{"id":12827,"date":"2024-02-04T11:42:00","date_gmt":"2024-02-04T14:42:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/?p=12827"},"modified":"2024-02-06T08:09:03","modified_gmt":"2024-02-06T11:09:03","slug":"heranca-na-fala","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/heranca-na-fala\/","title":{"rendered":"Heran\u00e7a na fala"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-audio\"><audio controls src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/ANGELO.mp3\"><\/audio><figcaption>Ou\u00e7a a reportagem<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>H\u00e1 cerca de oito anos, Juvenal Dal Castel, de 61 anos, ficou surpreso quando recebeu um v\u00eddeo gravado por um amigo durante o Festival do Azeite de Sant\u2019Urbano, cidade italiana com cerca de dois mil habitantes. O festival era embalado por uma m\u00fasica que vinha dos alto-falantes da igreja. Juvenal logo reconheceu a melodia:<em> Viver in col\u00f2nia<\/em>, uma das 16 m\u00fasicas compostas e gravadas por ele em<em> talian<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Chamado por alguns de \u201cv\u00eaneto brasileiro\u201d, o <em>talian <\/em>\u00e9 uma l\u00edngua brasileira que surgiu da mistura dos dialetos trazidos pelos imigrantes italianos e que acabou facilitando a comunica\u00e7\u00e3o entre grupos vindos de diferentes regi\u00f5es da It\u00e1lia. Segundo o <em>Invent\u00e1rio do Talian<\/em>, documento elaborado por pesquisadores em 2010, estima-se que 500 mil pessoas sejam falantes do <em>talian<\/em> no Brasil no s\u00e9culo 21. A popularidade e a relev\u00e2ncia da l\u00edngua levaram o <a href=\"http:\/\/portal.iphan.gov.br\/noticias\/detalhes\/114\/#:~:text=Talian%2C%20Asurini%20do%20Trocar%C3%A1%20e,disp%C3%B5e%20o%20Decreto%207387%2F2010.\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Instituto de Patrim\u00f4nio Hist\u00f3rico e Art\u00edstico Nacional (Iphan) a reconhec\u00ea-la como Refer\u00eancia Cultural Brasileira em 2014.<\/a><\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>\u201cEra vergonha, era uma l\u00edngua considerada de pessoas toscas, grotescas, colono grosso, pessoas ruins\u201d<\/p><cite><strong>JUVENAL DAL CASTEL<\/strong>, membro da Associa\u00e7\u00e3o de Difusores do Talian<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Juvenal se interessou pela&nbsp;preserva\u00e7\u00e3o do<em> talian <\/em>recentemente apesar de t\u00ea-lo aprendido antes mesmo do portugu\u00eas. Durante parte da vida, ele, que \u00e9 natural de Guapor\u00e9, no interior do Rio Grande do Sul, acostumou-se a ouvir o <em>talian<\/em> ser menosprezado. \u201cEra vergonha, era uma l\u00edngua considerada de pessoas toscas, grotescas, colono grosso, pessoas ruins\u201d, conta. O preconceito lingu\u00edstico levou Juvenal a sentir vergonha do conhecimento que possu\u00eda e a n\u00e3o repass\u00e1-lo aos filhos, decis\u00e3o da qual se arrepende at\u00e9 hoje.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" width=\"1024\" height=\"672\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/3_GuilhermeFreling-1024x672.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-13295\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/3_GuilhermeFreling-1024x672.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/3_GuilhermeFreling-300x197.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/3_GuilhermeFreling-768x504.