Até onde irá a expressão da alma

Como será a nossa relação com a arte e sua produção depois do fim da pandemia

REPORTAGEM
Maria Luiza Rodrigues
maria16petzinger@gmail.com

ILUSTRAÇÕES
Munique Brum
Pann Couto (capa)

De acordo com um levantamento realizado pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) e pelo Conselho Internacional de Museus (Icom), cerca de 90% dos museus fecharam suas portas em decorrência da quarentena e 13% deles podem não voltar a abrir após a pandemia. Isso significa que espaços culturais importantes podem deixar de existir. Mas quantos museus você já visitou na sua vida? Em quantas exposições de arte já foi? 

A arte sempre esteve presente na história da humanidade. Obras clássicas foram produzidas desde a Grécia Antiga enquanto o homem buscava entender sua relação consigo e com o universo. A partir de novos pensamentos trazidos pela filosofia, foram criadas obras que são conhecidas até hoje. Leonardo Da Vinci, por exemplo, pintou a Monalisa nos anos 1500, e ela segue sendo visitada e reproduzida até hoje. Atualmente, conhecemos muitas dessas criações famosas através de reproduções e, mesmo que nunca tenhamos visto essas obras pessoalmente em um museu, estamos familiarizados com elas. 

“A arte engrandece a alma da gente, principalmente quando temos a possibilidade de admirar algo que amamos. E o que vemos hoje é este setor se reinventando para continuar expressando seu subjetivismo, seus sentimentos ao público”

CARINA NIETO, arquiteta e funcionária do Atelier Nieto.

De certa forma, durante a pandemia, a arte e a cultura foram valorizadas e tornaram-se mais acessíveis, deixando a vida mais leve. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a televisão está presente em 97% dos lares brasileiros e, de acordo com a Netflix, apenas no primeiro semestre de 2020, a empresa de streaming registrou 26 milhões de novos usuários — um aumento de 24% no consumo desse serviço. Outras expressões artísticas, como a música, a dança e o teatro, também encontraram caminhos para chegar ao público de forma remota.

Para enfrentar a crise do isolamento, as pessoas recorreram aos meios que ofereciam conforto e beleza, como afirma a arquiteta e funcionária do Ateliê Nieto, em Porto Alegre, Carina Nieto: “A arte engrandece a alma da gente, principalmente quando temos a possibilidade de admirar algo que amamos. E o que vemos hoje é este setor se reinventando para continuar expressando seu subjetivismo, seus sentimentos ao público”. Ou seja, neste momento, como as outras expressões artísticas, as artes plásticas e visuais também tiveram que repensar suas práticas. Carina, por exemplo, durante a pandemia passou a fazer atendimentos virtuais e tele-entrega das obras do ateliê. Ainda assim, um dos maiores desafios dos espaços é encontrar formas de se manter financeiramente sem poder receber o público presencialmente.

Imagem do Nieto Atelier, com quadros e molduras expostas
A Nieto Atelier, de Porto Alegre, está buscando formas de se reinventar na pandemia | Foto: Deia Machado Fotografia

Uma crise que não é de hoje

A pesquisa realizada em 2020 pela Unesco em parceria com o Icom apontou que 85 mil centros culturais de todo o mundo fecharam durante a crise do coronavírus por conta do isolamento social. Muitos optaram por oferecer visitas guiadas virtualmente para continuar, de modo parcial, com suas atividades. Esse foi o caso do Museu do Louvre, em Paris, e do Museu de Arte de São Paulo (MASP). 

A possibilidade de conhecer e visitar, mesmo que através das telas, um lugar novo — e talvez de outro modo inacessível  — é promissora, podendo gerar iniciativas futuras que ampliem essas oportunidades. Entretanto, nem todos possuem o mesmo acesso às tecnologias ou tiveram um contato prévio com museus. Em 2019, uma pesquisa do Instituto Oi Futuro e da consultoria Consumoteca apontou que 82% dos frequentadores de museus brasileiros fazem parte das classes A e B, ou seja, pertencem às famílias com rendimentos entre quatro e 10 salários mínimos. Pessoas que não têm contato com essas instituições culturais regularmente têm menos chances de utilizar os serviços virtuais, pois sequer compreendem como é o funcionamento de um museu.

