O que guardam as periferias

Apesar dos estigmas ainda existentes, as zonas periféricas demonstram um grande potencial para o futuro

REPORTAGEM
Gabrielle de Luna
gabrielle.luna@ufrgs.br

O ano é 2021, mas, quando ligamos a TV, o que se vê sobre a periferia ainda é somente tiroteio, roubo e tráfico de drogas. Quem não é de lá, sempre pergunta: “É perigoso mesmo?”. E quem é de lá, responde: “Violência tem em todo o lugar, né?”. No fundo, querendo responder: “Meu bairro é mais do que a mídia mostra”.

As zonas periféricas de todo o Brasil têm provado constantemente  seu potencial econômico, cultural e, inclusive, comunicacional: em muitos casos, podendo contar suas próprias histórias. Mas o que o futuro reserva para essas regiões e seus moradores? Quando, de fato, as periferias serão protagonistas e falarão por si? 

Como se formaram as cidades

Para falarmos sobre todos esses potenciais, é preciso contextualizar algumas questões. No Brasil, historicamente, as zonas centrais das grandes cidades foram pensadas e reservadas para as elites oriundas da colonização europeia.

Durante o século 20, a sociedade brasileira passou por três acelerados processos de transformação que produziram as cidades atuais: a industrialização da economia; a explosão demográfica decorrente da queda das taxas de mortalidade; e a urbanização da população, que migrou em massa do campo para as cidades em busca de melhores oportunidades de vida.

Esses movimentos ocorreram com grande força entre as décadas de 1940 e 1980, quando o Brasil era pobre (em produto interno bruto — PIB per capita), pouco escolarizado e muito desigual. Nesse período, segundo levantamento do portal Arqfuturo baseado em dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a população do país aumentou de 40 para 120 milhões, e o percentual vivendo em cidades foi de 31% para 67%. O resultado foi um enorme contingente de brasileiros pobres e destituídos de direitos sociais — introduzidos apenas com a Constituição de 1988 — vivendo de forma precária nas cidades.

E foi a partir desses processos que se constituiu a divisão entre quem teria condições para bancar uma moradia nessas novas cidades e quem seria obrigado a partir para as zonas distantes das centrais em busca de algum espaço. Divisão essa que se reflete ainda hoje, com a população periférica sendo formada majoritariamente por pessoas negras e pobres. Poucas ainda vivas para lembrar de como foi chegar em um espaço sem nada e construir tudo do zero.

Cortamos, então, para as zonas periféricas atuais, bem mais desenvolvidas em relação às de 50 anos atrás, mas longe de poderem ser comparadas com as regiões centrais das cidades. Passando por um processo de industrialização, apesar de lento, e com uma vasta diversidade cultural, as periferias estão cada vez mais empoderadas e conscientes de seus direitos.

Que economia é essa que vem da periferia?

Daniela segurando seu carrinho de brigadeiros
Muitos empreendedores periféricos tiveram seus negócios prejudicados durante a pandemia. Mas alguns, como Daniela, souberam se reinventar | Foto: Gabrielle de Luna

Se o processo de industrialização da periferia e, consequentemente, o crescimento econômico desses espaços já acontecem de maneira lenta, a pandemia da covid-19 provocou um atraso ainda maior.

A pesquisa O Futuro da Inclusão Produtiva, da Fundação Arymax em parceria com a B3 Social e o Instituto Veredas, mostra que, nos últimos anos, antes da pandemia, a taxa de desocupação no Brasil subiu 12% e a de informalidade chegou a 38%. O pior impacto foi entre os mais pobres, o que revela um grande desafio de inclusão produtiva. O mesmo levantamento  revela que, no final do ano passado, o número de brasileiros desempregados chegou a 14,2% da população, batendo novo recorde: cerca de 14 milhões de pessoas sem emprego, segundo dados do IBGE. 


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Diante desse cenário, o trabalho formal deixou de ser a menina dos olhos para boa parte dos brasileiros. Segundo a pesquisa Monitor Global de Empreendedorismo, divulgada pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) e pelo Instituto Brasileiro de Qualidade e Produtividade (IBQP), empreender é o  quarto maior sonho entre a população brasileira. A união desse desejo à necessidade de driblar o desemprego foi uma das motivações para a formação do grupo Empreendedoras Restinga.

Há aproximadamente dois anos em execução, o Empreendedoras é formado por um grupo de mulheres periféricas que vivem, em sua maioria, no extremo sul de Porto Alegre, onde se localiza o bairro Restinga. Ali, elas abriram seus negócios e se uniram para melhor divulgá-los.

O grupo surgiu a partir de um preconceito notado pela fundadora Roberta Capitão. Também gestora da rede de clínicas odontológicas Dentosul, Roberta percebeu que, apesar da boa recepção do serviço a partir das campanhas nas redes sociais, as pessoas desistiam de contratá-lo pela sua localização, no bairro Restinga.

“E assim surgiu o empreendedoras. Naquele momento, nós fizemos uma promessa de que não apareceríamos mais nos jornais ou na TV nas páginas policiais, porque era só assim que a Restinga era conhecida”

ROBERTA CAPITÃO, fundadora do grupo Empreendedoras Restinga

“Como eu sempre morei aqui [na Restinga], tinha consciência de que era longe do Centro. Mas, quando eu resolvi abrir uma filial no bairro vizinho, na avenida Juca Batista, as pessoas não viam problema na localização, apenas iam”, lembra a gestora.