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/3_GuilhermeFreling-1536x1009.jpg 1536w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/3_GuilhermeFreling-2048x1345.jpg 2048w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/3_GuilhermeFreling-870x570.jpg 870w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/3_GuilhermeFreling-1568x1030.jpg 1568w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>Juvenal \u00e9 dentista e tamb\u00e9m compositor de m\u00fasicas em&nbsp;<em>talian<\/em> | Foto: Guilherme Freling<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Doutoranda do Instituto de Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Camila Barili explica que a valoriza\u00e7\u00e3o do <em>talian<\/em> come\u00e7a pela forma como ele \u00e9 chamado. A pesquisadora defende o uso da palavra \u201cl\u00edngua\u201d ao inv\u00e9s de \u201cdialeto\u201d. Sua prefer\u00eancia \u00e9 explicada pelo sentido que cada palavra possui: \u201c\u2018Dialeto\u2019 traz um <em>status<\/em> menor do que \u2018l\u00edngua\u2019. Quando as pessoas chamam o <em>talian<\/em> de dialeto quer dizer que ele n\u00e3o chega a ser uma l\u00edngua\u201d, argumenta.<\/p>\n\n\n\n<p>A conscientiza\u00e7\u00e3o de Juvenal sobre a riqueza da l\u00edngua ocorreu em 2010, ao entrar em contato com a <a href=\"https:\/\/assodita.org.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Associa\u00e7\u00e3o dos Difusores do Talian (Assodita)<\/a>. O grupo, do qual&nbsp; hoje \u00e9 membro, concentra esfor\u00e7os para a valoriza\u00e7\u00e3o e preserva\u00e7\u00e3o da l\u00edngua por meio da realiza\u00e7\u00e3o de encontros anuais e de parcerias com universidades para o seu ensino.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m da m\u00fasica e da participa\u00e7\u00e3o junto \u00e0 Assodita, Juvenal se aventura no mundo da escrita em <em>talian<\/em>: \u00e9 coautor de um dicion\u00e1rio e de uma gram\u00e1tica, escritor de poemas e do romance <em>Grigialda: galina contadina da col\u00f4nia<\/em>. Faz tamb\u00e9m tradu\u00e7\u00f5es e produziu uma radionovela. Suas atividades como m\u00fasico, escritor e produtor ainda s\u00e3o conciliadas com a atua\u00e7\u00e3o como dentista em Porto Alegre, onde vive h\u00e1 30 anos.<\/p>\n\n\n\n<iframe style=\"border-radius:12px\" src=\"https:\/\/open.spotify.com\/embed\/album\/0rjFd9TLowNDllQfLYGYll?utm_source=generator\" width=\"100%\" height=\"152\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"\" allow=\"autoplay; clipboard-write; encrypted-media; fullscreen; picture-in-picture\" loading=\"lazy\"><\/iframe>\n\n\n\n<h2 id=\"A_vitalidade_do_hunsr\u00fcckisch\">A vitalidade do <em>hunsr\u00fcckisch<\/em><\/h2>\n\n\n\n<p>Assim como Juvenal, Luiza Loch, de 23 anos, n\u00e3o carrega a l\u00edngua portuguesa do ber\u00e7o. At\u00e9 os tr\u00eas anos, o \u00fanico idioma que usava para se comunicar com a fam\u00edlia era o <em>hunsr\u00fcckisch<\/em>, derivado do alem\u00e3o. A jovem, moradora de Arroio do Meio, no interior do Rio Grande do Sul, conta que s\u00f3 foi aprender o portugu\u00eas na escola: \u201cJ\u00e1 era uma crian\u00e7a bem falante e eu lembro que eu tive essa dificuldade de que na escola todo mundo falava portugu\u00eas e em casa eu me comunicava em alem\u00e3o\u201d. Anos depois, Luiza entendeu que, na verdade, falava o <em>hunsr\u00fcckisch<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" width=\"1024\" height=\"683\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/1_EsterBertozzi-1024x683.