{"id":11346,"date":"2023-09-04T11:47:48","date_gmt":"2023-09-04T14:47:48","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/?p=11346"},"modified":"2023-09-13T22:57:24","modified_gmt":"2023-09-14T01:57:24","slug":"do-sagrado-a-cura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/do-sagrado-a-cura\/","title":{"rendered":"Do sagrado \u00e0 cura"},"content":{"rendered":"\n<p>O Rio Grande do Sul \u00e9 o estado brasileiro com a maior porcentagem de indiv\u00edduos adeptos a religi\u00f5es de matriz africana, conforme indica o <a href=\"https:\/\/www.ibge.gov.br\/estatisticas\/sociais\/populacao\/9662-censo-demografico-2010.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Censo Demogr\u00e1fico de 2010<\/a>, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE). Segundo os n\u00fameros, 1,47% da popula\u00e7\u00e3o total do estado reivindica o seu pertencimento religioso afro-brasileiro. O Censo tamb\u00e9m apontou a exist\u00eancia de mais de 60 mil terreiros no territ\u00f3rio ga\u00facho.<\/p>\n\n\n\n<p>No estado, h\u00e1 a presen\u00e7a do Batuque, a vertente religiosa que abrange mais caracter\u00edsticas da cultura africana; a Umbanda, que possui em seus fundamentos a influ\u00eancia cultural ind\u00edgena; e a Quimbanda, conhecida como \u201cLinha Cruzada\u201d, unindo elementos das duas primeiras e diferenciado-se por cultuar as suas entidades conhecidas como exus e pombagiras.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"alignright size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/3_Foto_-Mariha-Maria-1-1024x768.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-11511\" width=\"388\" height=\"292\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/3_Foto_-Mariha-Maria-1-1024x768.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/3_Foto_-Mariha-Maria-1-300x225.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/3_Foto_-Mariha-Maria-1-768x576.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/3_Foto_-Mariha-Maria-1-1536x1152.jpg 1536w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/3_Foto_-Mariha-Maria-1-2048x1536.jpg 2048w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/3_Foto_-Mariha-Maria-1-1568x1176.jpg 1568w\" sizes=\"(max-width: 388px) 100vw, 388px\" \/><figcaption>Os orix\u00e1s e as entidades ancestrais guiam e fortalecem os trabalhos terap\u00eauticos do terreiro | Foto: Marih\u00e1 Maria<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<p>Os terreiros da tr\u00edade de religi\u00f5es afro-ga\u00fachas desempenham um papel fundamental n\u00e3o apenas como locais de culto religioso, mas tamb\u00e9m como guardi\u00f5es do legado da popula\u00e7\u00e3o negra, preservando suas tradi\u00e7\u00f5es e oferecendo um ambiente de cuidado. Por meio do uso de ervas medicinais, preces e rituais, esses terreiros proporcionam um espa\u00e7o terap\u00eautico para aqueles que os frequentam, promovendo o cuidado da sa\u00fade do corpo e da alma.<\/p>\n\n\n\n<p>Em Porto Alegre, Valmir Ferreira Martins, conhecido como Baba Diba de Yemonj\u00e1, \u00e9 babalorix\u00e1 da Comunidade Terreira Il\u00ea As\u00e9 Iyemonj\u00e1 Omi Olod\u00f4, situada no bairro S\u00e3o Jos\u00e9. Com 60 anos, ele est\u00e1 h\u00e1 40 \u00e0 frente do espa\u00e7o e afirma que a maioria das pessoas que procura o terreiro busca aux\u00edlio para problemas de sa\u00fade. \u201cAs pessoas v\u00eam ver um problema da sua vida, \u00e0s vezes \u00e9 um problema f\u00edsico. A gente teve casos de pessoas que o m\u00e9dico n\u00e3o achou a cura da doen\u00e7a e acabou se curando no terreiro. O cuidado espiritual contribui \u00e0s vezes para sanar o problema ou, no m\u00ednimo, para melhorar\u201d, diz.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-style-default\"><img loading=\"lazy\" width=\"1024\" height=\"809\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/2_Foto_-Mariha-Maria-1024x809.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-11493\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/2_Foto_-Mariha-Maria-1024x809.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/2_Foto_-Mariha-Maria-300x237.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/2_Foto_-Mariha-Maria-768x607.