Primeiro encontro do grupo reuniu cerca de 80 mulheres empreendedoras | Foto: Michaell Escouto Goncalves

Indignada com a descriminação sofrida pelo bairro, Roberta tomou a iniciativa de reunir todas as empreendedoras locais que conhecia. O primeiro encontro contou com a presença de cerca de 80 mulheres com algum tipo de negócio localizado na Restinga ou nos arredores. “E assim surgiu o Empreendedoras. Naquele momento, nós fizemos uma promessa de que não apareceríamos mais nos jornais ou na TV nas páginas policiais, porque era só assim que a Restinga era conhecida.”

O grupo vinha em crescimento constante até o início da pandemia da covid-19 no Brasil, em meados de março de 2020. Roberta conta que o Empreendedoras chegou a somar 270 inscrições de mulheres com negócios no bairro. Hoje, são 76 integrantes. Mas, para além da barreira imposta pela pandemia, Roberta explica que a ausência dos bancos privados no bairro dificulta muito as negociações das empreendedoras e, por conseguinte, o processo de crescimento da economia local.

Daniela segurando dois copões de açaí
Além de realizar tele-entregas, Daniela também tem um espaço de vendas localizado na Restinga Velha | Foto: Gabrielle de Luna

Apesar do abalo que a crise sanitária causou ao grupo, Roberta destaca que houve mulheres que souberam se reinventar e continuar crescendo mesmo nesse período. Uma delas foi Daniela Santos da Silva, proprietária da Dani Brigaderia, uma tele-entrega de doces e quitutes artesanais feitos por ela própria.

Daniela passou a produzir seus produtos também para um aplicativo de entregas. Além disso, acrescentou ao seu cardápio itens que seriam mais rapidamente produzidos e que também fazem sucesso entre seus clientes, como o “copão de açaí”.

“Todo mundo pode crescer, e o que mais tem crescido é a ajuda que os pequenos empreendedores têm dado uns aos outros”

DANIELA SANTOS DA SILVA, proprietária da Dani Brigaderia

A doceira não nega que a pandemia tenha afetado seu negócio — até mesmo pela proibição de eventos, que eram seu principal nicho de atuação. No entanto, se mostra orgulhosa com os resultados que vem tendo ultimamente e otimista com o futuro de outros pequenos empreendedores. “Todo mundo pode crescer, e o que mais tem crescido é a ajuda que os pequenos empreendedores têm dado uns aos outros”, conclui Daniela.

Senta que lá vem cultura

O misto de todos aqueles processos que ocorreram há 50 anos, com o crescente empoderamento e conhecimento de sua própria história, torna as periferias também grandes  produtoras de cultura na atualidade. 

Essa junção de diversidade e retomada histórica de crenças e costumes das pessoas que povoaram as periferias resultou em uma enorme quantidade de expressões culturais que vêm aparecendo cada dia mais. Hoje, é possível ver isso até mesmo em eventos como o Grammy Awards — que, na edição de 2021, deu destaque ao funk brasileiro. A rapper estadunidense Cardi B apresentou no principal evento de música do mundo um trecho de um remix em ritmo de funk carioca – gênero que se destacou na periferia.

A força periférica como polo cultural e exportador de novas tendências se tornou uma das maiores apostas para o crescimento econômico dessas regiões. É o que defende o professor da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Leandro Pinheiro. Pesquisador das regiões periféricas da cidade de Porto Alegre, Leandro acredita que o melhor jeito das periferias prosperarem é estando cada vez mais presentes no cenário político-cultural do país.

“Não vejo outro caminho a não ser a união do próprio ativismo e das redes de comunicação para que a gente possa produzir o futuro da periferia de uma maneira mais ativa”, explica o professor. União essa que vem sendo explorada pelo escritor periférico José Falero. 

José Falero segurando seus dois livros
José Falero está entre os maiores nomes da literatura periférica no Brasil da atualidade | Foto: Arquivo pessoal

Nascido e criado no bairro Lomba do Pinheiro, zona leste de Porto Alegre, Falero passou boa parte da vida trabalhando como servente de pedreiro. Hoje, resgata toda sua experiência enquanto homem periférico na literatura e na construção de crônicas críticas para o portal jornalístico Matinal.

“Estão acontecendo uma série de avanços, mesmo que lentos. O fato de um cara como eu conseguir publicar um romance por uma editora como a Todavia é um avanço. E eu acho que tudo isso passa pelas políticas públicas”

JOSÉ FALERO, escritor

Autor dos livros Vila Sapo e Os Supridores, Falero se mostra preocupado com a situação de desigualdade em que se encontram os sujeitos periféricos durante a pandemia. Mas, quando questionado sobre um futuro protagonismo das periferias, é a esperança que predomina.

“Estão acontecendo uma série de avanços, mesmo que lentos. O fato de um cara como eu conseguir publicar um romance por uma editora como a Todavia é um avanço. E eu acho que tudo isso passa pelas políticas públicas”, reflete o escritor.


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De fato, o acesso a espaços de poder que as políticas públicas têm proporcionado para quem vem da periferia é notável. Um exemplo disso está no Estudo entre Desigualdades Sociais por Cor ou Raça, divulgado em 2019 pelo IBGE, que mostrou alunos autodeclarados pretos, pardos ou indígenas como a maioria entre os inscritos nas universidades brasileiras pela primeira vez — 50,3%.

Segundo Falero, essa crescente presença da periferia em espaços de poder acaba mudando as pautas a serem discutidas. Aos poucos, muda-se também a hegemonia da produção de conhecimento.

De fato, os depoimentos e até os números evidenciam um futuro promissor para as periferias. José Falero resume toda essa potencialidade periférica com  uma frase citada por Mano Brown, em entrevista concedida ao também rapper Thaíde: “O que eu prometo é luta. Não prometo sucesso”. E Falero completa: “O negócio é lutar, porque a luta tá aí”.

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