O fechamento de um museu reflete na cidade onde a instituição está localizada, não só culturalmente, mas também economicamente

ISABEL DE PAULA, coordenadora do setor de Cultura da Unesco no Brasil

Ainda assim, essas são as alternativas encontradas pelas instituições para continuar com as portas abertas. De acordo com a coordenadora do curso de Museologia da Universidade Federal do rio Grande do sul (UFRGS), Jeniffer Cuty, um esforço vem sendo feito também para que bolsistas e estagiários continuem com seus cargos durante a pandemia, pois dependem desta renda. Segundo a professora, existe um investimento no país tanto para a pesquisa, quanto para a manutenção e conservação dos museus, e o que se espera é que eles não deixem de existir. 

A falta de algum desses recursos pode acarretar em danos irreparáveis, como foi o caso do Museu Nacional, no Rio de Janeiro. Em 2018, o incêndio que destruiu parte do acervo de 12 mil itens do local ocorreu por falta de manutenção elétrica, de acordo com o laudo pericial produzido pela Polícia Federal. Uma das peças atingidas pelo fogo naquele dia foi o famoso crânio de Luzia, um dos fósseis mais antigos do Brasil. 

Os acervos representam a memória e a história do país. Isabel de Paula, coordenadora do setor de Cultura da Unesco no Brasil, comenta: O fechamento de um museu reflete na cidade onde a instituição está localizada, não só culturalmente, mas também economicamente.” 

Arte combina com tecnologia? 

Apesar dos computadores, telas e eletrônicos já fazerem parte do nosso dia a dia há muito tempo, a pandemia aumentou a presença das máquinas em nossas rotinas de trabalho, estudo e entretenimento. O mesmo aconteceu com o setor artístico. Mesmo que as artes já estivessem conectadas com as tecnologias, as instituições e galerias de arte foram obrigadas a disponibilizar seus acervos digitalmente com mais rapidez durante esse período de distanciamento social. 

Segundo Isabel , o setor de Cultura da Unesco no Brasil realizou um encontro do Comitê Intergovernamental da Convenção da Diversidade Cultural para discutir justamente essa inserção da arte no ambiente digital. Ela comenta que uma das questões levantadas no encontro foi a necessidade de proteger e fomentar os artistas nesse meio, uma vez que a produção cultural na internet é grande e precisa ser valorizada:“Nós enfrentamos hoje novos desafios que as tecnologias e os ambientes digitais representam para a diversidade”.  

No entanto, a produção artística muitas vezes ainda é vista apenas como um processo manual. Para algumas pessoas é estranho pensar que é possível criar ou recriar obras por um inteligência artificial. A fotógrafa e artista gaúcha Nathália Haucke, de Porto Alegre, encontrou nas fotos uma maneira de colocar em prática os conhecimentos adquiridos em sua formação em Artes Cênicas na UFRGS recriando, junto com seus clientes, obras de artes famosas com uma técnica que ela chama de Fine Art

Fotografia de uma mulher, com asas de anjo, cabelos e vestido vermelhos, segurando em seu colo um homem deitado, com as mãos e pés amarrados.
Fotografia do ensaio “Fine Art Renaissance”, inspirado nas pinturas renascentistas e barrocas | Foto: Nathália Haucke

Segundo Nathália, esse processo artístico é um modo de expressão da sua própria voz, como artista, e das pessoas que são fotografadas. “Posso colocar asas nos meus clientes, trabalhar com magia, trabalhar uma ambientação diferente, inserir castelos nas fotos e levar as pessoas a viver naquele universo por um dia”, comenta. Suas fotos são inspiradas em obras clássicas levando em consideração a questão de colorização, da iluminação, do figurino e das poses dos fotografados. 

Nathália traz elementos dessas obras para suas fotos fazendo uma releitura também através da pós-produção. De acordo com ela, os softwares e programas de edição hoje proporcionam uma grande liberdade ao artista. Não só é possível corrigir a imagem, mas também agregar elementos a ela. A inserção de asas e castelos nas fotos de Nathália, ou outros elementos fantásticos, são possibilitados pela tecnologia. “A fotografia é uma cena que eu posso montar e levar comigo para onde eu quero. E aplicativos de edição em que a gente pode trabalhar o design ajudam muito na criação de poder se libertar daquilo que é real.” 