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/2_Foto_-Mariha-Maria-1536x1213.jpg 1536w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/2_Foto_-Mariha-Maria-2048x1618.jpg 2048w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/2_Foto_-Mariha-Maria-1568x1238.jpg 1568w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>Em meio \u00e0 comunidade da Vila S\u00e3o Jos\u00e9, o Terreiro Il\u00ea As\u00e9 Iyemonj\u00e1 Omi Olod\u00f4 \u00e9 um espa\u00e7o aberto a quem procura acolhimento | Foto: Marih\u00e1 Maria<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>O babalorix\u00e1 relata que o atendimento realizado \u00e9 amplo, pois a religi\u00e3o entende os problemas de sa\u00fade n\u00e3o s\u00f3 como uma altera\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica, mas em um conceito mais vasto, que compreende tamb\u00e9m as patologias sociais e psicol\u00f3gicas dos indiv\u00edduos. Para buscar um amparo terap\u00eautico no terreiro, n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio possuir um v\u00ednculo religioso. Segundo Valmir, muitas pessoas que procuram o aux\u00edlio devido a doen\u00e7as n\u00e3o s\u00e3o iniciadas, mas simplesmente frequentam e se cuidam a partir do terreiro. \u201cN\u00e3o existe proselitismo na tradi\u00e7\u00e3o africana. A pessoa n\u00e3o precisa ser vinculada, tem pessoas de diversas religi\u00f5es que buscam atendimento aqui\u201d, afirma.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>\u201cA gente acredita que n\u00f3s somos frutos da terra. A gente veio da terra assim como para a terra a gente vai retornar. Ent\u00e3o o que pode nos curar s\u00e3o os elementos que vem da terra\u201d <\/p><cite><strong>BABA DIBA DE YEMONJ\u00c1<\/strong>, babalorix\u00e1<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>A identifica\u00e7\u00e3o do dist\u00farbio de sa\u00fade e de qual tratamento deve ser realizado \u00e9 constatado atrav\u00e9s do or\u00e1culo. O primeiro passo para quem busca o atendimento \u00e9 a realiza\u00e7\u00e3o da consulta oracular, em que a pessoa apresenta um relato de sua situa\u00e7\u00e3o e v\u00ea o que os orix\u00e1s dizem sobre ela. A partir do or\u00e1culo, realiza-se o diagn\u00f3stico e \u00e9 verificado o melhor recurso terap\u00eautico para a cura da enfermidade, que pode ser um procedimento pontual ou um tratamento cont\u00ednuo.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"alignleft size-large is-resized\"><img src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/4_Foto_-Arquivo-pessoal-1-1-edited-1-scaled.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-11921\" width=\"394\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/4_Foto_-Arquivo-pessoal-1-1-edited-1-scaled.jpg 2560w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/4_Foto_-Arquivo-pessoal-1-1-edited-1-300x188.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/4_Foto_-Arquivo-pessoal-1-1-edited-1-1024x641.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/4_Foto_-Arquivo-pessoal-1-1-edited-1-768x481.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/4_Foto_-Arquivo-pessoal-1-1-edited-1-1536x961.jpg 1536w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/4_Foto_-Arquivo-pessoal-1-1-edited-1-2048x1282.jpg 2048w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/4_Foto_-Arquivo-pessoal-1-1-edited-1-1568x981.jpg 1568w\" sizes=\"(max-width: 2560px) 100vw, 2560px\" \/><figcaption>As rela\u00e7\u00f5es nos terreiros norteiam-se pelo princ\u00edpio da ancestralidade, a partir do qual os mais novos juntam-se aos mais velhos para a continuidade e transgeracionalidade dos saberes | Foto: Arquivo pessoal<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<p>Valmir descreve os cuidados com a sa\u00fade por meio do sagrado como pr\u00e1ticas terap\u00eauticas, que se manifestam a partir dos conhecimentos ancestrais originados no continente africano e transmitidos de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o at\u00e9 os terreiros contempor\u00e2neos no Brasil. <\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA gente acredita que n\u00f3s somos frutos da terra. A gente veio da terra assim como para a terra a gente vai retornar. Ent\u00e3o o que pode nos curar s\u00e3o os elementos que vem da terra\u201d, diz. Essa conex\u00e3o com a natureza \u00e9 a base para a utiliza\u00e7\u00e3o de ervas e folhas nas prepara\u00e7\u00f5es de ch\u00e1s, aplica\u00e7\u00f5es, banhos e limpezas recomendadas no combate \u00e0s doen\u00e7as.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m dessas pr\u00e1ticas, o babalorix\u00e1 destaca como os orix\u00e1s muitas vezes recomendam realizar preces e ritos. \u201cA gente trabalha com um eb\u00f3, que \u00e9 um sacudimento, passar realmente um ax\u00e9 (for\u00e7a sagrada), um elemento, no corpo da pessoa, entendendo que isso vai estar fortalecendo o seu estado espiritual e f\u00edsico.