Um pé no lar e o outro na carreira

O dilema das mulheres brasileiras e a (in)cansável busca por dar conta de tudo o que desejam para si e para os outros. E que, muitas vezes, esses outros parecem não ver 

REPORTAGEM
Juliana Maciel
juliana.crmaciel@gmail.com

ILUSTRAÇÃO
Borga

Silvia Röhrs tem 54 anos e mora em Porto Alegre com a filha, de 23, e o filho, de 14. Em um dia normal da semana, ela acorda às 6h30min, organiza o seu quarto e o dos filhos, toma café com eles e, se a pilha de roupa suja já tiver se formado, coloca tudo para lavar. Ela sente prazer ao ver a casa limpa e organizada. Ama cuidar, proteger e estar presente na vida dos filhos — que também assumem algumas das tarefas de organização da casa. Mas Silvia tem se sentido cansada, às vezes frustrada por não conseguir dar conta de tudo. Porque, nesse tudo, entram ainda outras inúmeras responsabilidades e desejos.

Mulher limpando janela. Pauta de Juliana Maciel
No Brasil, mulheres dedicam 18,1 horas semanais aos cuidados de pessoas ou a afazeres domésticos, segundo o IBGE | Foto: Wagner Maciel

Silvia é uma entre tantas mulheres que mantêm uma rotina intensa, seja do lado de dentro, seja do lado de fora da janela. 

Além dessas e de outras demandas do lar, como a limpeza e o preparo das refeições, ela trabalha como supervisora comercial de polo EAD em uma instituição de ensino. Antes da pandemia do coronavírus, ela trabalhava presencialmente à tarde e à noite. Chegava em casa às 22h30min e, em alguns períodos, também precisava trabalhar os três turnos. Desde março, ela está em home office, o que tem lhe proporcionado maior flexibilidade para administrar todas as suas atividades, que não param por aqui: ela também faz faxina na casa de uma vizinha a cada 15 dias e se arrisca na vida de empreendedora, produzindo e vendendo sua marca de geleia de pimenta, a Dedo de Mãe, para amigos, colegas e hamburguerias.

Com tudo isso, sobra tempo para cuidar de si? Silvia afirma que tem caminhado quatro vezes na semana, além de ler, de ver filmes e de falar com amigos e com familiares. Talvez não na frequência com que gostaria. Volta e meia  se sente frustrada, perdida no malabarismo. Mas, hoje, a convivência mais próxima com os filhos também tem lhe nutrido a alma. Ainda assim, ela imagina como seria poder contar com o apoio do ex-marido, tanto financeiramente, quanto no cuidado dos filhos. “Tem mais de nove meses que ele não passa um fim de semana cuidando deles”, conta. E, assim, a imagem de uma semana sozinha, só para si, acaba limitada à esfera da fantasia.

Quando Silvia se separou, sentiu-se mais feliz. Até então, seu esforço parecia nunca ser suficiente: “Quando casada, me sentia explorada em todos os sentidos, era literalmente a empregada da casa. Trabalhava, cuidava de tudo e de todos, sem ser reconhecida. Culpa minha, claro, eu permitia que isso acontecesse”. Será? Será que a culpa por não ter seus esforços valorizados era realmente dela?

Sua personalidade de gostar de cuidar e de organizar pode até ter contribuído. No entanto, o Retrato das Desigualdades de Gênero e Raça no Brasil, realizado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), revela que o cansaço de Silvia é o de tantas outras mulheres.

Do lado de dentro, o mundo ainda não mudou

A taxa de participação das mulheres no mercado de trabalho no Brasil deu um grande salto nas décadas de 1960, 70 e 80. Porém, nos últimos 20 anos, esse número pouco se alterou. 

“Parece que as mulheres alcançaram um teto de entrada no mercado de trabalho. Elas não conseguiram superar os 60%, que a gente considera um patamar baixo em comparação a outros muitos países”, afirma a técnica de planejamento e pesquisa do Ipea Natália Fontoura, em vídeo no site do instituto. Natália é uma das autoras do Retrato das Desigualdades de Gênero e Raça, estudo desenvolvido com base em séries históricas de 1995 a 2015.

“Então, a responsabilidade feminina pelo trabalho de cuidado ainda continua impedindo que muitas mulheres entrem no mercado de trabalho e, ao mesmo tempo, aquelas que entram continuam respondendo pelas tarefas de cuidado e pelas tarefas domésticas. Isso faz com que a gente tenha a dupla jornada e a sobrecarga de trabalho”

NATÁLIA FONTOURA, técnica de planejamento e pesquisa do Ipea

Conforme o Retrato, em 20 anos, a taxa de participação das mulheres no mercado de trabalho avançou menos de dois pontos percentuais, indo de 53,8% para 55,3%. “Então, a responsabilidade feminina pelo trabalho de cuidado ainda continua impedindo que muitas mulheres entrem no mercado de trabalho e, ao mesmo tempo, aquelas que entram continuam respondendo pelas tarefas de cuidado e pelas tarefas domésticas. Isso faz com que a gente tenha a dupla jornada e a sobrecarga de trabalho”, avalia Natália no mesmo vídeo. 

