{"id":1954,"date":"2026-07-09T17:38:24","date_gmt":"2026-07-09T20:38:24","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/semsono\/?p=1954"},"modified":"2026-07-09T17:38:24","modified_gmt":"2026-07-09T20:38:24","slug":"a-invisibilidade-de-corpos-queer-na-discotecagem-em-vinil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/semsono\/2026\/07\/09\/a-invisibilidade-de-corpos-queer-na-discotecagem-em-vinil\/","title":{"rendered":"A invisibilidade de corpos queer na discotecagem em vinil"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-weight: 400;\">Bruna Silveira, Dorian Ali Canello Padilha, Kerolyn Grasel Ferreira e Manuela Vilagran da Silva<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">N\u00e3o sei exatamente como come\u00e7ar este texto. Afinal, nunca fui em uma festa com discotecagem em vinil. Mas talvez seja exatamente isso que estamos querendo pontuar aqui.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Sair para festas \u00e9 um verdadeiro ritual para mim, desde a arruma\u00e7\u00e3o ao esquenta com os amigos. Minha noite sempre come\u00e7a com m\u00fasicas melanc\u00f3licas, s\u00e3o elas que escuto enquanto me arrumo. Depois de um tempo, vou me animando e colocando m\u00fasicas que (DE FATO) ir\u00e3o tocar na festa ou no rol\u00ea de rua que vou. As festas\/rol\u00eas geralmente tem uma pegada mais eletr\u00f4nica\/funk\/pop, algo bem variado e que me identifico bastante. Talvez a identifica\u00e7\u00e3o seja o fator principal para me levar aos lugares que vou, ou talvez o fato de me sentir muito sozinha morando num apartamento de 50m\u00b2 sem um gato para me fazer companhia\u2026 Enfim, voltando pro assunto, estar num lugar onde vou ouvir m\u00fasicas que gosto, conversar com amigos, beber algo bem duvidoso, dar muita risada e me sentir minimamente atraente s\u00e3o fatores que me induzem a sair de casa para curtir um rol\u00ea. Agora, quais s\u00e3o os rol\u00eas que me sinto \u00e0 vontade? Majoritariamente aqueles onde n\u00e3o vejo somente casais de mulheres brancas, cabelos lisos e loiros, de vestido tubinho e salto alto acompanhada de homens brancos, de camiseta preta e cal\u00e7a skinny com um copo na m\u00e3o, e algum DJ que s\u00f3 toca hits do TikTok em sequ\u00eancia, sem qualquer mixagem. Vejam bem, NADA CONTRA os vestidos tubinhos, salto altos, cabelos lisos e loiros \u2014 caracter\u00edsticas sempre acompanhadas de mulheres gat\u00edssimas. Mas compreendem a vibe? Uma festa cis-heteronormativa n\u00e3o tem a mesma vibe de um rol\u00ea organizado por e para pessoas queer. E isso est\u00e1 alinhado, tamb\u00e9m, \u00e0 m\u00fasica, aos corpos presentes nesses lugares, \u00e0s pessoas que realizam a festa e \u00e0s materialidades de mixagem (sim, elas est\u00e3o presentes e n\u00f3s temos um ponto).\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Depois das aulas de semi\u00f3tica da faculdade, parece que todas as quest\u00f5es de g\u00eanero ficam ainda mais evidentes. Digo \u201cainda mais evidente\u201d porque, sendo mulher, algumas coisas s\u00e3o escancaradas mesmo&#8230; Mas essas quest\u00f5es tamb\u00e9m me influenciam a ir em certos rol\u00eas. Um exemplo disso \u00e9 o \u00faltimo rol\u00ea universit\u00e1rio que fui, a Viadage, festa organizada pelo Diret\u00f3rio Acad\u00eamico da Geografia da UFRGS, onde <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">a <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">DJ era uma mulher, e uma amiga minha se sentiu genuinamente feliz por ver uma pessoa <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">como ela<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> ocupando esse espa\u00e7o. Talvez o ambiente tamb\u00e9m seja um espa\u00e7o convidativo, mas o DJ \u00e9 quem faz a festa acontecer. Se n\u00e3o tem m\u00fasica, n\u00e3o tem festa. E quando tem rol\u00ea sem m\u00fasica, o primeiro pensamento que passa pela cabe\u00e7a \u00e9: \u201cbah, podiam colocar uma m\u00fasica aqui\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Como disse anteriormente, nunca fui em uma festa de discotecagem em vinil. \u00c9 meio vergonhoso da minha parte estar escrevendo um TEXT\u00c3O sobre esse assunto, sem nunca ter prestigiado uma. Engra\u00e7ado pensar que em todas as festas que vou funcionam com uma CDJ ou DDJ \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o do DJ. E os corpos que ocupam esse espa\u00e7o s\u00e3o variados, dissidentes e, portanto, queer. Nunca prestei aten\u00e7\u00e3o se haveriam mulheres tocando, porque isso sempre foi uma realidade. