Velozes e cautelosos

Carros elétricos, uso de bicicletas e deslocamento coletivo. Como os meios de transporte do futuro vão unir eficiência e sustentabilidade

REPORTAGEM
Henrique Letti

hdletti@outlook.com

ILUSTRAÇÕES
Bruna KL
Céu Isatto (capa)

Carros com asas, skates voadores e mochilas a jato. Muitas obras de ficção tentaram prever como seria o transporte no futuro – e a verdade é que algumas erraram apenas por pouco. Com a inserção definitiva de novos meios de locomoção em um horizonte próximo, bem como o avanço nas vendas de modais já conhecidos, muitas cidades estão se preparando para as iminentes transformações. Seria Porto Alegre uma delas? 

Em 2020, a venda de carros elétricos teve um aumento de 43% no mundo. No Brasil, não foi diferente. De acordo com a Associação Brasileira de Veículos Elétricos (ABVE), o ano de 2020 representou um recorde de vendas do modal no país, com aumento de 66,5% nos emplacamentos em relação a 2019 – e a tendência é que o número dobre em 2021. Além disso, o país também registrou crescimento na comercialização de bicicletas: no pico, em julho do ano passado, a alta foi de 118%. Os dois meios de transporte representam diferentes estágios tecnológicos, mas dialogam em temas como praticidade e sustentabilidade.

A pandemia não evitou o crescimento na venda de alguns modais, mas o oposto também foi visto. Somente no Rio Grande do Sul, a comercialização de carros novos, movidos a gasolina, teve queda de 27,6% no último ano. Essa já era uma tendência, que foi amplificada pela crise econômica.

Pela primeira vez na história, um país registrou que a maioria dos seus carros vendidos foram elétricos, não a gasolina. Em 2020, na Noruega, 54,3% dos veículos novos nas ruas são abastecidos na tomada. O dado representa, sobretudo, uma política da nação escandinava, que quer ter toda a sua frota com “zero emissões” até 2025.

Na foto, dois carros são abastecidos em ponto de carregamento ao lado de uma calçada em Madri, capital da Espanha.
Em pontos expressos, a bateria de carros elétricos é carregada completamente em menos de uma hora
Foto: Henrique Letti

O engenheiro mecânico Gilberto Luz, de 50 anos, foi um dos brasileiros que se juntou à onda do crescimento de vendas do modal. Em julho do ano passado, ele adquiriu um carro híbrido, que pode ser tanto abastecido com gasolina quanto carregado na tomada.

“Adquiri o carro por não ser poluente. Até hoje, só precisei encher o tanque [de gasolina] duas vezes. No período, teria abastecido com combustível pelo menos uma vez a cada 15 dias”, pontua o engenheiro, que mora em Caxias do Sul. “O ponto negativo é o preço, em torno de 20% mais caro do que o mesmo carro apenas a combustão, além de a infraestrutura na cidade ser inexistente.”

À revista Sextante, o secretário de Mobilidade Urbana de Porto Alegre, Luiz Fernando Záchia, revelou que a capital pretende, até o final de 2021, instalar pontos públicos de abastecimento de veículos elétricos no município: um perto do  Parcão, outro no Centro Histórico e, ainda, um terceiro, próximo a um shopping na zona Sul. A ação se daria em parceria com concessionárias de automóveis. “A cidade tem de estar preparada para o aumento das vendas de carros elétricos. Na medida em que a frota vai aumentando, teremos de nos ajustar a isso”, destaca o líder da pasta.

“Temos de tomar cuidado para não transformar o congestionamento de hoje, que é poluente e causa danos à saúde do cidadão, em um congestionamento verde. O ideal é que a gente consiga avançar para uma mobilidade elétrica coletiva”

RODRIGO TORTORIELLO, especialista em mobilidade urbana

Mesmo representando avanços, os carros elétricos não são a solução para as cidades. Rodrigo Tortoriello, especialista em mobilidade urbana e mobilidade ativa, acredita em outra prioridade. “Temos de tomar cuidado para não transformar o congestionamento de hoje, que é poluente e causa danos à saúde do cidadão, em um congestionamento verde. O ideal é que a gente consiga avançar para uma mobilidade elétrica coletiva”, explica.


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A eletromobilidade tem ganhado espaço em grandes cidades: Shenzen, na China, que possui mais de 12 milhões de habitantes, é a primeira do mundo a contar com 100% de seus ônibus elétricos. Apontado como um dos caminhos a ser seguido, o transporte coletivo também é pauta recorrente em debates sobre a capital gaúcha. Um exemplo de discussão é o valor da tarifa, que, por muito tempo, foi o maior entre as grandes cidades brasileiras – e reflete a necessidade de uma mudança. 

“Para baratear o transporte coletivo, é preciso buscar o usuário que era de ônibus e passou para outros modais, já que é o valor da tarifa que custeia o serviço”, detalha o secretário de Mobilidade Urbana de Porto Alegre. “O ônibus elétrico é uma tendência natural, claro que a médio prazo. Mas não adianta só renovar a frota, é preciso buscar alternativas para que o sistema seja viável e funcione como um todo.” 

Uma das maneiras de viabilizar o transporte coletivo é torná-lo mais prático. Em Porto Alegre, a faixa azul, exclusiva para ônibus, tem sido implementada progressivamente e já reduziu em um terço o tempo das viagens. De acordo com Záchia, ela seguirá sendo uma das prioridades de sua pasta.

