Quem tem medo de criança?

Por causa da pandemia, pais e filhos passaram a conviver mais, o que se mostrou  um desafio para os adultos. E para as crianças?

REPORTAGEM
Adriana Figueiredo
adrianadesfigueiredo@gmail.com

ILUSTRAÇÃO
Borga

“Eu vou admitir, ontem foi muito divertido”, confessa Lucas Zuur, 12 anos, sobre ter brincado com crianças pela primeira vez após seis meses de isolamento. Nesse tempo todo, ele não havia falado pessoalmente com ninguém da sua idade. Assim como  Lucas, muitas outras crianças estão passando mais tempo em casa com a família  desde que começou o distanciamento social por causa da pandemia de Covid-19.

Já na casa da Sofia de Oliveira, de apenas 5 anos, e do irmão Yuri, 10, o tema de discussão é a escola: ela sente falta, ele também. Mas, no caso do Yuri, ele quer mesmo é a professora de volta, não gosta que a mãe cumpra esse papel. A Alice Freire, do auge dos seus 7 anos, lidera os irmãos Pedro, 5, e Martin, 1 e meio, no grande empreendimento da pandemia: tornar o apartamento da família um condomínio, em que cada quarto é uma casa. Tem criança que gosta de tecnologia, criança que não gosta; e criança passando mais tempo com os pais e aprendendo coisas novas.

Desde a chegada do novo coronavírus, tenho observado crianças e pais brincando na praça em frente à minha casa, no bairro Jardim Itú Sabará, em Porto Alegre. Pode parecer banal, mas em 18 anos morando no mesmo lugar, nunca havia me deparado com essa cena. Talvez porque tenho passado mais tempo à mesa de trabalho e, consequentemente, à janela, isso tenha me saltado aos olhos. 

A cena da praça também pode ter sido viabilizada pelo fato de que, agora, pais enfrentam uma rotina que os obriga a conviver mais com os filhos – uma convivência difícil, mas que pode ser recompensadora. É o que avalia a  psicóloga Eliana Sardi Bortolon, que atua em um Centro de Referência de Assistência Social (Cras) em Passo Fundo, para quem, na desigualdade entre adultos e crianças, é que mora o crescimento: “Isso é estruturante para uma criança. Ela saber que tem com quem contar”. 

Esse contato entre  crianças e  adultos faz parte do  processo de humanização dos filhos. “A gente aprende a ser a gente, a gente não nasce gente”, explica Eliana. O mesmo processo acontece na escola, quando as crianças  encontram outro grupo de adultos. Tem-se observado, todavia, um movimento de terceirização da criação dos filhos, o qual sucede a máxima do desenvolvimentismo, que pregava o autodesenvolvimento dos pequenos como plantas que crescem sozinhas.

Redescobrindo as crianças

A maior convivência evidenciou uma triste tendência: pais que conhecem pouco os próprios filhos e que não entendem o papel da  escola. A pandemia, no entanto, serviu como contramovimento. Para Eliana, o choque dos pais com a realidade das crianças é positivo. Além disso, proporciona a aproximação emocional das famílias. “É como costurar um tecido com uma linha nova e mais de perto, as partes ficam mais próximas”, expressa Lisianne Santos Cabral de Melo, mãe do Lucas.

“O Lucas nunca tinha vivenciado uma situação de quebra da rotina tão grande. Então, para ele, com autismo, complica um pouco, porque ele não tem mais todos os outros grupos com os quais  socializava, então eu passei a ser todos esses grupos”

LISIANNE SANTOS CABRAL DE MELO, mãe do Lucas

A relação de mãe e filho entre eles sempre foi bastante concisa, como contam os dois. Com a pandemia, entretanto, a sua convivência aumentou consideravelmente e deixou essa relação mais próxima. Lisianne, professora e tradutora, continuou lecionando de casa para os alunos particulares, mas perdeu um dos empregos, já que a escola em que trabalhava fechou. O pai de Lucas mora na Holanda e vê o filho a cada dois meses, aproximadamente. 

