Palcos virtuais

Fundo amarelo com a imagem de um computador e um show na tela.

Há muitas especulações sobre como serão os shows e outros eventos após a pandemia. O que irá permanecer e o que se modificou de forma definitiva?

REPORTAGEM
Gabriella Von Flebbe

gabivonflebbe@hotmail.com

ILUSTRAÇÕES
Cecília Marques (capa)
Nícolas Mollardi

Meia-luz. Cortinas fechadas. A sensação de suspense e expectativa no ar. Muitos elementos compõem a experiência de presenciar um espetáculo. Cada etapa até o momento em que os holofotes brilham é importante, e cada detalhe é cuidadosamente pensado para envolver o público até o final. Um espetáculo vai muito além do palco. Mas, desde 2020, a pandemia de covid-19 nos tirou essa possibilidade de experiência. Pelo menos da forma como estávamos acostumados.

Os espetáculos online

Diversos setores foram forçados a repensar os seus meios e se reinventar, e com a área cultural não foi diferente. Assim surgiram os shows drive-in e as lives, como formas de manter os espetáculos vivos. Por todo o mundo, as lives se popularizaram, tanto pagas quanto gratuitas. Por um lado, a experiência foi ótima para aqueles que não poderiam assistir a certos espetáculos de forma presencial. O grupo sul-coreano BTS, por exemplo, bateu o recorde de público pagante em uma live. O show virtual, realizado em junho de 2020, foi assistido por 756 mil pessoas em todo o mundo. O grupo arrecadou mais de R$ 100 milhões — o ingresso custava U$ 35 —,  alcançando um público que seria o equivalente ao de 15 shows em um estádio com capacidade para 50 mil pessoas.

No Brasil, diversos cantores também aderiram às lives e encontraram uma boa recepção do público. A transmissão online da cantora sertaneja Marília Mendonça, realizada em abril de 2020, atraiu mais de 3,31 milhões de visualizações simultâneas. O show, com duração de três horas e meia, foi feito na sala da casa da cantora e foi o de maior público no Youtube no ano passado no Brasil. Artistas como Jorge e Matheus, Gusttavo Lima, Sandy e Júnior, entre outros, também realizaram shows nesse formato. Mas todos foram gratuitos. 

Em Porto Alegre, o Theatro São Pedro tomou a iniciativa de passar o projeto Mistura Fina, que ocorria de forma gratuita todas as quintas, às 18h30min, no Foyer Nobre, para o formato virtual, sendo transmitido pelo canal do teatro no Youtube. No mês de aniversário da instituição, foi realizada uma série de lives, no palco e demais espaços, como Foyer Nobre, na Sala da Música do Multipalco e no Foyer do Multipalco. “Acreditamos que no futuro possamos oferecer também a possibilidade de venda de ingresso para a pessoa assistir aos espetáculos em casa”, conta o chefe da Assessoria de Comunicação Social da Fundação Theatro São Pedro, Diego da Maia. Ele também explica que o teatro continua se reformulando e buscando maneiras de atrair o público neste momento. “O teatro é um local muito importante na formação dos indivíduos, e nossa missão de incentivar novos públicos já é antiga, assim como a formação de novos artistas e uma nova plateia.” Diego conta que está sendo construído um novo site para a casa de espetáculos.  “Junto com o novo site, iremos também lançar uma nova campanha para conectar ainda mais o público jovem com o Theatro São Pedro”, ressalta Diego. 

Artistas gaúchos independentes também tiveram que se reinventar. O rapper Nego Joca, por exemplo, fez o lançamento de seu álbum Pré-História: Introdução ao Sonho de Guri Vol. II em maio de 2020, durante a pandemia, em uma live no site Twitch TV, interagindo com os fãs pela plataforma Zoom. Ele conta que queria fazer o lançamento presencialmente, mas, por conta do isolamento, não foi possível. “Então eu fiz uma live, aluguei um desses espaços, esses estúdios que fazem lives, paguei uma quantia, e a gente fez a live no lugar do show de lançamento, foi bem massa.”

