sei. N\u00e3o me barraram.\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Quando o qu\u00f3rum de pessoas j\u00e1 aumentou, a DJ Karina foi embora e uma pessoa (a organizadora do evento?) apareceu. Discursou. Deu as boas-vindas e tal. Foi querida. Perguntou \u201cquais s\u00e3o os protagonistas da noite?\u201d e todo mundo respondeu \u201cnegros!\u201d. A\u00ed entrou o DJ Kevin que, logo na primeira m\u00fasica, tocou algo em uma l\u00edngua que ningu\u00e9m entendeu e cortou o clima. Olhei para o meu grupo e todos est\u00e1vamos com cara confusa. Rimos.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Lembrei que um dos textos que separamos tinha palavras complicadas que traduziam o sentimento daquele instante:\u00a0 \u201c[um regime de escuta] n\u00e3o \u00e9 onipotente e monol\u00edtico, mas sim aberto a idiossincrasias, transgress\u00f5es, usos desviados, improvisos e imprevistos.\u201d (<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">ESTIVALET, 2019) <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">(obviamente pesquisei isso depois da festa, n\u00e9). Mas o ponto \u00e9 que me senti muito idiossincr\u00e1tica (falei certo?) porque nada fazia muito sentido, igual essa palavra n\u00e3o faz sentido nenhum (brincadeira, rs).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A vibe foi mais para umas m\u00fasicas afrobeat, latinoamerica. Ui, <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">caliente<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">. Finalmente terminei a caipirinha. Sequei a m\u00e3o na cal\u00e7a, jogando a \u00e1gua gelada que suava do copo pra longe. De repente, notei que n\u00e3o est\u00e1vamos mais na Lua. J\u00e1 existia povoamento! Est\u00e1vamos no meio das pessoas e o som j\u00e1 chegava de uma maneira diferente. Menos cru. Ele carregava risadas e flertes (e sons intelig\u00edveis) junto com o ritmo e a letra de cada m\u00fasica. Fiquei quase surda, tenho ouvidos sens\u00edveis.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Mas t\u00e1, ficamos ali. Dan\u00e7ando mesmo sem entender as m\u00fasicas do DJ Kevin. Ai, eu, uma pessoa muito velha de alma, j\u00e1 comecei a cansar nessa hora. Por algum motivo, segui dobrando os joelhos de leve e pensei em comprar outra caipirinha, mas n\u00e3o comprei porque era ruim e o dinheiro tava curto (qual \u00e9 a do meu hiperfoco na caipira?). Enfim, t\u00e1. Dan\u00e7amos. Pessoal se amontoou ao nosso redor. Gente de tudo o que era jeito e tipo: vi um guri de blusa de time e outro que parecia ter sa\u00eddo de um escrit\u00f3rio, com camisa social. Na minha frente, duas meninas dan\u00e7avam juntas e, adivinha, uma delas estava de regata branca.<\/span><\/p>\n<div id=\"attachment_1625\" style=\"width: 221px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1625\" class=\"wp-image-1625\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/semsono\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/IMG-20251126-WA0031-472x1024.jpg\" alt=\"BATUK4\" width=\"211\" height=\"445\" \/><p id=\"caption-attachment-1625\" class=\"wp-caption-text\">Materiais amontoados no fundo do palco<\/p><\/div>\n<p>O Dan foi embora primeiro por motivos de: \u00f4nibus. Quando ficamos s\u00f3 eu, a Milena e a Fabs, fomos para longe da mesa do DJ, do outro lado do rol\u00ea. Eu disse que a mesa ficava no meio do espa\u00e7o? N\u00e3o? \u00c9. Ficava. Fomos para tr\u00e1s da mesa. Olhei para o teto, j\u00e1 sentindo os p\u00e9s darem aquela falhada. O som pulsava nos meus ouvidos e fazia o meu corpo retumbar, mesmo fracamente. Era dif\u00edcil resistir \u00e0 melodia, mesmo que eu n\u00e3o estivesse entendendo nada. Atr\u00e1s de mim tinha um palco, melancolicamente abandonado no escuro, com algumas coisas jogadas por cima.<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Tudo isso, e era a rec\u00e9m 1h e pouca da manh\u00e3. A festa ia at\u00e9 6h? 5h? N\u00e3o lembro.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Eu e as meninas ficamos naquele canto at\u00e9 que desistimos e fomos nos sentar nos sof\u00e1s insalubres. Botei as pernas pra cima. Mudou o DJ, j\u00e1 era o 3\u00b0, mas n\u00e3o prestei aten\u00e7\u00e3o no nome. As m\u00fasicas estavam mais fren\u00e9ticas e j\u00e1 eram meio conhecidas porque mais gente cantava. Mesmo assim, n\u00f3s tr\u00eas nos olhamos. Sab\u00edamos que precis\u00e1vamos fazer o trabalho. Mas&#8230;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cE se a gente fosse&#8230;\u201d<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cEmbora?