{"id":11929,"date":"2023-09-04T11:50:16","date_gmt":"2023-09-04T14:50:16","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/?post_type=pauta&#038;p=11929"},"modified":"2023-09-13T23:12:16","modified_gmt":"2023-09-14T02:12:16","slug":"o-preto-entre-o-azul-e-o-rosa","status":"publish","type":"pauta","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/pauta\/o-preto-entre-o-azul-e-o-rosa\/","title":{"rendered":"O preto entre o azul e o rosa"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Quais s\u00e3o as distin\u00e7\u00f5es e as semelhan\u00e7as nas experi\u00eancias e na percep\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria vida de pessoas de diferentes gera\u00e7\u00f5es que fazem parte da popula\u00e7\u00e3o trans e negra \u2013 a que morre mais cedo no Brasil?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Desde 2008, quando o levantamento come\u00e7ou a ser feito, o Brasil \u00e9 o pa\u00eds mais perigoso do mundo para ser uma pessoa trans, de acordo com a <a href=\"https:\/\/transrespect.org\/en\/tmm-update-tdor-2022\/\">Transgender Europe<\/a> (TGEU) \u2013 em 2022, 19% dos assassinatos dessas pessoas ao redor do mundo aconteceram aqui. Segundo a mesma organiza\u00e7\u00e3o, 65% dessas mortes s\u00e3o de <strong>pessoas<\/strong> <strong>negras<\/strong>. Pelos dados da <a href=\"https:\/\/antrabrasil.files.wordpress.com\/2022\/01\/dossieantra2022-web.pdf\">Associa\u00e7\u00e3o Nacional de Travestis e Transexuais<\/a> (Antra), em 2022, 121 pessoas trans foram v\u00edtimas de homic\u00eddio no Brasil e pelo menos 76% delas eram negras. A dificuldade de <strong>viver<\/strong> \u2013 e mesmo de sobreviver \u2013 sendo uma pessoa trans e negra, especialmente no Brasil, dispensa maiores explica\u00e7\u00f5es. Enquanto a expectativa de vida das pessoas trans \u00e9 de 35 anos \u2013 dado que j\u00e1 \u00e9 alarmante \u2013, a racializa\u00e7\u00e3o torna esse n\u00famero ainda mais baixo: <strong>28 anos<\/strong>, pelos dados da Antra.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Essas pessoas enfrentam a vida com as lentes de quem existe justamente no cruzamento entre duas das estruturas mais violentas que atravessam a nossa sociedade \u2013 <strong>o racismo e a transfobia<\/strong>. O intuito da reportagem, no entanto, \u00e9 atuar no contrassenso de tudo isso: n\u00e3o se trata, aqui, de um texto que fala de morte, mas de <strong>vida<\/strong>. Na busca por um recorte de viv\u00eancias particulares de pessoas trans e negras e, a partir disso, debatendo o geral com base no espec\u00edfico, o objetivo final da reportagem \u00e9 cruzar perfis de diferentes faixas et\u00e1rias mas que tenham, como denominador comum, a transgeneridade e a negritude.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O que gostam de fazer? Sonham com o qu\u00ea? Como se relacionam? Como e quando passaram a se perceber enquanto os sujeitos que s\u00e3o? Como lidar com o pr\u00f3prio passado e com o futuro, tanto em termos individuais quanto coletivos? Com o intuito de cobrir, na medida do poss\u00edvel&nbsp; dadas todas as limita\u00e7\u00f5es, a diversidade das percep\u00e7\u00f5es, das intui\u00e7\u00f5es e das experi\u00eancias de pessoas trans e negras, \u00e9 fundamental o contato com ao menos tr\u00eas fontes \u2013 1) <strong>uma pessoa adolescente<\/strong>: algu\u00e9m com menos de 18 anos que esteja come\u00e7ando a visualizar, em paralelo \u00e0s quest\u00f5es pr\u00f3prias da adolesc\u00eancia, o mundo a partir da sua pr\u00f3pria subjetividade e que fale sobre expectativas, amizades, fam\u00edlia, escola e aceita\u00e7\u00e3o; 2) <strong>uma pessoa adulta<\/strong>: algu\u00e9m na faixa dos 30 anos, experienciando a consolida\u00e7\u00e3o de uma vida ainda em andamento, que possa falar sobre trabalho, relacionamentos, moradia, luta e pol\u00edtica; 3) <strong>uma pessoa idosa<\/strong>: algu\u00e9m que tenha, de prefer\u00eancia, passado dos 60, contrariando as estat\u00edsticas e que converse conosco sobre experi\u00eancias, mem\u00f3ria, sa\u00fade e <strong>esperan\u00e7a<\/strong>.