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-13503\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/1_EsterBertozzi-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/1_EsterBertozzi-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/1_EsterBertozzi-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/1_EsterBertozzi-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/1_EsterBertozzi-2048x1365.jpg 2048w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/1_EsterBertozzi-1200x800.jpg 1200w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/1_EsterBertozzi-1568x1045.jpg 1568w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>Luiza, que at\u00e9 os tr\u00eas anos s\u00f3 falava <em>hunsr\u00fcckisch<\/em>, hoje faz aulas de alem\u00e3o <strong>| Foto: Ester Bertozzi<\/strong><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Heran\u00e7a dos imigrantes alem\u00e3es, o <em>hunsr\u00fcckisch<\/em> \u00e9 a mais popular entre as cerca de 14 variedades dialetais do alem\u00e3o no Brasil. Apesar da dificuldade em organizar pesquisas que quantifiquem o total de falantes, o <a href=\"\/Users\/Angelo\/Downloads\/001093148.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Invent\u00e1rio do Hunsr\u00fcckisch como L\u00edngua Brasileira de Imigra\u00e7\u00e3o<\/a> (IHLBrI), relat\u00f3rio de 2018 que mapeia a sua trajet\u00f3ria hist\u00f3rica e social, estima que existam cerca de 1,225 milh\u00f5es de falantes da l\u00edngua no pa\u00eds. O c\u00e1lculo \u00e9 baseado no Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE) <a href=\"https:\/\/biblioteca.ibge.gov.br\/index.php\/biblioteca-catalogo?id=765&amp;view=detalhes\">de 1940<\/a> \u2013 \u00faltimo censo nacional a abordar as quest\u00f5es lingu\u00edsticas de descendentes e imigrantes \u2013 e em um levantamento lingu\u00edstico desenvolvido entre 1988 e 1990 pelo projeto Bilinguismo no Rio Grande do Sul (Birs).<\/p>\n\n\n\n<div class=\"infogram-embed\" data-id=\"5c3b7b71-bb1f-4841-b087-38bb312b39d3\" data-type=\"interactive\"><\/div><script>!function(e,t,s,i){var n=\"InfogramEmbeds\",o=e.getElementsByTagName(\"script\"),d=o[0],r=\/^http:\/.test(e.location)?\"http:\":\"https:\";if(\/^\\\/{2}\/.test(i)&&(i=r+i),window[n]&&window[n].initialized)window[n].process&&window[n].process();else if(!e.getElementById(s)){var a=e.createElement(\"script\");a.async=1,a.id=s,a.src=i,d.parentNode.insertBefore(a,d)}}(document,0,\"infogram-async\",\"\/\/e.infogram.com\/js\/dist\/embed-loader-min.js\");<\/script>\n\n\n\n<p>Professor do Instituto de Letras da UFRGS e um dos organizadores do Invent\u00e1rio do Hunsr\u00fcckisch, Cl\u00e9o Vilson Altenhofen explica que a l\u00edngua foi favorecida pela proximidade com o alem\u00e3o padr\u00e3o: \u201cO<em> hunsr\u00fcckisch<\/em> era muito pr\u00f3ximo da norma escrita, do<em> hochdeutsch<\/em> [<em>alto alem\u00e3o <\/em>ou <em>alem\u00e3o padr\u00e3o<\/em>]. Ent\u00e3o, ele se beneficiou dessa possibilidade, e logo imigrantes de regi\u00f5es diferentes come\u00e7aram, para se entender, a aproximar sua fala desse alem\u00e3o mais comum\u201d. Ele acrescenta que o nome \u201c<em>hunsr\u00fcckisch<\/em>\u201d surgiu posteriormente e que hoje em dia \u00e9 comum encontrar falantes que n\u00e3o possuem consci\u00eancia de qual varia\u00e7\u00e3o dialetal usam para se comunicar.