Barulhos, conflitos, vizinhos!

A cor do som. Betina Nilsson.
Título: “A cor do som III” Técnica: Aquarela e Guache 2018 Artista: Betina Nilsson

Como o fato de as pessoas ficarem mais tempo em casa durante a quarentena fez com que os barulhos aumentassem, afetando a vida de vizinhos que antes nem se conheciam

REPORTAGEM
Nicolle Marazini
nicolle.marazini@gmail.com

ILUSTRAÇÃO
Betina Nilsson

Abril de 2020, zona norte de Porto Alegre. Estava em quarentena devido à pandemia de coronavírus, deitada na cama, no meio da tarde, abrindo o mesmo aplicativo de rede social que eu acabara de fechar. De repente, ouço uma melodia doce. Uma flauta! O som entrava pela janela da cozinha. Sentei no parapeito e fiquei cantarolando junto com a melodia a música A Banda, de Chico Buarque. Pra ver a banda passar, tocando coisas de amor…”

E foi assim por algumas semanas: um repertório diversificado que alegrava as minhas tardes. Com isso, questionei-me: desde quando eu tenho um vizinho que toca flauta?! Entrei numa espiral de reflexões sobre como passamos tanto tempo dos nossos dias fora de casa. No meu caso, alternando entre transporte público, trabalho e faculdade nos dias de semana. No final de semana, fazendo passeios em casa de parentes, parques e shoppings. Eu não conhecia meus vizinhos!

Janela. Nicolle Marazini
Janela que inspirou a reportagem | Foto: Nicolle Marazini

Com a quarentena, as pessoas passaram a ficar o tempo todo em casa. O home office e o ensino a distância se popularizaram. Inevitavelmente passamos a ouvir os barulhos produzidos pelos moradores a nossa volta. E começamos a perceber a existência deles também.

Alexandre Garcia Melo, 19 anos, é bacharelando em flauta transversa na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e integra a Orquestra Jovem do Rio Grande do Sul (OJRS). Além disso, é o dono da flauta que embalou minha quarentena. Ele mora com a avó e a tia e conta que nem todo mundo do condomínio gostou dos seus ensaios como eu.

Ele diz que já soube de vários elogios dos vizinhos e dos funcionários do condomínio, mas que também já recebeu diversas reclamações. “Inclusive eu já paguei várias multas pelo, entre aspas, excesso de som em horário indevido, sendo que eu estava tocando às três da tarde, e no regulamento é um horário permitido”, relata. O que indica que o conceito de barulho é diferente para cada pessoa.

” A situação é bem chata. Eu fico frustrado, porque eu preciso praticar flauta, e a vizinha não entende que isso é meu trabalho e estudo”

ALEXANDRE GARCIA MELO, bacharelando em flauta transversa

Segundo a pesquisa “Condomínios e Covid-19”, realizada pelo SíndicoNet, o barulho foi o principal motivo de reclamações dos moradores nesta pandemia no Brasil. Ele foi apontado por 59% dos mais de 2 mil participantes, entre síndicos e gestores. O levantamento foi publicado em julho.

“Na pandemia, aumentou muito o número de reclamações e de solicitações de interferência da administração para regularizar a situação”, relata Marta Flores, síndica profissional há quatro anos de um condomínio com 612 apartamentos, no bairro Jardim Botânico, em Porto Alegre. “O barulho foi a principal reclamação que recebemos.”

Crianças brincando, cachorro latindo, som alto e obras fora do horário permitido também são apontados como motivos para reclamações. O barulho não atrapalha apenas o sossego, mas também afeta na reunião de trabalho ou na aula online. Todos estão mais atentos e a tolerância está menor.

Além dos ensaios com a orquestra, Alexandre também precisa estudar para o recital de meio de curso da faculdade. “A situação é bem chata. Eu fico frustrado, porque eu preciso praticar flauta, e a vizinha não entende que isso é meu trabalho e estudo”, desabafa.

Flauta Alexandre Melo. Nicolle Marazini. Arquivo Pessoal.
Precisando praticar flauta por causa da faculdade de música, Alexandre encontrou problemas de convivência com seus vizinhos | Foto: Arquivo Pessoal
Um barulho insuportável

Em alguns casos, mesmo com as devidas reclamações feitas, o barulho permanece e acaba atrapalhando os demais. Foi o caso da família Jacques, que optou por se mudar para um prédio mais silencioso no bairro Bela Vista, em Porto Alegre. “Começamos a nos sentir incomodados, os vizinhos não atendiam às solicitações de diminuir o barulho. A paciência se esgotou e nos mudamos”, relata Jefferson de Barros Jacques.

