A agricultura urbana como solução

Ilustração agricultura urbana
Ficha técnica: Sem Título Técnica utilizada: aquarela ano: 2020

Iniciativas mostram os diferentes formatos da agricultura urbana e como ela pode ajudar,
principalmente neste contexto de pandemia

REPORTAGEM
Camila Pessôa

camilafpessoa9@gmail.com

ILUSTRAÇÃO
Clara Santi

Vivo rodeada de mato, mais especificamente por árvores frutíferas, hortaliças e sistemas de aproveitamento de matéria orgânica, como compostagem e aquaponia, que produzem alimentos para a nossa casa e também para amigos e familiares. Ao mesmo tempo, moro numa capital, Aracaju. Ou seja, eu e minha família somos exemplo de quem cultiva a agricultura urbana, que, em época de pandemia, ganhou novos significados.

Janela. Camila Pessoa.
As árvores,em sua maioria frutíferas, deixam o quintal com uma cara de mata e dividem espaço com galinhas, um tanque de peixes e uma horta | Foto: Camila Pessôa

Em um contexto de emergência, marcado pela fome e o desemprego, a agricultura urbana, em seus diversos formatos, mostra-se um caminho não só para a situação atual, mas também como solução de longo prazo. 

Horta na minha casa. Por Camila Pessoa.
Tomates, capim-limão, hortelã, manjericão, melão e maracujá são alguns dos alimentos cultivados no nosso quintal | Foto: Camila Pessôa
Hortas na geração de emprego

Em 2003, nascia um projeto revolucionário para a época. O objetivo era ajudar as pessoas que não conseguiam se inserir no mercado formal de trabalho. A primeira opção era desenvolver um projeto voltado ao empreendedorismo, mas muitos não tinham escolaridade e experiência profissional para manter um negócio. Quando o idealizador e presidente, Hans Dieter, teve uma experiência na Europa e, lá, constatou que a terra disponível é aproveitada ao máximo, teve uma ideia: gerar alimento e fonte de renda a partir do aproveitamento de espaços urbanos. Assim surgiu a ONG Cidades sem Fome

Horta Cidade sem Fome. Pauta Camila Pessoa.
Para Hans Dieter, presidente da ONG Cidades sem Fome, a iniciativa fez com que as pessoas começassem a entender que o espaço urbano pode ser muito mais que indústria e prestação de serviços | Foto: Facebook da Cidades sem Fome / Divulgação

A organização constrói hortas em espaços urbanos da periferia de São Paulo, onde trabalham pessoas da comunidade ao redor. Os alimentos são vendidos, gerando renda para os trabalhadores, que também garantem suas vendas com parcerias com bares, restaurantes, shoppings centers e hotéis. Segundo Hans, para os parceiros é mais interessante conseguir o alimento direto da periferia de São Paulo do que trazê-lo de caminhão do interior, por centenas de quilômetros. 

Andrea de Freitas mantinha uma chácara e vivia de sua produção, mas, depois de uma enchente, sua terra ficou improdutiva. Desempregada e lidando com depressão, ela teve contato com a ONG e recebeu uma proposta de trabalho em uma das hortas. Sua saúde mental melhorou e ela diz que se sentiu valorizada. “As hortaliças são todas orgânicas e com um preço bem razoável, então o pessoal tem elogiado bastante.”

Durante a pandemia, empresas procuraram a Cidades sem Fome para contratar os serviços e comprar hortaliças para compor bolsas de alimentos, que foram distribuídas em favelas. Observando a demanda dessas empresas por alimentos saudáveis e eficazes no combate à fome, a ONG montou kits. Segundo Hans, mais de 2 mil bolsas de alimento com produção das hortas foram distribuídas, ajudando a população e gerando recurso para manter as hortas urbanas e seus trabalhadores.

Construindo hortas comunitárias 

O Movimento dos Trabalhadores sem Teto (MTST), fundado em 1997, defende o direito à moradia e tem como principal meio de atuação as ocupações de imóveis que não exercem sua função social. Há cerca de três anos, o movimento começou a cultivar alimentos em algumas ocupações pelo Brasil. Goiânia e São Paulo são duas das cidades que já estabeleceram hortas nas ocupações. De acordo com Rogério da Cunha, coordenador do MTST em Goiás, na Ocupação Fidel Castro, em Goiânia, já existem quatro hortas. Os alimentos produzidos vão para a cozinha coletiva e também servem para suprir necessidades dos acampados. O solo, que antes era muito seco, foi tratado para receber a horta. Eles deixaram a terra fofa, colocaram cal virgem, sal mineral e outros aditivos. 