\u201d<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201c\u00c9.\u201d<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cSim. Vamos. Por favor.\u201d<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cMas e o trabalho?\u201d<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cAi.\u201d<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cPois \u00e9.\u201d<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cMas, gente, os meus p\u00e9s est\u00e3o doendo.\u201d<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201c\u00c9. E t\u00e1 uma bosta isso aqui.\u201d<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cVambora?\u201d<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cVamos. Vou ver quanto t\u00e3o os Ubers, pera.\u201d<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">N\u00e3o lembro quem falou o qu\u00ea nesse di\u00e1logo, mas foi mais ou menos assim. Resultado? Fomos embora. No Uber, sozinha, encostei a cabe\u00e7a no vidro do carro e senti meu corpo todo brigar comigo para que eu ficasse acordada. O som ainda me perseguia e meu cora\u00e7\u00e3o n\u00e3o estava conseguindo deixar para tr\u00e1s o tum tum tum tum de dentro da festa. Aquela batida infernal da caixa de som que faz o quadril mexer e o ouvido doer. Tenho uma rela\u00e7\u00e3o de amor e \u00f3dio com ela.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Chegando em casa, com a chave na m\u00e3o, fiz uma media\u00e7\u00e3o da noite. Foi bom? Meh. Mas t\u00e1, nem toda noite pre<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">cisa ser gloriosa. T\u00ednhamos material para o trabalho? Sim, talvez. Eu tava cansada? Aham. Eu precisava dormir. Vamos parar de pensar, tomar um banho, tirar a maquiagem e ir deitar? Por favor. Foi isso o que eu fiz.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">No sil\u00eancio do quarto escuro, o som da Batuk n\u00e3o me pegou mais. Por\u00e9m, l\u00e1 no meio do meu cora\u00e7\u00e3o, entre o \u00e1trio direito e o esquerdo, um<\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\"> tum tum tum tum<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> ainda ressoava.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Voltei a me sentir astronauta. O sil\u00eancio era a minha gravidade, que me ancorava ao ch\u00e3o do conhecido. Ai, como ela \u00e9 metaf\u00f3ricah.<\/span><\/p>\n<hr \/>\n<p><b>Fabs: esquentatuk, afrobeats e afins<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">No in\u00edcio n\u00e3o era como se eu n\u00e3o soubesse que essa era apenas um esquenta pra BatukBaile, mas essa era uma batukinha, nen\u00eatuk.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Tava bem animada com a festa mas muito, muito cansada da rotina e tava nos meus planos levar minha c\u00e2mera pequena pra fazer uns registros mais diferentes, sabe. Aquela qualidade duvidosa que s\u00f3 uma cybershot sabe trazer. Eu realmente tinha uma lista de coisas pra fazer antes da festa pra entrar no clima, tipo o ritual de ouvir m\u00fasicas do g\u00eanero da festa pra ir aquecendo.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Mas estamos aqui na frente da Workroom metade do grupo ansioso e outra metade tentando n\u00e3o parecer nervoso. J\u00e1 tinha passado nessa rua uma centena de vezes mas nunca de noite e \u00e9 legal como tem uma atmosfera diferente. Do outro lado da rua tem um centro cultural que fiz uma oficina de Abayomis e bonecas negras quando mais nova, dessa vez, na mesma rua, eu aos meus 20 e poucos anos me encontro numa reuni\u00e3o entre iguais de novo. S\u00f3 que dessa vez com \u00e1lcool e musica alta. Eu e a Milena rachamos o Uber, chegando na esquina da rua vi o Dan e comentei com ela.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">&#8220;Ah, n\u00e3o vi.&#8221;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Mas pela minha perspectiva de 1,58 era um pouco dif\u00edcil n\u00e3o ver algu\u00e9m com 1,80. Nos reunimos na cal\u00e7ada assim como outros dois pequenos grupos de amigos, entre um papo furado e outro pra descontrair eu e o Dan come\u00e7amos a lembrar de trends que o pessoal faz em uma pr\u00e9-festa, obviamente tentamos puxar a ideia de gravar junto com a Milena e a Laura, as duas com cara de quem n\u00e3o faziam ideia do que est\u00e1vamos falando aceitaram.