Imagem de três pessoas em um estúdio, ao fundo escrito Nego Joca
O rapper Nego Joca fez o lançamento de seu álbum em uma live | Foto: Equipe Nego Joca

A importância do setor cultural no brasil

Um dos motivos para o mercado do entretenimento ter sido um dos mais afetados pela pandemia do coronavírus é o fato dessa área envolver uma das palavras mais temidas da atualidade: aglomeração. Ao redor do mundo, shows e festivais tradicionais que acontecem todo ano foram cancelados. No Brasil, aconteceu o mesmo. De acordo com pesquisa realizada pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) em parceria com a Associação Brasileira dos Promotores de Eventos (Abrape), mais de 51% dos eventos planejados no país foram cancelados e mais de 300 mil shows ou eventos deixaram de ser realizados em 2020. Isso afeta não somente os artistas, mas todos os envolvidos na produção e na manutenção dos espaços onde essas atividades são realizadas. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em pesquisa feita durante o ano de 2018, o número de pessoas que trabalha no setor cultural é de 5,2 milhões, ou seja 5,7% das ocupações neste setor — e 44% dessas pessoas não possui renda fixa ou carteira assinada, desenvolvendo suas atividades de forma autônoma ou informal. 

Com esse cenário, os órgãos responsáveis pelo setor cultural tiveram que encontrar medidas para apaziguar as dificuldades. O Governo Federal aprovou a Lei Aldir Blanc, sancionada pelo presidente Jair Bolsonaro em junho de 2020, que prevê auxílio financeiro a profissionais do setor, pago por meio dos governos estaduais em três parcelas mensais de R$ 600. Até o fim de 2020, cerca de 700 mil trabalhadores já tinham sido beneficiados pela lei.  


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O ensino dA arte durante a pandemia

“A arte não para, ela se recria, se reinventa e emerge, de maneira surpreendente” 

LARISSA SANGUINÉ, professora da Casa de Teatro de Porto Alegre

Além dos espetáculos em si, a formação de novos artistas também foi extremamente prejudicada com a pandemia. A Casa de Teatro de Porto Alegre, que faz a formação de atores e oferece cursos também na área de cinema, televisão, dança e música, passou a realizar suas atividades no formato online. “É uma experiência nova, pois as plataformas digitais foram idealizadas para reuniões empresariais, não para aulas ou encontros com interatividade. Temos algumas restrições para além do óbvio da presença, como atrasos em áudios, falta de sincronicidade de tempo, com vídeo e som, mas tentamos driblar e usar a criatividade”, conta a professora e coordenadora de cursos Larissa Sanguiné.

Ela admite também que muito se perde com as atividades realizadas dessa forma no que diz respeito à experiência, mas explica que os professores estão procurando novas possibilidades de ensino no formato online. “Todos nós, professoras e professores, somos artistas e estamos levando até os alunos todas as nossas experiências como profissionais, para soluções e experimentações. A arte não para, ela se recria, se reinventa e emerge, de maneira surpreendente”, conta a professora.

Arte: Nícolas Mollardi

Larissa  explica que os trabalhos finais, que concluem os cursos, foram repensados para o formato audiovisual e que esse recurso — não necessariamente como trabalho final — provavelmente se manterá após a pandemia, assim como as aulas a distância. “Mesmo quando retornarmos no presencial, muitos cursos permanecerão online, principalmente por evidências na possibilidade de estarmos reunidos com pessoas que não estão na mesma cidade, estado ou país”, diz Larissa. A coordenadora relata que a procura pelos cursos ainda é um pouco incerta, pois o formato é muito novo para aulas nessa temática, o que gera uma apreensão de que a experiência não seja satisfatória. “Tudo depende da entrega pessoal e individual, da decisão do aluno, da aluna que procura e aceita o desafio”, ressalta Larissa.

