{"id":12821,"date":"2024-02-05T23:43:00","date_gmt":"2024-02-06T02:43:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/?p=12821"},"modified":"2024-02-07T21:06:49","modified_gmt":"2024-02-08T00:06:49","slug":"maos-em-cena","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/maos-em-cena\/","title":{"rendered":"M\u00e3os em cena"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-audio\"><audio controls src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/CAROLINA-DILL.mp3\"><\/audio><figcaption>Ou\u00e7a a reportagem<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>&#8220;Nos olhos da sociedade, eu sou uma pessoa com defici\u00eancia. Nos olhos da comunidade surda, eles veem o meu nome.&#8221; Escrita pelo produtor de conte\u00fado digital Jo\u00e3o Gabriel Ferreira, essa frase est\u00e1 em destaque no <em>WhatsApp<\/em> de Alessandra Rithiele, atriz e administradora surda de 25 anos. Desde os oito, quando ingressou nas aulas de teatro da Escola Bil\u00edngue Frei Pacifico, em Porto Alegre, a jovem encontrou na arte uma forma de apresentar o seu nome, lutar pelo seu espa\u00e7o e o de sua l\u00edngua, a L\u00edngua Brasileira de Sinais (Libras).<\/p>\n\n\n\n<p>A crian\u00e7a que observava os adolescentes performando em ensaios, logo insistiu \u00e0 m\u00e3e para que pudesse atuar. A oportunidade a levou a participar de apresenta\u00e7\u00f5es em outras escolas bil\u00edngues e em pe\u00e7as de surdos para surdos. Fora do ambiente escolar, sua frequ\u00eancia nos espet\u00e1culos em l\u00edngua portuguesa se limitava \u00e0queles em que houvesse int\u00e9rprete de Libras. Ou se restringia a ir com uma companhia que estivesse disposta a comunicar a ela tudo o que estava sendo dito na cena.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>\u201cEssa l\u00edngua [<em>Libras<\/em>] \u00e9 tudo na minha vida\u201d<\/p><cite>&nbsp;<strong>ALESSANDRA RITHIELE<\/strong>, atriz<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>A Libras \u00e9 a primeira l\u00edngua de Alessandra. &#8220;Essa l\u00edngua \u00e9 tudo na minha vida. Eu valorizo, e as pessoas est\u00e3o valorizando mais&#8221;, afirma. &#8220;N\u00f3s, surdos, sabemos o portugu\u00eas, e os ouvintes precisam saber a l\u00edngua de sinais. Algumas coisas, pelo menos. N\u00f3s achamos bom nos comunicar em duas l\u00ednguas, e o ouvinte tamb\u00e9m deveria.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" width=\"1024\" height=\"683\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/1_Tabata_Kolling-1024x683.jpg\" alt=\"Imagem retangular horizontal. Alessandra Rithieli \u00e9 uma mulher, veste uma saia com estampa de on\u00e7a e uma camiseta preta com o escrito &quot;Arte de Sinalizar&quot;. Ela est\u00e1 com os cabelos presos em um coque e utiliza \u00f3culos. Ela faz um sinal em Libras com as m\u00e3os. Ela est\u00e1 sentada no meio de um palco, com bancos vermelhos e uma parede preta atr\u00e1s.\" class=\"wp-image-12920\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/1_Tabata_Kolling-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/1_Tabata_Kolling-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/1_Tabata_Kolling-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/1_Tabata_Kolling-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/1_Tabata_Kolling-2048x1365.jpg 2048w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/1_Tabata_Kolling-1200x800.jpg 1200w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/1_Tabata_Kolling-1568x1045.jpg 1568w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>A atriz Alessandra come\u00e7ou a ter o gosto pelo teatro aos oito anos  |&nbsp; Foto: Tabata Kolling<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>O Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE) estima que o n\u00famero de pessoas surdas no Brasil passa dos 10,7 milh\u00f5es. A <a href=\"https:\/\/planalto.gov.br\/ccivil_03\/leis\/2002\/l10436.htm\">Lei n\u00ba 10.436<\/a>, de 2002, reconhece a Libras como segunda l\u00edngua do pa\u00eds. Outro levantamento, no entanto, revela que a maior parte da popula\u00e7\u00e3o brasileira n\u00e3o sabe utiliz\u00e1-la. De acordo com a <a href=\"https:\/\/www.pns.icict.fiocruz.br\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/liv101846.pdf\">Pesquisa Nacional de Sa\u00fade (PNS)<\/a>, entre aqueles que t\u00eam alguma dificuldade auditiva na idade de 5 a 40 anos, 9,2% sabem a l\u00edngua e, entre os que t\u00eam defici\u00eancia moderada, apenas 22,4%. No grupo que alega n\u00e3o ouvir de forma alguma, 61,3% sabem utilizar a Libras. O baixo alcance na sociedade acaba levando a comunidade ao isolamento.