Lucas. Pauta Adriana.
Lucas aprendeu a fazer pizza e bolo na quarentena e agora ajuda a mãe na cozinha
Foto: Lisianne Santos Cabral de Melo / Arquivo Pessoal

Nos últimos meses em casa, Lucas perdeu o medo do fogo e começou a ajudar a mãe na cozinha. Segundo Lisianne, o filho passou a observar rotinas às quais antes não dedicava atenção, acumulando aprendizados que a escola não oferece. “É uma experiência que somente essa realidade de estar perto traz, porque no dia a dia a gente não consegue, não dá tempo.”

A maior convivência entre os dois fez com que ele desenvolvesse habilidades novas, impactando positivamente no seu desenvolvimento. Porém, em casos em que essa mesma relação está desequilibrada, é possível que implique em questões comportamentais da criança, como aponta a pedagoga Anelise Hostyn Heck de Lemos, coordenadora pedagógica da Escola Municipal de Educação Infantil Protásio Alves, em Porto Alegre.

Lucas e Lisianne, além de fazerem bolos e pizzas, passaram a assistir a séries e filmes juntos, como lazer e como forma de aprendizado de línguas estrangeiras, já que ela é professora de inglês. Fizeram, também, expedições de botânica pelas plantas do condomínio. Seus momentos de convivência não se resumem, entretanto, em  diversão. Lucas está no 6° ano e continua tendo aulas online.

“O Lucas nunca tinha vivenciado uma situação de quebra da rotina tão grande. Então, para ele, com autismo, complica um pouco, porque ele não tem mais todos os outros grupos com os quais  socializava. Então eu passei a ser todos esses grupos”, explica Lisianne. Ela teve que solicitar educação especial junto à escola e tem ajudado o filho com as tarefas escolares, já que ele tem dificuldade em apreender o conteúdo por intermédio do computador. “Se as aulas fossem pelo menos divertidas, mas não. E agora eu já tô há uns três ou quatro meses com aula virtual. E quantas foram lúdicas? Só duas!”, reclama Lucas. Segundo ele, as aulas estão muito mais “chatas” e o conteúdo, muito mais difícil do que anteriormente.

Aulas e brincadeiras

A situação na casa de Franciele Minuzzi, monitora de sala de aula em uma escola de educação infantil, e de Joaquim de Oliveira, funcionário de um posto de gasolina, não é muito diferente. Sofia, 5 anos, está com muita saudade dos professores e dos colegas. Já Yuri, 10 anos, compartilha do pensamento de Lucas de que as aulas estão “muito chatas”. Franciele, a mãe, tenta ajudar o filho no aprendizado, mas ele não gosta da ideia de tê-la agindo como sua professora. 

Para a psicóloga Eliana, o problema do ensino a distância é que o foco está na resposta e não no processo. “É importante que as escolas tenham criado estratégias de se comunicar com as crianças, para que elas não percam esse ritmo e mantenham o contato com os professores.”

“Não há nada que substitua a fraternidade, como aquela alfinetada entre irmãos, que é o que nos torna pessoas melhores. Não há amor igual, mas também não há desafio maior enquanto pessoas, tanto amor e tanto ódio nessa mesma intensidade, e as crianças têm essa relação com os colegas também.”

ELIANA SARDI BORTOLON, psicóloga

A pedagoga Anelise concorda. Para ela, as chamadas de vídeo entre alunos e professores serve, principalmente, para a manutenção do vínculo entre eles. Dentre as perdas da quarentena, em sua opinião, uma se destaca: a não socialização das crianças, que ocorria, em tempos normais, essencialmente em âmbito escolar. Eliana também se preocupa com a questão. “Não há nada que substitua a fraternidade, como aquela alfinetada entre irmãos, que é o que nos torna pessoas melhores. Não há amor igual, mas também não há desafio maior enquanto pessoas, tanto amor e tanto ódio nessa mesma intensidade, e as crianças têm essa relação com os colegas também.”

Nesse quesito, Alice, 7 anos, teve sorte: tem dois irmãos com quem brincar em casa. Mesmo assim, sente falta de fazer novas amizades. Por isso, agora fala, quando consegue, com a amiga e vizinha através da janela. Segundo a mãe, Fabiana Pinto Pires, coordenadora pedagógica de Ensino Médio, tanto Alice, quanto Pedro, 5 anos, e  Martin, 1 ano e meio, são  muito sociáveis e sentem falta de estar na presença de outras crianças em ambientes de interação. Para tentar driblar a situação, fingem que o apartamento em que moram é a rua e brincam de se visitar entre os quartos.