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">&#8220;Oi meu nome \u00e9 Milena, tenho 26 anos e essa \u00e9 a minha primeira BatukBaile&#8221; (eeeeeeeeee)<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">&#8220;Meu nome \u00e9 Fabiola, tenho 21 anos e essa \u00e9 a minha primeira BatukBaile&#8221; (eeeeeeeeee)<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">&#8220;Meu nome \u00e9 Laura, tenho 21 anos e essa \u00e9 a minha primeira BatukBaile&#8221; (eeeeeeeeee)<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">&#8220;Oi meu nome \u00e9 Daniel e essa \u00e9 a minha primeira BatukBaile&#8221; (eeeeeeeeee)<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Comicamente, n\u00e3o sabemos o porqu\u00ea o Dan n\u00e3o falou a idade. E a Laura tem 20 anos, n\u00e3o 21.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Percebi que o pessoal da volta tava olhando \u201cde rabo de olho\u201d pra gente como se fosse proibido achar gra\u00e7a das coisas, mas relevei porque tava tentando fazer os meus colegas descontra\u00edrem dessa tens\u00e3o no ar.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Entramos, a primeira coisa que vi quando entrei foi o banheiro sem g\u00eanero \u00e0 minha direita e dentro dele um p\u00f4ster das irm\u00e3s de pau, logo senti que tava em territ\u00f3rio amigo. Na cabine uma faixa daquelas de cena de crime escrito \u201ccuidado masculinidade fr\u00e1gil\u201d\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A pista? Vazia.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Os camarotes? Tamb\u00e9m.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">E o pessoal do bar com aquele semblante de quem espera a festa ferver pra tamb\u00e9m entrar no ritmo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Nos reunimos num cantinho, as gurias resolveram comprar bebidas e o Dan tamb\u00e9m. Bisbilhotando qualquer coisa que se mexesse vi dois senhores do bar cheirando algo de um objeto cil\u00edndrico, pensei \u201cah, rec\u00e9m 23h n\u00e9 n\u00e3o vai ser droga\u201d decidi compartilhar com o grupo porque n\u00e3o ia guardar pra mim ao mesmo tempo que fico encucada pensando que poderia ser algum rem\u00e9dio pra rinite tipo Sorinan. Fico analisando a fot\u00f3grafa tirar v\u00e1rias fotos do pequeno p\u00fablico. E fotos elaboradas t\u00e1?! Do tipo que mais um pouco virava um photoshot individual. Pensei: bah, acho que n\u00e3o to muito arrumada pra tirar foto. Ela nem se quer olhou na bolota do meu olho e cada vez que ela passava pelo nosso grupo eu tentava n\u00e3o transparecer que queria sim uma fotinha posada!<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A primeira DJ tocava muito bem al\u00e9m de estar com um look baphonico e de novo, \u201cbah, acho que n\u00e3o to muito arrumada\u201d a r\u00e9gua era um pouco alta pra quem estava de casaco de croch\u00ea, uma blusa justa cinza e cal\u00e7a jeans. Sim, casaco de croch\u00ea porque prezei pelo conforto.\u00a0 De set em set eu conhecia v\u00e1rias m\u00fasicas e as que n\u00e3o conhecia o ritmo era do meu gosto.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O segundo set (e maior acredito eu) era Savannah (Kobby b2b Jon Boss) e foi um dos melhores que eu vi, afrobeats em franc\u00eas. O ritmo me agradava bastante e eu tava com <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Kulosa<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> na cabe\u00e7a que era do mesmo ritmo, de novo t\u00f4 me sentindo em territ\u00f3rio amigo. Parei de dan\u00e7ar um pouco pra olhar como o pessoal tava, Milena e Laura com cara de deslocadas, j\u00e1 o Dan parecia se sentir bem s\u00f3 n\u00e3o conhecia a m\u00fasica porque n\u00e3o tinha costume de ouvir.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Ainda que a pista estivesse um pouco vazia j\u00e1 estava mais cheia que no in\u00edcio e instaurou-se o front! Duas divas dan\u00e7ando sincronizadamente, e a cereja em cima do bolo, elas n\u00e3o se conheciam. Com o front de duas pessoas j\u00e1 pensei que agora sim a festa ia melhorar pq o pessoal ia se juntar pra todo mundo dan\u00e7ar algum passinho. Engano meu, o front morreu quando as duas pararam de dan\u00e7ar e eu broxei na hora. Da\u00ed em diante decidi curtir as m\u00fasicas e conversar com os meus colegas.