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Como forma de delimitar o objetivo geral do texto, a ideia \u00e9 tra\u00e7ar uma esp\u00e9cie de <strong>linha do tempo<\/strong> entre os perfilados, demarcando as diferen\u00e7as geracionais entre cada um deles: quem cada um ama? A quais lugares pertencem? Do que t\u00eam medo e como resistem \u2013 ou n\u00e3o \u2013 a esse medo; pretendo, a partir disso, encontrar pontos de intersec\u00e7\u00e3o entre essas experi\u00eancias e destacar as diferen\u00e7as mais gritantes, pontuar como as linhas de cada um dos tr\u00eas se cruzam ou se afastam e como isso se relaciona com a percep\u00e7\u00e3o de cada um da pr\u00f3pria negritude e transgeneridade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Outras refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>DOCUMENTO <strong>&#8211; <\/strong><a href=\"https:\/\/antrabrasil.org\/2022\/08\/17\/antra-entrega-carta-sobre-populacao-trans-negra-a-cidh\/\">ANTRA ENTREGA CARTA SOBRE POPULA\u00c7\u00c3O TRANS NEGRA \u00c0 REPRESENTANTE DA CIDH<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>DISSERTA\u00c7\u00c3O<strong> &#8211; <\/strong><a href=\"https:\/\/sapientia.pucsp.br\/bitstream\/handle\/24729\/1\/Ester%20Xavier%20Santana.pdf\">Envivecer: Pol\u00edticas de vida e afetividades de pessoas trans negras<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>ARTIGO &#8211; <a href=\"https:\/\/revistas.udesc.br\/index.php\/tempo\/article\/view\/2175180312292020e0105\/11458\">\u201cA gente \u00e9 pessoa!\u201d: narrativas de mulheres trans sobre Direitos Humanos<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>DISSERTA\u00c7\u00c3O &#8211;<a href=\"https:\/\/repositorio.bc.ufg.br\/tede\/handle\/tede\/11544\">\u201cCombinamos de n\u00e3o morrer\u201d: transfobia, racismo e resist\u00eancia \u00e0 necropol\u00edtica entre pessoas trans negras em Goi\u00e1s<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>MONOGRAFIA &#8211; <a href=\"https:\/\/repositorio.unifesp.br\/bitstream\/handle\/11600\/58964\/TCC_Experi%c3%aancias%20vividas%20por%20mulheres%20transexuais%20e%20travestis%20negras%20na%20cidade%20de%20S%c3%a3o%20Paulo%20%5bLincoln%20Menezes%2019_10_2020%5d.pdf?sequence=1&amp;isAllowed=y\">EXPERI\u00caNCIAS VIVIDAS POR MULHERES TRANSEXUAIS E TRAVESTIS NEGRAS NA CIDADE DE S\u00c3O PAULO<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>REPORTAGEM &#8211; <a href=\"https:\/\/capricho.abril.com.br\/comportamento\/a-vida-de-transexuais-pretos-no-pais-mais-transfobico-e-racista-do-globo\">A vida de transexuais pretos no pa\u00eds mais transf\u00f3bico e racista do globo&nbsp;<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>REPORTAGEM &#8211; <a href=\"https:\/\/expresso.estadao.com.br\/naperifa\/na-favela-respeitam-meu-genero-mulher-trans-negra-nordestina\/\">\u2018Na favela, respeitam meu g\u00eanero\u2019: a hist\u00f3ria de uma mulher trans, negra e nordestina<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Fontes (perfis para buscar)<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ul><li>Uma pessoa negra e trans com entre 15 e 18 anos;<\/li><li>Uma pessoa negra e trans com entre 25 e 40 anos, de prefer\u00eancia que tenha algum tipo de envolvimento pol\u00edtico e\/ou acad\u00eamico direto com a transgeneridade e\/ou a negritude;<\/li><li>Uma pessoa negra e trans com, no m\u00ednimo, 50 anos.