<\/p>\n\n\n\n<p>Luiza tamb\u00e9m percebe a semelhan\u00e7a entre o alem\u00e3o padr\u00e3o, falado na Europa, e o que aprendeu em casa. H\u00e1 cerca de um ano e meio, ela decidiu inscrever-se no curso de alem\u00e3o oferecido pela Universidade do Vale do Taquari (Univates), onde faz p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Odontologia. Para ingressar no curso, teve que realizar uma prova de nivelamento, cujo resultado a surpreendeu: sua bagagem do <em>hunsr\u00fcckisch<\/em> possibilitou que ela ingressasse no curso em um n\u00edvel intermedi\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Um dos assuntos que mais intriga pesquisadores do tema \u00e9 a vitalidade do <em>hunsr\u00fcckisch<\/em>. Estudos sociolingu\u00edsticos apontam que a tend\u00eancia \u00e9 de que uma l\u00edngua de imigra\u00e7\u00e3o permane\u00e7a viva na comunidade durante tr\u00eas gera\u00e7\u00f5es. Enquanto a primeira gera\u00e7\u00e3o de imigrantes a carrega consigo e, em geral, n\u00e3o desenvolve o uso do idioma do novo lugar, os seus descendentes tornam-se bil\u00edngues. A partir da terceira gera\u00e7\u00e3o, a tend\u00eancia \u00e9 de que a l\u00edngua dos antecessores seja deixada para tr\u00e1s, e os membros da comunidade passem a se comunicar apenas na forma dominante. No entanto, passados mais de 200 anos da <a href=\"https:\/\/www.infoescola.com\/historia\/imigracao-alema-no-brasil\/\">chegada dos primeiros imigrantes alem\u00e3es<\/a>, o <em>hunsr\u00fcckisch<\/em> segue vivo.<\/p>\n\n\n\n<p>O pesquisador Cl\u00e9o sugere algumas explica\u00e7\u00f5es para o fen\u00f4meno. A primeira delas \u00e9 que os imigrantes formaram comunidades fechadas desde a sua chegada, com contato reduzido com falantes de portugu\u00eas, o que estimulou que o dialeto seguisse sendo utilizado. Outra explica\u00e7\u00e3o \u00e9 a demora para o desenvolvimento econ\u00f4mico da regi\u00e3o sul do pa\u00eds, o que levou os alem\u00e3es a constru\u00edrem suas pr\u00f3prias escolas e igrejas, espa\u00e7os de contato social e compartilhamento da cultura alem\u00e3.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"infogram-embed\" data-id=\"54bb4143-8f4e-47ea-af6b-afcdf7e3bdde\" data-type=\"interactive\"><\/div><script>!function(e,t,s,i){var n=\"InfogramEmbeds\",o=e.getElementsByTagName(\"script\"),d=o[0],r=\/^http:\/.test(e.location)?\"http:\":\"https:\";if(\/^\\\/{2}\/.test(i)&&(i=r+i),window[n]&&window[n].initialized)window[n].process&&window[n].process();else if(!e.getElementById(s)){var a=e.createElement(\"script\");a.async=1,a.id=s,a.src=i,d.parentNode.insertBefore(a,d)}}(document,0,\"infogram-async\",\"\/\/e.infogram.com\/js\/dist\/embed-loader-min.js\");<\/script>\n\n\n\n<h2 id=\"Risco_de_apagamento\">Risco de apagamento<\/h2>\n\n\n\n<p>Durante o Estado Novo (1937-1945), o <em>talian <\/em>e o <em>hunsr\u00fcckisch <\/em>foram alvos da pol\u00edtica nacionalista de Get\u00falio Vargas atrav\u00e9s de uma s\u00e9rie de decretos que proibiram o ensino das l\u00ednguas de imigra\u00e7\u00e3o aos jovens. Em 1942, quando o Brasil declarou guerra ao Eixo, durante a Segunda Guerra Mundial, o cerceamento \u00e0 cultura alem\u00e3, italiana e japonesa aumentou, acarretando na <a href=\"https:\/\/sputniknewsbr.com.br\/20200529\/e-proibido-falar-como-a-segunda-guerra-mundial-impactou-japoneses-e-italianos-no-brasil-15636149.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">proibi\u00e7\u00e3o do uso de suas l\u00ednguas<\/a>, seja por meio da fala, de jornais ou de livros. \u201cNossos av\u00f3s e nossos pais foram condenados a ficar quietos, a n\u00e3o falar nada, porque era a \u00fanica forma que eles tinham para se expressar\u201d, sintetiza Juvenal.