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Fomos para tr\u00e1s de onde o DJ estava, agora com a casa muito mais cheia. Tinha gente dan\u00e7ando de tudo quanto \u00e9 jeito, mas todos com os seus grupinhos. Diferente do que eu achava, o batuk era algo mais coletivo em que todo mundo curtia em conjunto. N\u00f3s, meninas, j\u00e1 est\u00e1vamos sozinhas. O Dan teve que ir embora cedo por morar longe e n\u00e3o ter como voltar para casa. A essa altura do campeonato as tr\u00eas j\u00e1 estavam muito cansadas. Com o fum\u00f3dromo escaneando nossas almas, fomos embora no in\u00edcio do fervo.<\/span><\/p>\n<hr \/>\n<p><b>Dan: estranho dentro do ninho<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Fui o primeiro a chegar no local, com bons minutos de anteced\u00eancia (20 minutos). Acostumado \u00e0 rotina metropolitana, busco sempre estar adiantado para os eventos. Ao chegar na Av. Crist\u00f3v\u00e3o Colombo, 772, tive o primeiro espanto: eu era a \u00fanica pessoa no local, al\u00e9m do seguran\u00e7a que conversava com algu\u00e9m que, muito provavelmente, tamb\u00e9m trabalhava na festa. No mais, uma rua vazia, com pr\u00e9dios de arquitetura simples, somados a outros possivelmente preservados de s\u00e9culos passados, que destoavam do enorme pr\u00e9dio da MedS\u00eanior, com sua estrutura espelhada e letreiros incrivelmente iluminados.\u00a0<\/span><\/p>\n<div id=\"attachment_1637\" style=\"width: 297px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1637\" class=\"wp-image-1637\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/semsono\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/IMG-20251126-WA0036-768x1024.jpg\" alt=\"BATUK5\" width=\"287\" height=\"379\" \/><p id=\"caption-attachment-1637\" class=\"wp-caption-text\">Chegada na Av. Crist\u00f3v\u00e3o Colombo pr\u00e9-festa<\/p><\/div>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Eu estava de fones de ouvido, mas os tirei para captar as sonoridades que o ambiente transmitia: apenas as vibra\u00e7\u00f5es do vento, os sons dos carros, um ru\u00eddo abafado vindo da festa ao fundo e a conversa entre o seguran\u00e7a e a outra pessoa, que tentei ouvir, mas n\u00e3o parecia ter grande relev\u00e2ncia para o trabalho. Voltei a colocar o fone e escolhi uma m\u00fasica dan\u00e7ante da Ludmilla (Bom) para entrar no clima da festa.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Minutos depois, finalmente come\u00e7aram a chegar pessoas, assim como minhas colegas. Chegamos \u00e0 primeira conclus\u00e3o para iniciar as atividades: come\u00e7amos a tirar algumas fotos para registro, mas eu ainda tentava assimilar que estava ali com um objetivo acad\u00eamico. Fizemos alguns combinados, trocamos conversas, gravamos v\u00eddeos. Eu estava animado, at\u00e9 havia me esquecido que havia meia d\u00fazia de gato pingado ali na frente.<\/span><\/p>\n<div id=\"attachment_1638\" style=\"width: 278px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1638\" class=\"wp-image-1638\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/semsono\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/IMG-20251126-WA0032-768x1024.jpg\" alt=\"batuk6\" width=\"268\" height=\"353\" \/><p id=\"caption-attachment-1638\" class=\"wp-caption-text\">Fachada da festa<\/p><\/div>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Decidimos entrar. A primeira cena foi um enorme espa\u00e7o vazio, que ao fundo revelava a DJ dando a vida com seu setlist, enquanto duas mo\u00e7as andavam de um lado para o outro com equipamentos. Na hora, me veio o pensamento \u201cvai flopar isso aqui\u201d. Verbalizei, verbalizamos, mas continuamos com o car\u00e1ter investigativo da coisa.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Algumas pessoas come\u00e7aram a chegar. Algo que foi percept\u00edvel notar foi a diferen\u00e7a nos looks das pessoas: que parec\u00edamos deslocados de fato. O que gerou algo curioso: mesmo com esse baixo n\u00famero de pessoas, 10 no m\u00e1ximo, a fot\u00f3grafa passou por todos os grupos tirando fotos, mas n\u00e3o chegou perto de falar com a gente, que som\u00e1vamos 4. Isso perdurou por um bom tempo, quase metade da festa. Era quase como se comunicasse que n\u00e3o est\u00e1vamos esteticamente adequados ao ambiente. Ainda que f\u00f4ssemos em maioria negros entre n\u00f3s, existiam signos que n\u00e3o eram compat\u00edveis.