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Todos <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">os rol\u00eas que vou existem mulheres tocando os mais variados g\u00eaneros de m\u00fasicas, mas sempre com DDJs e CDJs, aparelhos consideravelmente modernos em rela\u00e7\u00e3o aos toca-discos.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O ponto que queremos chegar \u00e9: caso eu (Manu) fosse para uma festa, em que a mixagem \u00e9 feita a partir de toca-discos, os corpos que ocupam o espa\u00e7o do DJ seriam os <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">mesmos <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">das festas que j\u00e1 costumo frequentar?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Agora falando em nome de todos n\u00f3s, a presen\u00e7a do DJ \u00e9 indiscut\u00edvel para uma festa acontecer. Ele tem o papel de protagonista nos rol\u00eas: dita o ritmo, as m\u00fasicas e a energia que a pista ir\u00e1 receber. As pessoas decidem se ir\u00e3o ou n\u00e3o dependendo da line-up de cada festa. Para estar nesta posi\u00e7\u00e3o de import\u00e2ncia n\u00e3o \u00e9 preciso apenas refer\u00eancias, pesquisa, t\u00e9cnica e conhecimento mas, tamb\u00e9m, um equipamento.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A materialidade em que o DJ articula para a produ\u00e7\u00e3o de sets tamb\u00e9m recebe esse papel de destaque. Entretanto, parece que as mesas de disco ficam restritas a um grupo espec\u00edfico de pessoas, diferentemente das CDJs e DDJs. Em algumas conversas sobre este trabalho, Dorian chegou a comentar que frequenta a cena do Hip-Hop em Porto Alegre e que participou de duas batalhas de mixagem em vinil. Em ambas, ele era o \u00fanico participante n\u00e3o-homem cis presente na cena.<\/span><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Batalha Final.. Dj Ningu\u00e9m e Dj Bira..\" width=\"584\" height=\"329\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/x6hvHxkqZPg?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<div id=\"attachment_1955\" style=\"width: 449px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1955\" class=\"wp-image-1955\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/semsono\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/eu-819x1024.jpg\" alt=\"\" width=\"439\" height=\"547\" \/><p id=\"caption-attachment-1955\" class=\"wp-caption-text\">DJ Canello na Batalha de DJs de 1 ano do Museu do HipHop (Cr\u00e9ditos: Cristiano Rangel)<\/p><\/div>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Na primeira batalha em que foi, ele foi parabenizado por muitos ali presentes, principalmente por DJs j\u00e1 consolidados na cena, por\u00e9m a sua identidade de g\u00eanero foi invalidada ao ser reconhecido como a \u201c\u00fanica mulher\u201d a batalhar \u2014 mesmo sendo transmasculino e a produ\u00e7\u00e3o do evento tendo no\u00e7\u00e3o disso. Dorian, que \u00e9 uma pessoa transmasculina, foi anunciado e deixado reverberar como uma mulher cis.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Al\u00e9m disso, ele relata que a presen\u00e7a de corpos n\u00e3o-cismasculinos \u00e9 escassa na produ\u00e7\u00e3o desses eventos. Em uma festa em que foi chamado para tocar antes de uma das grandes refer\u00eancias dos vinis, o DJ KL Jay, integrante dos \u201cRacionais\u201d, havia apenas ele e mais uma MC mulher nesta fun\u00e7\u00e3o. Isso nos fez notar a falta da presen\u00e7a de corpos queer na cena da discotecagem em vinil. Afinal, seria ela inexistente ou invisibilizada?<\/span><\/p>\n<h1><b>Resgate hist\u00f3rico da discotecagem: isso explica tudo?<\/b><\/h1>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A discotecagem em vinil teve sua origem no contexto das r\u00e1dios, onde os discos eram utilizados, principalmente, como meios de reprodu\u00e7\u00e3o musical, sem a realiza\u00e7\u00e3o das t\u00e9cnicas que hoje associamos \u00e0 figura do DJ. Os toca-discos eram operados de forma muito funcional, sem interven\u00e7\u00f5es significativas.