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p><strong>Recursos multim\u00eddia<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Para&nbsp; a mat\u00e9ria, devem ser realizados pequenos ensaios de fotos das pessoas entrevistadas e eventualmente v\u00eddeos curtos que possam contribuir com a narrativa.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Para as redes, podem ser postados gr\u00e1ficos e informa\u00e7\u00f5es que chamem a aten\u00e7\u00e3o para o assunto, al\u00e9m da divulga\u00e7\u00e3o de criadores de conte\u00fado trans e negros, indica\u00e7\u00f5es de livros e filmes que falem sobre o assunto.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h2><strong>Da pauta \u00e0 reportagem<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Pesquisando sobre o encontro entre negritude e transgeneridade, me deparo com um espa\u00e7o sempre \u00e0 margem da margem. Os discursos corroboram os dados: parece que falar de pessoas trans negras \u00e9 falar, sempre, de viol\u00eancia e morte. De um inc\u00f4modo particular em rela\u00e7\u00e3o a isso sobreposto \u00e0 import\u00e2ncia de abordarmos, na revista, uma multiplicidade de negritudes, surge a ideia da pauta. No caminho, por acaso, tamb\u00e9m me percebi ouvindo mulheres: notei que seria imposs\u00edvel falar de racismo e transfobia sem falar de misoginia.<\/p>\n\n\n\n<p>De l\u00e1 at\u00e9 aqui, milh\u00f5es de contratempos \u2013 atrasos, problemas de sa\u00fade, cancelamentos, mudan\u00e7as de fontes e at\u00e9 algumas fotos perdidas. Apesar do giro de noventa graus na pauta, no final das contas, o mais importante se manteve: a vontade de ouvir e de falar <em>com<\/em> \u2013 n\u00e3o <em>sobre<\/em> \u2013 pessoas cujas pr\u00f3prias exist\u00eancias s\u00e3o s\u00edmbolos de uma luta cont\u00ednua contra o apagamento. Precisei engolir a frustra\u00e7\u00e3o das rejei\u00e7\u00f5es e a ansiedade dos prazos me atropelando.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao longo dos \u00faltimos meses, ouvi sobre viol\u00eancia, dor e sofrimento. Procurei dados e li sobre casos que n\u00e3o gostaria de ter lido. Claro, tudo isso era incontorn\u00e1vel. Mas tamb\u00e9m ouvi sobre sonhos, desejos e alegrias \u2013 entendi um pouquinho mais sobre a vida, sobre felicidade e sobre momentos que valem a pena serem contados. Aprendi o que era envivecer. Se a produ\u00e7\u00e3o foi penosa, a escrita, guiada por aspectos da vida das entrevistadas, foi leve e agrad\u00e1vel, mas me conduziu durante algumas boas horas por um processo intermin\u00e1vel de lapida\u00e7\u00f5es: como encaixar tr\u00eas pessoas de riqueza inesgot\u00e1vel em um texto com tamanho previamente delimitado? Como, afinal, traduzir vida em escritura?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>De uma forma ou de outra, o resultado final me agrada. Tenho a certeza de que saio com o olhar mais atento e maior afei\u00e7\u00e3o pelo of\u00edcio jornal\u00edstico \u2013 em especial, por aquele que se deixa afetar e ser afetado pelas coisas no mundo.&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"featured_media":11682,"template":"pauta-post-template.php","categories":[139,240],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v19.6.1 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>O preto entre o azul e o rosa &mdash; Sextante<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/pauta\/o-preto-entre-o-azul-e-o-rosa\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"O preto entre o azul e o rosa &mdash; Sextante\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"Quais s\u00e3o as distin\u00e7\u00f5es e as semelhan\u00e7as nas experi\u00eancias e na percep\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria vida de pessoas de diferentes gera\u00e7\u00f5es que fazem parte da popula\u00e7\u00e3o trans e negra \u2013 a que morre mais cedo no Brasil? 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