O resultado desse estudo ainda mostrou que as mulheres trabalham 7,5 horas a mais do que os homens por semana, considerando a jornada total de trabalho, ou seja, a soma do trabalho doméstico não remunerado e do trabalho principal. É um pouco mais de uma hora  por dia que poderia ser dedicada a fazer um exercício, a ler um livro, a aprender algo novo, ou a simplesmente descansar, desacelerar e aproveitar o ócio.

As Estatísticas de Gênero, pesquisa conduzida pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), também mapeia esse cenário. Dados de 2016 mostram que as mulheres dedicam 18,1 horas semanais aos cuidados de pessoas ou a afazeres domésticos, quase o dobro dos homens, que é de 10,5 horas semanais. Dentro desse contexto, as mulheres pretas ou pardas são as que mais investem tempo nessas atividades, com 18,6 horas semanais. Já entre os homens, o indicador pouco oscila quando se considera a cor, a raça, ou a região do Brasil.

O que isso nos diz? As mulheres têm menos tempo para si, e esse é um problema estrutural. Mas o que os dados não mostram é talvez o que mais dói: a falta de reconhecimento e a sensação de se estar só.

Ilustração com dados sobre tarefas domésticas. Pauta de Juliana Maciel
O Trabalho Invisível das Mulheres

Marina Rodrigues é arquiteta e tem 45 anos. Ela mora em Porto Alegre junto com seu esposo e com os dois filhos gêmeos, que estão quase completando 10 anos. Ela conta que, quando os meninos nasceram, acabou deixando o trabalho num segundo plano e assumindo o cuidado dos filhos como sua prioridade. Não foi uma decisão conversada e acordada. “Ficou meio que implícita essa combinação de que eu tinha que assumir mais isso e ele ia trabalhar que nem louco. Então, eu comecei a trabalhar menos, sempre levando os guris, buscando, fazendo essa administração do lar.”

Por outro lado, o seu companheiro também acelerou o pé no trabalho. De segunda à sexta, ele sai de casa por volta das 7h e só retorna às 20h. “Então, toda a questão de leva e traz das crianças, de auxílio nas atividades da escola, de comida, de super, de tudo é realmente comigo, porque ele não consegue me ajudar nisso.” 

Minha mãe e as mães do meu bairro. Obra de Anujath Sindhu Vinaylal. Pauta de Juliana Maciel.
O trabalho não remunerado não é um desafio apenas das mulheres brasileiras. Aos 10 anos, o menino indiano Anujath Sindhu Vinaylal pintou a obra “Minha mãe e as mães do meu bairro”, que hoje, quatro anos depois, se tornou a capa do Orçamento Infantil e de Gênero 2020 – 2021, do estado de Kerala. A obra retrata como o menino enxergava as mulheres de sua vizinhança: sempre trabalhando | Foto: Reprodução

Só que a organização da casa não é uma atividade que Marina gosta de fazer. “Eu acabo que fico bem estressada quando eu tô com o trabalho doméstico dependendo de mim… a parte de comida, de lavar roupa, de arrumar a casa.” Por muito tempo, ela teve de conciliar isso com o cuidado dos filhos gêmeos ainda pequenos e o seu trabalho, que nunca parou totalmente. Só que o estresse que ela sentia era ruim tanto pra ela, quanto para sua família. Sua paciência diminuía e os conflitos em casa aumentavam. Nesse caldeirão, havia um catalisador: a sensação de que o companheiro não compreendia tudo que ela fazia, e, assim, também não poderia compreender as razões da sua irritação. Afinal, ele passava o dia fora. E essa era uma lacuna na comunicação entre os dois.

Com o tempo, Marina compreendeu que, para ela, era imprescindível contar com o apoio de alguém e decidiu contratar uma pessoa para trabalhar meio turno em sua casa. Com o suporte dessa profissional, ela vem buscando equilibrar o cuidado com as crianças e a progressiva retomada de sua carreira, agora que os meninos estão ficando maiores. Ela também lembra de uma situação recente em que precisou viajar dois dias a trabalho e o esposo ficou com as crianças em casa. Na sua chegada, ele só comentou: “Eu não ia aguentar uma semana”.