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Entretanto, a partir da d\u00e9cada de 1970, os discos e os toca-discos passaram a ser vistos de outra maneira. Come\u00e7am a enxergar esses dispositivos como instrumentos de cria\u00e7\u00e3o sonora. Ent\u00e3o, a partir disso, DJs come\u00e7am a manipular fisicamente os vinis, tocando, movimentando e explorando suas possibilidades expressivas para produzir novos sons, al\u00e9m daqueles j\u00e1 comportados nos vinis. A pr\u00e1tica da mixagem em dois toca-discos surgiu de forma espont\u00e2nea. Essas t\u00e9cnicas de manipula\u00e7\u00e3o s\u00e3o atribu\u00eddas a DJs homens, como o DJ Kool Herc e o DJ Grand Master Flasher. Al\u00e9m disso, em uma pesquisa super-r\u00e1pida, encontramos uma listagem de outros nomes considerados refer\u00eancias nesta \u00e1rea em que todos s\u00e3o masculinos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A partir dessas experimenta\u00e7\u00f5es, uma nova forma de produ\u00e7\u00e3o musical se consolidou e extrapolou o \u00e2mbito sonoro. Novos estilos de dan\u00e7a, roupas, linguagem visual e formas de sociabilidade passaram a se desenvolver em torno dessas pr\u00e1ticas, contribuindo para a forma\u00e7\u00e3o de uma cena cultural pr\u00f3pria que, posteriormente, seria reconhecida como a cultura Hip-Hop.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Embora a discotecagem e mixagem em vinil tenham desempenhado um papel fundamental no desenvolvimento da cultura Hip-Hop durante a d\u00e9cada de 70, essas pr\u00e1ticas tamb\u00e9m estavam presentes em diversos contextos musicais e festivos, como nas cenas de Disco, House e, posteriormente, Techno. Lembrando que essas cenas surgiram em comunidades negras e gays dos Estados Unidos (GARSON, 2018), contextos marginalizados e express\u00f5es consideradas restritas a estes p\u00fablicos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A partir da d\u00e9cada de 1990, novas tecnologias come\u00e7aram a transformar a pr\u00e1tica da discotecagem. Entre elas destacam-se as CDJs mencionadas anteriormente, equipamentos desenvolvidos para a reprodu\u00e7\u00e3o de m\u00fasicas armazenadas em dispositivos digitais, como pen drives, por exemplo. Diferentemente dos toca-discos, que dependem da leitura mec\u00e2nica de um disco de vinil, as CDJs realizam a leitura digital dos arquivos sonoros. Assim, algumas funcionalidades expressas nas CDJs reduziram as limita\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas associadas ao uso do vinil, como maior portabilidade de m\u00fasicas e uma praticidade inigual\u00e1vel, tendo em vista o tamanho de uma mesa de discotecagem em vinil em compara\u00e7\u00e3o a uma controladora. Isso contribuiu para a ampla ado\u00e7\u00e3o desses equipamentos em clubes, festivais e eventos de grande porte \u2014 tirando o fato de que o custo monet\u00e1rio de um CDJ \u00e9 consideravelmente menor ao custo de uma Pick Up (mesa de discotecagem em vinil), o que tamb\u00e9m influencia essa ader\u00eancia aos aparelhos.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\"> <div id=\"metaslider-id-1963\" style=\"max-width: 700px;\" class=\"ml-slider-3-110-0 metaslider metaslider-flex metaslider-1963 ml-slider has-dots-nav ms-theme-default-base\" role=\"region\" aria-label=\"discotecagem em vinil\" data-height=\"500\" data-width=\"700\">\n    <div id=\"metaslider_container_1963\">\n        <div id=\"metaslider_1963\">\n            <ul aria-live='off' class='slides'>\n                <li style=\"display: block; width: 100%;\" class=\"slide-1964 ms-image \" aria-roledescription=\"slide\" data-date=\"2026-06-30 20:34:27\" data-filename=\"pick-ups-700x500.jpg\" data-slide-type=\"image\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/semsono\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/pick-ups-700x500.jpg\" height=\"500\" width=\"700\" alt=\"\" class=\"slider-1963 slide-1964 msDefaultImage\" title=\"pick ups\" \/><div class=\"caption-wrap\"><div class=\"caption\"><div><span style=\"font-weight:400;\">Exemplifica\u00e7\u00e3o de um PickUP (<\/span><span style=\"font-weight:400;\">Arquivo pessoal: Manu e Dorian)<\/span><\/div><\/div><\/div><\/li>\n                <li style=\"display: none; width: 100%;\" class=\"slide-1965 ms-image \" aria-roledescription=\"slide\" data-date=\"2026-06-30 20:34:27\" data-filename=\"imagem-1-scaled-700x500.jpg\" data-slide-type=\"image\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/semsono\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/imagem-1-scaled-700x500.jpg\" height=\"500\" width=\"700\" alt=\"\" class=\"slider-1963 slide-1965 msDefaultImage\" title=\"imagem 1\" \/><div class=\"caption-wrap\"><div class=\"caption\"><div><span style=\"font-weight:400;\">Exemplifica\u00e7\u00e3o de uma CDJ (<\/span><span style=\"font-weight:400;\">Arquivo pessoal: Manu e Dorian)<\/span><\/div><\/div><\/div><\/li>\n            <\/ul>\n        <\/div>\n        \n    <\/div>\n<\/div><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Bom, algumas quest\u00f5es nos deixaram bem inquietos ao longo dessa contextualiza\u00e7\u00e3o. A cultura do DJ surgiu, principalmente, em espa\u00e7os marginalizados, protagonizados por corpos dissidentes, como pessoas negras e homossexuais, atuando nela. Mas, apesar dessa origem, as refer\u00eancias que temos hoje de pessoas que utilizam mesas de disco de vinil para mixar s\u00e3o, em sua maioria, composta por homens cis-heteronormativos. O que h\u00e1 afinal, na pr\u00e1tica da mixagem que se aproxima da masculinidade? Por que, mesmo tendo emergido em um contexto dissidente, essa t\u00e9cnica passou a ser t\u00e3o fortemente associada a um determinado g\u00eanero? Estaria essa rela\u00e7\u00e3o ligada a alguma no\u00e7\u00e3o de autenticidade? Ou haveria uma fascina\u00e7\u00e3o pela materialidade e pela sonoridade do vinil que dialoga com certos imagin\u00e1rios masculinos, assim como ocorreu com os equipamentos Hi-Fi, cuja promessa de alta fidelidade sonora mobilizou formas espec\u00edficas de consumo e de desejo tecnol\u00f3gico na d\u00e9cada de 70 (CONTER, 2016)? Talvez essa presen\u00e7a masculina t\u00e3o marcante n\u00e3o seja uma coincid\u00eancia, mas um sintoma de processos mais amplos de generifica\u00e7\u00e3o das tecnologias sonoras. Afinal, o que tudo isso tem a ver com identidade de g\u00eanero?<\/span><\/p>\n<h1><b>Seria a discotecagem em vinil um ritornelo tecnol\u00f3gico da autenticidade?<\/b><\/h1>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Tocar em vinil \u00e9 frequentemente associado a uma pr\u00e1tica de maior legitimidade e autenticidade art\u00edstica. Isso acontece tanto fora da cultura DJ \u2014 eu (Manu), por exemplo, que n\u00e3o fa\u00e7o ideia de como montar\/mixar um set de uma hora ininterrupta, tamb\u00e9m associo a pr\u00e1tica a isso \u2014, quanto dentro dela. Atrav\u00e9s do Dorian, conseguimos entrevistar a DJ Lais Regina, reconhecida atualmente como a \u00fanica mulher do estado do Rio Grande do Sul a mixar por meio de discos de vinil. \u00c9 muito curioso pensar que, at\u00e9 aqui, a Lais seja o segundo corpo n\u00e3o-cismasculino a ser citado como algu\u00e9m que trabalha com esse tipo de express\u00e3o cultural. Em entrevista, ela afirma optar por essa pr\u00e1tica porque, por meio dela, consegue \u201csentir a m\u00fasica\u201d, ressaltando a dimens\u00e3o material f\u00edsica ao contato direto com os discos.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Gostar\u00edamos de ressaltar o relato do Dorian, como uma pessoa que est\u00e1 inserida dentro da cultura DJ e que acompanhou algumas discuss\u00f5es em grupos de DJs e em conversas informais sobre o uso de CDJs e DDJs. Nessas intera\u00e7\u00f5es, o debate se voltava principalmente para a legitimidade da discotecagem em vinil em compara\u00e7\u00e3o \u00e0s tecnologias mais modernas, posicionando os toca-discos como instrumentos \u201cmais aut\u00eanticos\u201d e que exigem maior bagagem pr\u00e1tica do ponto de vista t\u00e9cnico.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Nesse contexto, acreditamos que o culto ao vinil parece estar ligado a uma certa dedica\u00e7\u00e3o, ao investimento financeiro e ao conhecimento cultural\/musical que ele pode simbolizar. Essa discuss\u00e3o nos faz lembrar de alguns assuntos que tratamos em aula, sobre autenticidade e como a valoriza\u00e7\u00e3o do \u201cobsoleto\u201d prevalece sob materialidades \u201cmodernas\u201d. O cap\u00edtulo 4, de \u201cLo-Fi: m\u00fasica pop em baixa defini\u00e7\u00e3o\u201d, de Conter (2016), inicia com a seguinte cita\u00e7\u00e3o: \u201cUma coisa \u00e9 certa: antes que este s\u00e9culo acabe, o t\u00e3o poderoso iPod vai soar t\u00e3o primitivo e ex\u00f3tico quanto o fon\u00f3grafo de cilindro de Edison soa hoje. Tudo o que vai, volta.\u201d (p. 127). Os toca-discos parecem representar esse primitivismo, fato que faz com eles \u201cvoltem\u201d para a atualidade. Mas para quem eles est\u00e3o voltando? Quais identidades est\u00e3o aptas a prestigiar esta volta?