\u201d<\/p>\n\n\n\n<h2><strong>Conhecimento ancestral<\/strong><\/h2>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"alignleft size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/Oxossi-crua-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-11718\" width=\"189\" height=\"252\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/Oxossi-crua-1.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/Oxossi-crua-1-225x300.jpg 225w\" sizes=\"(max-width: 189px) 100vw, 189px\" \/><figcaption>Arte: Gabriel Ferreira<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<p>Os terreiros contam com as suas figuras m\u00e9dicas, os orix\u00e1s, e s\u00e3o eles que apresentam o melhor caminho para o combate do problema de sa\u00fade relatado. <\/p>\n\n\n\n<p>Nenhuma a\u00e7\u00e3o \u00e9 realizada sem a orienta\u00e7\u00e3o dos mentores, como afirma a ialorix\u00e1 Nilce Naira de Oxum, de 71 anos, coordenadora da Rede Nacional de Religi\u00f5es Afro-Brasileiras e Sa\u00fade (<a href=\"https:\/\/renafrosaudecom.wordpress.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Renafro)<\/a>, uma rede de conex\u00f5es pol\u00edticas voltada para as tradi\u00e7\u00f5es dos espa\u00e7os religiosos afro-brasileiros, visando valorizar e potencializar o saber dos terreiros em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sa\u00fade.<\/p>\n\n\n\n<p>M\u00e3e Nilce ressalta que os cuidados em sa\u00fade nas religi\u00f5es afro-brasileiras manifestam-se primeiramente em forma de acolhimento e escuta, para, a partir da\u00ed, os orix\u00e1s apontarem as orienta\u00e7\u00f5es. Al\u00e9m da pr\u00e1tica de acolher, ela tamb\u00e9m destaca os saberes presentes no terreiro, atrav\u00e9s do manuseio das ervas. \u201cQuantos rem\u00e9dios foram feitos a partir de ervas? O povo de terreiro \u00e9 preparado para conhecer as ervas, porque \u00e9 com elas que n\u00f3s nos curamos, e ela que nos traz a cura\u201d, afirma.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-container-2 wp-block-gallery-1 wp-block-gallery has-nested-images columns-default is-cropped\">\n<figure class=\"wp-block-image\"><img loading=\"lazy\" width=\"1024\" height=\"768\" data-id=\"11717\"  src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/Ossain-1-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-11717\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/Ossain-1-1.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/Ossain-1-1-300x225.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/Ossain-1-1-768x576.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>Arte: Gabriel Ferreira<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img loading=\"lazy\" width=\"1024\" height=\"768\" data-id=\"11719\"  src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/Omulu2-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-11719\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/Omulu2-1.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/Omulu2-1-300x225.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/Omulu2-1-768x576.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>Arte: Gabriel Ferreira<\/figcaption><\/figure>\n<\/figure>\n\n\n\n<p>Gisele Tertuliano, enfermeira em Cachoeirinha, na Regi\u00e3o Metropolitana de Porto Alegre, com forma\u00e7\u00e3o em Ci\u00eancias Sociais e mestra e doutora em Sa\u00fade Coletiva, ressalta como os cuidados ancestrais manifestados nos terreiros existem h\u00e1 mais anos que a pr\u00f3pria exist\u00eancia do Sistema \u00danico de Sa\u00fade (SUS) e que n\u00e3o devem ser ignorados apenas por n\u00e3o possu\u00edrem evid\u00eancias cient\u00edficas. Ela lembra que, antes da cria\u00e7\u00e3o de um sistema de sa\u00fade p\u00fablica, quem prestava cuidados para a popula\u00e7\u00e3o negra em vulnerabilidade social eram os terreiros, atrav\u00e9s das m\u00e3es e pais de santo que acolhiam, escutavam e orientavam.<\/p>\n\n\n\n<p>A enfermeira tamb\u00e9m afirma que algumas pr\u00e1ticas das religi\u00f5es j\u00e1 s\u00e3o reconhecidas na medicina, como a utiliza\u00e7\u00e3o de plantas medicinais atrav\u00e9s da ci\u00eancia da fitoterapia. \u201cDependendo do ponto de vista de determinados profissionais, eles desconsideram totalmente o conhecimento daquela senhora, daquele senhor, em rela\u00e7\u00e3o ao uso das plantas medicinais. N\u00f3s, profissionais da sa\u00fade, n\u00e3o devemos menosprezar a quest\u00e3o do senso comum e dos saberes\u201d, afirma Gisele.