<\/span><\/p>\n<div id=\"attachment_1648\" style=\"width: 266px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1648\" class=\"wp-image-1648\" style=\"margin-top: 0.4em;\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/semsono\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/IMG-20251126-WA0038-589x1024.jpg\" alt=\"batuk7\" width=\"256\" height=\"436\" \/><p id=\"caption-attachment-1648\" class=\"wp-caption-text\">Primeiro contato<\/p><\/div>\n<div id=\"attachment_1650\" style=\"width: 284px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1650\" class=\"wp-image-1650\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/semsono\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/IMG-20251126-WA0035-1-768x1024.jpg\" alt=\"batuk7\" width=\"274\" height=\"361\" \/><p id=\"caption-attachment-1650\" class=\"wp-caption-text\">Caixa de uma caipirinha aguada<\/p><\/div>\n<p>Eu e a Fabs ficamos fazendo gra\u00e7a com isso. \u201cN\u00e3o somos negros o suficiente?\u201d<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Em meio \u00e0 tens\u00e3o do poss\u00edvel flop, com o som torando ao fundo, m\u00fasicas at\u00e9 interessantes (funks, em sua maioria) e a DJ Karina, como depois descobrimos, tocando para raras pessoas, decidimos comprar algo. Por algum motivo pensei que, por ser uma festa voltada a um p\u00fablico negro, os pre\u00e7os estariam mais em conta, mas a realidade \u00e9 que o capitalismo ainda \u00e9 o sistema vigente. Ent\u00e3o paguei 12 reais em uma lata de Amstel, enquanto a Laura pegou uma caipirinha e a Milena uma long neck. Tomei a minha em quest\u00e3o de minutos, enquanto as meninas pareciam degustar cada ml superfaturado das bebidas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Voltei a prestar aten\u00e7\u00e3o no ambiente, ainda desconfort\u00e1vel. Continu\u00e1vamos exclu\u00eddos da din\u00e2mica fotogr\u00e1fica, a Karina seguia tocando para quase ningu\u00e9m, o corpo queria dan\u00e7ar, mas nada parecia convidativo. No m\u00e1ximo alguns balan\u00e7os no ritmo da m\u00fasica, enquanto eu me questionava: \u201conde t\u00e3o as pessoas, Jesus Cristo?\u201d. Nervoso, fui comprar uma caipirinha, mais gelo do que qualquer outra coisa, mas parecia ser o caminho para me adequar mais ao ambiente e fluir. (Quando reli o que vivi nessa noite, lembrei do trecho de uma leitura da aula que descreve a escuta como uma \u201cporta de entrada do mundo\u201d, algo que n\u00e3o s\u00f3 registra sons, mas que tamb\u00e9m nos desloca por dentro. Percebi que muita coisa que me atravessou ali s\u00f3 ganhou sentido depois, quando pude pensar no modo como eu mesmo estava escutando aquele espa\u00e7o. Na hora, era s\u00f3 estranhamento, desconforto, ru\u00eddo, e at\u00e9 uma certa tens\u00e3o (ESTIVALET, 2019, 225); mas com dist\u00e2ncia, entendi que tudo aquilo tamb\u00e9m fazia parte de um tipo de escuta que envolve n\u00e3o apenas o que chega de fora, mas o que a gente movimenta por dentro para tentar compreender a experi\u00eancia). Depois de uma hora, as pessoas come\u00e7aram a povoar aquele espa\u00e7o, majoritariamente negras, mas com um n\u00famero de pessoas brancas maior do que eu imaginava. <\/span><\/p>\n<div id=\"attachment_1655\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1655\" class=\"wp-image-1655\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/semsono\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/IMG-20251126-WA0033-768x1024.jpg\" alt=\"batuk8\" width=\"290\" height=\"385\" \/><p id=\"caption-attachment-1655\" class=\"wp-caption-text\">Diversidade<\/p><\/div>\n<div id=\"attachment_1656\" style=\"width: 258px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1656\" class=\"wp-image-1656\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/semsono\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/IMG-20251126-WA0034-768x1024.jpg\" alt=\"batuk9\" width=\"248\" height=\"327\" \/><p id=\"caption-attachment-1656\" class=\"wp-caption-text\">Bombou<\/p><\/div>\n<div id=\"attachment_1636\" style=\"width: 