Horta do MTST em Goiânia. Reportagem de Camila Pessoa.
Durante o período da Pandemia, a horta ajudou os moradores da Ocupação Fidel Castro e seus parentes, que muitas vezes não tinham nada além de feijão e arroz para comer | Foto: Rogério da Cunha / Divulgação

“Reza a lenda que nessa ocupação que a gente conseguiu fazer a horta já era a terceira ou quarta tentativa. E era uma coisa já meio desanimada. Quando a gente chegou lá para conversar, eles falaram ‘olha, a gente quer horta, mas a gente sabe que aqui não nasce nadA”’

JULIANA BRUNO, coordenadora do grupo de hortas do MTST em São Paulo

Mesmo com todo o tratamento, inicialmente as plantas não se desenvolveram bem. Percebendo que a cozinha coletiva gerava muitos restos de alimentos, os trabalhadores decidiram fazer compostagem. Cavaram buracos e os preencheram, alternando camadas de material orgânico da cozinha, serragem e mato seco. Depois de dois meses, o material estava pronto para ser usado como adubo. Os resultados foram bons. “A gente começou a perceber que a horta ficou mais viva, com folhas mais grossas, chegamos a ter folhas de couve com 50 centímetros, medindo do caule até a ponta, tudo totalmente orgânico”, explica Rogério. Desde então, eles testaram novas técnicas e têm aperfeiçoado o cultivo. 

Como mostrou a experiência em Goiânia, uma horta nem sempre dá certo na primeira tentativa. Na horta Chico Mendes, da Ocupação Esperança Vermelha, de São Paulo, ocorreu o mesmo. “Reza a lenda que nessa ocupação que a gente conseguiu fazer a horta já era a terceira ou quarta tentativa. E era uma coisa já meio desanimada. Quando a gente chegou lá para conversar, eles falaram ‘olha, a gente quer horta, mas a gente sabe que aqui não nasce nada’”, conta Juliana Bruno, coordenadora do grupo de hortas do MTST de São Paulo. “Trabalhar o solo é demorado. É um cuidado que leva algumas semanas.” 

Mas quando a horta supera essas dificuldades iniciais, o seu desenvolvimento traz uma série de benefícios, principalmente em tempos difíceis de pandemia. A produção da horta Chico Mendes serve inteiramente para alimentar as cerca de 50 famílias acampadas e a população do entorno. Segundo Luciana Silva, coordenadora da ocupação, foi no período da pandemia que os moradores mais precisaram de alimento.

Em um país que, em 2018, voltou ao Mapa da Fome e está numa lista de países considerados “epicentro emergente da fome extrema” na crise causada pela pandemia de coronavírus, essas iniciativas são importantes. O movimento também fez uma campanha de distribuição de cestas básicas e, segundo Luciana, o alimento produzido na horta serviu para fortalecer essa alimentação. 

Horta do MTST em São Paulo. Reportagem da Camila Pessoa.
Renata Correia, participante do MTST, segura um pé de alface roxo da primeira colheita de hortaliças da horta Chico Mendes | Foto: Reprodução do Facebook da horta Chico Mendes/ Divulgação
Fazendo uma horta em casa

Isis Braga, funcionária da prefeitura de São Luís, sempre teve horta em casa. Ela é mineira e mora na capital maranhense há 30 anos. Seu quintal é relativamente pequeno, mas isso não a impede de ter uma horta produtiva e com muita variedade, que trouxe benefícios que vão além dos alimentos saudáveis e orgânicos. 

Foto 6: Horta da Isis. Camila Pessoa.
Boldo, babosa, manjericão, rúcula, couve, alho poró e orégano são algumas das plantas presentes na horta de Isis | Foto: Isis Braga

A horta ajudou Isis com problemas decorrentes da pandemia. Ela teve uma forte crise de ansiedade durante o isolamento, após passar 40 dias sem sair de casa, e a horta ajudou no processo de recuperação e estabilização. Depois da crise, ela passou a tomar um remédio que demora trinta minutos para fazer efeito. Todas as manhãs, enquanto a medicação ainda não fez efeito, ela cuida da horta para permanecer estável. Criar uma rotina foi também uma recomendação médica. Então Isis foi desenvolvendo um ritmo de cuidado com as plantas no seu dia a dia, e isso a ajudou a manter sua saúde mental. 

O efeito terapêutico da horta em Isis tem explicação. É uma forma de se ocupar, de fazer a pessoa se sentir produtiva. “O cultivo da horta pode ser muito bom também para as pessoas em geral que estão passando por esses processos de ansiedade, de ruptura de contato com a vida que a pandemia provocou”, diz o psicólogo e mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente André Luiz Borges. No cultivo de uma horta há uma relação direta com algo concreto. Você lida com diversos elementos, como terra, água e sol, e precisa manter um nível de presença. André diz também que há uma relação estabelecida com o tempo: uma sequência de eventos a ser acompanhada e a partir da qual você vai avaliar os resultados do seu trabalho. Além disso, você precisa ajustar o trabalho a medida que avalia os seus resultados. Essas relações podem ensinar a lidar melhor com aspectos como a espera, o cuidado e a concentração. 