A importância do diálogo

Rosa Felizardo, que é psicóloga, analista junguiana e também pedagoga, explica que varrer a casa todos os dias pode ser uma tarefa tão exaustiva quanto planejar quando lavar a roupa, ver se vai chover, se todo mundo tem roupa limpa, se tem que comprar produto de limpeza, se não falta detergente na lista do super, se não tem que descongelar o feijão de amanhã, se já não está na hora de trocar os lençóis e as toalhas dos banheiros. Gerenciar o funcionamento de tudo isso também envolve gasto de energia. Assim, as cargas físicas e mentais se somam no final do dia. Quando o parceiro está absolutamente alheio a essa situação e não pega junto nas responsabilidades da casa, cria-se um problema: “A mulher tende a se sentir apartada, como se não estivessem os dois batalhando pela mesma causa”, diz a psicóloga.

Nessas situações, Rosa ressalta a importância do diálogo, porque quanto mais se foge e se evita encarar um temor, mais nos direcionamos a ele. “É importante sentar e botar as cartas na mesa e não cair no silêncio”, afirma. Como se faz no trabalho quando algo não vai bem, em casa também é preciso fazer uma reunião e falar o que se sente, inclusive, mais de uma vez. Ela explica que muitas vezes o ouvido masculino não tem a sensibilidade de captar nuances, muito pela falta de treino. Ele pode não perceber que uma mulher está estressada, ou se sentindo sobrecarregada quando ela comenta que está cansada. Por isso, ela destaca a importância de tanto os homens estarem mais abertos e mais sensíveis a compreender essa linguagem, quanto as mulheres experimentarem comunicar como se sentem e o que desejam de uma maneira mais direta.

Rede de apoio em falta

Além de Marina e Silvia, são muitas outras mulheres passando por situações parecidas e, ao mesmo tempo, diferentes. No caso das duas, a situação de flexibilidade no trabalho permite com que possam ficar com os filhos em casa — ainda que às vezes se sintam esgotadas. Mas muitas mulheres ficaram desempregadas por conta da pandemia e há ainda as que precisam sair de casa para trabalhar e não têm com quem deixar os filhos.

Ilustração: Lorena Bendati

Esse é o caso de Larissa Mule, 32 anos, técnica de enfermagem. Ela mora em São Paulo, tem uma filha de oito anos e um filho de seis de seu último casamento, e acabou de ter mais uma menina, que ainda não completou um ano, com seu atual companheiro. O parceiro trabalha fora e ela recém acabou o período da licença maternidade. Depois de tantos meses em casa, muitas vezes sozinha mais de 12 horas com os filhos pequenos, ela ficou feliz em retomar o emprego presencialmente. Sair, conversar com outras pessoas, mesmo com o risco que a pandemia representa, a faz se sentir mais viva. Porém, ela sente falta de uma rede de pessoas que pudesse lhe dar suporte. Sua mãe lhe ajuda como pode, mas mora em outra cidade. “Então, eu tenho que procurar uma pessoa de fora, me virar nos 30 para pagar… eu acho que a rede de apoio é muito pequena para as mulheres”, diz Larissa.

Caminhos possíveis

Para a psicóloga Rosa Felizardo, a situação de pandemia do Covid-19 escancarou a necessidade de se encontrar soluções enquanto sociedade. “A gente não é ninguém sozinho.” As pessoas vão vendo até onde conseguem ir e, quando chegam no limite, essa vivência de comunidade aparece como necessária. Ela defende a importância de se votar em pessoas que defendam creches comunitárias e que apoiem escolas de tempo integral.

Se o cuidado é algo que te move, [é preciso] entender que se pode incluir pessoas nesse movimento para diminuir a sobrecarga”

ROSA FELIZARDO, psicóloga

Já na esfera privada, Rosa destaca a importância do autoconhecimento e de uma constante reflexão sobre como estamos vivendo e se estamos satisfeitos. É fazer, se possível,  como a Marina que, reconhecendo o quanto algumas atividades faziam mal para ela e para a sua família, assumiu que ter uma ajuda externa era prioridade em sua vida. Ou então, “se o cuidado é algo que te move, entender que se pode incluir pessoas nesse movimento para diminuir a sobrecarga”, diz a psicóloga. E não, simplesmente, excluir isso do seu cotidiano.

Além disso, para que as futuras gerações não repitam os mesmos erros e para que a dupla jornada deixe de sobrecarregar as mulheres, Rosa fala sobre educar os filhos, meninos e meninas, para a sensibilidade e para a autorreflexão, para além do cognitivo. “Isso é dar ferramentas para que eles possam questionar o papel que estão ocupando.” Ou seja, uma educação para a vida.

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