O professor no curso de Design Gráfico na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e artista Sérgio Venancio considera que a interdisciplinaridade entre as artes e o campo tecnológico amplia as possibilidades de expressões artísticas. Sua formação tanto em Artes Visuais quanto em Ciência da Computação permitiu que ele desenvolvesse uma inteligência artificial que cria retratos e desenhos daquilo que é captado por uma câmera. Seu projeto de mestrado na Universidade Federal de São Paulo (USP), apresentado em 2019, incluiu retratos feitos pelo programa que ele mesmo desenvolveu, chamado Extentio. 

O isolamento também agregou mudanças ao trabalho e à pesquisa de Sérgio, e hoje o programa, além de desenhar o que a câmera registra, também lê telas para criar retratos. Graças a esse avanço, Sérgio consegue fazer retratos de pessoas com quem ele está conversando virtualmente através da tela – como foi o caso desta repórter. 

Foto digital do rosto de uma mulher, sorrindo, que usa óculos, feita com linhas em tons marrons e cinza.
Fotografia feita a distância por meio do Extentio, retratando a repórter Maria Luiza Rodrigues | Foto: Sergio José Venancio

De acordo com o professor, existe um debate na área sobre essa produção que vai além das mãos do artista. A dúvida seria se ela pode ser considerada como arte. Contudo, todo o processo, como o realizado por Sérgio, é feito pelo artista, mesmo que com o auxílio de um equipamento. Com a ajuda do Extentio, que foi configurado por ele, é Sérgio quem faz os traços do desenho. Uma vez que Sérgio configurou o programa, que é usado como uma ferramenta, como um pincel ou uma tela nas mãos do artista, por que a autoria da obra não seria dele? 

Com Nathália, que depois de captar a imagem utiliza softwares de edição, a lógica é parecida. As cores, os cortes, os elementos acrescentados são escolhidos e colocados ali pela sua mão. Segundo o professor Sérgio, os artistas olham hoje a tecnologia com um olhar crítico por associá-la muito às grandes empresas, mas também reconhecendo o seu potencial de trazer novas propostas e criações. 


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A arte será digital? 

No segundo semestre de 2020, um termo novo começou a tomar grandes proporções na internet e no mundo dos negócios: a crypto art, ou arte digital. Essa é a denominação dada a produções exclusivamente digitais, que são vendidas também de forma online. Porém, diferente de uma loja virtual, que já existe há tempo, a crypto art é negociada em um mercado de arte totalmente virtual. Não existe a peça física.

A criptografia é uma modificação codificada que protege textos e dados de serem copiados ou duplicados. Assim, a arte criptográfica é produzida através de tokens não fungíveis (conhecidos também por NFTs). A transação e o registro são protegidos por um arquivo criptografado, evitando cópias e, portanto, possibilitando que aquela obra inteiramente digital seja única. É claro que é possível ter uma foto da obra, assim como acontece com as peças físicas. Mas aquela obra digital em si, é exclusiva.

Uma das empresas de arte mais importantes do mundo, a Christie ‘s, realizou em fevereiro deste ano o primeiro leilão de crypto art. Diferentemente de um leilão comum, em que os valores já são pré-estipulados, esse começou sem uma faixa de preço definida. A artista e cantora pop Grimes vendeu nesse leilão 10 peças de artes digitais que formavam uma coleção e arrecadou mais de US$ 6 milhões. Na mesma casa de leilões, o artista Mike Winkelmann vendeu por US$ 69,3 milhões uma única obra digital,  batendo um recorde no mercado de arte virtual. Ele, que é conhecido profissionalmente com Beeple, cria obras digitais carregadas de críticas sociais, com elementos assustadores, usando algumas vezes figuras da cultura pop como referências. A peça que bateu o recorde é uma colagem de várias imagens criadas por ele.

Diante das mudanças e inovações, o futuro da arte então é digital? Parece simples resumir um assunto amplo e que envolve tantas áreas dizendo que o virtual será o protagonista desse futuro. A realidade é que o digital já faz parte do presente no mundo das artes, mas as formas que consumimos e criamos essas inovações é que irão realmente fazer a diferença daqui para a frente. 

Aqueles que vivem da arte querem ter a certeza de que poderão sempre trabalhar se expressando livremente, seja de forma manual, ou digital. Sem essa possibilidade, perdemos memórias e histórias. E, como diz a escritora britânica Agatha Christie, “quando uma obra de arte perece, todo o mundo fica menor”. 

Arte: Munique Brum

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