<\/p>\n\n\n\n<h2><strong>Para al\u00e9m do terreiro<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>\u201cEu acabei de vir do hospital, meu irm\u00e3o est\u00e1 internado l\u00e1, mas eu fui no hor\u00e1rio de visita, se eu, como sacerdote, tivesse ido em outro hor\u00e1rio, eu seria barrado, mas outras tradi\u00e7\u00f5es eles deixam entrar. Isso a gente chama de racismo institucional\u201d, relata o babalorix\u00e1 Valmir, ao expor as dificuldades que as religi\u00f5es afro-brasileiras enfrentam para serem reconhecidas e respeitadas no SUS. Ele destaca a import\u00e2ncia da presen\u00e7a dos l\u00edderes afro-religiosos ao lado dos enfermos, relatando como a visita de uma m\u00e3e de santo pode auxiliar na melhora, ajudando inclusive no tratamento que est\u00e1 sendo aplicado no ambiente hospitalar.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A aus\u00eancia da presen\u00e7a de manifesta\u00e7\u00e3o afro-religiosa nos ambientes cl\u00ednicos tamb\u00e9m \u00e9 notada pela enfermeira Gisele. \u201cDentro dos territ\u00f3rios de sa\u00fade, dos equipamentos sociais, tem escola, tem a igreja evang\u00e9lica, tem igreja cat\u00f3lica e cad\u00ea os terreiros? Cad\u00ea as casas de Umbanda e de Candombl\u00e9?\u201d, ela questiona.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>\u201cN\u00f3s precisamos ser ouvidas, \u2018n\u00f3s\u2019 eu, mulher negra e as pessoas negras, porque somos n\u00f3s que morremos por causas evit\u00e1veis\u201d<\/p><cite><strong>M\u00c3E NILCE NAIRA DE OXUM<\/strong>, coordenadora da Renafro<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>A enfermeira e cientista social descreve como o sistema de sa\u00fade possui um modelo de atua\u00e7\u00e3o heteronormativo, eurocentrado e branco, que tem em vista eliminar tudo que est\u00e1 relacionado \u00e0 popula\u00e7\u00e3o negra e aos povos origin\u00e1rios. Ela relata a necessidade de ser desenvolvido o cuidado afrocentrado, para os profissionais elaborarem uma din\u00e2mica de cuidado em prol da sa\u00fade negra, considerando as quest\u00f5es de ra\u00e7a, classe, g\u00eanero e territ\u00f3rio. \u201cO cuidado afrocentrado \u00e9 uma forma de entender o que a filosofia africana tem a nos ensinar sobre acolhimento, escuta, respeito, valoriza\u00e7\u00e3o do outro e ancestralidade\u201d, relata.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A Renafro desempenha um papel ativo na busca da interliga\u00e7\u00e3o das pr\u00e1ticas de sa\u00fade realizadas nos terreiros com as pr\u00e1ticas de sa\u00fade do SUS. Para a coordenadora da rede, a luta que as lideran\u00e7as religiosas e os profissionais da sa\u00fade tra\u00e7am \u00e9 para o SUS oferecer um atendimento com princ\u00edpios id\u00eanticos ao do terreiro, com o acolhimento, escuta e cuidado. \u201cN\u00f3s precisamos ser ouvidas, \u2018n\u00f3s\u2019 eu, mulher negra e as pessoas negras, porque somos n\u00f3s que morremos por causas evit\u00e1veis. O terreiro faz esse acolhimento e \u00e9 esse atendimento que queremos no SUS, de qualidade e humanizado, principalmente humanizado\u201d, diz M\u00e3e Nilce.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-container-5 wp-block-columns\">\n<div class=\"wp-container-3 wp-block-column\">\n<h2>LEIA MAIS<\/h2>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-container-4 wp-block-column\">\n<ul><li><strong><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/respeita-o-meu-orixa\/\">Respeita o meu Orix\u00e1:<\/a><\/strong> Apesar de invisibilizadas, as religi\u00f5es de matriz africana apresentam uma forte presen\u00e7a no estado ga\u00facho<\/li><li><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/?p=11360\"><strong>Um respiro de vida:<\/strong><\/a> As doulas podem representar a humaniza\u00e7\u00e3o no per\u00edodo de gesta\u00e7\u00e3o e no parto de mulheres negras<\/li><\/ul>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Rio Grande do Sul \u00e9 o estado brasileiro com a maior porcentagem de indiv\u00edduos adeptos a religi\u00f5es de matriz africana, conforme indica o Censo Demogr\u00e1fico de 2010, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE). Segundo os n\u00fameros, 1,47% da popula\u00e7\u00e3o total do estado reivindica o seu pertencimento religioso afro-brasileiro. 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