E que tal incentivar tudo isso?

Às vezes, de uma muda pode crescer uma comunidade mais unida e, principalmente, bem alimentada. O projeto de doação de mudas do Instituto Popular de Arte e Educação (IPDAE) no bairro Lomba do Pinheiro, em Porto Alegre, conseguiu fazer isso. O projeto começou no final de abril deste ano, quando foram distribuídas 200 mudas. Em maio, foram mais mil. O IPDAE fez um acompanhamento das pessoas que foram beneficiadas. Pediram fotos e foram às casas delas. Fátima Flores, presidente da instituição, diz que as pessoas estão motivadas a fazer suas hortas. Elas também perceberam uma necessidade de complementar sua alimentação de forma mais saudável. “Se a pessoa tem um feijão, um arroz com couve, uma salada, uma cebolinha, um alface, um almeirão, já é uma alimentação rica”, diz Fátima. Desenvolvendo o projeto, o instituto percebeu que não é difícil mudar os hábitos e atitudes das pessoas. Basta uma instigação. 

Foto 7: Doação de mudas. Camila Pessoa.
De acordo com Fátima, presidente do Instituto Popular de Arte e Educação, pessoas que pegaram mudas na instituição no início do ano voltaram na última distribuição para doar mudas resultantes de suas hortas | Foto: Juliano Blotta / Divulgação

“Eu ouvi de muitas pessoas: ‘ora, pode deixar que eu vou fazer [uma horta] porque eu não quero passar pelo que eu passei de não ter uma mistura em casa’”

FÁTIMA FLORES, presidente do Instituto Popular de Arte e Educação

No contexto de pandemia, o projeto ajudou a suprir muitas necessidades. Pessoas que estão passando por dificuldades extremas têm a sua horta como recurso para a alimentação. Em meio a uma crise de desemprego, cuidar da horta é uma ocupação para as pessoas. Elas também retomaram uma prática que era tradicional da Lomba do Pinheiro, que há cerca de 40 anos era um bairro agrícola. Além de se conectar com costumes de seus pais e avós, as famílias passaram a interagir mais entre si. A troca de receitas e mudas também ajudou a unir os moradores. As hortas serviram como refúgio, contribuindo para a saúde mental e física das pessoas. “Eu ouvi de muitas pessoas: ‘ora, pode deixar que eu vou fazer, porque eu não quero passar pelo que eu passei de não ter uma mistura em casa’”, diz Fátima. As pessoas estão procurando alternativas de alimentação por causa do desemprego e da elevação dos preços de alimentos básicos. Segundo Fátima, além da divulgação e do “boca a boca”, esses foram motivos para o aumento da procura por mudas durante esse período de pandemia. Na última distribuição, em setembro, foram doadas 3 mil mudas.

O Espaço não precisa ser no chão

A Engenharia em Sustentabilidade Urbana (ECRA) surgiu em 2014, na cidade de São Paulo. O objetivo da empresa é levar a sustentabilidade para a construção civil de uma forma atingível. Hoje, o produto principal da empresa são as lajes verdes, que unem paisagismo ecológico, produção de alimentos e economia de recursos. Além da horta, na laje é possível captar energia solar, com painéis fotovoltaicos, e coletar água da chuva. “A nossa ideia com a laje verde foi mostrar que uma solução simples, localizada na cobertura ou na laje, poderia gerar muito mais recurso e ajudar muito mais na sustentabilidade urbana”, diz Amir Musleh, sócio diretor da empresa.

Foto 8: Laje Verde
As pessoas começaram a perceber que podem produzir o seu próprio alimento. Isso é possível em casa, ou até no condomínio, unindo os moradores | Foto: Amir Musleh / Divulgação

A ECRA mostra para as pessoas que é possível suprir suas necessidades de hortaliças com a produção em casa. “Ao longo de um ano, a gente fez um cálculo de que 30 metros de laje verde produtiva com agricultura urbana vai gerar em torno de seis quilos por metro quadrado”, diz Amir. Também de acordo com os cálculos da empresa, para cada pessoa são necessários três metros quadrados de produção. “Essa proporção geralmente supre as pessoas do que elas gostariam de ter e evita em muitos casos de a pessoa ter que ir na feira”, afirma o sócio diretor. 

Trazer os alimentos para mais perto do consumidor também ajuda a reduzir o desperdício. No Brasil, metade dos alimentos que saem das plantações são desperdiçados na etapa de distribuição, transporte e abastecimento. Além disso, enquanto se desmata cada vez mais para abrir áreas disponíveis para o agronegócio, a agricultura urbana mostra que é possível produzir alimento orgânico mais próximo do consumidor, que tem capacidade de suprir suas necessidades. 

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