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Achamos peculiar pensar como a ader\u00eancia a essas materialidades est\u00e1 associada, principalmente, \u00e0 autenticidade que elas podem simbolizar. O fato das mesas de vinil serem aparelhagens que marcaram os prim\u00f3rdios da cultura do Hip-Hop, consideradas \u201cvintage\u201d, caras e robustas, para n\u00f3s, est\u00e1 ligado ao \u201cparecer aut\u00eantico\u201d. O relato da DJ Lais, sobre sentir a m\u00fasica atrav\u00e9s do tato, expande ainda mais essa discuss\u00e3o. Parece que tem algo m\u00edstico em torno do vinil. Um culto ao vinil, retr\u00f4, antigo, diferente, ultrapassado, \u201ceu sinto a m\u00fasica e voc\u00ea n\u00e3o\u201d, capital, \u201ceu tenho dinheiro para gastar com muitos vinis e voc\u00ea n\u00e3o\u201d.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">N\u00e3o queremos, de forma alguma, desmerecer ou criticar as formas de se relacionar com a arte, pelo contr\u00e1rio, todos os relatos apresentados s\u00e3o vistos como caminhos que nos ajudam a refletir sobre a forma como nos relacionamos com as m\u00eddias sonoras, o que pode resultar, inclusive, em formas de exclus\u00f5es sociais.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Durante nossas pesquisas, percebemos que a cena porto-alegrense da discotecagem em vinil \u00e9 protagonizada majoritariamente por homens cisg\u00eaneros, que frequentemente disp\u00f5em de maior reconhecimento e legitimidade para ocupar esses espa\u00e7os. Diante desse cen\u00e1rio, achamos interessante investigar de que maneira as materialidades da discotecagem em vinil articulam como marcadores de g\u00eanero e participa\u00e7\u00e3o social, contribuindo para a invisibiliza\u00e7\u00e3o de corpos queer nessa cena.\u00a0<\/span><\/p>\n<h1><b>Binarismo brega. Afinal, disco \u00e9 coisa de mulher?<\/b><\/h1>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Essas quest\u00f5es tamb\u00e9m nos levam a questionar se o reconhecimento dessa pr\u00e1tica como mais \u201cgenu\u00edna\u201d ou \u201caut\u00eantica\u201d est\u00e1 relacionado apenas \u00e0s especificidades t\u00e9cnicas e materiais ou se tamb\u00e9m se articula a quest\u00f5es de g\u00eanero e sexualidade. \u00c9 fato que a cena da discotecagem em vinil de Porto Alegre \u00e9 marcada por uma predomin\u00e2ncia masculina e, por isso, torna-se relevante investigar os motivos de corpos dissidentes que ocupam estes espa\u00e7os n\u00e3o serem amplamente conhecidos.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Ainda sobre a entrevista, a DJ Lais Regina destaca que os homens \u2014 aqueles que se encaixam nos padr\u00f5es cis-heteronormativos \u2014 encontram maior facilidade para ingressar na discotecagem em vinil, tendo em vista a disponibilidade de refer\u00eancias e modelos de identifica\u00e7\u00e3o dentro da pr\u00f3pria cena. Esse relato nos fez pensar na rela\u00e7\u00e3o com a reflex\u00e3o de Vilutis (2009), para quem a escolha e a participa\u00e7\u00e3o cultural s\u00f3 se tornam poss\u00edveis por meio da \u201cpr\u00e1xis\u201d e da experimenta\u00e7\u00e3o. Em outras palavras, \u00e9 necess\u00e1rio ter acesso pr\u00e9vio aos espa\u00e7os, aos equipamentos e \u00e0s experi\u00eancias que possibilitam a constru\u00e7\u00e3o de territ\u00f3rios de pertencimento.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Em uma pesquisa sobre m\u00fasica e g\u00eanero, Dias e Farias (2020)\u00a0apontam uma discuss\u00e3o formulada por Straw (1997) sobre a constru\u00e7\u00e3o da masculinidade, lida a partir do colecionismo. Para ele, a cole\u00e7\u00e3o de discos vai al\u00e9m do sentimento autorit\u00e1rio de posse e se configura como uma forma de produ\u00e7\u00e3o de g\u00eanero: \u201c[&#8230;] os discos e a afirma\u00e7\u00e3o de poder atrav\u00e9s das cole\u00e7\u00f5es s\u00e3o apenas res\u00edduos f\u00edsicos de uma estrutura social complexa que articula ideias de masculinidades.\u201d (Dias; Farias, 2020, p.7). Essa forma de produ\u00e7\u00e3o de g\u00eanero, ao nosso ver, est\u00e1 muito ligada ao que falamos anteriormente sobre autenticidade, o que restringe um grau de &#8220;alternatividade\u201d e import\u00e2ncia ao corpo normativo que atua nesta cena. Assim como o colecionismo, a discotecagem em vinil parece uma express\u00e3o atrelada ao g\u00eanero masculino, criando um apagamento hist\u00f3rico de corpos dissidentes que tamb\u00e9m ocupam a cena.