O maior problema para as escolas e para os profissionais do teatro permanece sendo a escassez de recursos, que já existia desde antes da pandemia e agora foi intensificado pela falta de compreensão do público da necessidade de pagar para assistir um espetáculo online. “O teatro é pouco validado no Brasil, a menos que o artista tenha visibilidade midiática. O público não conhece a classe artística local, nem a mídia local faz questão de fazer esse reconhecimento acontecer. Temos tantos trabalhos acontecendo semanalmente, e quem está conectado às redes sociais dos artistas rola o feed e vai encontrar uma infinidade de programações”, explica a professora.

Mesmo que muitas pessoas tenham encontrado no consumo da arte e do entretenimento uma forma de se ocupar e se divertir dentro de casa durante a pandemia, ainda não existe a consciência de que os artistas precisam se manter financeiramente pelo seu trabalho. A pandemia gerou uma necessidade ainda maior de valorizar a classe artística, de entender como esse meio funciona, que não é constituído de uma “vida glamourosa” e é uma forma de sustento tão importante quanto qualquer outra.

E o futuro?

É difícil dizer o que nos espera após a pandemia, principalmente quando o fim dela parece distante no Brasil, que ainda se encontra nos estágios iniciais de vacinação. Na opinião do diretor artístico e maestro da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre (Ospa), Evandro Matté, as ações online permanecerão mesmo após a pandemia. “Este será um caminho a ser seguido, manteremos o formato presencial, mas com a transmissão online permanente na nossa programação”, conta o maestro.

A abertura da temporada artística de 2021 da Ospa aconteceu em maio e, em função da pandemia, os concertos estão sendo realizados com grupos de câmara, com um número reduzido de instrumentistas na Sala de Concertos da Casa da OSPA, e estão sendo transmitidos pelo canal do YouTube da orquestra. O maestro Evandro também tem feito bate-papos com o público no Instagram da OSPA. Ainda não há previsão de retorno do público presencial.

O rapper Nego Joca também acredita que, mesmo com o retorno dos shows presenciais, o formato das lives deverá se manter a longo prazo. “Eu acho que vai ser assim, que num primeiro momento a galera vai frequentar muito os shows, mas acho que a longo prazo a live vai ser um formato bem presente, um show digital vai ser bem presente, vai ter um mercado maior para isso”, comenta o cantor.

Imagem de um show drive-in
O Poa Drive-in Show é um sistema em que o espectador assiste ao espetáculo dentro do seu carro | Foto: Equipe POA Drive-In Show

Pinheiro Neto, secretário de cultura de Canoas, sócio da Best Entretenimento e um dos organizadores do POA Drive-In Show, acredita que, a partir do final da pandemia, os shows presenciais voltarão com toda a força. Para ele, é possível que o sistema drive-in permaneça, mas em uma escala muito pequena. O POA Drive-In Show é um sistema em que o espectador assiste a espetáculos sem sair de dentro do veículo e que foi construído na capital gaúcha. Ele funcionou durante o segundo semestre de 2020, realizando uma série de espetáculos, mas não teve continuidade. Segundo Pinheiro Neto, o mercado para esse tipo de projeto é pequeno. “Nada substitui o evento presencial, aquele onde as pessoas estão próximas umas das outras, o artista pode ver, pegar na mão, tocar, o público pode ter essa interação com o artista, nada substitui esse tipo de evento”, diz o empresário.

A pandemia acabou por criar novos meios de espetáculos, e, de certa, algo de bom surgiu dessa necessidade de reinvenção. As lives se tornaram um meio mais acessível, que muitos podem consumir em diferentes locais do mundo. Por outro lado, é preciso ainda encontrar formas que garantam a sustentabilidade da área, afinal, se o artista pode tornar a vida de todos na pandemia mais leve, é justo que seu trabalho seja valorizado.


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