Flávio Souza, síndico profissional que administra dois condomínios na Capital, explica o procedimento para a solução dos casos de reclamação. “Sempre tentamos resolver todas as reclamações através do diálogo. Quando o morador recebe a multa, ele nem protesta, porque já foi notificado antes verbalmente e por escrito”, comenta.

“Se as pessoas não tiverem educação e disciplina de ruído, é impossível de conviver, não tem como conviver em harmonia”

JEFFERSON JACQUES, que se mudou na pandemia por causa do barulho dos vizinhos

Jacques conta que após entrar em quarentena, com a permanência em casa dos membros da sua família se intensificando, eles passaram a notar mais ainda os que moram perto. Pelos barulhos, descobriram que vizinhos adotaram cachorros, que ficavam na sacada colada à deles. “Imagina estar em uma reunião de trabalho e ter o cachorro latindo o tempo todo. Além de escutar ele correndo e se coçando. Um dia, um deles se soltou e derrubou um vaso de terra na minha sacada, sujando toda a roupa que estava secando.”

O apartamento onde a família morava era padrão laje zero e com divisórias de gesso acartonado, que são ruins para atenuar o barulho. “Se as pessoas não tiverem educação e disciplina de ruído, é impossível de conviver, não tem como conviver em harmonia”, afirma Jacques.

No novo normal, a vida profissional está se misturando com a vida doméstica. O horário de lazer de um pode ser o horário de trabalho do outro. Entender isso passou a ser fundamental para conviver sem conflitos com os vizinhos.

um barulho do bem

Mas nem só de conflitos viveram os vizinhos neste período de isolamento. Muitos condomínios acabaram criando grupos de whatsapp para facilitar a comunicação entre os moradores e passar informações importantes relativas à convivência condominial.

Essa iniciativa proporcionou a aproximação de vizinhos que antes nem se conheciam. É o caso de Felipe Martinetto, funcionário público, que havia se mudado, com sua esposa e filho, poucos meses antes da quarentena, para um condomínio novo no bairro Jardim do Salso, na Capital. “O pessoal começou a se falar bastante no grupo. Quando se encontram nos elevadores, todo mundo se cumprimenta”, conta.

Logo no primeiro final de semana da quarentena, Felipe teve a ideia de proporcionar entretenimento para os vizinhos, uma forma de aliviar a tensão de todos que estavam isolados em suas casas. “Eu coloquei minha caixa de som na sacada e comecei a tocar violão e cantar. O pessoal curtiu bastante, ficaram na sacada acompanhando e aplaudindo.”

A pesquisa realizada pelo site SindicoNet ainda revela que 50% dos síndicos participantes acreditam que, no pós-pandemia, irá permanecer o aumento do espírito de coletividade e solidariedade.

Com a retomada gradual da abertura de espaços coletivos, Felipe, que tem formação em Educação Física, começou um projeto com as crianças do condomínio chamado Personal Kids. “Eu mencionei no grupo o projeto e os pais gostaram. A partir da abertura da quadra de esportes, deu pra pôr em prática. É bom pra criança gastar energia”, conta Felipe.

Outubro de 2020. Passei a não ouvir mais o flautista. Voltei a minha rotina de trabalhar presencialmente nos dias de semana. No final de semana, apesar de ainda ficar em casa, não o escuto mais. Mas fico feliz em poder ter conhecido sua história, assim como de outros vizinhos também.

Dicas para viver em harmonia na Quarentena

Os regulamentos dos condomínios costumam proibir barulho entre 22h e 8h do dia seguinte. Entretanto, durante o dia também é necessário agir com moderação, pois o vizinho pode estar em home office ou em uma aula online. Algumas dicas para viver em harmonia:

  • Evitar o som alto: sempre estar atento se a TV não está alta demais. Usar o bom senso no horário de ligar o aspirador, o liquidificador, a máquina de lavar e o secador de cabelo.
  • Evitar pequenas obras ou reformas: só fazer em casos de urgência, como reparos elétricos ou um cano estourado, sem esquecer de respeitar as normas de dias e horários permitidos pelo condomínio. 
  • Cuidado durante o uso das áreas comuns: respeitar o agendamento e o horário permitido por cada morador para usar os espaços sem gerar aglomeração, não esquecendo de usar máscara nas dependências comuns do prédio, como elevador, corredores e garagem. 

Caso o diálogo entre vizinhos não funcione para solucionar o problema, e nem a interferência do síndico, denúncias podem ser feitas pelo telefone 190. Segundo a Secretaria de Segurança Pública do Rio Grande do Sul, só durante o período de março a agosto, as forças policiais já haviam atendido 19 mil ocorrências de perturbação da tranquilidade e do sossego alheio em Porto Alegre.

Font Resize
Contraste