257px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1636\" class=\"wp-image-1636\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/semsono\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/IMG-20251126-WA0037-768x1024.jpg\" alt=\"BATUK4\" width=\"247\" height=\"326\" \/><p id=\"caption-attachment-1636\" class=\"wp-caption-text\">Primeiro tchau<\/p><\/div>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Fiquei indignado, pois quando a festa come\u00e7ou a lotar, a Karina saiu para dar espa\u00e7o a outro DJ, cujo nome n\u00e3o lembro, mas me recordo do moletom com o coelhinho da Playboy. Ele trouxe outra ambienta\u00e7\u00e3o para a festa, com ritmos latinos que pareciam confluir melhor com o espa\u00e7o. A festa tinha um mestre de cerim\u00f4nias (?) que n\u00e3o deixava a vibe cair, chamava o pessoal para o front, exaltava a cultura preta. E acho que ali residia a coisa: era um rol\u00ea feito por pessoas pretas para pessoas pretas, com toda a interseccionalidade e respeito pelos corpos. Ali me senti em um ambiente acolhedor, com pessoas parecidas comigo, e isso foi legal. Quando a festa come\u00e7ou a bombar, precisei ir embora, pois, ainda que empoderado, eu continuava sendo um metropolitano, e meu \u00faltimo \u00f4nibus era \u00e0s 1:40. Me despedi das meninas e fui embora com um sentimento de incompletude, mas com a sensa\u00e7\u00e3o de ter vivido algo, minimamente, diferente. Tirei duas fotos antes de ir embora: uma r\u00e9plica da primeira ao entrar e outra da entrada.<\/span><\/p>\n<hr \/>\n<p><b>Milena: Jesus e os disc\u00edpulos dan\u00e7am<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A noite n\u00e3o tinha grandes promessas. Eu e meu grupo j\u00e1 hav\u00edamos entrado em consenso que a nossa experi\u00eancia seria estritamente anal\u00edtica, pois o cansa\u00e7o que acometia a todos n\u00e3o nos possibilitava muito al\u00e9m disso. De qualquer forma, eu tentava, com a \u00faltima energia restante, me manter um pouco animada. Al\u00e9m disso, era a primeira vez saindo do ambiente acad\u00eamico com o meu grupo, pois conheci os colegas na disciplina. Isso adicionou um grau de nervosismo a mais na experi\u00eancia.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Pra me deslocar at\u00e9 l\u00e1, eu e Fabs rachamos um Uber. Chegando no local, reconheci o lugar e ela reconheceu o Dan de longe. Assim, nos reunimos todos pois a Laura tamb\u00e9m j\u00e1 estava l\u00e1. N\u00e3o haviam muitas pessoas al\u00e9m de n\u00f3s e, a anima\u00e7\u00e3o, que j\u00e1 era pouca, n\u00e3o foi muito alimentada nesses minutos aguardando o in\u00edcio da festa. Depois de algum tempo conversando, trocando ideias sobre o trabalho e rindo de algumas conversas, entramos no ambiente. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Minha primeira percep\u00e7\u00e3o foi relacionada ao formato do local, pois era uma pista longa em formato retangular, com os ambientes como bares e banheiros nas laterais e ao fim dela, um palco com luzes de LED rosa e estruturas met\u00e1licas ao fundo. No instante em que entramos, o clima era de enterro. A m\u00fasica era extremamente alta, o ambiente era bem escuro e a pista tomada pela aus\u00eancia dos corpos. \u00c9ramos n\u00f3s 4 naquela grande pista, tentando nos sentir menos deslocados entre n\u00f3s e tamb\u00e9m no lugar. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Nos momentos onde a conversa cessava, tentava observar as coisas ao redor, notei bandeiras, uma delas com o escrito \u201cSt. Patricks Gay\u201d, as luzes e as poucas pessoas que transitavam pelo espa\u00e7o pareciam ansiosas pelos momentos empolgantes da festa. Numa dessas observa\u00e7\u00f5es, encontrei uma foto que fazia refer\u00eancia ao quadro da santa ceia, no entanto, no lugar de Jesus e seus disc\u00edpulos, estava um grupo de drags, cada uma em uma pose diferente. \u00c0 nossa volta, uma fot\u00f3grafa andava pelo ambiente, com uma c\u00e2mera e um bast\u00e3o de LED super potente, coletando modelos super bem vestidos para suas fotos e eu lembro de pensar que tudo iria parar no Instagram mais tarde.