Até onde vai a privacidade nas redes

Cami Pereira. Janela.
Título: “Cada um na sua casa” Técnica: Xilogravura e finalização digital 2020 Artista: Cami Pereira

Como profissionais que trabalham na internet lidam com a exposição de sua intimidade

REPORTAGEM
Danillo Lima

danillo.lima1@gmail.com

ILUSTRAÇÃO
Cami Pereira

Volta e meia, nas conversas de bar, alguém conta uma história de um vizinho que anda pelado pela casa sem se importar com a janela aberta. Se você nunca contou uma história assim, talvez o vizinho pelado seja você. Por descuido ou exibicionismo, as janelas servem como um meio para se perder a privacidade num contexto urbano. Não só a nudez, mas qualquer ação doméstica está sujeita a ser enxergada por um vizinho, depende só do quanto a sua janela está aberta.

O processo de verticalização das cidades a princípio parecia uma boa solução para o bem estar do cidadão de classe média. A expectativa de se ter segurança dentro de um condomínio fechado, por exemplo, agora se mostra frágil. São várias janelas, vários apartamentos, vários moradores e, principalmente, várias câmeras.

Além de nas conversas de bar, às vezes esse assunto vai para o âmbito judicial. Afinal, o direito à privacidade é algo resguardado pela Constituição brasileira. O texto diz, no seu artigo 5º, que “são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurado o direito à indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação”. Em 2018, por exemplo, o ator Cauã Reymond foi fotografado nu dentro de seu apartamento enquanto meditava. As fotos rapidamente ganharam as redes sociais, e o ator acionou a Justiça para processar o fotógrafo e os portais que compartilharam as imagens. O processo está sob sigilo.

Mais recentemente, em agosto de 2020, durante a pandemia do coronavírus, uma mulher residente de um condomínio de luxo da zona nobre de São Paulo foi registrada nua pelos vizinhos. As fotos passaram a circular por grupos de WhatsApp dos moradores. Quando percebeu os vazamentos, ela produziu uma faixa com trechos do Código Penal e pendurou na sua janela. O caso também está sendo investigado judicialmente.

Além das janelas residenciais, um outro tipo surge como fator decisivo para o rompimento da intimidade: as janelas virtuais. Se por um lado as aberturas da casa podem criar uma situação de exposição que foge do controle de quem nela habita, na internet a privacidade se esvai pelas pontas dos dedos. 

Esse assunto ganhou o mundo nos últimos anos principalmente após os escândalos de uso indevido de dados por grandes corporações de mídia. Nesses casos, a privacidade é tomada sem o claro consentimento dos usuários. Por outro lado, internautas estão sujeitos a compartilhar sua intimidade de forma voluntária. Inclusive, em alguns casos, isso pode ser considerado uma atividade de trabalho.

Se expor é sempre estar sujeito ao julgamento alheio, principalmente em um contexto digital. Profissionais das janelas virtuais necessitam revelar um pouco do seu íntimo, abrindo as fronteiras da privacidade para um público invisível. Parafraseando o filósofo francês Michel Foucault, “a visibilidade é uma armadilha”. A tendência é a exposição se acentuar cada vez mais durante o período da pandemia do coronavírus. Segundo dados da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), de junho de 2020, cresceu entre 40% e 50% o uso da internet no Brasil durante o isolamento.

Janela que inspirou a reportagem | Foto: Danillo Lima
A exposição como profissão 

Não é mais uma grande novidade o ofício do influenciador digital. Pelo contrário, esta é uma atividade que já demonstra solidez. Dados de uma pesquisa do Ibope Inteligência de 2019 apontam que 52% dos usuários de internet no Brasil seguem pelo menos um influenciador.

Segundo a pesquisadora em comunicação digital da Universidade de São Paulo (USP) Issaaf Karhawi, influenciadores podem ser considerados “sujeitos que têm algum poder no processo de decisão de compra de seus seguidores; poder de colocar discussões em circulação; poder de influenciar em decisões em relação ao estilo de vida, gostos e bens culturais daqueles que estão em sua rede”. A associação do influenciador com o consumo é pujante. O estudo do Ibope mostra, ainda, que 50% dos internautas costumam comprar produtos e serviços indicados pelos influenciadores.

“Esse é o cenário contemporâneo em que vivemos. O imperativo da visibilidade e a cultura do espetáculo demandam que o íntimo seja exteriorizado”

ISSAAF KARHAWI, pesquisadora em Comunicação Digital da USP

Para influenciar é preciso se tornar visível no mundo das redes. Essa exposição voluntária implica numa mercantilização da vida do sujeito,  segundo Issaaf. “Esse é o cenário contemporâneo em que vivemos. O imperativo da visibilidade e a cultura do espetáculo demandam que o íntimo seja exteriorizado”, explica a pesquisadora.