Isso mostra que as diversões em tempos de quarentena são outras. Enquanto Pedro interage com os passarinhos brincando com seus fantoches na janela, Alice finge ser a “moça do tempo” do telejornal. Martin também tenta entrar na brincadeira como pode: imita os pais gravando áudio – em um controle remoto de televisão – e coloca os fones de ouvido, entregando os fios para que a mãe os conecte no computador. “Isso foi uma coisa que se antecipou com a pandemia. A gente nunca expôs eles a jogos e ao uso de computador, nunca estimulou muito, porque eles não estavam em idade. Eles foram jogados pra esse universo. E aí eu acho saudável, pelo fato de ter uma janela com o mundo, eles não ficam tão isolados”, comenta Fabiana. 

Vinícius Maestri de Oliveira Freire, pai das crianças e esposo de Fabiana, trabalha como editor-chefe em uma emissora de televisão e teve a carga de trabalho aumentada durante a pandemia. Ainda tendo que ir trabalhar fora, tem demandas de estudo e trabalho quando está em casa e, por vezes, tem de se dividir entre as atividades de jornalista e pai. “Quando tenho cinco minutinhos de intervalo, dou um cheiro neles, respondo alguma coisa, tento ficar sempre de olho, cuidando e interagindo.” Antigamente, ele e Fabiana buscavam trabalhar em turnos diferentes para poder dar atenção às crianças, situação que ficou impossibilitada com a chegada da pandemia.

União e amizade

Enquanto uns estão mais próximos da tecnologia, outros querem distância. Maria Olívia Paixão, 8 anos, não quer mais ligar a câmera nas aulas. Além disso, resolveu parar com algumas atividades extraclasse, que estavam ocorrendo de forma online, a fim de aproveitar melhor o tempo livre presencial com a sua mãe. Vanessa de Faria Santos Kussler, a mãe, é corretora de imóveis, mas não está trabalhando neste ano. 

Em dias normais, moram só as duas. Atualmente, entretanto, estão quarentenando na praia, na casa dos avós de Olívia, com os seus dois cachorros e dois gatos. O tempo em que mãe e filha passam juntas, antes representado pelo momento no carro de casa até a escola, se multiplicou. Agora cozinham bolo e fazem camisetas em tie dye juntas. O pai de Olívia também tem casa na mesma praia e vê a filha mais do que ocorria antes da pandemia.

Aconteceu o mesmo na família de Lucirene Gladzik da Silva, que cursa magistério, e  Luís Fernando de Oliveira da Silva, que era impressor gráfico, mas perdeu o emprego devido à pandemia. Eles e os filhos, Luís Eduardo, 11 anos, e Rafaella, 8 anos, têm passado muito mais tempo juntos. Antes, o pai trabalhava fora, e a mãe frequentava aulas. As crianças iam para a escola, tendo poucos momentos em que todos estavam juntos. “Está sendo bem gratificante”, aponta Lucirene, lembrando que sempre foram unidos. 

Eles conseguiram reformar a casa durante a pandemia, e as crianças ajudaram em algumas atividades, como na pintura de paredes. A pedagoga Anelise comenta a importância da delegação de tarefas para os filhos, como fizeram Lucirene e Luís Fernando. Segundo ela, as crianças necessitam de uma rotina organizada, com momentos de lazer junto aos pais. “Quando uma criança está desorganizada, ela fica agitada e demanda uma atenção maior.” Luís Eduardo e Rafaella confirmam que o processo foi interessante e se sentem muito felizes de estarem unidos com a família. Mesmo assim, têm saudade de encontrar os amigos da escola. 

E, após tanto tempo em casa, quem não sente falta dos amigos? 

Já não me importa a razão pela qual tenho percebido mais os pais e as crianças logo ali nos brinquedos do outro lado da rua. Fiz dessa cena quase diária minha terapia da quarentena: lembro nostalgicamente de quando era eu a brincar naquela praça, subindo nas árvores ou aprendendo a andar de bicicleta. Da janela, enquanto trabalho, fico imaginando como seria brincar de escorrega com aquelas crianças. 

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