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Nesse contexto, a baixa presen\u00e7a \u2014 ou invisibilidade p\u00fablica \u2014 de corpos queer na cena da discotecagem em vinil \u00e9 vista, por n\u00f3s, como parte de uma grande quest\u00e3o estrutural e cultural, que \u00e9 atravessada pela distribui\u00e7\u00e3o desigual de oportunidades, refer\u00eancias e formas de reconhecimento. Dessa forma, a legitimidade atribu\u00edda ao vinil parece estar vinculada tanto a sua autenticidade, quanto \u00e0s rela\u00e7\u00f5es de poder que historicamente definem quais corpos podem e devem ocupar, com maior facilidade, espa\u00e7os de visibilidade dentro da cultura de discotecagem.\u00a0<\/span><\/p>\n<h1><b>A performance do \u201cDJ leg\u00edtimo\u201d<\/b><\/h1>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A presen\u00e7a da figura do DJ pode ser entendida como um dos pontos centrais de uma festa, o que concede certo \u201cpoder\u201d \u00e0quele que est\u00e1 tocando. Parece haver uma marca\u00e7\u00e3o f\u00edsica muito potente em mesas de toca-discos, tendo em vista o tamanho delas, os numerosos materiais \u2014 sendo os dois toca-discos, o mixer e, em alguns modelos, o notebook e cabos \u2014 que envolvem o seu funcionamento, possuindo uma imposi\u00e7\u00e3o ainda maior que as CDJs. Dessa forma, tamb\u00e9m nos questionamos se essa potencialidade, voltada para a complexidade material das mesas, exige um certo afastamento de corpos dissidentes.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Lais Regina oferece um exemplo dessa din\u00e2mica. Ao relatar sua experi\u00eancia como DJ de vinil, ela destaca que muitas pessoas n\u00e3o associam mulheres ao dom\u00ednio desses equipamentos: \u201cAs pessoas, ainda hoje, acham que tu \u00e9 qualquer parte de uma produ\u00e7\u00e3o menos a pessoa que vai ser a DJ (&#8230;)\u201d. Seu relato evidencia como determinadas expectativas de g\u00eanero influenciam a percep\u00e7\u00e3o sobre quem \u00e9 considerado capaz de ocupar a posi\u00e7\u00e3o de autoridade t\u00e9cnica representada pela figura do DJ.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A partir dessa perspectiva, \u00e9 poss\u00edvel pensar a figura do \u201cDJ leg\u00edtimo\u201d como uma constru\u00e7\u00e3o cultural sustentada por signos semi\u00f3ticos que associam compet\u00eancia t\u00e9cnica, autoridade musical e dom\u00ednio tecnol\u00f3gico a formas espec\u00edficas de masculinidade. Dias e Farias (2020) apresentam como a m\u00fasica, juntamente de seus s\u00edmbolos e discursos, \u00e9 um dos instrumentos que moldam constru\u00e7\u00f5es e no\u00e7\u00f5es de identidades nas \u201cdimens\u00f5es de poder\u201d exercidas por elas. Assim, compreendemos que, por meio da performatiza\u00e7\u00e3o de g\u00eanero, esses signos foram socialmente vinculados ao masculino, produzindo efeitos concretos sobre quem \u00e9 reconhecido como apto a ocupar espa\u00e7os de prest\u00edgio e visibilidade dentro da cultura da discotecagem.\u00a0<\/span><\/p>\n<h1><b>Invisibilidade ou inexist\u00eancia? Acesso \u00e0 discotecagem<\/b><\/h1>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Nos \u00faltimos anos, surgiram iniciativas como o projeto <\/span><a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/ogirodelas\/\"><span style=\"font-weight: 400;\">O Giro Delas<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">, idealizado pelas DJs Lais Regina e Luizza, em Porto Alegre. Destinado a discotecagem exclusivamente para mulheres, o projeto nasceu com o prop\u00f3sito de enfrentar a desigualdade de g\u00eanero nesse meio. Dessa forma, ele busca capacitar atrav\u00e9s de oficinas, mentorias e oferecendo conhecimento para ampliar a participa\u00e7\u00e3o feminina, possibilitando que mulheres DJs desenvolvam habilidades t\u00e9cnicas, conquistem oportunidades e alcancem maior visibilidade na cena musical.<\/span><\/p>\n<div id=\"attachment_1971\" style=\"width: 594px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1971\" class=\"wp-image-1971 size-large\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/semsono\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Imagem2-1024x683.jpg\" alt=\"\" width=\"584\" height=\"390\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/semsono\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Imagem2-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/semsono\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Imagem2-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/semsono\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Imagem2-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/semsono\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Imagem2-450x300.jpg 450w, https:\/\/www.ufrgs.br\/semsono\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Imagem2.jpg 