Nessa perspectiva da visibilidade, os limites entre a vida íntima e a aparição nas redes precisam ser delimitados. Para a influenciadora Debora Salvi, conhecida pelos seus milhares de seguidores como Deborista, é possível separar a intimidade do profissional. “Questões mais pessoais, como família e relacionamentos afetivos, eu procuro não expor abertamente. Eu escolhi essa vida de exposição, mas as pessoas que me rodeiam não, e eu preciso respeitar isso”, explica Debora, que atualmente é mestranda do curso de História da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Em geral, o público procura nos influenciadores alguma identificação com o conteúdo publicado. Porém, esse comportamento incide num julgamento constante da audiência. A paulista Juliana Manha, criadora de conteúdo sobre estilo de vida familiar, com foco no Transtorno do Espectro do Autismo, afirma que recebe comentários com discurso de ódio. “Independente da preocupação que temos, sempre existe alguém disposto a causar. Eu deleto todas as mensagens que me fazem sentir agredida sem ao menos respondê-las”, diz Juliana.

Justamente pela exposição, influenciadores constroem relações íntimas e autênticas com suas audiências. Isso é intensificado com os processos de segmentação dentro das plataformas. Issaaf alerta para o fato de que, nesse aspecto, os influenciadores passam a ser cobrados constantemente. “Como se precisassem atender exatamente às demandas de seus seguidores.” Juliana percebe que há uma identificação do público com o conteúdo, e, mesmo que às vezes seja agredida, enxerga as conexões criadas como “uma rede de novos amigos”.

  “Foram anos trabalhando com a ideia de que a minha persona na internet é só uma parte de mim que não é melhor ou pior, é só uma faceta de algo maior”

DEBORA SALVI, influenciadora digital

Debora expõe que as relações com quem ela já conhecia antes de trabalhar com a internet não mudaram, porém com pessoas novas tem sido diferente. “Elas já possuem uma expectativa sobre mim, uma certa idealização, chegam já sabendo muito de mim e eu nada delas”, explica a influenciadora. “Foram anos trabalhando com a ideia de que a minha persona na internet é só uma parte de mim que não é melhor ou pior, é só uma faceta de algo maior.”

Ilustração: Borga
Uma exposição ainda mais íntima 

A internet abriu possibilidades de trabalho nunca antes imaginadas. No campo da sensualidade, não poderia ser diferente. O mercado abre cada vez mais novas segmentações e meios de realizar compras. A exposição da intimidade, aqui, é elevada ao máximo. Em contrapartida, o acesso depende de pagamento prévio.

O Brasil se mostra como um país em que há alta procura no setor do comércio de conteúdos íntimos. Segundo dados publicados em 2019 pela BBC Brasil, há um site voltado para a prática do camming – transmissão de conteúdo erótico ao vivo – que tem 8 milhões de clientes cadastrados só no Brasil. Desse grupo, 150 mil têm assiduidade mensal na compra de créditos dentro da plataforma.

A modelo Gio BBW trabalha com o comércio de fotos e vídeos íntimos para seguidores de seus perfis em plataformas da internet. Sobre a exposição, ela afirma que consegue separar a vida privada da profissional, porém não se sente segura quanto a esse aspecto. “É um ‘trampo’ [trabalho] em que as mulheres ficam numa posição supervulnerável”, explica. A procura pelos seu conteúdo se intensificou durante o período da pandemia, porém Gio cita que esse aumento é de  “pessoas pedindo [conteúdos íntimos] de graça”.

O fator da segmentação dos públicos digitais também é aparente nesse ramo, bem como os julgamentos da audiência. Gio tem um corpo fora dos padrões hegemônicos, mas forma um público que se identifica com a sua aparência. “Ainda tenho inseguranças, mas meu público me procura por eu ser gorda, então fico mais tranquila”, diz a modelo. 

A pesquisadora Joana Ziller, coordenadora do Núcleo de Pesquisa em Conexões Intermidiáticas da Universidade Federal de Minas Gerais (NucCon/UFMG), avalia que há um processo de autoafirmação na exposição de conteúdo íntimo realizado por mulheres. “Eu acho muito legítimo e de grande valor que as mulheres produzam conteúdos sobre si mesmas. É inverter o jogo de poder que está colocado. Resistir a ele não do ponto de vista que isso [conteúdos íntimos] não deve circular, porque de fato circula, mas lidando com isso de uma outra maneira, de fato invertendo o jogo de poder”, afirma Joana.

Em tempos de pandemia, é inevitável que a intimidade seja mais compartilhada no mundo digital. É necessário se atentar às consequências dessa produção, principalmente para quem faz disso um ofício. A privacidade segue sendo colocada em xeque, mesmo quando as pessoas estão isoladas em casa.

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