\u00a0<\/span><\/p>\n<div id=\"attachment_1612\" style=\"width: 226px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1612\" class=\"wp-image-1612\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/semsono\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/20251018_233511-576x1024.jpg\" alt=\"BATUK1\" width=\"216\" height=\"372\" \/><p id=\"caption-attachment-1612\" class=\"wp-caption-text\">Bandeira do St. Patricks GAY<\/p><\/div>\n<div id=\"attachment_1621\" style=\"width: 235px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1621\" class=\"wp-image-1621\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/semsono\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/20251018_232002-637x1024.jpg\" alt=\"BATUK3\" width=\"225\" height=\"353\" \/><p id=\"caption-attachment-1621\" class=\"wp-caption-text\">Santa Ceia Drag<\/p><\/div>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Durante o set da DJ que abria a pista, ia tentando identificar algumas m\u00fasicas e lembrar do nome, algo que sou particularmente p\u00e9ssima. \u00cdamos conversando um pouco sobre a m\u00fasica ou fic\u00e1vamos em sil\u00eancio tentando analisar a experi\u00eancia. Eu, que por vezes me sentia como uma novata no grupo, ia tentando achar um assunto pra quebrar o gelo e a tens\u00e3o que em alguns momentos pairava no ar. Nessa hora, a ideia de comprar alguma bebida foi bem vinda. Observei o bar tentando entender como funcionava, e fui em dire\u00e7\u00e3o ao caixa. L\u00e1, era praticamente imposs\u00edvel se comunicar verbalmente com a pessoa que atendia, e ela, j\u00e1 habituada com a situa\u00e7\u00e3o, me mostrou um peda\u00e7o de papel onde estavam escritas as formas de pagamento. Paguei, peguei minha bebida e voltei ao grupo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Nos minutos seguintes, mais pessoas come\u00e7aram a chegar e o segundo DJ iniciou seu set.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A m\u00fasica era diferente da primeira, num ritmo afrobeat com um idioma que eu n\u00e3o reconheci. No entanto,as m\u00fasicas tocadas me impactaram e me envolveram mais do que as da primeira DJ. A pista, agora com um n\u00famero maior de pessoas, tamb\u00e9m parecia mais agitada. Em contraste aos passos t\u00edmidos do nosso grupo, algumas pessoas na pista se destacavam pelos passos bem elaborados em uma dan\u00e7a expressada pelo corpo todo. Era bonito observar a desenvoltura dos movimentos e ao mesmo tempo intimidador para uma pessoa, que como eu, trope\u00e7aria nos pr\u00f3prios p\u00e9s se tentasse algo parecido. Por isso, me mantive nos passos t\u00edmidos e contidos, mas aproveitando a m\u00fasica da minha forma.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Mais tarde naquela noite, resolvemos nos deslocar para a \u00e1rea da pista que contornava a parte de tr\u00e1s do palco, tendo uma vis\u00e3o um pouco diferente da festa. \u00c9ramos uns dos \u00fanicos naquele espa\u00e7o e consegu\u00edamos observar as pessoas dan\u00e7ando do outro lado. De certa forma, a configura\u00e7\u00e3o do palco possibilitava uma integra\u00e7\u00e3o maior do p\u00fablico, mesmo que as intera\u00e7\u00f5es ainda fossem bastante segregadas pelos grupos j\u00e1 formados.\u00a0<\/span><\/p>\n<div id=\"attachment_1614\" style=\"width: 243px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1614\" class=\"wp-image-1614\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/semsono\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/20251019_005444-576x1024.jpg\" alt=\"BATUK2\" width=\"233\" height=\"410\" \/><p id=\"caption-attachment-1614\" class=\"wp-caption-text\">Pov: voc\u00ea est\u00e1 atr\u00e1s do DJ<\/p><\/div>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Nesse momento, o Daniel se despediu de n\u00f3s tr\u00eas e em seguida acordamos de tamb\u00e9m voltar pra casa. Nos despedimos da Laura, e eu e a Fabs rachamos um Uber de novo na volta. No trajeto, desejei estar um pouco mais animada e menos cansada, mas pensei tamb\u00e9m que fiquei feliz por ter tido aquela experi\u00eancia dentro da proposta da festa.\u00a0<\/span><\/p>\n<hr \/>\n<p>Mas e a\u00ed? O que aprendemos da noite? Que \u00e9 meio chato quando n\u00e3o entendemos a m\u00fasica que toca nas caixas de som? Que fot\u00f3grafos podem nos ignorar nas festas? O ambiente era acolhedor, mas n\u00e3o nos sentimos pertencentes dele. Isso n\u00e3o tira o m\u00e9rito da Batuk e do que ela promove.