1080w\" sizes=\"auto, (max-width: 584px) 100vw, 584px\" \/><p id=\"caption-attachment-1971\" class=\"wp-caption-text\">O Giro Delas (<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/p\/DLsX7rtOfas\/?utm_source=ig_web_copy_link&amp;igsh=MzRlODBiNWFlZA%3D%3D&amp;img_index=3\">Fonte<\/a>)<\/p><\/div>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Outro projeto que encontramos voltado a mulheres na discotecagem \u00e9 o coletivo<\/span> <a href=\"https:\/\/www.uhmanastv.com\/\"><span style=\"font-weight: 400;\">Uh!Manas<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">TV<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">,<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"> formado pelas DJs Carlu, Mary e Vanessa, em julho de 2020. Com o objetivo de combater a misoginia presente na ind\u00fastria cultural e promover a representatividade feminina nesses espa\u00e7os. Importante ressaltar que essa iniciativa se iniciou e ocorre no estado de S\u00e3o Paulo, uma das principais capitais culturais do Brasil. Al\u00e9m de oferecer oportunidades de aprendizado e profissionaliza\u00e7\u00e3o, iniciativas como essas contribuem para a constru\u00e7\u00e3o de ambientes mais acolhedores e a forma\u00e7\u00e3o de redes de apoio entre mulheres que dividem experi\u00eancias semelhantes. O projeto apresenta essa trajet\u00f3ria de resist\u00eancia e valoriza\u00e7\u00e3o, destacando a import\u00e2ncia da representatividade feminina e tornando a discotecagem mais diversa e plural.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Quando mulheres assumem o papel de educadoras, mentoras e refer\u00eancias dentro da cultura do vinil, elas desafiam estruturas j\u00e1 consolidadas de reconhecimento e legitimidade, desconstruindo estere\u00f3tipos de g\u00eaneros associados \u00e0 compet\u00eancia t\u00e9cnica e ao dom\u00ednio dos equipamentos de discotecagem.\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A presen\u00e7a de figuras femininas neste papel representativo tamb\u00e9m declara uma import\u00e2ncia grande para que dissid\u00eancias de g\u00eanero vejam possibilidades de pertencimento a essa forma de express\u00e3o. Em Porto Alegre, bimestralmente ocorrem oficinas de DJs com toca discos, focado na cena Hip Hop. Nelas, percebe-se a grande presen\u00e7a de mulheres e pessoas da comunidade LGBTQIAPN+ nas aulas. Em contrapartida, no munic\u00edpio de Esteio, ocorrem exatamente as mesmas oficinas, de mesmo formato, entretanto, a presen\u00e7a de corpos dissidentes n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o comum. Essa an\u00e1lise se deu n\u00e3o apenas em buscas por m\u00eddias em redes sociais, mas por participa\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias do grupo nas aulas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">H\u00e1 fatores em que acreditamos que sejam essenciais para essa mudan\u00e7a: a territorialidade e a identidade dos professores. Na capital, quem ministra as aulas \u00e9 uma mulher e em Esteio, um homem. Al\u00e9m disso, a pr\u00f3pria territorialidade exerce esse papel de diferencia\u00e7\u00e3o. A migra\u00e7\u00e3o de pessoas queer para a capital em busca de oportunidades e lugares de acolhimento \u00e9 algo constante. Assim, \u00e9 at\u00e9 esperado que a normatividade esteja mais presente em um munic\u00edpio conhecido por \u201ccidade dormit\u00f3rio\u201d. As aulas, principalmente quando feitas de maneiras gratuitas, s\u00e3o formas de deixar a cultura e o fazer discotecagem mais acess\u00edvel, uma vez que, os materiais \u2014 extremamente caros \u2014 s\u00e3o postos \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o dos participantes.\u00a0<\/span><\/p>\n<h1><b>Considera\u00e7\u00f5es Finais<\/b><\/h1>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Ao longo deste texto, buscamos investigar a invisibilidade de corpos queer na cena da discotecagem em vinil de Porto Alegre, partindo do questionamento acerca da predomin\u00e2ncia cis-masculina nesse universo. Observamos, principalmente, que as materialidades, os discursos de autenticidade e as formas de reconhecimento que estruturam a cultura do vinil est\u00e3o profundamente atravessados por rela\u00e7\u00f5es de g\u00eanero, poder e acesso.