NEM TUDO SÃO MOTORES

A primeira indústria consolidada de bicicletas surgiu em 1875, na França. Desde então, diferentes modelos foram criados e cimentaram o veículo como o transporte mais saudável ao usuário e sustentável no mercado. Ao longo da história, a venda de bikes passou por fases – e, neste momento, as empresas observam um novo crescimento na demanda. Em 2020, a comercialização aumentou ao mesmo tempo em que a produção diminuiu, principalmente por conta da escassez de matéria-prima, justificada, consequentemente, pelo aumento da demanda. 

Vice-presidente da Federação Gaúcha de Ciclismo, o ex-vereador da capital gaúcha Marcelo Sgarbossa defende medidas públicas para estimular o uso do veículo. “Não temos uma cultura de incentivo ao uso da bicicleta no poder público. O sistema é desequilibrado em favor de quem está de carro”, contesta. “Ao pensar a cidade a partir da lógica do transporte ativo [à propulsão humana], se pensa em uma cidade acessível, que restringe o espaço de um em favor do outro.”

Na foto, um ciclista utiliza a ciclofaixa da rua Siqueira Campos, tendo o Mercado Público de Porto Alegre ao fundo.
A ciclofaixa da rua Siqueira Campos, no Centro Histórico de Porto Alegre, foi a última a ser entregue na cidade, em junho de 2020
Foto: Alex Rocha/PMPA/Divulgação

Os avanços na mobilidade e o planejamento urbano não dependem um do outro para existir. As cidades não precisam aguardar um “boom” na venda de algum modal para se adaptar a ele. Há exemplos, inclusive, do efeito inverso: em Berlim, capital da Alemanha, a construção de mais de mil quilômetros de ciclovias, entre 2004 e 2012, aumentou o número de ciclistas em 40%

Tortoriello, que foi secretário extraordinário de Mobilidade Urbana de Porto Alegre na gestão anterior, afirma que a rede cicloviária precisa ser ampliada, mas com cuidados. “Se você constrói a ciclovia sem a preocupação com a segurança, pode estar gerando um problema para a saúde pública. É preciso fazer um projeto bem feito, ainda que implantado em fases”, pontua. 

Arte: Bruna KL

O especialista usa como exemplo a cidade de Bogotá, que conta com 7% do seu deslocamento total feito com bicicletas e possui uma rede cicloviária de 550 quilômetros. Nos primeiros dias da pandemia, a capital da Colômbia aumentou em 16% suas vias para ciclistas para auxiliar a locomoção de trabalhadores essenciais e promete aumentar a malha em 280 quilômetros nos próximos quatro anos.

Em 2009, na capital gaúcha, entrou em vigor o Plano Diretor Cicloviário Integrado (PDCI), que previa 495 quilômetros de ciclovias até 2022. Atualmente, Porto Alegre possui 58,8 quilômetros, o que representa 11,9% do plano. Há dez anos, a proporção era de apenas 0,7% (3,35 quilômetros de rede cicloviária). “A lógica precisa ser a do ‘construa e eles virão’. É preciso ter uma série de políticas que restringem o espaço do automóvel e priorizam o ciclista”, completa Sgarbossa.

TECNOLOGIA E VELOCIDADE

Além dos modais já conhecidos, novos meios de transporte darão as caras nos próximos anos. Os trens da empresa HyperloopTT, que viajam em alta velocidade por levitação magnética, estão tendo a viabilidade para sua implementação estudada pela Escola de Engenharia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) em parceria com o Governo do Estado.

“Não estamos falando de 30, 40 ou 50 anos. São dois ou três anos para ter o sistema [por levitação magnética] comercialmente operacional”

RICARDO PENZIN, CEO da HyperloopTT

De acordo com Ricardo Penzin, CEO da HyperloopTT na América Latina, as tecnologias para o funcionamento do modal estão todas prontas. “O que ainda está em desenvolvimento é a parte de finalização e operação. Não estamos falando de 30, 40 ou 50 anos. São dois ou três anos para ter o sistema [por levitação magnética] comercialmente operacional”, explica.

O transporte consiste em uma cápsula que pode transportar pessoas e cargas a 1,2 mil quilômetros por hora, a partir de um sistema de baixa pressão. Ricardo detalha que o sistema tem baixo custo operacional e que funciona à base de energia solar. O estudo realizado pela UFRGS visa a implantação do meio com rota entre Porto Alegre e a Serra Gaúcha, que poderia levar 12 minutos, cerca de nove vezes menos do que o trajeto por carro.

Vídeo demonstrativo dos trens de alta-velocidade da HyperloopTT

O conceito do hyperloop foi idealizado por Elon Musk, cuja empresa de automóveis, Tesla Motors, é referência mundial em carros autônomos. O veículo não necessita de motorista e controla volante e pedais sozinho. Há, porém, projetos que vão além: nos Estados Unidos, a Alphabet Inc, empresa dona do Google, lançou o serviço de táxis autônomos Waymo, em que os carros não precisam de motoristas para dirigir. Ele já opera em Chandler, uma cidade no estado do Arizona, realizando mil viagens semanais.


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Nem todas as viagens modernas, entretanto, serão pelo solo. Com expectativa do início de sua operação em 2023, o Uber Elevate é um táxi aéreo que terá estações na cobertura de prédios comerciais de grandes metrópoles, conduzindo usuários de um ponto ao outro. O veículo, chamado de VTOL (Vertical Take-off and Landing, que significa decolagem e aterragem vertical), voa como um avião, mas pousa e decola como um helicóptero.

Com ou sem motorista, por baixo ou por cima. Os transportes seguem a tendência de uma busca pela eficiência e, ao mesmo tempo, um cuidado com o meio ambiente. As tecnologias já estão aí – o que resta é a necessidade por políticas públicas que viabilizem seu uso geral e irrestrito no presente e no futuro.

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