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;O surdo tem conhecimento, tem uma cultura: a cultura surda. \u00c9 preciso olhar para ela. Para mim, a representatividade \u00e9 mostrar aos ouvintes que n\u00f3s somos iguais <em>[em direitos] <\/em>e n\u00f3s temos a nossa l\u00edngua&#8221;, enfatiza Alessandra. Dessa forma, cada espet\u00e1culo torna-se mais do que uma manifesta\u00e7\u00e3o art\u00edstica: \u00e9 uma afirma\u00e7\u00e3o da identidade.<\/p>\n\n\n\n<p>A \u00faltima apresenta\u00e7\u00e3o da jovem ocorreu na s\u00e9tima edi\u00e7\u00e3o do Sarau Arte de Sinalizar, evento de literatura surda vinculado ao projeto <a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/artedesinalizar\/\">Arte de Sinalizar,<\/a> coordenado pelo ator e professor surdo do curso de Letras Portugu\u00eas\/Libras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Cl\u00e1udio Mour\u00e3o, o Cacau, de 50 anos, natural do Maranh\u00e3o.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"alignleft size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/4_Carolina_Dill-683x1024.jpg\" alt=\"Imagem retangular vertical. Cl\u00e1udio Mour\u00e3o \u00e9 um homem, veste cal\u00e7as beges e usa uma camisa preta com o escrito &quot;Arte de Sinalizar&quot;. Ele possui cabelos curtos e utiliza um \u00f3culos de grau. Ele est\u00e1 em cima de um palco de madeira, posicionado dentro de um teatro com paredes pretas e uma cortina vermelha a mostra.\" class=\"wp-image-12909\" width=\"330\" height=\"495\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/4_Carolina_Dill-683x1024.jpg 683w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/4_Carolina_Dill-200x300.jpg 200w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/4_Carolina_Dill-768x1152.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/4_Carolina_Dill-1024x1536.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/4_Carolina_Dill-1365x2048.jpg 1365w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/4_Carolina_Dill-600x900.jpg 600w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/4_Carolina_Dill-1568x2352.jpg 1568w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/4_Carolina_Dill.jpg 1632w\" sizes=\"(max-width: 330px) 100vw, 330px\" \/><figcaption>Cl\u00e1udio Mour\u00e3o realiza apresenta\u00e7\u00e3o durante o 7\u00ba Sarau Liter\u00e1rio Arte de Sinalizar | Foto: Carolina Dill<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<p>Com o objetivo de tornar a Libras vis\u00edvel, o educador criou um reposit\u00f3rio digital para divulgar produ\u00e7\u00f5es art\u00edsticas de surdos. &#8220;N\u00f3s temos uma literatura brasileira registrada, pe\u00e7as teatrais, roteiros, piadas, grava\u00e7\u00f5es e entrevistas em portugu\u00eas, um material muito rico. Onde estavam os registros em l\u00edngua de sinais? Antigamente, eles circulavam na oralidade de gera\u00e7\u00e3o para gera\u00e7\u00e3o, na sinaliza\u00e7\u00e3o, sem o registro&#8221;, reflete Cacau.<\/p>\n\n\n\n<p>Por anos a comunidade surda foi vista sob o aspecto cl\u00ednico da defici\u00eancia auditiva, na perspectiva da aus\u00eancia e n\u00e3o das potencialidades. Em um contexto em que a Libras n\u00e3o \u00e9 adotada por todos, o int\u00e9rprete assume um papel crucial na promo\u00e7\u00e3o da acessibilidade. A sociedade, ao inviabilizar o acesso \u00e0 cultura e \u00e0 l\u00edngua, acaba limitando que surdos se enxerguem na posi\u00e7\u00e3o de artistas. &#8220;Se n\u00e3o tem acessibilidade, acabamos desconhecendo essa possibilidade\u201d, afirma Cacau. Conforme o professor, \u00e9 comum que as a\u00e7\u00f5es promovidas pelo projeto Arte de Sinalizar tornem-se o primeiro contato de um surdo com a arte. \u201cNo Sarau, conversando com algumas pessoas, comentavam: \u2018\u00e9 a primeira vez que acesso arte na minha vida\u2019. Quer dizer, quantos espa\u00e7os s\u00e3o invisibilizados?&#8221;, questiona.