Editoriais

Comissão editorial

Reportando o
amanhã

Ao que parece, o futuro será depois que tudo isso acabar. Durante a pandemia, muitos de nós nos pegamos pensando nele e, talvez, até tenhamos sentido vontade de que a promessa de um futuro melhor não demore a se concretizar. No entanto, em relação ao agora, imaginá-lo é o que nos resta diante de um cenário de incertezas como este.
Foi a partir deste pensamento que estruturamos a 56ª edição da revista Sextante. Nossa ideia, porém, não é tratar apenas de temas supertecnológicos e futuristas — que, ao menos primeiramente, são os que vêm à mente quando se fala daquilo que seguirá o presente. Tampouco é nossa intenção trazer desesperança, já que tivemos de projetá-lo a partir de um momento difícil para diversas áreas. Nosso objetivo foi tentar imaginar como será a vida do amanhã e, de alguma forma, compreender como podemos construir este amanhã de uma forma melhor. Mas de que futuro estamos falando, afinal?
A partir de debates entre a turma, delimitamos áreas que entendemos serem importantes para o desenvolvimento socioeconômico e sustentável da sociedade. Como será o futuro das fontes de energia? Da alimentação? Da moda? Será que conseguiremos vencer as mudanças climáticas? E nos meios de transportes, haverá alguma mudança? Devemos nos preocupar com o crescimento do uso da inteligência artificial? E como ficarão temas como a arte, a música e os espetáculos? Será necessário se reinventar? E quanto à religião, às brincadeiras e às relações sociais? Nos aguarda algum tipo de mudança radical nesses espectros? Viveremos um espetáculo tecnológico ou estarão as piores previsões do universo cyberpunk corretas? E, afinal, por que nos fascina tanto tentar adivinhar essas respostas?
São muitas perguntas sobre algo que ainda não conseguimos tatear com certeza: o futuro. Também são difíceis de responder, mas buscamos ouvir o que pensam as pessoas que já vêm estudando e refletindo sobre estes assuntos. Um fato parece claro: as decisões dos próximos anos estão sendo tomadas agora — o que é um pouco do que nos propusemos a expressar nas 17 reportagens que integram esta revista. Tendo como plano de fundo as mudanças do passado e as experiências de um presente abalado, desejamos que a leitura possa levar a um exercício de imaginação e, sobretudo, de conscientização sobre o que nos espera.

Comissão editorial
editorialsextante@ufrgs.br

Professora-editora

jornalistas do futuro

O tempo do jornalismo é o presente. É isso que dizem vários autores e é isso que normalmente constatamos nos verbos de uma notícia. Na narrativa jornalística, o preço sobe, o ministro declara, a celebridade morre. O repórter está sempre tentando aproximar seu leitor do momento exato do acontecimento, criando a ilusão de que o relato é simultâneo ao fato. Mas não é. Em geral, o jornalismo conta o que já aconteceu, mesmo que há poucos minutos. Quando a notícia chega ao leitor, o preço já subiu, o ministro já declarou e a celebridade já está morta. Ou seja, como diz o pesquisador Carlos Eduardo Franciscato, o jornalismo é o relato de algo que pertence ao presente, mesmo que os eventos relatados já tenham ocorrido. 
Poderíamos dizer, então, que o jornalismo fala da atualidade, ou de como é o mundo e como vivem as pessoas deste presente estendido. Mas se o passado e o presente são tão importantes para o jornalismo, como ele se relaciona com o futuro? Em primeiro lugar, aquilo que os jornalistas produzem vai ser documento, no futuro, sobre um tempo que já se foi. Mas também é possível, a partir da apuração jornalística, prever situações que ainda não aconteceram para, quem sabe, até evitá-las.
A escolha dos e das repórteres da edição 56 da revista Sextante foi justamente olhar para o futuro. Talvez porque o presente, principalmente no Brasil, esteja triste demais, difícil demais. Se a memória dos afetos ficou no passado, a esperança só pode estar no tempo que ainda vai chegar. Mas, para entender o futuro, eles precisaram, a partir do conhecimento de suas fontes, primeiro compreender o passado para saber como a história vai sendo construída. E perceberam que, se não dá para prever tudo, a partir da ciência é possível saber, sim, para onde estamos indo. E o que encontraram não foi um mundo feliz. 
Esta edição da Sextante é um trabalho de paciência de estudantes de Jornalismo que, com mais de um ano de pandemia, gritam de suas casas que é preciso mudar o presente deste país para que o futuro seja melhor. Se o tempo do jornalismo é o presente, ninguém melhor do que futuros e futuras jornalistas para dizer que ainda há tempo de resistir e transformar o que virá.

Thaís Furtado
thais.furtado@ufrgs.br


Ilustração: Laur Peters

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