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Gostar\u00edamos de pontuar que essa predomin\u00e2ncia \u00e9 sustentada por uma vis\u00e3o normativa sobre as formas de performar a masculinidade. Embora a cena seja majoritariamente ocupada por homens brancos, cisg\u00eaneros e heterossexuais, ela tamb\u00e9m \u00e9 composta por corpos dissidentes que, apesar de presentes, permanecem frequentemente invisibilizados. Os relatos de Dorian e de La\u00eds evidenciam como os espa\u00e7os destinados \u00e0 express\u00e3o desses corpos s\u00e3o limitados e como as viol\u00eancias que atravessam suas experi\u00eancias assumem contornos distintos. Enquanto La\u00eds tem sua legitimidade como DJ constantemente colocada em xeque, Dorian enfrenta a invalida\u00e7\u00e3o de sua pr\u00f3pria identidade de g\u00eanero.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O que nos resta aqui s\u00e3o apenas inquieta\u00e7\u00f5es e perguntas que permanecem em aberto. Como uma cena que teve sua origem em um contexto marginalizado passou a invisibilizar, em sua pr\u00f3pria atua\u00e7\u00e3o, os corpos dissidentes que contribu\u00edram para a sua constitui\u00e7\u00e3o? Por que, mesmo tendo sido historicamente constru\u00edda por pessoas negras, LGBTQIAPN+ e outros grupos subalternizados, a cena contempor\u00e2nea de Porto Alegre \u00e9 predominantemente representada por homens brancos e cis-heterossexuais?\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h1><b>Refer\u00eancias<\/b><\/h1>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">CONTER, Marcelo Bergamin. RITORNELOS TECNOL\u00d3GICOS DA AUTENTICIDADE. In: CONTER, Marcelo Bergamin. <\/span><b>LO-FI : m\u00fasica pop em baixa defini\u00e7\u00e3o<\/b><span style=\"font-weight: 400;\">. Curitiba: Apris, 2016. p. 127-156.\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">FURLAN, Pedro.<\/span><b> Legado e resist\u00eancia: mulheres contam suas hist\u00f3rias com a discotecagem de vinil. <\/b><span style=\"font-weight: 400;\">2025. Dispon\u00edvel em: <\/span><a href=\"https:\/\/www.noize.com.br\/mulheres-djs-discotecam-com-vinil\"><span style=\"font-weight: 400;\">https:\/\/www.noize.com.br\/mulheres-djs-discotecam-com-vinil<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">GARSON, Marcelo. M\u00fasica eletr\u00f4nica, a forma\u00e7\u00e3o de uma cultura. <\/span><b>Latitude<\/b><span style=\"font-weight: 400;\">, Macei\u00f3-AL, Brasil, v. 12, n. 1, p. 130, 2019. DOI: 10.28998\/lte.2018.n.1.5169. Dispon\u00edvel em: <\/span><a href=\"https:\/\/periodicos.ufal.br\/latitude\/article\/view\/106\"><span style=\"font-weight: 400;\">https:\/\/periodicos.ufal.br\/latitude\/article\/view\/106.<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">MORENA MELO DIAS; DANIEL OLIVEIRA DE FARIAS. M\u00daSICA CONSTR\u00d3I G\u00caNERO?. In: ANAIS DO 29\u00b0 ENCONTRO ANUAL DA COMP\u00d3S, 2020, Campo Grande. Anais eletr\u00f4nicos&#8230;, Galo\u00e1, 2020.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">NUNES, William. <\/span><b>Levando o vinil para a pista de dan\u00e7a<\/b><span style=\"font-weight: 400;\">. Dispon\u00edvel em: <\/span><a href=\"https:\/\/prd.itau-cultural.fundacaoitau.org.br\/secoes\/entrevista\/levando-vinil-para-pista-danca\"><span style=\"font-weight: 400;\">https:\/\/prd.itau-cultural.fundacaoitau.org.br\/secoes\/entrevista\/levando-vinil-para-pista-danca<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">OLIVA, Gabriela. <\/span><b>Uh!Manas: projeto aposta em combater misoginia na ind\u00fastria cultural garantindo visibilidade de mulheres DJs<\/b><span style=\"font-weight: 400;\">. Dispon\u00edvel em: <\/span><a href=\"https:\/\/oglobo.globo.com\/celina\/uhmanas-projeto-aposta-em-combater-misoginia-na-industria-cultural-garantindo-visibilidade-de-mulheres-djs-24617897\"><span style=\"font-weight: 400;\">https:\/\/oglobo.globo.com\/celina\/uhmanas-projeto-aposta-em-combater-misoginia-na-industria-cultural-garantindo-visibilidade-de-mulheres-djs-24617897<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">VILUTIS, Luana. Cultura e juventude: a forma\u00e7\u00e3o dos jovens nos Pontos de Cultura. 2009. Disserta\u00e7\u00e3o (Mestrado em Educa\u00e7\u00e3o) &#8211; Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o, Universidade de S\u00e3o Paulo, S\u00e3o Paulo, 2009. Dispon\u00edvel em: &lt;doi:10.11606\/D.48.2009.tde-23092009-132908&gt;.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bruna Silveira, Dorian Ali Canello Padilha, Kerolyn Grasel Ferreira e Manuela Vilagran da Silva N\u00e3o sei exatamente como come\u00e7ar este texto. Afinal, nunca fui em uma festa com discotecagem em vinil. 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