<\/p>\n\n\n\n<h5>Conhe\u00e7a mais sobre a Libras:<\/h5>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe loading=\"lazy\" title=\"L\u00edngua Brasileira de Sinais (Libras)\" width=\"750\" height=\"422\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/vXyU_KFHldM?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe>\n<\/div><figcaption>Edi\u00e7\u00e3o e produ\u00e7\u00e3o: Carolina Dill<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<h2>Protagonismo surdo<\/h2>\n\n\n\n<p>O grupo <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/gruposignatores\/\">Signatores<\/a>, formado em 2010 em Porto Alegre, busca inverter o padr\u00e3o vigente: nele, atores surdos s\u00e3o protagonistas e a l\u00edngua gestual tem papel central.&nbsp;&#8220;O Signatores sempre foi voltado aos surdos, sempre teve como prioridade os est\u00edmulos visuais e a express\u00e3o corporal, um trabalho com o corpo, com jogos de integra\u00e7\u00e3o, improvisa\u00e7\u00e3o e a busca pela autonomia em cena&#8221;, explica Adriana Somacal, de 39 anos, moradora de Palho\u00e7a, diretora do projeto e doutoranda em Teatro pela Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc). O grupo surgiu de um interesse em investigar a constru\u00e7\u00e3o da linguagem art\u00edstica em uni\u00e3o \u00e0 utiliza\u00e7\u00e3o do corpo na Libras, uma vez que a express\u00e3o corporal \u00e9 parte estrutural da l\u00edngua. Assim, as performances s\u00e3o criadas com e para surdos, com acessibilidade para ouvintes.<\/p>\n\n\n\n<p>Umberto da Rosa, ator e professor de matem\u00e1tica surdo, de 37 anos, de Gravata\u00ed, est\u00e1 no grupo desde a cria\u00e7\u00e3o. No in\u00edcio de sua forma\u00e7\u00e3o art\u00edstica, a curiosidade e as pr\u00e1ticas corporais direcionadas \u00e0 atua\u00e7\u00e3o despertaram-lhe o interesse em continuar. &#8220;Al\u00e9m de trabalhar a quest\u00e3o corporal, tem a quest\u00e3o do compartilhamento entre os pares. Nesse per\u00edodo, n\u00f3s tivemos que nos esfor\u00e7ar bastante. Alguns surdos tinham mais dificuldades do que outros, mas sempre havia um apoio entre as pessoas&#8221;, lembra.<\/p>\n\n\n\n<p>O Signatores busca aproximar surdos da arte e incentivar a forma\u00e7\u00e3o de pesquisadores, de atores e de professores de teatro. Em 2020, o grupo incluiu uma nova \u00e1rea de trabalho: o audiovisual. Lucas Bourscheid, de 28 anos, ator e gestor de recursos humanos surdo, natural de Santa Rosa, come\u00e7ou a fazer parte neste mesmo per\u00edodo.<\/p>\n\n\n\n<p>O jovem conheceu o projeto durante uma pe\u00e7a em sua cidade natal. &#8220;Eu me encantei e falei: \u2018quero participar\u2019, mas isso ficou em <em>stand by<\/em>&#8220;, conta. Ele chegou a integrar outros grupos, voltados para uma perspectiva ouvinte, mas n\u00e3o se adaptou. Quando surgiu a oportunidade de participar de uma oficina do Signatores, n\u00e3o quis deix\u00e1-la passar.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>\u201cN\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a quest\u00e3o de apresenta\u00e7\u00e3o de espet\u00e1culos, mas a constru\u00e7\u00e3o enquanto sujeito\u201d<\/p><cite><strong>LUCAS BOURSCHEID<\/strong>, ator<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" width=\"1024\" height=\"683\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/2_Clara_Aguiar-1024x683.jpg\" alt=\"Imagem retangular horizontal. Lucas Bourscheid \u00e9 um homem, possui cabelos cacheados e veste uma cal\u00e7a jeans e uma camisa branca. Ele est\u00e1 em cima de um palco de teatro com ch\u00e3o de madeira e paredes pretas. Logo a cima dele, h\u00e1 holofotes.\" class=\"wp-image-12919\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/2_Clara_Aguiar-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/2_Clara_Aguiar-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/2_Clara_Aguiar-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/2_Clara_Aguiar-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/2_Clara_Aguiar-2048x1365.jpg 2048w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/2_Clara_Aguiar-1200x800.jpg 1200w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/2_Clara_Aguiar-1568x1045.jpg 1568w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>Lucas conheceu o Grupo Signatores durante uma apresenta\u00e7\u00e3o na cidade de Santa Rosa  |  Foto: Clara Aguiar<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>&#8220;O grupo traz surdos com protagonismo, leva as nossas experi\u00eancias. Isso muda a nossa vida. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a quest\u00e3o de apresenta\u00e7\u00e3o de espet\u00e1culos, mas a constru\u00e7\u00e3o enquanto sujeito&#8221;, diz. Ele encontrou uma metodologia diferente das que ele tinha conhecimento. &#8220;Voc\u00ea tem um texto, um roteiro e precisa trazer esse roteiro para l\u00edngua de sinais&#8221;, explica Lucas. &#8220;Muitas vezes, temos que criar sinais espec\u00edficos para poder trabalhar coletivamente e entender os processos.&#8221;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Pessoas surdas utilizam a comunica\u00e7\u00e3o visual como principal meio de absorver as informa\u00e7\u00f5es ao seu redor. Nesse sentido, enquanto no teatro entre ouvintes o respons\u00e1vel pela dire\u00e7\u00e3o passa as instru\u00e7\u00f5es nos ensaios pela fala ao mesmo tempo em que os atores continuam representando, no teatro surdo, isso n\u00e3o funciona. Os atores precisam parar e olhar para quem deseja comunicar, j\u00e1 que o recurso visual \u00e9 fundamental para compreender as orienta\u00e7\u00f5es antes de continuar. A grava\u00e7\u00e3o das pr\u00e1ticas e do roteiro em l\u00edngua de sinais \u00e9 outro m\u00e9todo que auxilia na constru\u00e7\u00e3o coletiva da pe\u00e7a e na memoriza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Com rela\u00e7\u00e3o ao audiovisual e ao teatro, na perspectiva de Lucas e Umberto, a oportunidade de atuar nas duas \u00e1reas \u00e9 algo desafiador, uma vez que no cinema \u00e9 mais dif\u00edcil capturar as imagens utilizando a l\u00edngua gestual. Al\u00e9m disso, se diferenciam nas formas de trabalho, considerando que num espet\u00e1culo n\u00e3o existe a possibilidade de corte e repeti\u00e7\u00e3o da cena.<\/p>\n\n\n\n<p>A participa\u00e7\u00e3o de Lucas tem lhe dado ferramentas para que atue como formador de outros atores, o que \u00e9 refor\u00e7ado pela diretora do grupo, Adriana. &#8220;Sempre buscamos que os atores criem e sejam os autores do seu trabalho. Agora eles est\u00e3o se tornando professores de teatro, dando continuidade em suas \u00e1reas, conforme suas possibilidades.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Ao lado do artista Philipe Philippsen, mais conhecido como Lipsen, Lucas \u00e9 um dos criadores do <a href=\"https:\/\/gauchazh.clicrbs.com.br\/colunistas\/juliana-bublitz\/noticia\/2023\/10\/conheca-o-cafe-sinalizante-em-porto-alegre-um-estimulo-a-lingua-brasileira-de-sinais-libras-clnt6envl0084016sg0r73khc.html\">Caf\u00e9 Sinalizante<\/a>, um encontro mensal na capital ga\u00facha, que re\u00fane pessoas surdas e ouvintes para aprender e praticar a Libras.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo Priscila Lourenzo, de 29 anos, de Porto Alegre, professora de teatro com surdos e mestre em Educa\u00e7\u00e3o pela UFRGS, a arte mostra-se como um espa\u00e7o para reflex\u00e3o sobre a realidade e express\u00e3o de subjetividades. O campo tamb\u00e9m pode ser uma ponte entre a cultura surda e a ouvinte, desde que haja um di\u00e1logo e que tenham surdos construindo artisticamente. \u201cA arte tem o potencial de fazer com que as pessoas se relacionem e troquem ideias, reconhe\u00e7am o outro e pensem em outra perspectiva. Ao estudar um personagem, pensamos em outra realidade, em outra maneira de ser.\u201d&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A presen\u00e7a de atores surdos no palco pode ter impacto positivo na constru\u00e7\u00e3o da autoestima das pessoas surdas que est\u00e3o na plateia. Ver suas experi\u00eancias, assim como a pr\u00f3pria l\u00edngua, refletidas no espet\u00e1culo contribui para a sensa\u00e7\u00e3o de pertencimento e valoriza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/LibrasPresenteArtesPerf_GabrielaBittencourt_GIFator.gif\" alt=\"GIF em preto e branco. Imagem apresenta a palavra &quot;Ator&quot; soletrada no alafabeto de Libras.