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>\u201cToda l\u00edngua \u00e9 um conhecimento muito valioso. Sobretudo quando voc\u00ea trata de um dialeto que n\u00e3o se aprende em qualquer estabelecimento de ensino\u201d<\/p><cite><strong>CL\u00c9O VILSON ALTENHOFEN<\/strong>, professor do Instituto de Letras da UFRGS<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Hoje em dia, especialistas debatem o risco de desaparecimento dos dialetos. A doutoranda Camila, que estuda o <em>talian<\/em>, identifica que as novas gera\u00e7\u00f5es j\u00e1 n\u00e3o possuem o dom\u00ednio lingu\u00edstico dos mais velhos. Em contrapartida, ela tem visto cidades do interior se interessarem pela prote\u00e7\u00e3o da l\u00edngua atrav\u00e9s de campanhas de cooficializa\u00e7\u00e3o desses idiomas, mas salienta a necessidade de que a conscientiza\u00e7\u00e3o seja acompanhada por pol\u00edticas p\u00fablicas eficientes.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEu espero que essa cooficializa\u00e7\u00e3o n\u00e3o seja s\u00f3 para chamar a aten\u00e7\u00e3o. Mas que realmente sejam feitas algumas a\u00e7\u00f5es, algumas pol\u00edticas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 l\u00edngua\u201d, diz Camila. A pesquisadora defende o ensino das l\u00ednguas em escolas e a promo\u00e7\u00e3o de eventos como forma de valorizar a cultura dos imigrantes.<\/p>\n\n\n\n<p>Por sua vez, Cl\u00e9o n\u00e3o acredita que as variedades dialetais possam desaparecer de uma hora para a outra. O desaparecimento seria, na verdade, consequ\u00eancia da falta de compreens\u00e3o do valor que as l\u00ednguas carregam: \u201cToda l\u00edngua \u00e9 um conhecimento muito valioso. Sobretudo quando voc\u00ea trata de um dialeto que n\u00e3o se aprende em qualquer estabelecimento de ensino. \u00c9 da vida e \u00e9 uma habilidade, como todo o conhecimento lingu\u00edstico.\u201d<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" width=\"1024\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/Como-o-hunsruckish-e-o-talian_UesleiFagundes-2-1_page-0001-1-1024x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-13304\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/Como-o-hunsruckish-e-o-talian_UesleiFagundes-2-1_page-0001-1-1024x1024.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/Como-o-hunsruckish-e-o-talian_UesleiFagundes-2-1_page-0001-1-300x300.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/Como-o-hunsruckish-e-o-talian_UesleiFagundes-2-1_page-0001-1-150x150.jpg 150w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/Como-o-hunsruckish-e-o-talian_UesleiFagundes-2-1_page-0001-1-768x768.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/Como-o-hunsruckish-e-o-talian_UesleiFagundes-2-1_page-0001-1-600x600.jpg 600w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/Como-o-hunsruckish-e-o-talian_UesleiFagundes-2-1_page-0001-1.jpg 1250w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<div class=\"wp-container-3 wp-block-columns\">\n<div class=\"wp-container-1 wp-block-column\">\n<h2><strong>LEIA MAIS<\/strong><\/h2>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-container-2 wp-block-column\">\n<ul><li><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/salada-de-afetos\/\">Salada de afetos:<\/a> Uma cozinha que retrata o acolhimento e a preserva\u00e7\u00e3o da ancestralidade em uma fam\u00edlia afro-brasileira<\/li><li><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/paixoes-hereditarias\/\">Paix\u00f5es heredit\u00e1rias:<\/a> Duas hist\u00f3rias, dois hobbies. Em comum, interesses compartilhados entre pais e filhos<\/li><\/ul>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 cerca de oito anos, Juvenal Dal Castel, de 61 anos, ficou surpreso quando recebeu um v\u00eddeo gravado por um amigo durante o Festival do Azeite de Sant\u2019Urbano, cidade italiana com cerca de dois mil habitantes. O festival era embalado por uma m\u00fasica que vinha dos alto-falantes da igreja. 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