<\/p>\n<p>No p\u00f3s-festa, chegamos a conclus\u00e3o de que aquele espa\u00e7o de pessoas negras, para pessoas negras, n\u00e3o era um ambiente incomum em Porto Alegre e Regi\u00e3o. Na verdade, essas festas s\u00e3o muito comuns. Corpos pretos em maioria, musicalidades negras em maioria, s\u00e3o comuns, mas em zonas perif\u00e9ricas, nos morros, nas favelas, como dito usualmente, entre becos e vielas. N\u00e3o no Centro de Porto Alegre. Como disse Gabriel Bernardo em &#8220;Margin\u00e1lia Metropolitana&#8221;: \u201cEm Porto Alegre e na regi\u00e3o metropolitana, existe uma cena consolidada e cada vez mais protagonizada por corpos n\u00e3o brancos e de origens perif\u00e9ricas, o que oferece para o cen\u00e1rio cultural local uma gama de possibilidades de acesso e um senso de resgate de narrativas<br \/>\nhistoricamente ofuscadas pelo processo de elitiza\u00e7\u00e3o da m\u00fasica eletr\u00f4nica\u201d, e a Batuk consolida essa cena cada vez mais.<\/p>\n<p>A Batuk faz essa emigra\u00e7\u00e3o. Ela ocupa novos espa\u00e7os nos centros, zonas de aglomera\u00e7\u00e3o massiva. Isso pode estar associado ao desengajamento inicial que percebemos no evento: enquanto outras festas possuem filas enormes, a BatukBaile come\u00e7ou a angariar festantes somente ap\u00f3s duas horas de festa, n\u00e3o existia uma cultura, um rito inicial.\u00a0\u00c9ramos todos extraterrestres num planeta colorido e com a presen\u00e7a de algumas drogas il\u00edcitas atr\u00e1s do balc\u00e3o do bar. Haviam barreiras simb\u00f3licas que iam al\u00e9m das barreiras do som. A m\u00fasica n\u00e3o estava musicando muito, mas talvez esse n\u00e3o fosse o principal ponto. Mesmo que os corpos n\u00e3o estivessem presentes naquele ambiente retangular, o som reverberava. A Batuk alinhava o som ao corpo. O som era pol\u00edtica e entretenimento.<\/p>\n<p>REFER\u00caNCIAS<\/p>\n<p>ESTIVALET, Felipe. Virtuosismo da escuta e produ\u00e7\u00e3o de introspec\u00e7\u00e3o. In: CASTANHEIRA, J. C. S; et al. (Orgs.).\u00a0<strong>Poderes do som: pol\u00edticas, escutas e identidades<\/strong>. Florian\u00f3polis: Insular, 2019. p. 213-229.<\/p>\n<p>BERNARDO, Gabriel (org.). <strong>Margin\u00e1lia Metropolitana.<\/strong> Porto Alegre: Margin\u00e1lia Metropolitana, 2025.<\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\"><em>Texto realizado como atividade final para a disciplina Semin\u00e1rio de Cultura e Comunica\u00e7\u00e3o, Ministrada pelo Prof. Marcelo Bergamin Conter e pelo mestrando Gabriel Gil. Publicada na edi\u00e7\u00e3o #2 da revista digital Z: Zonas Zumbidos e um Zilh\u00e3o de coisas.\u00a0<\/em><\/span><span style=\"color: #000000;\"><em>Faculdade de Biblioteconomia e Comunica\u00e7\u00e3o (Fabico), UFRGS, dezembro de 2025.<\/em><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Z: Zonas Zumbidos e um Zzzzilh\u00e3o de Coisas #2 Por Daniel Machado, Fabiola Correa, Laura Bender e Milena Gomes Na nen\u00eatuk, os debutantes foram dormir cedo No dia 18 de outubro, quatro cabe\u00e7as pensantes sa\u00edram de suas casas para ir &hellip; <a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/semsono\/2025\/12\/10\/como-nao-ficar-ate-o-final-de-uma-batukbaile\/\">Continue lendo <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":9,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-1551","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-sem-categoria"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/semsono\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1551","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/semsono\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/semsono\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/semsono\/wp-json\/wp\/v2\/users\/9"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/semsono\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1551"}],"version-history":[{"count":21,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/semsono\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1551\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1915,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/semsono\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1551\/revisions\/1915"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/semsono\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1551"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/semsono\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1551"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/semsono\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1551"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}