\" class=\"wp-image-12944\" width=\"369\" height=\"369\"\/><\/figure><\/div>\n\n\n<h2>Libras n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 para surdos<\/h2>\n\n\n\n<p>O int\u00e9rprete, tradutor e ator ouvinte Lenon Tarrag\u00f4, 35 anos, morador de Canoas, encontrou na cultura drag queen e na L\u00edngua Brasileira de Sinais um instrumento de representatividade e inclus\u00e3o. Inspirado na cantora Rita Lee e na dan\u00e7arina Rita Cadillac, o jovem criou Rita D\u2019Libra, a primeira drag queen int\u00e9rprete de Libras do Brasil, que hoje atua fazendo apresenta\u00e7\u00f5es, produzindo <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/ritadlibra\/\">conte\u00fado informativo nas redes sociais<\/a> e trabalhando como int\u00e9rprete em eventos e em shows de artistas.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"alignright size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/4_Giulian_Serafim-683x1024.jpeg\" alt=\"Imagem retangular. Drag queen Rita D'Libra est\u00e1 em um palco, durante um show, com luzes sobre ela, realizando a interpreta\u00e7\u00e3o de uma m\u00fasica para Libras. Ela usa peruca com os cabelos presos em dois rabos laterais e veste uma saia e uma blusa em couro.\" class=\"wp-image-13835\" width=\"373\" height=\"559\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/4_Giulian_Serafim-683x1024.jpeg 683w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/4_Giulian_Serafim-200x300.jpeg 200w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/4_Giulian_Serafim-768x1151.jpeg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/4_Giulian_Serafim-1025x1536.jpeg 1025w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/4_Giulian_Serafim-600x900.jpeg 600w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/4_Giulian_Serafim.jpeg 1366w\" sizes=\"(max-width: 373px) 100vw, 373px\" \/><figcaption>Rita D&#8217;Libra \u00e9 a primeira drag queen int\u00e9rprete de Libras do Brasil | Foto: Giulia Serafim \/ Divulga\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<p>Ao inv\u00e9s do padr\u00e3o do qual se espera do int\u00e9rprete \u2014 discreto, de preto, de cabelos presos, na lateral de uma apresenta\u00e7\u00e3o \u2014, Rita aparece sinalizando montada com a <em><a href=\"https:\/\/vogue.globo.com\/beleza\/noticia\/2022\/03\/lace-o-que-e-como-usar-e-qual-diferenca-entre-lace-e-peruca.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">lace<\/a><\/em>, maquiagem e joias, sem perder a marca da expressividade corporal.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA Libras \u00e9 o principal. Minha preocupa\u00e7\u00e3o, primeiro, \u00e9 passar a mensagem, depois o resto \u00e9 performance\u201d, aponta. Inicialmente, atuava apenas como int\u00e9rprete no teatro e, aos poucos, foi ganhando os palcos e passou a performar. \u201cA minha performance \u00e9 para chegar primeiro no surdos. \u00c9 diferente de eu estar produzindo &#8216;na caixinha&#8217;, eu estou em um palco aberto, ent\u00e3o tenho que fazer um sinal para ser visto pelo maior n\u00famero de pessoas poss\u00edveis no local.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Ao valorizar a Libras, a sociedade abre as cortinas para um futuro mais inclusivo, no qual a diversidade lingu\u00edstica \u00e9 celebrada e a comunica\u00e7\u00e3o \u00e9 acess\u00edvel a todos.<\/p>\n\n\n\n<p>*<em>Esta reportagem contou com o apoio de tradutores e int\u00e9rpretes de Libras para a execu\u00e7\u00e3o das entrevistas. Colaboraram com este conte\u00fado as profissionais \u00c2ngela Russo, tradutora e int\u00e9rprete de Libras do Grupo Signatores e do Incluir (N\u00facleo de Inclus\u00e3o e Acessibilidade da UFRGS); Jana\u00edna Viegas, tradutora e int\u00e9rprete de Libras do Instituto Federal do Rio Grande do Sul (IFRS); Mait\u00ea Maus e Celina Xavier, tradutoras e int\u00e9rpretes de Libras do Instituto de Letras da UFRGS.<\/em><\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-container-3 wp-block-columns\">\n<div class=\"wp-container-1 wp-block-column\">\n<h2>LEIA MAIS<\/h2>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-container-2 wp-block-column\">\n<ul><li><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/ate-onde-ira-a-expressao-da-alma\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">At\u00e9 onde ir\u00e1 a express\u00e3o da alma:<\/a> Como ser\u00e1 a nossa rela\u00e7\u00e3o com a arte e sua produ\u00e7\u00e3o depois do fim da pandemia<\/li><\/ul>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Nos olhos da sociedade, eu sou uma pessoa com defici\u00eancia. 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